sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Moral e Ética sem Religião





Adaptado por: Raphael Oliveira

Dizem que sem religião não haveria moralidade e tudo seria permitido. Mas a Bíblia permite a poligamia, a escravidão, o genocídio, a intolerância religiosa, o estupro e o abuso de crianças, logo estas devem ser práticas moralmente aceitáveis. Entretanto, proíbe o consumo de carne de porco e frutos do mar. E as outras religiões pregam coisas igualmente idiotas. Isto é moral?

Como um ''deísta'' poderia ser pior do que isto? Além do mais, a história das religiões é uma sequência interminável de violência e barbárie, das quais as Cruzadas e a Inquisição são apenas dois exemplos. Se nós hoje rejeitamos tudo isto, pelo menos na superfície, é porque aprendemos a pensar com nossas próprias cabeças, não porque as religiões nos tornaram melhores. Pelo contrário, fomos nós que forçamos as religiões a se tornarem mais humanas e tolerantes. Por que os 10 Mandamentos proíbem cobiçar a propriedade alheia mas não a escravidão? Qualquer Deísta, ateu ou agnóstico bem intencionado conceberia uma lista melhor do que a de Moisés, que trata basicamente de como os homens devem se prostrar diante de um deus egomaníaco.
O que pode ser dito a favor das religiões é que elas impõem um “pacote” de valores aos fiéis com conceitos básicos de moral e ética e que, na falta de melhor, em alguns casos, realmente ajuda a orientar as pessoas. Mas apresentam uma falha básica, ou seja, elas afirmam que é preciso ser bom e justo porque Deus assim o quer. Se fizermos a vontade dele, seremos eternamente recompensados, caso contrário sofreremos um castigo eterno. A verdadeira virtude se baseia no exercício da razão, não na esperança de uma recompensa ou no medo de um castigo, o que em nada difere dos métodos usados por domadores de animais.
Se nós entendemos por que é preciso fazer isto ou não podemos fazer aquilo, nossa ética será muito mais forte do que a imposta por dogmas. Pelo contrário, como disse Feuerbach,“quando a moral se baseia na teologia, quando o direito depende da autoridade divina, as coisas mais imorais e injustas podem ser justificadas e impostas”.
A lei básica da ética e da moral foi estabelecida séculos antes de Cristo. Uma de suas versões é a “Lei de ouro” Confúcio, 500 a.C.): “Façam aos outros o que gostariam que lhes fizessem. Não façam aos outros o que não gostariam que lhes fizessem. Vocês só precisam desta lei. É a base de todo o resto”. Outro modo de dizer isto é: não há pecado, não há um deus que premie ou castigue, há consequências. Cada um deve suportar as consequências do que faz.
Se uma criança de 2 anos bate em outra, a outra vai bater nela também. E a criança aprenderá que não convém bater nos outros. Esta é uma regra moral básica – e nenhum conhecimento religioso foi necessário para que a criança se desse conta dela. Da mesma forma, lobos e leões não devoram uns aos outros, ou já estariam extintos. São regras de convívio aprendidas por tentativa e erro. A elas chamamos moral. A maioria das crianças já tem seus fundamentos morais estabelecidos por volta dos 6 anos, pela experiência adquirida ao testar seus limites e por imitação dos adultos. Só mais tarde conceitos como Céu e Inferno começam realmente a entrar em suas cabeças – e distorcem tudo. A moralidade garante nossa sobrevivência e também torna a vida mais agradável. Ela é sua própria recompensa na maioria dos casos. Não precisamos de livros “sagrados” para entender isto, muito menos daqueles cheios de violência e ódio, como a Bíblia e o Alcorão. Não é um livro sagrado que deve nos dizer o que é certo, somos nós que devemos julgar se o livro sagrado e o deus que ele descreve são bons.
A Bíblia diz que Deus afogou toda a humanidade, exceto por um velho bêbado e alguns poucos de seus parentes, embora, como ser omnipotente, tivesse opções menos radicais. Reservou um território para um povo e o ajudou a exterminar os habitantes originais, inclusive crianças de peito ou ainda no ventre da mãe. Permitiu que seus protegidos estuprassem as mulheres dos vencidos. Se estes, e muitos outros episódios semelhantes, são exemplos do conceito de moral e ética divinas, como afirmar que um mundo ''deísta'' ou ateu mergulharia na desordem e no crime?
Os critérios morais de Deus não requerem explicação. Está certo porque ele assim o definiu. ''Deístas, Ateus e agnósticos'' são humanos e, como tal, imperfeitos, mas ao menos estabelecem regras de conduta com base na interação pacífica com o próximo, no mútuo benefício e na compaixão e não simplesmente “porque eu assim o quis”. Entre ''Deístas, Ateus e agnósticos'', a teoria está sujeita s necessidades práticas. Deus não tem tais limites. O que impede que ele decida dar a Terra a uma raça extraterrestre e a ajude a nos derrotar e devorar? Se tudo o que Deus faz é bom por definição, nossas definições de bem e mal não se aplicam a ele e teremos que aceitar seus atos ainda que nos pareçam absurdos e injustos. Se Deus é bom porque seus atos estão de acordo com um padrão externo e absoluto de bem e mal, Deístas, Ateus e agnósticos não dependerão dele para fazer o que é certo. Se os critérios morais de Deus são, por definição, incompreensíveis, então eles são arbitrários do nosso ponto de vista. E não temos como
julgar se são bons.


Quando Deus faz algo de que gostamos, dizemos que ele é bom e justo. Quando ele faz o oposto, dizemos que é a vontade de Deus e que não nos cabe questioná-lo. Se ele sempre faz o que quer, nossos conceitos de bondade e justiça não se aplicam a ele. É apenas por acaso que seus atos s vezes nos agradam. Não conhecemos seus motivos e nem se ele tem algum padrão de ética e moral. Não temos como qualificá-lo. Como tomá-lo como modelo se não o entendemos e nem mesmo conseguimos prever o que fará?


Os crentes responderiam que Deus é complexo demais para ser entendido pela razão humana e assim devemos aceitar sua vontade sem discutir, ainda que nos pareça s vezes injusta e contraditória. Ora, a razão humana é a única ferramenta que temos para julgar as coisas. É através dela que escolhemos um entre os milhares de deuses e seitas existentes como a única verdade. Ou decidimos que não há evidências de que deuses existam. Se Deus é complexo demais para que possamos julgar seus atos, então não temos como saber se são aceitáveis. Podemos até concluir que ele existe mas isto não implica em que ele é bom ou justo. Ou que ele saiba o que está fazendo. Deus existe (ou tenha existido) mas quem nos garante que é perfeito?


Mesmo que ele nos apareça e assim o diga, por que devemos acreditar nele? Só porque é poderoso? Só porque procura nos convencer com promessas e ameaças? É lamentável que a humanidade se consuma em guerras em nome do que teriam dito deuses que ninguém jamais viu e dos quais tudo o que temos são lendas contraditórias criadas por gente como nós.


Sistemas de leis absolutas, impostas por um deus, geram conflitos entre elas. É proibido matar, mas podemos matar um bandido para não sermos mortos por ele? Podemos violar uma lei de Deus se isto evitar um mal maior?


Ou seja, as leis têm que estar relacionadas vida e s necessidades humanas. É para isto que existem juízes e tribunais: para decidir entre valores relativos, para definir graus de gravidade de um crime, conforme as circunstâncias.


Por se basearem na vontade de deuses diferentes, sistemas religiosos também conflitam entre si e, por serem absolutos, divorciados da realidade, não há como usar uma referência comum para se chegar a um entendimento. Muito sangue já foi derramado por causa disto.


O mundo é complexo demais para se encaixar em definições do tipo “ou isto ou aquilo”. E a compaixão humana, ou seja, a capacidade de alguém se identificar com o sofrimento dos outros, dispensa e supera leis absolutas.


Leis devem ser consideradas como mutáveis, aperfeiçoáveis por tentativa e erro, sem medo de que isto gere o caos. Seres humanos são perfeitamente capazes de inventar suas próprias leis.


As leis humanas não requerem explicações. Sua finalidade é clara. Só precisamos de justificativas quando se inventam leis absolutas e não diretamente relacionadas com o bem estar da humanidade.


O Deísmo, o ateísmo e o agnósticismo não destrói a ética, a felicidade e o amor. O que essas filosofias combatem, na verdade, é a idéia de que a moral só é possível através de Deus, é a idéia de que amor e felicidade só podem ser conseguidos em um outro mundo.


Sem religião, as sociedades mais cedo ou mais tarde se darão conta de que ética e moral se justificam por si mesmas e não devido a vagas crenças em coisas não comprovadas. Seus valores serão baseados na razão e, portanto, muito mais sólidos. Pelo contrário, crenças religiosas nos permitem atribuir aos desígnios de uma entidade abstrata e omnipotente os problemas que afligem o mundo e nos tiram assim a responsabilidade de resolvê-los. Até mesmo grupos de chimpanzés e gorilas têm suas leis; sua inteligência, ainda que limitada, lhes permite reconhecer que, sem elas, a convivência não seria possível e o grupo se auto-destruiria.


Alguns podem se perguntar como seríamos hoje sem ter tido a religião ao longo dos séculos. Uma coisa é certa: milhões de pessoas não teriam morrido na fogueira ou torturadas. Civilizações e suas culturas não teriam sido arrasadas por serem pagãs. A ciência não teria se estagnado por tanto tempo (e mesmo regredido) por medo da fogueira. As mulheres não teriam sido afastadas de uma participação ativa ao lado dos homens nem tratadas como simples reprodutoras, o “vaso imperfeito que recebe o sêmen perfeito do marido”.


Aquilo que nos parecem ser as contribuições da religião para o bem-estar e o progresso da sociedade foi, na verdade, obra de indivíduos e organizações bem-intencionados mais do que o resultado de uma crença religiosa. Somando-se tudo, é possível que o resultado ainda seja mais negativo que positivo.


Autor: Fernando Silva - Adaptado por: Raphael Oliveira

Trecho inicial adaptado de artigos de Judith Hayes

4 comentários em “Moral e Ética sem Religião”

  • 20 de outubro de 2011 20:13
    Anônimo Disse:

    Muito bom! Penso dessa forma, mas penso que o Homem é tão fraco que se não tiver uma bíblia pra ajoelhar em cima não vai aguentar resolver os problemas por si só.

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  • 12 de abril de 2012 17:22
    Anônimo Disse:

    Sensacional!!!

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  • 22 de abril de 2013 15:23

    O que esse texto quer? Mais guerras, brigas, sangue?

    Nós somos deístas ou não? Que tipo de “deístas” esse texto quer nos fazer crer que somos? Intolerantes? Ignorantes? Arbitrários? Arrogantes?

    Deus nos deu a razão? Onde está então a razão neste texto, por favor, mostrem-me.

    Tudo teve sua importância, erroneamente talvez, mas historicamente o teve. Tudo bem, podemos não aceitar as justificativas, mas elas nos fizeram chegar onde estamos, inclusive a própria revolução protestante e o iluminismo, porém irrefutavelmente evoluímos como sociedade e principalmente como ser humano.

    Olha, sinceramente o deísmo não é assim, não pode ser assim dentro do princípio da razão, razão que de mãos dadas com a compreensão, inclusive dos fatos nos traz transparência, clareza e lucidez, então ratifico, esse texto não é lúcido é radical fundamentalista.

    Não cabe ao deísmo o rancor e amargura contra qualquer coisa que seja, inclusive religião. Deísmo não é uma luta; guerra, deísmo é uma FILOSOFIA, mas onde está a filosofia neste texto?

    Quantas vezes nós deístas sentimos na pele a cólera, ignorância, preconceito, falta de informação e compreensão. Esse texto faz a mesma coisa que nós deístas tanto repudiamos, o deísmo combate justamente a intolerância, principalmente a intolerância pessoal, ou seja, onde está o direito de cada um pensar conforme sua razão e moral?

    SOMOS NÓS DEÍSTAS OU ALGUM TIPO DE ANTI-RELIGIOSOS OU COISA ASSIM?

    Se somos “coisa assim”, então vamos impor nossa filosofia a força, matar aqueles que não a aceitarem, queimar tudo já escrito pela influência da história, escorraçar, humilhar, ofender e quem sabe ironicamente crucificar.

    “Só se chega a razão por um único caminho; tranquilidade, serenidade e equilíbrio. Não há razão nas malevolências da ira, cólera e raiva.”


    Desculpem-me pelo desabafo.

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  • 30 de maio de 2013 11:02
    Anônimo Disse:

    Resumindo um pouco, a matéria em sí tem muito valor,concordo com o ultímo comentário, mais isso é a reação de muitos que eram de alguma religião e no decorrer do tempo tiveram várias decepções teologicas,e encontraram nessa filosofia Deísta um refugio. Também sou assim, tento me policiar para não cometer os mesmos erros dos religiosos, mais no fundo gostaríamos que as religiões não existissem. Aí teríamos um mundo bem diferente, com um modelo de valores bem melhor.

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