domingo, 1 de maio de 2016

Pela liberdade, pela educação e contra o racismo (Carl Sagan)



Capítulo 21 da obra "O Mundo assombrado pelos demônios"

O CAMINHO PARA A LIBERDADE 

[Escrito por Carl Sagan e Ann Druyan] 


"Não devemos acreditar nos muitos que dizem 
que só as pessoas livres devem ser educadas, 
deveríamos antes acreditar nos filósofos 
que dizem que apenas as pessoas educadas são livres"
(Epicteto, filósofo romano e ex-escravo, Discursos.)


Frederick Bailey era escravo. Quando ainda era menino em Maryland, na década de 1820, não tinha nem mãe, nem pai que olhassem por ele. (“É um costume comum”, escreveu mais tarde, “separar os filhos das mães [...] antes de a criança completar um ano”.) Foi uma das inúmeras crianças escravas cujas perspectivas realistas de uma vida promissora eram nulas. O que Bailey presenciou e experimentou em seus anos de formação o marcaram para sempre: 

“Fui muitas vezes despertado ao amanhecer por gritos de cortar o coração, dados por uma tia minha a quem [o capataz] costumava amarrar a uma viga e chicotear-lhe as costas nuas até que ela ficasse literalmente coberta de sangue [...]. Do nascer ao cair do sol, ele rogava pragas, esbravejava, chicoteava e açoitava no meio dos escravos do campo... Parecia sentir prazer em manifestar sua barbárie diabólica”.

Tanto nas plantações como no púlpito, nos tribunais e na sede da assembléia estadual, martelava-se na cabeça dos escravos a noção de que eles eram seres inferiores por hereditariedade, que Deus os destinara à desgraça. A Bíblia Sagrada, como confirmavam inúmeras passagens, tolerava a escravidão. Dessa forma, a “peculiar instituição” se mantinha apesar de sua natureza monstruosa – algo que até seus praticantes devem ter vislumbrado. (1)

Faça um favor à humanidade: jogue sua bíblia no esgoto!
Nós não precisamos desse lixo imundo, repleto de erros!
Se Deus quisesse inspirar sobrenaturalmente um livro,
este não seria marcado pela péssima qualidade
- em todos os níveis, aspectos e sentidos -
que a bíblia manifesta...

Havia uma regra muito reveladora: os escravos deviam continuar analfabetos. No Sul antes da Guerra Civil, os brancos que ensinassem um escravo a ler eram severamente punidos. “Para criar um escravo satisfeito”, escreveu Bailey mais tarde, “é necessário criá-lo estúpido. É necessário obscurecer a sua visão moral e intelectual, e, na medida do possível, aniquilar o poder de sua razão”. 

É por isso que os senhores devem controlar o que os escravos ouvem, vêem e pensam. É por isso que a leitura e o pensamento crítico são perigosos, na verdade subversivos, numa sociedade injusta

Vamos agora imaginar Frederick Balley em 1828 – um menino afro-americano de dez anos, escravizado, sem direitos legais de espécie alguma, havia muito arrancado dos braços da mãe, vendido entre os remanescentes esfarrapados de sua família extensa como se fosse um bezerro ou um pônei, enviado a uma casa desconhecida na cidade estranha de Baltimore e condenado a uma vida de trabalhos pesados, sem nenhuma perspectiva de alívio. 

Bailey foi trabalhar na casa do capitão Hugh Auld e sua esposa, Sophia, mudando-se da plantação para a agitação urbana, do trabalho no campo para o trabalho doméstico. Nesse novo ambiente, ele se deparava todos os dias com letras, livros e pessoas que sabiam ler. Descobriu o que chamava “o mistério” da leitura: havia uma conexão entre as letras na página e o movimento dos lábios do leitor, uma correlação quase de um para um entre os rabiscos pretos e os sons pronunciados. Sub-repticiamente, ele estudava na Cartilha Webster do pequeno Tommy Auld. Memorizava as letras do alfabeto. Tentava compreender os sons que elas representavam. Finalmente, pediu a Sophia Auld que o ajudasse a aprender. Impressionada com a inteligência e a aplicação do menino, e talvez desconhecendo as proibições, ela aquiesceu. 

Quando Frederick já estava soletrando palavras de três e quatro letras, o capitão Auld descobriu o que estava se passando. Furioso, mandou Sophia parar com as lições. Na presença de Frederick, ele explicou: “Um preto deve saber apenas obedecer ao seu senhor – deve cumprir as ordens. O conhecimento estragaria o melhor preto do mundo. Se você ensinar esse preto a ler, não poderemos ficar com ele. Isso o inutilizaria para sempre como escravo”. 

Frederick Bailey (ou F. Douglass)
[1818-1895]
Auld repreendeu Sophia dessa maneira, como se Frederick Bailey não estivesse na sala com eles, como se o garoto fosse um pedaço de madeira. Mas Auld tinha revelado a Bailey o grande segredo: “Eu agora compreendia [...] o poder do homem branco de escravizar o homem negro. A partir daquele momento, eu compreendi qual era o caminho da escravidão para a liberdade”. Sem mais ajuda da agora reticente e intimidada Sophia, Frederick encontrou maneiras de continuar a aprender a ler, inclusive conversando com os colegiais nas ruas. Depois ele começou a ensinar seus colegas escravos: “Suas mentes estavam famintas [...]. Eles estavam fechados na escuridão mental. Eu lhes ensinei, porque esse era o prazer da minha alma”.

A capacidade de ler desempenhou um papel-chave na fuga de Bailey para Nova Inglaterra, onde a escravidão era ilegal e os negros livres. Mudou o nome para Frederick Douglass (em homenagem a uma personagem de The lady of the lake, de Walter Scott), esquivou-se dos caçadores de gratificações que perseguiam os escravos fugidos e tornou-se um dos maiores oradores, escritores e líderes políticos na história norte-americana. 

Durante toda a sua vida, ele teve certeza de que a alfabetização fora o caminho para a liberdade.

Durante 99% do período de existência dos seres humanos, ninguém sabia ler ou escrever. A grande invenção ainda não fora criada. À exceção da experiência em primeira mão, quase tudo o que conhecíamos era transmitido oralmente. Como no brinquedo infantil “telefone sem fio”, durante dezenas e centenas de gerações, as informações foram lentamente distorcidas e perdidas.


Os livros mudaram tudo isso. Passíveis de ser adquiridos a um preço barato, eles nos possibilitam interrogar o passado com alto grau de precisão; estabelecer comunicação com a sabedoria de nossa espécie; compreender o ponto de vista de outros, e não apenas o dos que estão no poder; considerar – com os melhores professores – as idéias extraídas a duras penas da Natureza pelas maiores inteligências que já existiram em todo o planeta e em toda a nossa história. Permitem que pessoas há muito tempo mortas falem dentro de nossas cabeças. Os livros podem nos acompanhar por toda parte. Pacientes quando custamos a compreender, eles nos deixam rever as partes difíceis quantas vezes desejarmos, e jamais criticam nossos lapsos. Os livros são essenciais para compreender o mundo e participar de uma sociedade democrática.

Por alguns padrões, os afro-americanos têm feito enormes progressos na questão da alfabetização desde a Emancipação. Em 1860, segundo as estimativas, apenas uns 5% dos afro-americanos sabiam ler e escrever. Já em 1890, 39% eram considerados alfabetizados pelo censo dos Estados Unidos; e, em 1969, 96%. Entre 1940 e 1992, o índice de afro-americanos que tinham completado o segundo grau aumentou drasticamente, de 7% para 82%. Mas pode-se questionar com razão a qualidade dessa educação e os padrões de alfabetização testados. Isso se aplica a qualquer grupo étnico.

Um levantamento nacional feito pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos retrata um país com mais de 40 milhões de adultos sofrivelmente alfabetizados. Outras estimativas são muito piores. O grau de alfabetização dos adultos jovens caiu dramaticamente na última década. Apenas 3% a 4% da população atinge o mais alto dos cinco níveis de leitura (basicamente todos nesse grupo freqüentaram a escola superior). A imensa maioria não tem idéia de como é pobre a sua capacidade de leitura. Apenas 4% dos que atingem o nível mais alto de leitura são pobres, mas 43% dos que têm o nível mais baixo de leitura vivem com poucos recursos. 

Embora não seja o único fator, em geral quanto melhor se lê, mais se ganha – uma média de cerca de 12 mil dólares por ano no mais baixo desses níveis de leitura e cerca de 34 mil no mais alto. Parece ser uma condição necessária, ainda que não suficiente, para ganhar dinheiro. 

E é muito mais provável que alguém vá para a cadeia se é analfabeto ou pouco alfabetizado. (Ao avaliar esses fatos, devemos tomar cuidado para não deduzir inapropriadamente uma relação causal a partir de uma correlação.)

Da mesma forma, as pessoas mais pobres cuja alfabetização é sofrível tendem a não compreender programas eleitorais que poderiam ajudá-las e a seus filhos, e em números espantosamente desproporcionais deixam de votar. Isso contribui para solapar a democracia em suas raízes.

Se Frederick Douglass, uma criança escravizada, conseguiu ensinar a si mesmo o caminho para o conhecimento e a grandeza, por que alguém em nossos tempos mais esclarecidos continuaria incapaz de ler? 

Bem, não é assim tão simples – em parte, porque poucos de nós somos tão inteligentes e corajosos quanto Frederick Douglass, mas também por outras razões importantes: se crescemos num lar em que há livros, em que nos lêem histórias, em que pais, irmãos, tias, tios e primos lêem por prazer, aprendemos naturalmente a ler. Se ninguém perto de nós gosta de ler, onde está a prova de que vale apena o esforço? 

Se a qualidade da educação a que temos acesso é inadequada, se não nos ensinam a pensar, mas só a repetir uma decoreba automática, se o conteúdo do que nos dão para ler provém de uma cultura quase alienígena, aprender a ler pode ser um caminho de pedras. 

É preciso internalizar, para que se tornem uma segunda natureza, dezenas de letras maiúsculas e minúsculas, símbolos e sinais de pontuação; memorizar milhares de grafias mudas numa base de palavra por palavra; e acostumar-se com uma série de regras de gramática rígidas e arbitrárias. Se estamos preocupados com a falta de apoio familiar básico, ou se somos jogados num mar turvo de raiva, abandono, exploração, perigo e ódio contra nós mesmos, podemos muito bem concluir que ler custa muito esforço e simplesmente não vale a pena. Se ouvimos repetidamente a mensagem de que somos estúpidos demais para aprender (ou, o equivalente funcional, legais demais para aprender), e não há por perto ninguém que a contradiga, podemos muito bem seguir esse conselho pernicioso. 

Há sempre crianças como Frederick Bailey – que vencem as dificuldades. Muitíssimas não conseguem. Mas, além de tudo isso, há um modo particularmente insidioso de golpear quem é pobre na sua tentativa de ler – e até de pensar. 

Ann Druyan e eu somos de famílias que conheceram pobreza aflitiva. Mas nossos pais foram leitores apaixonados. Uma de nossas avós aprendeu a ler porque o pai, agricultor de subsistência, negociou um saco de cebolas com um professor itinerante. Ela leu pelos cem anos seguintes. 

As escolas públicas de Nova York tinham martelado na cabeça de nossos pais a importância da higiene pessoal e a teoria de que as doenças são causadas por germes. Eles seguiam as recomendações sobre nutrição infantil do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos como se elas tivessem sido entregues no monte Sinai. O livro do governo sobre saúde infantil que tínhamos fora colado várias vezes, quando as páginas caíam. Os cantos estavam estragados. Os principais conselhos foram sublinhados. Era consultado em toda crise médica. Por certo tempo, meus pais pararam de fumar – um dos poucos prazeres que lhes era acessível nos anos da Depressão – para que os filhos pequenos pudessem ter vitaminas e suplementos minerais. 

Ann e eu tivemos muita sorte. As pesquisas recentes mostram que muitas crianças que não possuem o bastante para comer acabam tendo diminuída a sua capacidade de compreender e aprender (“dano cognitivo”). Elas não precisam estar morrendo de fome para que isso aconteça. Até uma subnutrição leve – o tipo mais comum entre os pobres na América do Norte pode causar esse dano. Isso pode acontecer antes de o bebê nascer (se a mãe não estiver comendo o suficiente), nos primeiros anos de vida ou na infância. Quando não há comida suficiente, o corpo tem de decidir como vai investir os alimentos limitados que recebe. A sobrevivência vem em primeiro lugar. O crescimento vem em segundo. Nessa triagem nutritiva, o corpo parece obrigado a classificar o aprendizado em último lugar. Melhor ser estúpido e vivo, segundo seu julgamento, do que inteligente e morto. 


Em vez de demonstrar entusiasmo, gosto pelo aprendizado como a maioria dos garotos saudáveis –, a criança subnutrida se aborrece, torna-se apática, sem reação. A subnutrição mais grave causa diminuição do peso no nascimento e, nas suas formas mais extremas, cérebros menores. Entretanto, até uma criança que parece perfeitamente saudável, mas não tem ferro suficiente, por exemplo, sofre uma diminuição imediata na capacidade de se concentrar. A anemia por deficiência de ferro talvez chegue a afetar um quarto de todas as crianças de baixa renda nos Estados Unidos; ela prejudica a atenção e a memória, podendo ter conseqüências que chegam até a idade adulta. 

O que antes se considerava uma subnutrição relativamente leve é agora compreendido como um estado potencialmente associado a danos cognitivos para toda a vida. As crianças que ficam subnutridas mesmo por períodos curtos sofrem diminuição da sua capacidade de aprender. E milhões de crianças norte-americanas passam fome toda semana. 

O envenenamento por chumbo, que é endêmico nas cidades do interior, também causa sérias deficiências de aprendizado. 

Segundo muitos critérios, o índice de pobreza nos Estados Unidos tem crescido constantemente desde o início dos anos 80. Quase um quarto das crianças norte-americanas vive agora na pobreza – a taxa mais elevada no mundo industrializado. De acordo com uma estimativa, somente entre 1980 e 1985, o número de bebês e crianças norte-americanos que morreram de doenças evitáveis, subnutrição e outras conseqüências da pobreza extrema supera o de todas as mortes de norte-americanos em combate na Guerra do Vietnã.

Alguns programas sabiamente instituídos em nível federal ou estadual, nos Estados Unidos, tratam da desnutrição. O Programa Especial de Alimentação Suplementar para Mulheres, Bebês e Crianças (WIC), os programas de merenda escolar, o Programa de Verão para a Alimentação – todos provaram que funcionam, embora não atinjam todas as pessoas que deles necessitam. Um país tão rico  é certamente capaz de dar bastante comida a todas as suas crianças. 


Alguns efeitos deletérios da desnutrição podem ser anulados; a terapia de reposição de ferro, por exemplo, pode corrigir algumas conseqüências da anemia por deficiência desse elemento. Mas nem todos os danos são reversíveis. A dislexia – várias desordens que prejudicam a capacidade de ler – talvez afete 15% de nós ou mais, tanto pobres como ricos. Suas causas (biológicas, psicológicas ou ambientais) são freqüentemente indeterminadas. Mas existem agora métodos que ajudam muitas pessoas com dislexia a aprender a ler. 

Ninguém deveria deixar de aprender a ler por não ter acesso à educação. Mas há muitas escolas nos Estados Unidos em que a leitura é ensinada como um passeio tedioso e relutante pelos hieroglifos de uma civilização desconhecida, e muitas salas de aula em que não se pode encontrar um único livro. 

Lamentavelmente, a demanda de aulas de alfabetização para adultos supera em muito a oferta. Programas de educação básica de alta qualidade, como o Head Start, podem ter enorme sucesso em preparar as crianças para a leitura. Mas o Head Start atinge apenas de um terço a um quarto das crianças aptas em idade pré-escolar, muitos de seus programas têm sido enfraquecidos por cortes no financiamento, e tanto ele como as ações de nutrição que mencionei estão sob novo ataque do Congresso, no momento em que escrevo. 

O Head Start é criticado num livro de 1994, The bell curve, de Richard J. Herrnstein e Charles Murray. A sua argumentação foi caracterizada por Gerald Coles, da Universidade de Rochester: “Primeiro, financia-se inadequadamente um programa para crianças pobres, depois nega-se todo sucesso alcançado em face dos obstáculos esmagadores, e por fim conclui-se que o programa deve ser eliminado porque as crianças são intelectualmente inferiores”. O livro, que recebeu uma atenção surpreendentemente respeitosa da mídia, conclui que há uma diferença hereditária irredutível entre negros e brancos – cerca de dez ou quinze pontos em testes de inteligência. Numa resenha, o psicólogo Leon J. Kamin conclui que “os autores deixam repetidamente de fazer a distinção entre correlação e causação” – uma das falácias em nosso kit de detecção de mentiras

Diga não ao racismo!

O Centro Nacional de Alfabetização Familiar, com base em Louisville, Kentucky, tem implementado programas que ensinam os filhos e os pais a ler, destinados a famílias de baixa renda. Funcionam da seguinte maneira: a criança, de três a quatro anos, freqüenta a escola três vezes por semana junto com um dos pais, ou um dos avós ou uma pessoa responsável. Enquanto o adulto passa a manhã aprendendo habilidades acadêmicas básicas, a criança assiste a uma aula pré-escolar. Os pais e os filhos se encontram para almoçar, e depois passam o resto da tarde “aprendendo a aprender juntos”. 

Um estudo de acompanhamento de catorze desses programas em três estados revelou: (1) embora todas as crianças tivessem sido apontadas como alunos que corriam o risco de repetência pré-escolar, apenas 10% ainda foram consideradas sujeitas a esse risco pelos seus atuais professores da escola primária; (2) mais de 90% foram consideradas alunos motivados a aprender pelos seus atuais professores da escola primária; (3) nenhuma das crianças teve de repetir nenhuma série na escola primária.

O desenvolvimento dos pais não foi menos intenso. Instados a descrever como as suas vidas tinham mudado em conseqüência do programa de alfabetização familiar, as respostas típicas mencionaram maior autoconfiança (quase todos os participantes) e autocontrole, sucesso em exames de cursos equivalentes ao segundo grau, admissão à escola superior, novos empregos e um relacionamento muito melhor com os filhos. As crianças são descritas como mais atenciosas para com os pais, desejosas de aprender e – em alguns casos, pela primeira vez – com esperanças no futuro. 

Esses programas também podiam ser usados em séries posteriores para ensinar matemática, ciência e muita coisa mais. 


Os tiranos e os autocratas sempre compreenderam que a capacidade de ler, o conhecimento, os livros e os jornais são potencialmente perigosos. Podem insuflar idéias independentes e até rebeldes nas cabeças de seus súditos. O governador real britânico da colônia de Virginia escreveu em 1671: “Graças a Deus não há escolas, nem imprensa livre; e espero que não as tenhamos nestes próximos cem anos; pois o conhecimento introduziu no mundo a desobediência, a heresia e as seitas, e a imprensa divulgou-as e publicou os libelos contra os melhores governos. Que Deus nos guarde de ambos!”.

Mas os colonizadores norte-americanos, compreendendo em que consiste a liberdade, não pensavam assim. Em seus primeiros anos, os Estados Unidos se vangloriavam de ter um dos índices mais elevados – talvez o mais elevado – de cidadãos alfabetizados no mundo. (É claro, escravos e mulheres não contavam naqueles tempos...) Já em 1635, havia escolas públicas em Massachusetts, e em 1647 a educação era obrigatória em todas as cidades com mais de cinqüenta “famílias”. No século e meio seguinte, a democracia educacional se espalhou por todo o país. Os teóricos políticos vinham do exterior para presenciar a maravilha nacional: multidões de trabalhadores comuns que sabiam ler e escrever. 

O zelo norte-americano pela educação para todos fomentava as descobertas e as invenções, um vigoroso processo democrático e uma mobilidade social que insuflava a vitalidade econômica da nação. 


Atualmente, os Estados Unidos não são o líder mundial em alfabetização. Muitos dos que são considerados alfabetizados não conseguem ler, nem compreender material muito simples – muito menos um livro da sexta série, um manual de instruções, um horário de ônibus, o documento de uma hipoteca ou um programa eleitoral. E os livros da sexta série de hoje são muito menos desafiadores do que os de algumas décadas atrás, ao passo que as exigências de saber ler e escrever nos empregos se tornaram mais rigorosas do que nunca foram. 

As rodas dentadas da pobreza, ignorância, falta de esperança e baixa auto-estima se engrenam para criar um tipo de máquina do fracasso perpétuo que esmigalha os sonhos de geração a geração. Nós todos pagamos o preço de mantê-la funcionando. O analfabetismo é a sua cavilha. Ainda que endureçamos os nossos corações diante da vergonha e da desgraça experimentadas pelas vítimas, o ônus do analfabetismo é muito alto para todos os demais – o custo de despesas médicas e hospitalização, o custo de crimes e prisões, o custo de programas de educação especial, o custo da produtividade perdida e de inteligências potencialmente brilhantes que poderiam ajudar a solucionar os dilemas que nos perseguem

Frederick Douglass ensinou que a alfabetização é o caminho da escravidão para a liberdade. Há muitos tipos de escravidão e muitos tipos de liberdade. Mas saber ler ainda é o caminho. 
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Anexo do Capítulo 21:
FREDERICK DOUGLASS DEPOIS DA FUGA 

Frederick já na velhice

Quando mal completara vinte anos, ele fugiu para a liberdade. Fixou residência em New Bedford com a noiva, Anna Murray, e começou a ganhar a vida como trabalhador comum. Quatro anos mais tarde, Douglass foi convidado a discursar num encontro. A essa altura, no Norte, não era incomum ouvir os grandes oradores do dia – isto é, os brancos – investir contra a escravidão. Mas até muitos dos que se opunham à escravidão achavam que os escravos eram de alguma forma menos humanos

Na noite de 16 de agosto de 1841, na pequena ilha de Nantucket, os membros da Sociedade contra a Escravidão de Massachusetts, formada principalmente por quacres, se inclinaram para frente em suas cadeiras para ouvir algo novo: uma voz contra a escravidão vinda de alguém que a conhecia por amarga experiência pessoal. 

A sua própria aparência e comportamento destruíam o mito então predominante da “subserviência natural” dos afro-americanos. Todos os presentes foram unânimes em reconhecer que a sua eloqüente análise dos males da escravidão foi uma das estréias mais brilhantes na história da oratória norte-americana. 

William Lloyd Garrison [1805-1879]
William Lloyd Garrison, o principal abolicionista da época, estava sentado na primeira fila. Quando Douglass terminou o seu discurso, Garrison se levantou, virou-se para o público aturdido e desafiou-os com uma pergunta aos altos brados:

– Nós estivemos escutando as palavras de um objeto, de um servo ou de um homem?

– De um homem! De um homem! – rugiu o público em resposta, a uma só voz.

– Um homem desses deve ser escravo numa terra cristã? – bradou Garrison.

– Não! Não! – gritou o público.

Em voz ainda mais alta, Garrison perguntou: 

– Um homem desses deve ser banido do solo livre da velha Massachusetts e mandado de volta à escravidão? 

Já então de pé, a multidão gritava:

– Não! Não! Não!

Ele nunca voltou à escravidão. Ao contrário, como autor, editor e dono de periódicos, como orador nos Estados Unidos e no exterior, e como o primeiro afro-americano a ocupar um alto cargo consultivo no governo federal, ele passou o resto de sua vida lutando pelos direitos humanos. 

Durante a Guerra Civil, foi consultor do presidente Lincoln. Douglass defendeu com sucesso a estratégia de armar os ex-escravos para lutarem pelo Norte, a retaliação federal contra os prisioneiros de guerra depois da execução sumária de soldados afro-americanos capturados pelos confederados e a libertação dos escravos como um dos principais objetivos da guerra.

Muitas de suas opiniões eram mordazes e pouco apropriadas para lhe granjear amigos nas altas esferas:

“Afirmo sem a menor hesitação que a religião do Sul é uma simples capa para os crimes mais terríveis – uma justificativa da barbárie mais estarrecedora, uma consagração das fraudes mais odiosas e um abrigo escuro onde os atos mais sombrios, imundos, grosseiros e diabólicos dos senhores de escravos encontram a mais forte das proteções. Se eu fosse de novo submetido às cadeias da escravidão, a par dessa escravização, consideraria ser escravo de um senhor religioso a pior calamidade que poderia me acontecer [...]. Eu [...] odeio o cristianismo hipócrita, parcial, corrupto e escravizador desta terra, defensor do chicote para as mulheres e saqueador de berços”.

Os Deístas também temos nojo absoluto dessa imundície anti-humana
que é a bíblia

Em relação a alguns discursos racistas de inspiração religiosa daquela época e de épocas posteriores, os comentários de Douglass não parecem hiperbólicos. “A escravidão é de Deus”, costumavam dizer nos tempos anteriores à guerra. Como um dos muitos exemplos odiosos pós-Guerra Civil, The negro a beast, de Charles Carroll (St. Louis, American Book and Bible House), ensinava a seus piedosos leitores que “a Bíblia e a Revelação Divina, assim como a razão, tudo demonstrava que o negro não é humano”

Mais recentemente, alguns racistas ainda rejeitam o testemunho claro, escrito no DNA, de que todas as raças não são apenas humanas, mas quase indistinguíveis, apelando para a Bíblia como um “baluarte inexpugnável” até contra as tentativas de examinar a evidência.

Vale a pena notar, no entanto, que grande parte do fermento abolicionista surgiu nas comunidades cristãs, especialmente entre os quacres do Norte; que as tradicionais igrejas cristãs negras do Sul desempenharam um papel-chave na histórica luta pelos direitos civis dos anos 60; e que muitos de seus líderes – com destaque para Martin Luther King – eram pastores ordenados nessas igrejas. 

Douglass se dirigiu à comunidade branca com estas palavras: 

“A escravidão restringe o progresso, é hostil ao desenvolvimento; é inimiga mortal da educação; fomenta o orgulho; gera a indolência; promove o vício; dá abrigo ao crime; é uma maldição da terra que a apóia, mas, ainda assim, vocês se agarram à escravidão, como se ela fosse a âncora de salvação de todas as suas esperanças”. 

Elizabeth Cady Stanton [1815-1902]
Grande defensora dos direitos femininos
Em 1843, numa excursão para proferir palestras pela Irlanda pouco antes da escassez de batata, a extrema pobreza do país o levou a escrever para Garrison nos Estados Unidos: “Vejo aqui muita coisa que me lembra minha antiga condição, e confesso que teria vergonha de levantar minha voz contra a escravidão norte-americana, se não soubesse que a causa da humanidade é uma só em todo o mundo”. 

Ele não teve papas na língua ao se opor à política de extermínio dos americanos nativos. E em 1848, na Convenção de Seneca Falls, quando Elizabeth Cady Stanton (2) teve a coragem de pedir o empenho de todos para assegurar o voto das mulheres, ele foi o único homem de qualquer grupo étnico a se levantar para dar o seu apoio

Na noite de 20 de fevereiro de 1895 – mais de trinta anos depois da emancipação –, depois de comparecer a uma demonstração pelos direitos das mulheres com Susan B. Anthony, ele sofreu um colapso e morreu.

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Notas nossas:
1- A aceitação da escravidão por parte da bíblia é mais uma das muitas provas de que a bíblia não é nem nunca foi "a palavra de Deus", mas apenas uma obra produzida pela fantasia humana - e fantasia profundamente marcada por desumanidades.

2- Anos mais tarde, ela escreveu sobre a Bíblia palavras que lembram as de Douglass: “Não conheço nenhum outro livro que ensine tão cabalmente a sujeição e a degradação das mulheres”.

Que bom saber que o Verdadeiro Deus não tem nada a ver com
essas desgraças que são a bíblia e o cristianismo!

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