terça-feira, 26 de janeiro de 2016

As origens evolutivas da razão humana (Richard Dawkins)



A EVOLUÇÃO DA RAZÃO

Explicações darwinistas para o surgimento da razão humana


- Richard Dawkins - 


(Versão completa do último capítulo da obra: "Desvendando o Arco-Íris")


“O cérebro é uma massa de um quilo e 359 gramas 
que se pode segurar na mão, 
mas que pode conceber um universo 
de 100 bilhões de anos-luz de extensão” 
(Marian C. Diamond).


É lugar-comum entre os historiadores da ciência que os biólogos de qualquer época, lutando para compreender o funcionamento dos corpos vivos, estabeleçam comparações com a tecnologia avançada de seu tempo. Dos relógios no século XVII às estátuas dançantes no século XVIII, das máquinas térmicas vitorianas aos mísseis da atualidade que buscam o calor eletronicamente guiados, as novidades da engenharia de cada época têm renovado a imaginação biológica. Se, dentre todas essas inovações, o computador digital promete fazer a sombra a seus predecessores, a razão é simples. O computador não é apenas uma máquina. Pode ser rapidamente reprogramado para se tornar qualquer máquina ao gosto do freguês: calculadora, processador de textos, fichário, mestre de xadrez, instrumento musical, máquina de advinhe-o-seu-peso, e até, lamento dizer, profeta astrológico. Pode simular o tempo, os ciclos de população dos lemingues, um formigueiro, o acoplamento de um satélite ou a cidade de Vancouver.

O cérebro de qualquer animal tem sido descrito como o seu computador de bordo. Não funciona, contudo, como um computador eletrônico. É feito de componentes muito diferentes. Estes são individualmente muito mais lentos, mas funcionam em enormes redes paralelas, de modo que, por algum meio só parcialmente compreendido, os seus números compensam a velocidade mais lenta, e os cérebros podem, em certos aspectos, superar o desempenho dos computadores digitais. Em todo caso, as diferenças do funcionamento detalhado não anulam o poder da metáfora. O cérebro é o computador de bordo no corpo, não pela forma como funciona, e sim pelo que realiza na vida do animal. A semelhança de papel se estende a muitas partes da economia do animal, porém o aspecto mais espetacular talvez seja o fato de o cérebro simular o mundo com o equivalente do software da realidade virtual.

Talvez pareça uma boa ideia, de modo geral, que qualquer animal desenvolva um cérebro grande. Não é sempre provável que um poder maior de computação seja uma vantagem? Talvez, mas ele também tem custos. Peso por peso, o tecido do cérebro consome mais energia do que os outros tecidos. E nossos grandes cérebros quando bebês dificultam bastante o nosso nascimento. A nossa conjetura de que ter um cérebro grande deve ser algo bom deriva da vaidade pela hipertrofia do cérebro na nossa espécie. Continua, no entanto, a ser uma questão interessante saber por que os cérebros humanos se tornaram tão especialmente grandes.

Uma autoridade afirma que a evolução do cérebro humano ao longo dos últimos milhões de anos seja ‘talvez o avanço mais rápido registrado para qualquer órgão complexo em toda a história da vida’. Pode ser um exagero, mas a evolução do cérebro humano foi inegavelmente rápida. Comparado com os crânios de outros macacos, o crânio humano moderno, pelo menos a parte bulbosa que abriga o cérebro, inflou como um balão. Quando perguntamos por que isso aconteceu, não é satisfatório apresentar razões gerais para a possível utilidade de ter um cérebro grande. Presumivelmente, esses benefícios gerais se aplicariam a muitos tipos de animais, em especial àqueles que navegam rápido pelo complicado mundo tridimensional da cobertura da floresta, como fazem a maioria dos primatas. Uma explicação satisfatória será aquela que nos disser por que uma determinada linhagem de macacos – na realidade, aquela que abandonou as árvores – de repente disparou, deixando o resto dos primatas para trás.


Já esteve na moda lamentar – ou, segundo o gosto, exultar com – a escassez de fósseis que ligam o Homo Sapiens aos nossos ancestrais macacos. Isso mudou. Temos agora uma série de fósseis bastante boa e, ao retrocedermos no tempo, podemos detectar um encolhimento gradual da caixa craniana em várias espécies de Homo até o nosso gênero predecessor, Australopithecus, cuja caixa craniana tinha mais ou menos o mesmo tamanho da que possui um chimpanzé moderno. A principal diferença entre Lucy ou a Sra. Ples (australopitecinas famosas) e um chimpanzé não estava no tamanho do cérebro, e sim no hábito australopitecino de caminhar ereto sobre as duas pernas. Os chimpanzés só caminham assim de vez em quando. O inflar do balão do cérebro estendeu-se por 3 milhões de anos: dos Australopithecus, passando pelo Homo Habilis, depois o Homo Erectus e pelo Homo Sapiens arcaico até o moderno Homo Sapiens.

Algo um pouco semelhante parece ter acontecido no desenvolvimento do computador. Todavia, se o cérebro humano inflou como um balão, o progresso do computador tem sido mais como uma bomba atômica. A lei de Moore estabelece que a capacidade dos computadores de um determinado tamanho físico duplica a cada ano e meio. (Essa é uma versão moderna da lei. Quando Moore a formulou originalmente há mais de três décadas, ele se referia aos números de transistores que, segundo suas medições, duplicavam a cada dois anos. O desempenho dos computadores melhorou com uma velocidade ainda maior, porque os transistores se tornaram mais rápidos, bem como menores e mais baratos.) O falecido Christopher Evans, um psicólogo entendido em computadores, expressa a ideia dramaticamente:

"O carro de hoje difere daqueles dos anos pós-guerra numa série de aspectos. É mais barato, descontando-se os estragos da inflação, e é mais econômico e eficiente. Mas vamos supor por um momento que a indústria automobilística tivesse se desenvolvido com a mesma velocidade dos computadores e durante o mesmo período: até que ponto os modelos presentes seriam mais baratos e mais eficientes? Se você ainda não ouviu a analogia, a resposta é assombrosa. Hoje você seria capaz de comprar um Rolls-Royce por 1,35 libra, ele percorreria 5 milhões de quilômetros por galão e produziria energia suficiente para impelir o Queen Elizabeth II. E se você tem interesse pela miniaturização, poderia colocar meia dúzia deles na cabeça de um alfinete" (The Mighty Micro, 1979).

É claro, tudo na escala de tempo da evolução biológica acontece inevitavelmente de modo mais lento. Uma das razões é que cada aperfeiçoamento tem de surgir pela morte de alguns indivíduos e pela reprodução de indivíduos rivais. Assim, não é possível fazer comparações de velocidade absoluta. Se compararmos os cérebros de AustralopithecusHomo HabilisHomo Erectus e Homo Sapiens, obteremos um equivalente grosseiro da lei de Moore, retardado por seis ordens de grandeza. De Lucy ao Homo Sapiens, o tamanho do cérebro aproximadamente dobrou a cada 1,5 milhão de anos. Ao contrário da lei de Moore para os computadores, não há nenhuma razão particular para pensar que o cérebro humano vá continuar a inchar. Para que isso aconteça, os indivíduos de cérebros grandes têm de fazer mais filhos do que os de cérebros pequenos. Não é óbvio que isso esteja acontecendo. Porém, é o que deve ter acontecido durante nosso passado ancestral, visto que, do contrário, nossos cérebros não teriam crescido como cresceram. Também deve ser verdade, circunstancialmente, que a condição de ter cérebro estava sob controle genético em nossos ancestrais. De outro modo, a seleção natural não teria em que operar, e o crescimento evolucionário do cérebro não teria ocorrido. Por alguma razão, diversas pessoas sentem-se politicamente muito ofendidas com a sugestão de que alguns indivíduos são geneticamente mais inteligentes que outros. Mas esse devia ser o caso quando nossos cérebros estavam evoluindo, e não há razão para esperar que os fatos mudem de repente a fim de conciliar as sensibilidades políticas...

Muitas das influências que têm contribuído para o desenvolvimento dos computadores não vão nos ajudar a compreender os cérebros. Uma etapa importante foi a mudança da válvula (tubo de vácuo) para o transistor muito menor, e depois a miniaturização espetacular e continuada do transistor em circuitos integrados. Esses avanços são todos irrelevantes para os cérebros, porque – o ponto merece ser repetido – afinal de contas não funcionam eletronicamente. Entretanto, há outra fonte de progresso nos computadores, e talvez ela seja relevante para os cérebros. Vou chamá-la de coevolução auto-alimentadora.

Já falamos de coevolução. Significa o desenvolvimento conjunto de diferentes organismos (como nas corridas ‘armamentistas’ entre os predadores e as presas) ou entre diferentes partes do mesmo organismo (o caso especial chamado co-adaptação). Para dar outro exemplo, há algumas moscas pequenas cuja aparência imita a de uma aranha saltadora, inclusive com grandes olhos falsos voltados para a frente como um par de holofotes – muito diferentes dos olhos compostos com que as moscas veem. As aranhas verdadeiras são predadoras potenciais das moscas desse tamanho, mas são enganadas pela semelhança que apresentam com outra aranha. As moscas realçam a imitação movendo as partes de um jeito que lembra os histriônicos sinais semafóricos que as aranhas saltadoras usam para cortejar o sexo oposto. Na mosca, os genes que controlam a semelhança anatômica com as aranhas evoluíram junto com outros genes separados que controlam o comportamento semafórico. Essa evolução conjunta é a co-adaptação.


Auto-alimentação é o nome que estou dando a qualquer processo em que ‘quanto mais se tem, mais se obtém’. Uma bomba é um bom exemplo. Diz-se que a bomba atômica depende de uma reação em cadeia, mas a metáfora de uma cadeia é demasiado grandiosa para transmitir o que acontece. Quando o núcleo instável do urânio 235 se rompe, energia é liberada. Os nêutrons que disparam a partir do rompimento de um núcleo podem atingir outro núcleo e induzi-lo a também se romper, mas esse é geralmente o fim da história. A maioria dos nêutrons não atinge outros núcleos e dispara inofensivamente no espaço vazio, pois o urânio, embora seja um dos metais mais densos, é ‘realmente’, como toda a matéria, espaço vazio na sua maior parte. (O modelo virtual do metal em nossos cérebros é construído com a ilusão persuasiva de solidez densa, porque essa é a representação interna mais útil para nossos fins de sobrevivência.) Na sua própria escala, os núcleos atômicos num metal estão muito mais espaçados que mosquitos num enxame, sendo muito provável que uma partícula expelida por um átomo em desintegração saia do enxame sem problemas. Entretanto, se juntamos uma certa quantidade (a famosa ‘massa crítica’) de urânio 235, suficiente para propiciar em média a probabilidade de que um nêutron típico expelido de qualquer nêutron atinja outro núcleo antes de deixar completamente a massa de metal, inicia-se a chamada reação em cadeia. Em média, cada núcleo que se rompe faz com que outro também se rompa; há uma epidemia de rompimento de átomos, com uma liberação extremamente rápida de calor e outras energias destrutivas, e os resultados são muito bem conhecidos. Todas as explosões têm essa mesma qualidade epidêmica e, numa escala de tempo mais lenta, as epidemias de doenças às vezes se assemelham às explosões. Elas requerem uma massa crítica de possíveis vítimas para terem início e, uma vez desencadeadas, quanto mais se tem, mais se obtém. É por essa razão que é tão importante vacinar uma porção crítica da população. Se apenas um número de pessoas abaixo da ‘massa crítica’ continua sem ser vacinado, a epidemia não consegue se instalar. (Por essa razão, é possível que os negligentes egoístas ignorem a vacinação e ainda assim se beneficiem do fato de que a maioria das outras pessoas foi vacinada.)

Em ‘O Relojoeiro Cego’, observei uma regra de ‘massa crítica para explosão’ em operação na cultura popular humana. Muitas pessoas decidem comprar discos, livros ou roupas por nenhuma outra razão a não ser o fato de que muitas outras pessoas os estão comprando. Quando uma lista de Best-sellers é publicada, isso poderia ser visto como um relatório objetivo do comportamento de consumo. Contudo, é mais que isso, porque a lista publicada torna a alimentar o comportamento consumista das pessoas e influencia os futuros números das vendas. Portanto, as listas de Best-sellers são, pelo menos potencialmente, vítimas de espirais auto-alimentadoras. É por isso que os editores gastam muito dinheiro no início da carreira de um livro, numa tentativa vigorosa de fazê-lo passar o limiar crítico da lista de Best-sellers. A esperança é que então o livro vai ‘decolar’. Quanto mais se tem, mais se obtém, com a característica adicional da repentina decolagem, o que precisamos para os fins de nossa analogia. Um exemplo dramático de uma espiral auto-alimentadora que vai na direção oposta é a quebra de Wall Street e outros casos em que as vendas movidas pelo pânico no mercado de ações alimentam a si mesmas num parafuso descendente.

A co-adaptação evolucionária não tem necessariamente a propriedade explosiva adicional de ser auto-alimentadora. Não há razão para supor que, na evolução da nossa mosca que imita aranhas, a co-adaptação da forma aracnídea e do comportamento aracnídeo tenha sido explosiva. Para que assim fosse, seria necessário que a semelhança inicial, digamos uma ligeira semelhança anatômica com uma aranha, estabelecesse uma pressão aumentada no sentido de imitar o comportamento da aranha. Isso, por sua vez, alimentaria uma pressão ainda mais forte para imitar a forma da aranha, e assim por diante. Mas, como digo, não há razão para pensar que tudo tenha acontecido dessa forma, nenhuma razão para supor que a pressão tenha sido auto-alimentadora e, portanto, crescente à medida que passava de um lado para o outro. Como expliquei em ‘O Relojoeiro Cego’, é possível que a evolução da cauda da ave-do-paraíso, do leque do pavão e outros ornamentos extravagantes por meio da seleção sexual seja genuinamente auto-alimentadora e explosiva. Nesses casos, o princípio do ‘quanto mais se tem, mais se obtém’ pode realmente se aplicar.

No caso da evolução do cérebro humano, suspeito que estamos procurando algo explosivo, auto-alimentador, como a reação em cadeia da bomba atômica ou a evolução da cauda de uma ave-do-paraíso, em vez de algo como a mosca que imita a aranha. O apelo dessa ideia é o seu poder de explicar por que, dentre um conjunto de espécies de macacos africanos com cérebros de mesmo tamanho que os dos chimpanzés, uma de repente saiu correndo à frente das outras sem nenhuma razão muito óbvia. É como se um evento aleatório empurrasse o cérebro hominídeo além de um limiar, algo equivalente a uma ‘massa crítica’, e depois o processo decolasse explosivamente, por ser auto-alimentador.


No que teria consistido esse processo auto-alimentador? A conjetura que apresentei em minhas Palestras de Natal na Royal Institution foi ‘coevolução software/hardware’. Como o seu nome sugere, ela pode ser explicada por uma analogia com os computadores. Infelizmente para a analogia, a lei de Moore não parece ser explicada por um único processo auto-alimentador. O melhoramento dos circuitos integrados ao longo dos anos parece ter sido provocado por um conjunto desordenado de mudanças, o que torna enigmático saber por que há aparentemente um melhoramento exponencial constante. Ainda assim, há certamente uma coevolução software/hardware conduzindo a história dos avanços dos computadores. Em particular, há algo correspondente a um explosivo cruzar de limiar, depois que uma ‘necessidade’ represa se faz sentir.

Nos primeiros tempos dos computadores pessoais, eles ofereciam apenas um software primitivo de processamento de texto; o meu nem sequer ‘quebrava a linha’ quando o cursor chegava à margem. Eu estava então viciado em programar em linguagem de máquina e (tenho um pouco de vergonha de admitir) cheguei a ponto de desenvolver o meu próprio software processador de textos, chamado ‘Scrivener’, que usei para escrever ‘O Relojoeiro Cego’ – livro que, se não fosse por esse detalhe, teria sido terminado mais cedo! Durante o desenvolvimento do Scrivener, eu vivia cada vez mais frustrado pela ideia de ter de usar o teclado para mover o cursor pela tela. Eu queria apenas apontar. Brinquei com a ideia de usar um joystick, como os existentes para os jogos de computadores, mas não consegui achar um meio de fazer a coisa funcionar. Sentia com muita força que o software que eu desejava desenvolver estava bloqueado pela falta de uma inovação crítica de hardware. Mais tarde, descobri que o dispositivo de que eu desesperadamente precisava, mas que não fui inteligente bastante para imaginar, já havia sido inventado muito tempo antes. Esse dispositivo era, é claro, o mouse.

O mouse foi um avanço de hardware, concebido na década de 1960 por Douglas Engelbart, que previu que ele tornaria possível um novo tipo de software. Essa inovação de software é agora conhecida, na sua forma desenvolvida, como a Interface Gráfica do Usuário, ou GUI, tendo sido desenvolvida na década de 1970 pela equipe brilhantemente criativa de Xerox Parc, essa Atenas do mundo moderno. Foi cultivado para se tornar um sucesso comercial pela Apple em 1983, depois copiado por outras companhias sob nomes como VisiOnGEM e – o que tem maior sucesso comercial hoje em dia – WindowsO mais importante da história é que uma explosão de software engenhoso estava, num certo sentido, represada, esperando para se espalhar pelo mundo, mas teve de aguardar um dispositivo crucial de hardware, o mouse. Mais tarde, a disseminação do software GUI gerou novas exigências de hardware, que tiveram de ser satisfeitas de forma mais rápida e mais ampla para lidar com as necessidades da arte gráfica. Isso por sua vez permitiu um afluxo de novos softwares mais sofisticados, especialmente aqueles capazes de explorar gráficos de alta velocidade. A espiral software / hardware continuou, e sua produção mais recente é a Worldwide Web. Quem sabe o que nos reservam as futuras voltas da espiral?

“Se você olha para o futuro, revela-se que o poder (do computador) vai ser usado para uma variedade de coisas. Surgem aperfeiçoamentos incrementais e facilidades de uso, então ocasionalmente se ultrapassa algum limiar, e algo novo é possível. Foi o que aconteceu com a interface gráfica do usuário. Todo o programa se tornou gráfico e toda saída se tornou gráfica, isso nos custou enormes quantidades de poder da CPU, mas valeu a pena (...). Na verdade, tenho a minha própria lei do software, a lei de Nathan, segundo a qual o software cresce mais rápido do que a lei de Moore. E é por isso que existe uma lei de Moore” (Nathan Myhrvold, diretor de Tecnologia da Microsoft Corporation, 1998).


Retornando à evolução do cérebro humano, o que estamos procurando para completar a analogia? Um aperfeiçoamento secundário no hardware, talvez um leve aumento no tamanho do cérebro que teria passado despercebido, se não tivesse capacitado uma nova técnica de software que, por sua vez, desencadeou uma próspera espiral de coevolução? O novo software mudou o ambiente em que o hardware do cérebro estava sujeito à seleção natural. Isso deu origem a uma forte pressão darwiniana para aperfeiçoar e aumentar o hardware, a fim de tirar proveito do novo software, e uma espiral auto-alimentadora passou a funcionar com resultados explosivos.

No caso do cérebro humano, qual poderia ter sido o avanço propício? Qual foi o equivalente do GUI? Vou dar o exemplo mais claro que posso imaginar do tipo de coisa que pode ter acontecido, sem nem por um momento me comprometer com a visão de que tenha sido o avanço real que inaugurou a espiral. O meu exemplo claro é a linguagem. Ninguém sabe como foi que ela começou. Não parece haver nada semelhante à sintaxe em animais não humanos, sendo difícil imaginar seus precursores evolucionários. Igualmente obscura é a origem da semântica, das palavras e seus significados. Sons que significam ordens como “Alimente-me” ou "Vá embora” são lugar-comum no reino animal, mas nós humanos fazemos algo bem diferente. Como outras espécies, temos um repertório limitado de sons básicos, os fonemas, mas somos os únicos a recombinar esses sons, reunindo-os em cadeia num número indefinidamente grande de combinações para significar coisas que são fixadas apenas pela convenção arbitrária. A linguagem humana é aberta na sua semântica: os fonemas podem ser recombinados para engendrar um dicionário de palavras indefinidamente em expansão. E também é aberta na sua sintaxe: as palavras podem ser recombinadas num número indefinidamente grande de frases por meio de um encaixe recursivo: “O homem está vindo. O homem que pegou o leopardo está vindo. O homem que pegou o leopardo que matou as cabras está vindo. O homem que pegou o leopardo que matou as cabras que nos dão leite está vindo”. Vale notar como a frase cresce no meio enquanto as pontas – os seus elementos essenciais – continuam as mesmas. Cada uma das orações subordinadas encaixadas é capaz de crescer da mesma maneira, e não há limites para o crescimento permitido. Esse tipo de desenvolvimento potencialmente infinito, que se torna de repente possível por uma única inovação sintática, parece ser peculiar à linguagem humana.

Ninguém sabe se a linguagem de nossos ancestrais passou por um estágio de protótipo com um pequeno vocabulário e uma gramática simples, antes de evoluir gradativamente até o presente ponto em que todas as milhares de línguas no mundo são muito complexas (alguns dizem que todas têm exatamente o mesmo grau de complexidade, mas isso parece perfeito demais em termos ideológicos para ser inteiramente plausível). Eu me inclino a pensar que o desenvolvimento foi gradual, mas não é completamente evidente que tivesse de ser assim. Algumas pessoas acham que a linguagem começou de repente, mais ou menos literalmente inventada por um único gênio num determinado lugar num determinado tempo. Quer o desenvolvimento tenha sido gradual, quer repentino, poder-se-ia contar uma história semelhante à da coevolução software / hardware. Um mundo social em que há linguagem é um tipo de mundo social completamente diferente daquele em que ela não existe. As pressões da seleção sobre os genes nunca mais serão as mesmas. Os genes se veem num mundo mais dramaticamente diferente do que se uma era glacial tivesse se instalado da noite para o dia ou se algum novo predador terrível tivesse de repente aparecido na Terra. No novo mundo social em que a linguagem surgiu pela primeira vez em cena, deve ter ocorrido uma seleção natural dramática em favor dos indivíduos geneticamente equipados para explorar os novos meios. Isso lembra a conclusão do capítulo anterior, em que falei de os genes serem selecionados para sobreviver nos mundos virtuais construídos socialmente pelos cérebros. É quase impossível superestimar as vantagens que podiam ser desfrutadas pelos indivíduos exímios em tirar proveito do novo mundo da linguagem. Não é apenas que os cérebros se tornariam maiores para lidar com a própria linguagem. É também que o mundo inteiro em que nossos ancestrais viviam foi transformado em consequência da invenção da fala.

Mas usei o exemplo da linguagem apenas para tornar plausível a ideia da coevolução software / hardware. Talvez não tenha sido a linguagem que levou o cérebro humano a cruzar o seu limiar crítico de inflação, embora eu tenha um palpite de que ela desempenhou um importante papel. É controverso se o hardware modulador de sons na garganta era capaz de formar a linguagem na época em que o cérebro começou a inchar. Alguma evidência fóssil sugere que nossos prováveis ancestrais Homo habilis e Homo erectus, por causa da sua laringe relativamente pouco inclinada, não deviam ser capazes de articular toda a série de sons vogais que as gargantas modernas colocam à nossa disposição. Alguns acham que esse fato indica que a própria linguagem aconteceu tarde em nossa evolução. Acho que essa é uma conclusão bem pouco imaginativa. Se houve uma coevolução software / hardware, o cérebro não é o único hardware do qual deveríamos esperar aperfeiçoamentos na espiral. O aparelho vocal também teria evoluído em paralelo, e a inclinação evolucionária da laringe é uma das mudanças de hardware que a própria linguagem provocaria. Vogais mal pronunciadas não são a mesma coisa que nenhum som de vogal. Mesmo que a fala do Homo erectus soasse monótona pelos nossos padrões exigentes, ainda poderia ter servido como a arena para a evolução da sintaxe, da semântica e da inclinação auto-alimentadora da própria laringe. É concebível que o Homo erectus circunstancialmente fizesse barcos e fogo; não devemos subestimá-lo.

Pondo a linguagem de lado por um momento, que outras inovações de software poderiam ter levado nossos ancestrais a cruzar o limiar crítico para dar início à escalada coevolucionária? Vou sugerir duas inovações que poderiam ter surgido naturalmente do gosto que nossos ancestrais desenvolveram pela carne e pela caça. A agricultura é uma invenção recente. A maioria de nossos ancestrais hominídeos foi caçador-coletor. Aqueles que ainda subsistem por esse antigo modo de vida são frequentemente rastreadores formidáveis. Eles conseguem ler padrões de pegadas, vegetação danificada, depósitos de estrume e vestígios de pelos para construir um quadro detalhado de eventos sobre uma ampla área. Um padrão de pegadas é um gráfico, um mapa, uma representação simbólica de uma série de incidentes no comportamento animal. Lembram-se do nosso zoólogo hipotético, cuja capacidade de reconstruir os ambientes passados pela leitura do corpo de um animal e de seu DNA justificava a declaração de que um animal é um modelo do seu ambiente? Não poderíamos dizer algo semelhante de um perito rastreador kungsan, que precisa apenas ler as pegadas na poeira de Kalahari para reconstruir um padrão detalhado, uma descrição ou um modelo de comportamento animal no passado recente? Apropriadamente lidos, esses rastros equivalem a mapas e desenhos, e parece-me plausível que a capacidade de lê-los tivesse surgido em nossos ancestrais antes da origem da fala com palavras.

Vamos supor que um bando de caçadores Homo habilis precisasse planejar uma caçada cooperativa. Num extraordinário e arrepiante filme para televisão de 1992, Too Close for Comfort, David Attenborough mostra chimpanzés modernos executando o que parece ser uma investida e emboscada cuidadosamente planejada e bem-sucedida contra um macaco colobo, que eles então despedaçam e comem. Não há razão para pensar que os chimpanzés se comunicaram entre si e bolaram algum plano detalhado antes de começar a caçada, mas todas as razões para pensar que o habilis poderia ter se beneficiado com esse tipo de comunicação se estivesse ao seu alcance. Como poderia essa comunicação ter se desenvolvido?


Suponhamos que um dos caçadores, que vamos imaginar como um líder, tem um plano para emboscar um eland e deseja transmiti-lo a seus colegas. Sem dúvida ele poderia imitar o comportamento do eland, talvez vestindo uma pele do animal para esse fim, como os caçadores fazem hoje em dia para fins de ritual ou entretenimento. Poderia imitar as ações que deseja ver os caçadores executarem: exagero estudado de movimentos furtivos ao aproximar-se da caça; visibilidade barulhenta na investida; sobressalto repentino na emboscada final. Mas há muito mais que ele também poderia fazer, e nisso ele se assemelharia a qualquer militar moderno. Ele poderia indicar os objetivos e planejar as manobras sobre um mapa da área.

Os nossos caçadores, podemos supor, são todos rastreadores exímios, com um sentido apurado em traçar, no espaço bidimensional, pegadas e outros vestígios: uma perícia espacial que talvez vá além de qualquer coisa que nós (a menos que por acaso sejamos caçadores kungsan) possamos facilmente imaginar. Estão todos plenamente acostumados à ideia de seguir um rastro e imaginá-lo traçado no chão como um mapa em tamanho natural e um gráfico temporal dos movimentos do animal. O que poderia ser mais natural para o líder do que pegar uma vara e desenhar na poeira um modelo em escala desse quadro temporal: um mapa do movimento sobre uma superfície? O líder e seus caçadores estão plenamente acostumados à ideia de que uma série de marcas de cascos indica o fluxo de gnus ao longo da margem lamacenta do rio. Por que ele não poderia traçar uma linha indicando o fluxo do próprio rio num mapa em escala sobre a poeira? Acostumados como todos estão a seguir as pegadas humanas de sua caverna-lar até o rio, por que o líder não poderia apontar no seu mapa a posição da caverna em relação ao rio? Movendo-se ao redor do mapa com a sua vara, o caçador poderia indicar a direção de onde viria o eland, o ângulo de sua proposta de investida, a localização da emboscada: indicá-los literalmente desenhando na areia.

Teria sido mais ou menos assim que nasceu a noção de uma representação em escala menor em duas dimensões – como uma generalização da habilidade importante de ler as pegadas dos animais? Talvez a ideia de desenhar a figura dos próprios animais tenha surgido da mesma origem. A marca na lama de um casco de gnu é obviamente uma imagem negativa do casco real. A marca fresca da pata de um leão provavelmente suscita medo. Teria ela também engendrado, num lampejo ofuscante, a percepção de que se poderia desenhar a representação de uma parte de um animal – e assim, por extrapolação, do animal inteiro? Talvez o lampejo ofuscante que deu origem ao primeiro desenho de um animal inteiro tenha vindo da marca de um animal morto, arrastado para fora da lama endurecida ao seu redor. Ou uma imagem menos distinta na grama poderia ter facilmente adquirido substância pelo próprio software de realidade virtual da mente.

“Porque a grama da montanha
Não pode deixar de manter a forma
Onde a lebre montesa se reclinou”
(W. B. Yeats, “Memory”, 1919)

Todos os tipos de arte representativa (e provavelmente também de arte não representativa) dependem da percepção de que se pode fazer com que alguma coisa signifique outra, e que isso pode ajudar o pensamento ou a comunicação. As analogias e as metáforas que estão subjacentes ao que tenho chamado de ciência poética – boa e má – são outras manifestações da mesma faculdade humana de criar símbolos. Vamos reconhecer um continuum, que poderia representar uma série evolucionária. Numa ponta do continuum, permitimos que algumas coisas representem outras coisas a que se assemelham – como nas pinturas de búfalos nas cavernas. Na outra ponta, estão símbolos que não se assemelham obviamente às coisas que representam – como na palavra “búfalo”, que só tem esse significado por causa de uma convenção arbitrária que todos os falantes da língua em questão respeitam. Os estágios intermediários ao longo do continuum podem, como disse, representar uma progressão evolucionária. Talvez nunca saibamos como foi que tudo começou. Mas talvez a minha história das pegadas signifique o tipo de percepção que pode ter ocorrido quando as pessoas começaram a pensar pela primeira vez por analogias, e assim tomaram consciência da possibilidade da representação semântica. Dando origem ou não à semântica, o mapa do meu rastreador se junta à língua como a minha segunda sugestão para uma inovação de software que pode ter desencadeado a espiral coevolucionária propiciadora da expansão do cérebro. Teria sido o desenho dos mapas que ajudou os nossos ancestrais a ultrapassar o limiar crítico que os outros macacos não conseguiriam cruzar?

A minha terceira inovação possível de software é inspirada numa sugestão feita por William Calvin. Ele propôs que os movimentos balísticos, como atirar projéteis contra um alvo distante, exigem operações computacionais especiais do tecido nervoso. A sua ideia era que a conquista desse problema específico, talvez originalmente para fins de caçada, capacitou o cérebro a realizar muitas coisas importantes como um produto secundário desse desenvolvimento.

Numa praia de seixos, Calvin divertia-se atirando pedras contra uma tora de madeira, e a ação inadvertidamente executou o iniciar (a metáfora é intencional) de uma produtiva cadeia de pensamentos. Que tipo de computação deve o cérebro realizar quando atiramos alguma coisa em um alvo, coisa que nossos ancestrais devem ter feito cada vez mais quando desenvolveram o hábito da caça? Um componente essencial de um arremesso preciso é a escolha do momento. Seja qual for a ação do braço preferida – arremessar com o braço por baixo, atirar ou lançar com o braço por cima, mover rapidamente o pulso –, o momento exato em que se libera o projétil é que faz toda a diferença. Vale pensar na ação com o braço por cima de um lançador de críquete (o lançamento difere do arremesso no beisebol, porque o braço deve se manter reto, e por isso facilita pensar na questão). Se a bola é lançada cedo demais, voa sobre a cabeça do batedor. Se é lançada tarde demais, afunda no terreno. Como é que o sistema nervoso realiza a façanha de lançar o projétil exatamente no momento certo, ajustado à velocidade do movimento do braço? Ao contrário de uma estocada com a espada, em que se pode guiar a arma por toda a trajetória até o alvo, o lançamento ou arremesso é balístico. O projétil deixa a mão do lançador e sai do seu controle. Há outros movimentos especializados, como pregar um prego, que são efetivamente balísticos, mesmo que a ferramenta ou arma não saia da mão. Toda a computação tem de ser feita previamente: “estabelecer a rota” às cegas.

Um modo de resolver o problema do momento de lançar o projétil, quando se arremessa uma pedra ou uma lança, seria computar as contrações necessárias dos músculos individuais no arremesso, quando o braço estava em movimento. Os computadores digitais modernos seriam capazes dessa façanha, mas os cérebros são lentos demais. Em vez disso, Calvin raciocinou que os sistemas nervosos, sendo lentos, funcionariam melhor com um armazenamento temporário de comandos automáticos para os músculos. Toda a sequência de lançar uma bola de críquete ou arremessar uma lança é programada no cérebro como uma lista pré-registrada de comandos de contração de músculos individuais, arrumada na ordem em que devem ser liberados.

Sem dúvida, os alvos mais distantes são os mais difíceis de atingir. Calvin espanou os seus compêndios de física e pesquisou como calcular a “janela de lançamento” decrescente, quando se tenta manter a precisão em arremessos cada vez mais longos. Janela de lançamento é jargão espacial. Os cientistas aeroespaciais (essa profissão proverbialmente talentosa) calculam a janela de oportunidade durante a qual devem lançar uma nave espacial, se quiserem atingir, digamos, a Lua. Se a nave é lançada cedo demais ou tarde demais, não atinge o alvo. Calvin calculou que, para um alvo do tamanho de um coelho a quatro metros de distância, a sua janela de lançamento tinha cerca de onze milissegundos de largura. Se ele lançasse a pedra demasiado cedo, ela passava por cima do coelho. Se a retivesse por tempo demais, a pedra caía antes de chegar ao alvo. A diferença entre demasiado cedo e demasiado tarde eram meros onze milissegundos, cerca de um centésimo de um segundo. Como é um especialista nas regulações de tempo das células nervosas, isso incomodou Calvin, porque ele sabia que a margem normal de erro de uma célula nervosa é maior que a janela de lançamento. Mas ele também sabia que bons lançadores humanos são capazes de atingir um alvo como um coelho a essa distância, mesmo correndo. Eu próprio nunca esqueci o espetáculo de meu contemporâneo de Oxford, o Nawab de Pataudi (um dos maiores jogadores de críquete da Índia, mesmo depois de perder um olho), competindo pela universidade e lançando a bola mais de uma vez com velocidade e precisão devastadoras, mesmo enquanto organizava o jogo da sua equipe, correndo a uma velocidade que visivelmente intimidava os batedores.


Calvin tinha um mistério para resolver. Como é que fazemos lançamentos tão bons? A resposta, ele decidiu, devia estar na lei dos números grandes. Nenhum circuito de regulação do tempo pode alcançar a precisão de um caçador kung que arremessa uma lança, ou a de um jogador de críquete que lança uma bola. Deve haver muitos circuitos de regulação do tempo funcionando em paralelo, os seus efeitos sendo calculados para que se alcance a decisão final de quando lançar o projétil. E agora eis a questão. Tendo desenvolvido uma população de circuitos de regulação do tempo e de sequência para um determinado fim, por que não empregá-los para outros objetivos? A própria língua depende de sequências precisas. O mesmo vale para a música, a dança, até para traçar os planos do futuro. O arremesso poderia ter sido o precursor da própria previsão? Quando lançamos a mente para a frente na imaginação, estamos realizando uma ação quase literal, além de metafórica? Quando a primeira palavra foi pronunciada, em algum lugar na África, o falante se imaginou lançando um projétil desde a sua boca até o ouvinte desejado?

O meu quarto candidato ao software que participa na coevolução software / hardware é o “meme”, a unidade cultural. Já o sugerimos, quando discutimos a “decolagem” em estilo epidêmico dos best-sellers. Nesse ponto, eu me apoio nos livros de meus colegas Daniel Dennett e Susan Blackmore, que têm marcado presença entre vários teóricos construtivos do meme, desde que a palavra foi cunhada pela primeira vez em 1976. Os genes são replicados, copiados de pais para filhos ao longo das gerações. Um meme é, por analogia, algo que se replica de cérebro para cérebro, via qualquer meio disponível de cópia. É uma questão em aberto se a semelhança entre o gene e o meme é boa ou má ciência poética. No computo geral, ainda acho que seja boa ciência poética, embora, se alguém procurar a palavra na Worldwide Web, irá encontrar muitos exemplos de entusiastas que se deixam arrebatar e vão longe demais. Até parece estar surgindo uma espécie de religião do meme – acho difícil decidir se é piada ou não...

Minha esposa e eu ocasionalmente sofremos de insônia, quando nossas mentes são possuídas por uma melodia que fica se repetindo na cabeça, implacavelmente e sem piedade, a noite inteira. Certas melodias são especialmente culpadas, por exemplo, “Masochismo Tango”, de Tom Lehrer. Não é uma melodia que tenha algum mérito (ao contrário da letra, com rimas brilhantes), mas é quase impossível livrar-se dela depois que se apodera da mente. Agora fizemos um pacto: se temos uma das melodias perigosas no cérebro durante o dia (Lennon e McCartney são outros grandes culpados), não as cantamos nem as assobiamos de modo algum perto da hora de dormir, por medo de infectar o outro. Essa noção de que uma melodia num cérebro pode “infectar” outro cérebro é pura conversa de memes.

O mesmo pode acontecer com alguém acordado. Dennet conta a seguinte anedota em A perigosa ideia de Darwin (1995):

“Outro dia, fiquei incomodado – aterrado – ao me pegar cantarolando uma melodia no meio de uma caminhada. Não era um tema de Haydn, Brahms, Charlie Parker, nem mesmo Bob Dylan: eu estava cantarolando com toda a força ‘It takes two to tango’ – um horroroso e irremediável pedaço de chiclete para os ouvidos que foi inexplicavelmente popular em algum período na década de 1950. Tenho certeza de que jamais na minha vida escolhi essa melodia, apreciei essa melodia ou de qualquer maneira a julguei melhor que o silêncio, mas ali estava ela, um horrível vírus musical, pelo menos tão robusto no pool dos memes quanto qualquer melodia que realmente aprecio. E agora, para piorar a situação, ressuscitei o vírus em muitos dos leitores, que vão sem dúvida me amaldiçoar nos próximos dias, quando se pegarem cantarolando, pela primeira vez em mais de trinta anos, essa melodia chata”.

Para mim, o refrão enlouquecedor nem sempre é uma melodia, mas uma frase repetida interminavelmente, não uma frase com significado evidente, mas apenas um fragmento de linguagem que eu ou alguma outra pessoa talvez tenha dito em algum momento durante o dia. Não está claro por que uma determinada frase ou melodia é escolhida, porém, uma vez instalada na cabeça, é extremamente difícil mudá-la. Continua a se repetir ao infinito. Em 1876, Mark Twain escreveu o conto “Um pesadelo literário”, sobre a sua mente ter sido possuída por um fragmento ridículo de uma ordem em forma de versos dada a um motorista de ônibus e sua máquina de coletar passagens, cujo refrão era “perfure na presença do passageiro”.

“Perfure na presença do passageiro”.
“Perfure na presença do passageiro”.

A frase tem o ritmo de um mantra, e quase não ousei citá-la por receio de infectar o leitor. Eu a tive circulando na minha cabeça um dia inteiro depois de ler a história de Mark Twain. O narrador de Twain finalmente se livrou da frase passando-a para o vigário, que por sua vez foi levado à demência. Esse aspecto de “porcos gadarenos” da história – a ideia de que se perde o meme ao passá-lo para outra pessoa – é a única parte que não soa verdadeira. Só porque se infectou outra pessoa com um meme não quer dizer que a mente se livrou dele.


Os memes podem ser boas ideias, boas melodias, bons poemas, bem como mantras tolos. Qualquer coisa que se espalha pela imitação, como os genes se espalham pela reprodução corporal ou por infecção virótica, é um meme. O seu principal interesse é que existe pelo menos a possibilidade teórica de uma verdadeira seleção darwiniana de memes, semelhante à familiar seleção dos genes. Esses memes que se espalham conseguem essa façanha porque são bons em se espalhar. A melodia implacável de Dennett, bem como a minha e a de minha esposa, era um tango. Há algo insidioso no ritmo do tango? Bem, precisamos de mais evidências. Mas é bastante razoável a ideia geral de que alguns memes talvez sejam mais infecciosos que outros por causa de suas propriedades inerentes.

Assim como no caso dos genes, podemos esperar que o mundo se encha de memes que são bons na arte de se fazerem copiar de cérebro para cérebro. Podemos notar que alguns memes, como o refrão de Mark Twain, têm realmente essa propriedade, sem que sejamos capazes de analisar o que lhes confere essa qualidade. Basta que os memes variem na sua capacidade de infectar para que a seleção darwiniana passe a funcionar. Às vezes podemos estimar o que confere ao meme essa capacidade de se espalhar. Dennett nota, por exemplo, que o meme da teoria da conspiração tem uma reação embutida à objeção de que não há boas evidências de conspiração: “É claro que não – o que mostra como é poderosa a conspiração!”.

Os genes vão se espalhar por pura eficácia parasita, como num vírus. Talvez consideremos um tanto vã essa propagação pela propagação, mas a natureza não está interessada em nossos julgamentos de futilidade ou de qualquer outra coisa. Se um código tem o necessário, ele se espalha e pronto. Os genes também podem se espalhar pelo que julgamos ser uma razão mais “legítima”, digamos, porque aperfeiçoam a acuidade visual de um gavião. Esses são os que primeiro nos ocorrem quando pensamos no darwinismo. Em A escalada do monte improvável, expliquei que o DNA de um elefante e o de um vírus são ambos programas de “Copie-me”. A diferença é que um deles tem uma digressão fantasticamente grande: “Copie-me construindo primeiro um elefante”. Contudo, os dois tipos de programa se espalham porque, a seus modos diferentes, são bons em se espalhar. O mesmo vale para os memes. Tangos monótonos sobrevivem nos cérebros e infectam outros cérebros por razões de pura eficácia parasita. Eles estão perto da extremidade viral do espectro. Grandes ideias na filosofia, percepções brilhantes na matemática, técnicas inteligentes para dar nós ou modelar potes sobrevivem no pool de memes por razões que estão mais perto da extremidade “legítima” ou “elefante” do nosso espectro darwiniano.

Os memes não poderiam se espalhar, se não fosse o fato de os indivíduos terem a tendência biologicamente valiosa de imitar. Há muitas boas razões para que a imitação tivesse sido favorecida pela seleção natural convencional que opera sobre os genes. Os indivíduos geneticamente predispostos a imitar têm uma facilidade para aprender habilidades que outros levam um longo tempo para elaborar. Um dos melhores exemplos é a disseminação do hábito de abrir garrafas de leite entre os chapins (o equivalente europeu das mejengras americanas). O leite é entregue em garrafas bem cedo nos degraus das portas britânicas, e ele geralmente ali permanece por um certo tempo antes de ser levado para dentro da casa. Um passarinho é capaz de furar a tampa, mas essa não é uma ação óbvia para um pássaro. O que aconteceu foi que uma série epidêmica de ataques a tampas de garrafas entre os chapins azuis (Parus caeruleus) se espalhou a partir de focos geográficos na Grã-Bretanha. Epidêmica é a palavra exata. Os zoólogos James Fisher e Robert Hinde conseguiram documentar a disseminação do hábito na década de 1940, quando se irradiou por imitação a partir dos pontos focais em que começou, descoberto presumivelmente por alguns pássaros isolados: ilhas de inventividade e fundadores de epidemias de memes.

É possível contar histórias semelhantes de chimpanzés. Pescar cupins enfiando gravetos no cupinzeiro é um hábito aprendido por imitação. Assim como a habilidade de quebrar castanhas com pedras sobre uma bigorna de madeira ou de pedra, ação que ocorre em certas áreas específicas do Oeste da África, mas não em outras. Os nossos ancestrais hominídeos certamente aprenderam habilidades vitais imitando-se uns aos outros. Entre os grupos tribais sobreviventes, a fabricação de ferramentas de pedra, a tecelagem, as técnicas da pesca, a arte de colmar, a cerâmica, a geração do fogo, a culinária, o trabalho em metal, todas essas habilidades são aprendidas pela imitação. As linhagens de mestres e aprendizes são o equivalente memético das linhagens genéticas ancestrais/descendentes. O zoólogo Jonathan Kingdon sugeriu que algumas das habilidades de nossos ancestrais começaram quando os humanos imitaram outras espécies. Por exemplo, as teias de aranha podem ter inspirado a invenção das redes para pesca e do cordão ou trançado; os ninhos do tecelão, a invenção dos nós ou da cobertura de colmo.

Ao contrário dos genes, os memes não parecem ter se associado com o objetivo de construir grandes “veículos” – corpos – para seu abrigo e sobrevivência conjuntos. Os memes dependem dos veículos construídos pelos genes (a menos que, como tem sido sugerido, a internet seja vista como um veículo de memes). Mas nem por isso os memes deixam de manipular com igual eficácia o comportamento dos corpos vivos. A analogia entre a evolução genética e a memética começa a ficar interessante quando aplicamos a nossa lição do “cooperador egoísta”. Como os genes, os memes sobrevivem na presença de certos outros memes. Uma mente pode se tornar preparada, pela presença de certos memes, a ser receptiva a determinados outros. Assim como o pool genético da espécie se torna um cartel cooperativo de genes, um grupo de mentes – uma “cultura”, uma “tradição” – torna-se um cartel cooperativo de memes, um memeplexo, como tem sido chamado. Como no caso dos genes, é um erro considerar o cartel inteiro como uma unidade que é selecionada como uma única entidade. O modo correto de considerar a questão é em termos de memes que se ajudam mutuamente, cada um providenciando um ambiente que favorece os outros. Sejam quais forem as limitações da teoria dos memes, acho provável que esse ponto específico, o de que uma cultura ou uma tradição, uma religião ou uma cor política cresce de acordo com o modelo do “cooperador egoísta”, seja pelo menos uma parte importante da verdade.


Dennett evoca vividamente a imagem da mente como uma estufa fervilhante de memes. E chega a defender a hipótese de que “a própria consciência humana é um imenso complexo de memes”. Ele apresenta esse ponto, junto com muitas outras ideias, de forma persuasiva e detalhada no seu livro Consciouness Explained (1991). Não tenho como resumir a série intricada de argumentos nesse livro, e vou me contentar com uma citação mais característica:

“O porto que todos os memes precisam atingir é a mente humana, mas a própria mente humana é um artefato criado quando os memes reestruturam um cérebro humano para torná-lo um melhor hábitat para os memes. As avenidas de entrada e saída são modificadas para se adaptarem às condições locais, e reforçadas por vários dispositivos artificiais que intensificam a fidelidade e a prolixidade de replicação: as mentes chinesas nativas diferem dramaticamente das mentes francesas nativas, e as mentes alfabetizadas diferem das mentes analfabetas. O que os memes dão em troca aos organismos em que residem é um estoque incalculável de vantagens – com alguns cavalos de Troia no meio para contrabalançar (...). mas, se é verdade que as mentes humanas são elas próprias, em grande medida, as criações de memes, então não podemos sustentar a polaridade de visão que consideramos antes; não pode ser “os memes versus nós”, porque infestações anteriores de memes já desempenharam um papel principal determinando quem ou o que somos nós”.

Há uma ecologia de memes, uma floresta tropical de memes, um cupinzeiro de memes. Os memes não só saltam de mente para mente por imitação na cultura. Esta é apenas a ponta facilmente visível do iceberg. Eles também prosperam, multiplicam-se e competem dentro de nossas mentes. Quando anunciamos ao mundo uma boa ideia, quem sabe que seleção subconsciente, quase darwiniana, não se passou nos bastidores dentro das nossas cabeças? As nossas mentes são invadidas por memes, assim como as antigas bactérias invadiram as células de nossos ancestrais e tornaram-se mitocôndrias. À maneira do Gato de Cheshire, os memes misturam-se às nossas mentes, até mesmo se tornam nossas mentes, assim como as células eucarióticas são colônias de mitocôndrias, cloroplastos e outras bactérias. Isso parece uma receita perfeita para espirais coevolucionárias e para o aumento do cérebro humano, mas, especificamente, o que impulsiona a espiral? Onde está a auto-alimentação, o elemento do “quanto mais se tem, mais se obtém”?

Susan Blackmore ataca essa questão formulando outra: “A quem devemos imitar?”. Os indivíduos que são os melhores na habilidade em questão, sem dúvida, mas há uma resposta mais geral à pergunta. Blackmore sugere que devemos imitar os melhores imitadores – é provável que eles tenham adquirido as melhores habilidades. E a sua próxima questão, “Com quem devemos nos acasalar?”, é respondida de modo semelhante. Nós nos acasalamos com os melhores imitadores dos memes mais em voga. Assim, não apenas os memes são selecionados pela capacidade de se espalhar, como também os genes são selecionados na seleção darwiniana comum pela sua capacidade de gerar indivíduos que são bons em espalhar memes. Não quero roubar o impacto da obra da Dra. Blackmore, pois tive o privilégio de ver de antemão o manuscrito de seu livro, The Meme Machine (1999). Vou simplesmente notar que aqui temos a coevolução software/hardware. Os genes constroem o hardware. Os memes são o software. A coevolução é o que pode ter impulsionado a inflação do cérebro humano.

Disse que voltaria à ilusão do “homenzinho no cérebro”. Não para resolver o problema da consciência, que está muito além da minha capacidade, mas para fazer outra comparação entre os memes e os genes. Em The Extended Phenotype, argumentei contra admitir o organismo individual. Não usei a palavra indivíduo no sentido consciente, e sim no sentido de um único corpo coerente, envolto por uma pele e dedicado ao objetivo mais ou menos unitário de sobreviver e reproduzir. O organismo individual, argumentei, não é fundamental para a vida, mas algo que surge quando os genes, que no início da evolução eram entidades separadas e em guerra, reúnem-se em grupos cooperativos, como “cooperadores egoístas”. O organismo individual não é exatamente uma ilusão. É demasiado concreto para ser ilusório. É, porém, um fenômeno secundário, derivado, montado toscamente como uma consequência das ações de agentes fundamentalmente separados e até em guerra. Não vou desenvolver, apenas fazer circular, seguindo Dennett e Blackmore, a ideia de uma comparação com os memes. Talvez o “eu” subjetivo, a pessoa que eu me sinto ser, seja o mesmo tipo de semi-ilusão. A mente é uma reunião de agentes fundamentalmente independentes e até em guerra. Marvin Minsky, o pai da inteligência artificial, deu ao seu livro de 1985 o nome de The Society of Mind. Quer esses agentes devam ser identificados com os memes ou não, o ponto que estou propondo é que o sentimento subjetivo de “alguém dentro do corpo” pode ser uma semi-ilusão montada, emergente, análoga ao corpo individual que emerge na evolução a partir da cooperação contrafeita dos genes.


Mas isso foi um aparte. Tenho procurado inovações de software que poderiam ter iniciado uma espiral auto-alimentadora de coevolução software/hardware para explicar a inflação do cérebro humano. Já mencionei a linguagem, a leitura de mapas, o arremesso de projéteis e os memes. Outra possibilidade é a seleção sexual, que introduzi como uma analogia para explicar o princípio da coevolução explosiva, mas será que ela poderia ter realmente impulsionado a inflação do cérebro humano? Os nossos ancestrais seduziam parceiros com uma espécie de cauda de pavão mental? O hardware do cérebro maior foi favorecido por causa de suas ostentosas manifestações de software, como talvez a capacidade de lembrar os passos de uma dança ritual formidavelmente complicada? Talvez.

Muitas pessoas vão considerar a própria linguagem o candidato mais convincente, bem como o mais evidente para o disparo de software na expansão do cérebro, e gostaria de voltar à linguagem a partir de outra perspectiva. Terence Deacon, em The Symbolic Species (1997), tem uma abordagem da linguagem à luz dos memes:

Não é demasiado forçado pensar nas línguas um pouco como pensamos nos vírus, negligenciando a diferença existente nos efeitos construtivos versus os destrutivos. As línguas são artefatos inanimados, padrões de sons e rabiscos em argila ou papel, que por acaso se insinuam nas atividades dos cérebros humanos, que replicam partes suas, montam-nas em sistemas e passam-nas adiante. O fato de a informação replicada que constitui uma língua não ser organizada num ser animado não a impede absolutamente de ser uma entidade integrada adaptável que evolui com respeito aos hospedeiros humanos”.

Deacon passa então a preferir um modelo “simbiótico” em vez de virulentamente parasita, traçando novamente a comparação com as mitocôndrias e outras bactérias simbióticas nas células. As línguas evoluem para se tornar boas em infectar os cérebros das crianças. Mas os cérebros das crianças, essas lagartas mentais, também evoluem para se tornar bons em serem infectados pela língua: coevolução mais uma vez.

Em “Bluspels and Flalansferes” (1939), C. S. Lewis nos lembra o aforismo do filólogo segundo o qual a nossa língua está cheia de metáforas mortas. Em seu ensaio de 1884, “The Poet”, o filósofo e poeta Ralph Waldo Emerson disse: “A língua é poesia fóssil”. Se não ocorre com todas as nossas palavras, certamente muitas delas começaram como metáforas. Lewis menciona attend (“atender, assistir”) como uma palavra que outrora significou stretch (“estender, esticar”). Se dou atenção a você, estico meus ouvidos na sua direção. Eu “pego” o significado, quando você “se reveste” de argumentos e “martela” o seu “ponto de vista”. “Entramos” num assunto, “abrimos” uma linha de pensamento. Escolhi deliberadamente casos de antepassados metafóricos recentes e, portanto, acessíveis. Os estudiosos da filologia vão cavar mais fundo (está vendo o que quero dizer?) e mostrar que até palavras cujas origens são menos evidentes foram outrora metáforas, talvez numa língua morta (viu?). A própria palavra língua vem da palavra latina para o órgão da língua.

Acabei de comprar um dicionário de gíria contemporânea, porque fiquei desconcertado ao ser informado por leitores americanos da cópia datilografada deste livro que algumas das minhas palavras inglesas favoritas não seriam compreendidas no outro lado do Atlântico. “Mug”, por exemplo, com o significado de tolo, bobo ou otário, não é compreendida nos Estados Unidos. Em geral, tenho me tranquilizado ao ver no dicionário quantas gírias são realmente universais no mundo anglófono. Mas fiquei mais intrigado com a espantosa criatividade de nossa espécie em inventar um estoque infindável de novas palavras e usos. “Parallel parking” (estacionar em fila dupla) ou “getting your plumbing snaked” (desobstruir o encanamento com um arame sinuoso) para a cópula; “idiot box” (caixa idiota) para a televisão; “park a custard” (estacionar um creme) para vomitar; “Christmas on a stick” (vara de Natal) para uma pessoa vaidosa; “nixon” para um negócio fraudulento; “jam sandwich” (sanduíche de presunto) para um carro de polícia; essas expressões de gíria representam o gume de uma espantosa riqueza de inovação semântica. E elas ilustram perfeitamente a ideia de C. S. Lewis. Será assim que todas as nossas palavras nasceram?


Como no caso dos “mapas das pegadas”, me pergunto se a capacidade de ver analogias, a capacidade de expressar significados em termos de semelhanças simbólicas com outras coisas, não teria sido o avanço crucial de software que levou a evolução do cérebro humano a cruzar o limiar e entrar numa espiral coevolucionária. Em inglês, usamos a palavra “mamute” como adjetivo, sinônimo de grande. A inovação semântica de nossos ancestrais não teria aparecido quando algum gênio poético pré-sapiente, lutando para transmitir a ideia de “grande” num contexto bastante diferente, teve a ideia de imitar ou desenhar um mamute? Não teria sido esse o tipo de avanço de software que empurrou a humanidade para dentro de uma explosão de coevolução software/hardware? Talvez não tenha sido esse exemplo particular, porque o tamanho grande é facilmente transmitido pelo gesto universal de que os pescadores jactanciosos tanto gostam. Mas até isso é um avanço de software em relação à comunicação dos chimpanzés na mata. E que tal imitar uma gazela para comunicar a graça delicada e tímida de uma menina, numa antecipação pliocena do verso de Yeats: “Duas meninas, ambas bonitas, uma delas gazela?” E que tal borrifar água de uma cuia, não somente para dar a ideia de chuva, o que é quase óbvio demais, mas também a ideia de lágrimas, tentando transmitir a tristeza? Os nossos remotos ancestrais habilis erectus não teriam imaginado – e solenemente descoberto o meio de expressar – uma imagem como a sobbing raim, “chuva soluçante”, de John Keats? (Embora, sem dúvida, as próprias lágrimas sejam um mistério evolucionário ainda não resolvido.)

Não importa como tenha começado, nem o seu papel na evolução da linguagem, nós humanos, de forma única no reino animal, temos o dom poético da metáfora: de notar quando certas coisas são como outras e usar a relação como um fulcro para nossos pensamentos e sentimentos. Esse é um aspecto do dom da imaginação. Talvez essa tenha sido a inovação-chave de software que desencadeou a nossa espiral coevolucionária. Podemos considerá-la um avanço-chave no software de simulação do mundo, que foi o tema do capítulo anterior. Talvez tenha sido o passo da realidade virtual delimitada, quando o cérebro simula um modelo do que os órgãos dos sentidos lhe estão transmitindo, para a realidade virtual ilimitada, quando o cérebro simula coisas que não existem realmente no momento – a imaginação, os sonhos acordados, os cálculos de “E se?” sobre futuros hipotéticos. E isso, finalmente, nos traz de volta à ciência poética e ao tema dominante em todo o livro.

Podemos tomar o software da realidade virtual em nossas cabeças e emancipá-lo da tirania de simular apenas a realidade utilitária. Podemos imaginar mundos que poderiam existir, bem como aqueles que existem. Podemos simular futuros possíveis, bem como passados ancestrais. Com a ajuda de memórias externas e artefatos de manipulação de símbolos – papel e canetas, ábacos e computadores –, estamos na posição de construir um modelo operante do universo e fazê-lo funcionar em nossa cabeça antes de morrer.


Podemos sair do universo. Quero dizer, no sentido de colocar um modelo do universo dentro de nossos crânios. Não um modelo supersticioso, tacanho, paroquial, cheio de espíritos e duendes, astrologia e magia, brilhando com falsos potes de ouro no fim do arco-íris. Um modelo grande, digno da realidade que o regula, atualiza e tempera; um modelo de estrelas e grandes distâncias, em que a nobre curva do espaço-tempo de Einstein rouba o lugar do arco da aliança de Javé, reduzindo-o a seu verdadeiro significado; um modelo poderoso, incorporando o passado, guiando-nos pelo presente, capaz de prosseguir adiante para nos oferecer construções detalhadas de futuros alternativos e nos dar a possibilidade de escolha.

“Só os seres humanos orientam o seu comportamento por um conhecimento do que aconteceu antes de seu nascimento e por uma preconcepção do que pode acontecer depois da sua morte; assim, apenas os humanos descobrem o seu caminho por uma luz que ilumina mais do que o terreno em que se encontram” (P. B. e J. S. Medawar, The Life Science, 1977).

A luz passa, mas, animadoramente, antes de passar, ela nos dá tempo para compreender um pouco este lugar em que efemeramente nos encontramos e a razão de aqui estarmos. Somos os únicos dentre os animais a prever o nosso fim. Somos também os únicos dentre os animais a poder dizer antes de morrer: “Sim, é por isso que valeu a pena viver”.

“Agora mais que nunca é sublime morrer,
Cessar à meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto derramas a tua alma no ar
Em puro êxtase!”
(John Keats, Ode to a Nightingale, 1820)

Um Keats e um Newton, escutando um ao outro, poderiam ouvir o canto das galáxias.


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