quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sobre a masturbação (Michel Foucault)

 Páginas 293-328 da obra "Os Anormais", do filósofo francês Michel Foucault
(Aula dada por Foucault em 5 de março de 1975, no Collège de France)

Michel Foucault (1926-1984)

Da última vez, tentei lhes mostrar como o corpo de desejo e de prazer apareceu, ao que parece, em correlação com a nova vaga de cristianização, a que se desenvolveu nos séculos XVI-XVII. Em todo caso, é esse corpo que, parece-me, se manifesta com volubilidade, com complacência, em todas as técnicas de governo das almas, de direção espiritual, de confissão detalhada; em suma, do que poderiamos chamar de penitência analítica. É também esse corpo de paixão e de desejo, a propósito do qual procurei lhes mostrar da última vez como ele investia, de volta, esses mecanismos de poder, como - por todo um jogo de resistências, de cumplicidades, de contrapoderes - ele adotava todos esses mecanismos que haviam tentado policiá-lo, para envolvê-los e fazê-los funcionar ao revés. E isso na forma exasperada da convulsão. Tentei por fim mostrar como, no próprio interior da tecnologia cristã de governo dos indivíduos, tinha-se tentado controlar os efeitos dessa carne convulsiva, desse corpo de movimento, de agitação e de prazer, e isso por diferentes meios, tanto nos estabelecimentos de ensino como nos seminários, nos internatos, nas escolas, nos colégios, etc.

Agora gostaria de procurar caracterizar a evolução desse controle da sexualidade no interior dos estabelecimentos de formação escolar cristã, sobretudo católica, nos séculos XVIII e XIX. De um lado, tendência cada vez mais nítida a atenuar a espécie de indiscrição tagarela, de insistência discursiva sobre o corpo de prazer, que marcava as técnicas do século XVII concernentes à direção das almas. Tenta-se apagar, de certo modo, todos esses incêndios verbais que se acendiam com a própria análise do desejo e do prazer, com a própria análise do corpo. Passa-se a borracha, esconde-se, metaforiza-se, inventa-se toda uma estilística da discrição na confissão e na direção de consciência: é Afonso de Ligório. Mas, ao mesmo tempo que se passa a borracha, que se esconde, que se metaforiza, ao mesmo tempo que se procura introduzir uma regra, se não de silêncio, em todo caso de 'discretio' máxima, ao mesmo tempo as arquiteturas, as disposições dos lugares e das coisas, a maneira como se arrumam os dormitórios, cuja vigilância é institucionalizada, a própria maneira como se constroem e se dispoem no interior de uma sala de aula os bancos e as carteiras, todo o espaço de visibilidade organizado com tanto cuidado (a forma, a disposição das latrinas, a altura das portas, a caçada aos cantos escuros), tudo isso, nos estabelecimentos escolares, substitui - para fazê-lo calar - o discurso indiscreto da carne que a direção de consciência implicava. Em outras palavras, os dispositivos materiais devem tornar inútil toda essa conversa incandescente que a técnica cristã pós-tridentina instituíra nos séculos XVI e XVII. A direção das almas poderá se tornar tanto mais alusiva, por conseguinte tanto mais silenciosa, quanto mais vigoroso o policiamento do corpo. Assim, nos colégios, nos seminários, nas escolas - para dizer tudo isso com uma só palavra -, fala-se o mínimo possível, mas tudo, na disposição dos lugares e das coisas, designa os perigos desse corpo de prazer. Dizer dele o menos possível, só que tudo fala dele.

Eis que, bruscamente - no meio desse grande silenciamento, no meio dessa grande transferência às coisas e ao espaço da tarefa de controlar as almas, os corpos e os desejos -, surge urn barulho de fanfarra, começa uma subita e ruidosa tagarelice, que não vai cessar por mais de um século (isto é, até o fim do século XIX) e que, de uma forma modificada, vai sem dúvida continuar até nossos dias. Em 1720-1725 (não lembro mais), aparece na Inglaterra um livro chamado Onania, que e atribuido a Bekker; em meados do século XVIII, aparece o famoso livro de Tissot; em 1770-1780, na Alemanha, Basedow, Salzmann, etc., também retomam esse grande discurso da masturbação. Bekker, na Inglaterra, Tissot, em Genebra, Basedow, na Alemanha: vocês estão vendo que estamos em pleno país protestante. Nao é nem um pouco surpreendente que esse discurso da masturbação intervenha nos países em que a direção de consciência na forma tridentina e católica, de um lado, e os grandes estabelecimentos de ensino, do outro, não existiam. O bloqueio do problema pela existência desses estabelecimentos de ensino, pelas técnicas da direção de consciência, explica que, nos países católicos, foi um pouco mais tarde que esse problema se colocou, e com tanto estardalhaço. Mas trata-se apenas de uma defasagem de alguns anos. Rapidamente, depois da publicação na França do livro de Tissot, o problema, o discurso, o imenso falatório sobre a masturbação começa e não para por todo um século.

Surge então, bruscamente, em meados do século XVIII, uma floração de textos, de livros, mas também de prospectos, de panfletos, sobre os quais é bom fazer duas observações. Primeiro, que, nesse discurso a propósito da masturbação, temos algo totalmente diferente do que poderiamos chamar de discurso cristão da carne (cuja genealogia já tentei lhes mostrar das últimas vezes); muito diferente tambem do que será, um século depois (a partir de 1840-1850), a 'psychopathia sexualis', a psicopatologia sexual, cujo primeiro texto é o de Heinrich Kaan, em 1844. Entre o discurso cristão da carne e a psicopatologia sexual surge, pois, muito especificamente, certo discurso da masturbação. Não é, de forma alguma, o discurso da carne, de que eu lhes falava da última vez, por um motivo bem simples, que logo se mamfesta: é que as próprias palavras, os próprios termos de desejo, paixão, não intervêm nunca. Venho percorrendo com bastante curiosidade, mas também com bastante aborrecimento, essa literatura de um certo número de meses para cá. Encontrei uma única vez esta menção: "Por que os adolescentes se masturbam?" E um médico, por volta de 1830-1840, teve de repente esta ideia: "Ora, deve ser porque lhes dá prazer!"

Por outro lado, o que também é interessante é que ainda não se trata, de forma alguma, do que será a psicologia sexual ou a psicopatologia sexual de Kaan, de Krafft-Ebing, de Havelock Ellis, na medida em que a sexualidade aí está praticamente ausente. É claro que há referências a ela. Faz-se alusão à teoria geral da sexualidade, tal como era concebida, nessa época, num clima de filosofia da natureza. Mas o que é interessantíssimo notar é que, nesses textos sabre a masturbação, a sexualidade 'adulta' não intervém praticamente nunca. Muito mais: a sexualidade da criança também não. É a masturbação, a própria masturbação, praticamente sem nenhum vínculo nem com os comportamentos 'normais' da sexualidade, nem mesmo com os outros comportamentos 'anormais'. Só encontrei duas vezes uma discretíssima alusão ao fato de que a masturbação infantil excessiva teria podido acarretar, em certos sujeitos, certas formas de desejo com tendencia homossexual. Mas, também, a sanção dessa masturbação exagerada, nesses dois casos, era muita mais a impotência do que a homossexualidade. Portanto o que é visado nessa literatura é a masturbação mesma, de certo modo destacada, se não totalmente despojada, do seu contexto sexual, é a masturbação em sua especificidade. Aliás, encontramos textos nos quais é dito que, entre a masturbação e a sexualidade 'normal', 'relacional', há uma verdadeira diferença de natureza e que não são, em absoluto, os mesmos mecanismos que levam alguém a se masturbar e a desejar outro. Logo o primeiro ponto é este: estamos numa espécie de região, não ouso dizer intermediária, mas perfeitamente diferente do discurso da carne e da psicopatologia sexual.

O segundo ponto sobre o qual eu queria insistir é o fato de que esse discurso sobre a masturbação adquire a forma muito menos de uma análise científica (embora a referência ao discurso científico seja forte nele: voltarei ao assunto), do que a forma de uma verdadeira campanha: trata-se de exortações, trata-se de conselhos, trata-se de injunções. Essa literatura é composta de manuais, alguns deles destinados aos pais. Por exemplo, há mementos [lembretes] do pai de familia, que encontramos até por volta de 1860, sobre a maneira de impedir as crianças de se masturbarem. Há tratados que são, ao contrário, destinados às crianças, aos adolescentes. O mais célebre é o famoso Livre sans titre, que não tem título mas contém ilustrações, isto é, de um lado, páginas em que são analisadas todas as 'consequências desastrosas' da masturbação e, na página em face, a fisionomia cada vez mais decomposta, devastada, esquelética e diáfana do jovem masturbador que se esgota. Essa campanha comporta igualmente instituições destinadas a curar ou tratar dos masturbadores, prospectos de remédios, anúncios de médicos que prometem às familias curar seus filhos desse 'vício'. Uma instituição, por exemplo, como a de Salzmann, na Alemanha, afirmava ser a única instituicãoo em tada a Europa em que as crianças nunca se masturbavam. Vocês encontram receitas, prospectos de remédios, de aparelhos, de ataduras, sobre os quais voltaremos. E terminarei esse rápido panorama do caráter de verdadeira campanha, de cruzada, dessa literatura antimasturbatória, com este pequeno fato. Foi organizado, parece, durante o Império (em todo caso, nos últimos anos do século XVIII-primeiros anos do século XIX, na França), um museu de cera a que os pais eram convidados a levar seus filhos, se estes apresentassem sinais de masturbação. Esse museu de cera representava precisamente, em forma de estatuas, todos os acidentes de saúde que [supostamente] podiam acontecer com alguém que se masturbava. Esse museu de cera, ao mesmo tempo museu Grevin e museu Dupuytren da masturbação, desapareceu de Paris, ao que parece, por volta dos anos 1820, mas há vestigios dele em Marselha em 1825 (e muitos médicos de Paris se queixam de não ter mais a sua disposição esse pequeno teatro). Nao sei se continua existindo em Marselha!

Então, problema. Como é que surgiu de repente essa cruzada em meados do século XVIII, com essa amplitude e essa indiscrição? Esse fenomeno é conhecido, não o invento. Ele suscitou certo número de comentários, e um livro relativamente recente de Van Ussel, que se chama Histoire de la repression sexuelle, dá bastante destaque, a meu ver com razão, a esse fenômeno do aparecimento da masturbação como problema no âmago do século XVIII. O esquema explicativo de Van Ussel é o seguinte. É apressadamente tirado, em linhas gerais, de Marcuse e consiste em dizer o seguinte. No momento em que se desenvolve a sociedade capitalista, o corpo, que era até então - diz Van Ussel - um "órgão de prazer", se torna e deve se tornar um "instrumento de desempenho", desempenho esse necessário às próprias exigências da produção. Donde uma cisão, uma cesura, no corpo, que é reprimido como órgão de prazer e, ao contrário, codificado, adestrado, como instrumento de produção, como instrumento de desempenho. Uma análise como essa não é equivocada, não pode ser equivocada, tao geral ela é; mas não creio que permita nos fazer avançar muito na explicação dos fenomenos sutis dessa campanha e dessa cruzada. De uma maneira geral, sinto-me um pouco incomodado, numa análise como essa, com o emprego de séries de conceitos que são, ao mesmo tempo, psicológicos e negativos: o fato de colocar no centro da análise uma noção como a de "repressão", por exemplo, ou de "recalque"; a utilização de noções como "órgão de prazer", "instrumento de desempenho". Tudo isso me parece ao mesmo tempo psicológico e negativo: de um lado, certo número de noções que podem talvez valer numa análise psicológica ou psicanalítica, mas que, a meu ver, não podem explicar a mecânica de um processo histórico; de outro, conceitos negativos, no sentido de que não põem em evidência o motivo pelo qual uma campanha como a cruzada antimasturbatória produziu certo número de efeitos positivos e constituintes, no interior mesmo da história da sociedade.

E há também duas coisas que me incomodam nessa história. É que, se é verdade que a campanha antimasturbatória do século XVIII se inscreve no processo de recalque do corpo de prazer e de exaltação do corpo com bom desempenho ou do corpo produtivo, há duas coisas porém que não se percebem direito. A primeira é a seguinte: por que se trata da masturbação precisamente, e não da atividade sexual em geral? Se era o corpo de prazer que se queria de fato reprimir ou recalcar, por que se exaltou e se salientou assim apenas a masturbação, em vez de questionar a sexualidade em sua forma mais geral? Ora, é só a partir dos anos 1850 que a sexualidade, em sua forma geral, vai ser interrogada médica e disciplinarmente. Por outro lado, é igualmente curioso que essa cruzada antimasturbatória se volte de forma privilegiada para as crianças, em todo caso para os adolescentes, e não para as pessoas que trabalham. Melhor ainda, trata-se essencialmente de urna cruzada que diz respeito às crianças e aos adolescentes dos meios burgueses. É sempre no interior desses meios, nos estabelecimentos escolares que lhes são destinados, ou ainda, e sempre a título de orientações dadas às famílias burguesas que a luta antimasturbatória é posta na ordem do dia. Normalmente, em linhas gerais, se se tratasse efetivamente da repressão pura e simples do corpo de prazer e da exaltação do corpo produtivo, teriamos de assistir a uma repressão da sexualidade em geral, mais precisamente da sexualidade do adulto que trabalha ou, se preferirem, da sexualidade operária adulta. Ora, temos algo totalmente diferente; o que vemos não é o questionamento da sexualidade, mas da masturbação, e da masturbação na criança e no adolescente burguês. Na minha opinião, é esse fenômeno que devemos tentar explicar, e por uma análise um pouco mais detalhada que a de Van Ussel.

Para tentar enxergar isso (não garanto de forma alguma que vou lhes oferecer uma solução, posso até lhes dizer que o que vou lhes apresentar como esboço de solução é sem dúvida bem imperfeito, mas precisamos avançar um pouco), seria necessário retomar não exatamente os temas dessa campanha, mas antes a tática, ou os diferentes temas da campanha, da cruzada, como indicadores de tática. A primeira coisa que salta aos olhos, claro, é o que poderíamos chamar (mas em primeira instância e sob reserva de um exame mais preciso) de culpabilização das crianças. De fato, basta olhar para perceber que, nessa cruzada antimasturbatória, não é tanto de culpabilizar as crianças que se trata. Ao contrário, é surpreendente ver que há um mínimo de moralização nesse discurso antimasturbatório. Por exemplo, fala-se pouquíssimo das diferentes formas de vício sexual ou outro que a masturbação poderia acarretar. Não temos uma grande gênese da imoralidade a partir da masturbação. Não é com uma vida adulta perdida de depravação e de vício que se ameaçam as crianças, quando se impede que elas se masturbem, mas com uma vida adulta tolhida pelas doenças. Ou seja, não se trata tanto de uma moralização, mas antes de uma somatização, de uma patologização. E essa somatização se faz de três formas diferentes.

Primeiro, temos o que poderíamos chamar de ficção da doença total. Regularmente, nesses textos da cruzada, vocês vão encontrar a descrição fabulosa de uma espécie de doença polimorfa, absoluta, sem remissão, que cumularia em si todos os sintomas de todas as doenças possíveis ou, em todo caso, uma qualidade considerável de sintomas. Todos os sinais da doença vem se superpor no corpo descamado e devastado do jovem masturbador. Exemplo (e não o tomo nos textos mais duvidosos, mais marginais da cruzada, mas no interior de urn texto cientifico): é o verbete de Serrurier no Dictionnaire des sciences medicales, dicionário que foi a bíblia do corpo médico sério do início do século XIX. Ei-lo: "Esse rapaz estava no marasma mais completo, sua vista tinha decaído inteiramente. Ele satisfazia onde quer que estivesse as necessidades da natureza. Seu corpo exalava urn odor particularmente nauseabundo. Tinha a pele terrosa, a língua vacilante, os olhos cavos, as gengivas todas retraídas e cobertas de ulcerações que anunciavam uma degeneração escorbútica. Para ele, a morte era o termo feliz de seus longos padecimentos." Vocês reconheceram aí, portanto, o retrato do jovem masturbador, com suas características fundamentais: esgotamento; perda de substância; corpo inerte, diáfano e debilitado; escorrimento perpétuo; jorro imundo do interior para o exterior; aura infecta envolvendo o corpo do doente; por conseguinte, impossibilidade dos outros se aproximarem dele; polimorfismo dos sintomas. O corpo inteiro está coberto e invadido; não resta livre uma só polegada quadrada. E, enfim, a morte está presente, pois o esqueleto já se lê nos dentes com as gengivas retraídas e nos olhos cavos. Estamos, eu quase ia dizendo, em plena ficção científica; mas, para não confundir os gêneros, digamos em plena fabulação científica, construída e transmitida na própria periferia do discurso médico. Digo na periferia, mas olhem que eu lhes citei o Dictionnaire des sciences medicales, para não citar, precisamente, um dos numerosos escritos publicados sob o nome de médicos, às vezes até por médicos mesmo, mas sem estatuto científico.

(Segunda forma de somatização:) O que é mais interessante é que essa campanha, que assume portanto a forma de fabulação científica da doença total, também é encontrada (em todo caso vocês podem encontrar seus efeitos e respostas, e certo número de elementos) na melhor literatura médica, a mais conforme as normas de cientificidade do discurso médico da época. Se, então, em vez de pegarem os livros consagrados à masturbação, vocês pegarem os diferentes livros que foram escritos sobre diferentes doenças pelos médicos mais oficiais da época, não vão encontrar a masturbação na origem dessa especie de doença fabulosa e total, mas como causa possível de todas as doenças possíveis. Ela figura constantemente no quadro etiológico das diferentes doenças. Ela é causa de meningite - diz Serres em sua Anatomie comparee du cerveaul. Ela é causa de encefalite e de inflamação das meninges - diz Payen em seu Essai sur l'encephalite. Ela é causa de mielite e de diferentes danos da medula espinhal - é o que diz Dupuytren num artigo para La lancette française, em 1833. Ela é causa da doença óssea e de degeneração dos tecidos ósseos - diz Boyer em Leçons sur les maladies des os, em 1803. Ela é causa de doença dos olhos, em particular da amaurose - é o que diz Sanson no verbete "Amaurose" do Dictionnaire de medicine et de chirurgie pratiques; é o que diz Scarpa em seu Traité de maladies des yeux. Blaud, num artigo para a Revue medicale de 1833, explica que ela intervém frequentemente, se não constantemente, na etiologia de todas as doenças cardíacas. Enfim, vocês tambem vão encontra-lá claro, no ponto de origem da tísica e da tuberculose - é o que já afirma Portal em suas Observations sur la nature et le traitement du rachitisme, em 1797. E essa tese do vínculo entre a tísica e a masturbação correrá ao longo de todo o século XIX. O caráter ao mesmo tempo fortemente honrado e perfeitamente ambíguo da jovem tísica, até o fim do século XIX, deve ser explicado em parte pelo fato de que a tísica sempre leva consigo seu hediondo segredo. E, claro, último ponto, vocês a encontram regularmente citada pelos alienistas na origem da loucura. Nessa literatura, ela ora aparece como causa dessa espécie de doença fabulosa e total, ora, ao contrário, ela é cuidadosamente repartida na etiologia das diferentes doenças.

Enfim, terceira forma sob a qual vocês vão encontrar o princípio da somatização: os médicos da época apelaram para e provocaram, por motivos que tentarei explicar daqui a pouco, uma espécie de verdadeiro delírio hipocondríaco entre os jovens, entre seus doentes; delírio hipocondríaco pelo qual os médicos tentavam fazer que os doentes relacionassem eles próprios todos os sintomas que podiam sentir a essa falta primeira e maior que seria a masturbação. Encontramos, nos tratados de medicina, em toda essa literatura de panfletos, de prospectos, etc., uma espécie de gênero literário que é a "carta do doente". A carta do doente era escrita ou era inventada pelos médicos? Algumas, as que são publicadas por Tissot, por exemplo, foram certamente compostas por ele próprio; outras são certamente autênticas. É todo um gênero literário, que é a pequena autobiografia do masturbador, autobiografia inteiramente centrada em seu corpo, na história de seu corpo, na história de suas doenças, de suas sensações, de todos os seus diferentes distúrbios, detalhada desde a sua infância, ou pelo menos desde a sua adolescência, até o momenta em que ele a confessa. Vou lhes citar apenas um exemplo disso, num livra de Rozier que se chama Les habitudes secretes chez les femmes. Eis o texto (aliás, um texto escrito por um homem, mas não tem importância): "Esse costume me jogou na mais terrível situação. Não tenho a menor esperança de conservar mais alguns anos de vida. Todos os dias me alarmo. Vejo a morte avançar a passos largos (...). Desde essa época, em que comecei meu mau costume, fui acometido de uma fraqueza que não parou de aumentar. De manhã, quando me levantava, (...) sentia ofuscações. Meus membros faziam ouvir em todas as suas articulações um barulho igual ao de um esqueleto que alguém agitasse. Meses depois, (...) ao levantar de manhã, eu sempre cuspia e assoava sangue, ora vivo, ora decomposto. Tinha ataques de nervos que não me deixavam mexer as braços. Sentia tonturas, e de tempo em tempo enjoos. A qualidade de sangue que expilo (...) não para de aumentar [e além do mais estou meio resfriado! M.F.]."

Logo, de um lado, a fabulação científica da doença total; em segundo lugar, a codificação etiológica da masturbação nas categorias nosográficas mais bem estabelecidas; enfim, organização, sob o comando e a conduta dos próprios médicos, de uma espécie de temática hipocondríaca, de somatização dos efeitos da masturbação, no discurso, na existência, nas sensações, no próprio corpo do doente. Não direi que houve transferência da masturbação, ou inscrição da masturbação no registro moral da falta. Direi, muito pelo contrário, que assistimos, através dessa campanha, a uma somatização da masturbação, que é fortemente remetida ao corpo, ou cujos efeitos, em todo caso, são fortemente remetidos ao corpo, por ordem dos médicos, até mesmo no discurso e na experiência dos sujeitos. Através de toda essa empresa que, como vocês estão vendo, está fortemente ancorada no interior do discurso e da prática médicos, através de toda essa fabulação científica, se esboça o que poderíamos chamar de potência causal inesgotável da sexualidade infantil, ou pelo menos da masturbação. Parece-me que assistimos em linhas gerais ao seguinte. A masturbação, por obra e injunção dos próprios médicos, está se instalando como uma espécie de etiologia difusa, geral, polimorfa, que permite referir a masturbação, isto é, a certo interdito sexual, todo o campo do patológico, e isso até a morte. Poderíamos encontrar várias confirmações disso no fato de que, nessa literatura, encontramos constantemente, por exemplo, a ideia de que a masturbação se caracteriza por não ter uma sintomatologia própria: qualquer doença pode derivar dela. Encontramos também essa ideia de que seu tempo de efeito é absolutamente aleatório: uma doença de velhice pode perfeitamente ser devida a uma masturbação infantil. No limite, alguém que morre de velhice morre da sua masturbação infantil e de uma espécie de esgotamento precoce do organismo. A masturbação está se tornando a causa, a causalidade universal de todas as doenças. No fundo, ao pôr a mão em seu sexo, a criança compromete de uma vez por todas, e sem poder medir as consequências, mesmo se já tem certa idade e é consciente, sua vida inteira. Em outras palavras, na mesma época em que a anatomia patológica estava identificando no corpo uma causalidade lesional que ia fundar a grande medicina clínica e positiva do século XIX, nessa época (isto é, fim do século XVIII-início do século XIX) desenvolvia-se toda uma campanha antimasturbatória que fazia surgir no dominio da sexualidade, mais precisamente no domínio do auto-erotismo e da masturbação, outra causalidade médica, outra causalidade patogênica que - em relação à causalidade orgânica que os grandes clínicos, os grandes anatomopatologistas do século XIX estavam identificando - desempenha um papel ao mesmo tempo supletivo e condicional. A sexualidade vai permitir explicar tudo o que, de outro modo, não é explicável. É também uma causalidade adicional, já que superpõe às causas visíveis, identificáveis no corpo, uma espécie de etiologia histórica, com responsabilidade do próprio doente por sua doença: se você está doente, é porque quis; se seu corpo foi atingido, é porque você o tocou.

Claro, essa especie de responsabilidade patológica do próprio sujeito por sua doença não é uma descoberta. Mas acho que ela passa, nesse momento, por uma dupla transformação. De fato, na medicina tradicional, na que ainda reina no fim do século XVIII, sabe-se que os médicos sempre procuravam atribuir certa responsabilidade ao doente por seus sintomas e suas doenças, e isso por intermédio do regime. Era o excesso no regime, eram os abusos, eram as imprudências, era isso tudo que tornava o sujeito responsável pela doença que sentia. Agora, essa causalidade geral se concentra de certo modo em torno da sexualidade, ou antes, da própria masturbação. A pergunta: "O que voce fez com sua mão?" começa a substituir a velha pergunta: "O que você fez com seu corpo?" Por outro lado - ao mesmo tempo que essa responsabilidade do doente para com sua doença passa do regime em geral à masturbação em particular -, a responsabilidade sexual, que até então, na medicina do século XVIII, era essencialmente reconhecida e atribuída às doenças venéreas, e apenas a estas, é agora estendida a todas as doenças. Assiste-se a uma interpenetração entre a descoberta do auto-erotismo e a responsabilização patológica: uma autopatologização. Em suma, a infância é acusada de responsabilidade patológica, o que o século XIX não esquecerá.

E assim, por esta espécie de etiologia geral, de potência causal concedida à masturbação, a criança fica responsável por toda a sua vida, por suas doenças e por sua morte. É responsavel, mas será culpada? É o segundo ponto sobre o qual gostaria de insistir. De fato, parece-me que justamente os participantes da cruzada insistiram muito sobre o fato de que a criança não podia ser considerada verdadeiramente culpada por sua masturbação. E por quê? Simplesmente porque nao há, de acordo com eles, causalidade endógena da masturbação. Claro, a puberdade, o aquecimento dos humores nessa época, o desenvolvimento dos órgãos sexuais, a acumulação dos líquidos, a tensão das paredes, a irritabilidade geral do sistema nervoso, tudo isso pode explicar muito bem que a criança se masturbe, mas a própria natureza da criança em seu desenvolvimento deve ser desculpada da masturbação. Aliás, Rousseau tinha dito: não se trata de natureza, trata-se de exemplo. É por isso que, quando colocam a questao da masturbação, os médicos da época insistem no fato de que ela não é ligada ao desenvolvimento natural, ao desabrochar natural da puberdade, e a melhor prova disso é que intervém antes. E vocês vão encontrar regularmente, desde o fim do século XVIII toda uma série de observações sobre a masturbação entre as crianças pré- púberes, até mesmo entre os nenéns. Moreau de la Sarthe faz uma observação sobre duas meninas que se masturbavam aos sete anos. Rozier, em 1812, observa uma pequena doente mental de sete anos, no asilo de crianças da Rue de Sevres, que se masturbava. Sabatier recolheu depoimentos de garotas que confessavam ter se masturbado antes dos seis anos. Cerise, em seu texto de 1836 sobre Le médecin des salles d'asile, diz: "Vimos numa sala de asilo (e em outros lugares) crianças de dois anos, de três anos, levadas a atos totalmente automáticos que pareciam anunciar uma sensibilidade especial." E, enfim, em seu Mémento du père de famille, de 1860, de Bourge escreve: "É preciso vigiar as crianças desde o berço".

A importância que se dá a essa masturbação pré-púbere decorre precisamente da vontade, de certo modo, de desculpar a criança ou, em todo caso, a natureza da criança desse fenomeno de masturbação que, em certo sentido porém, a torna responsavel por tudo  que lhe vai acontecer. Quem é o culpado, então? O culpado são os acidentes externos, isto é, o acaso. O doutor Simon, em 1827, em seu Traité d'hygiene appliquee ala jeunesse, diz o seguinte: "Muitas vezes, desde a mais tenra idade, por volta de quatro ou cinco anos, às vezes antes, as crianças entregues a uma vida sedentária são levadas pelo acaso (primeiro), ou atraídas por alguma comichão, a levar a mão às partes sexuais, e a excitação que resulta de uma leve fricção chama o sangue para esse ponto, causa uma emoção nervosa e uma mudança momentânea na forma do órgão, o que excita a curiosidade."

Vocês estão vendo: acaso, gesto aleatório, puramente mecânico, em que o prazer não intervém. O único momento em que o psiquismo está presente é a título de curiosidade. Mas, se o acaso é invocado, não o é na maioria das vezes. A causa da masturbação mais frequentemente invocada pela cruzada é a sedução, a sedução pelo adulto: a culpa vem do exterior. "Como poderemos nos persuadir - dizia Malo num texto que se chama Le Tissot moderne - de que, sem a comunicação de um masturbador, alguém possa se tornar por conta própria criminoso? Não, são os conselhos, as meias-palavras, as confidências, os exemplos, que despertam a ideia desse gênero de libertinagem. É preciso ter um coração muito corrompido para conceber, ao nascer, a ideia de um excesso contra a natureza, cuja monstruosidade plena nós mesmos mal podemos definir." Ou seja, a natureza não tem nada com isso. Mas e os exemplos? Pode ser o exemplo voluntariamente dado por uma criança maior, porém na maior parte dos casos se trata das incitações involuntárias e imprudentes dos pais, dos educadores, durante os cuidados da toalete, essas "mãos imprudentes que fazem cócegas", como diz um texto. Trata-se, também, de excitações voluntárias e, desta vez, mais perversas do que imprudentes por parte das babás, por exemplo, que querem fazer a criança dormir. Trata-se da sedução pura e simples por parte dos domésticos, dos preceptores, dos professores. Toda a campanha contra a masturbação se orienta, desde cedo, desde o início, podemos dizer, contra a sedução sexual das crianças pelos adultos; mais ainda do que pelos adultos, pelo entourage imediato, isto é, por todos os personagens que constituíam, na época, as figuras estatutárias da casa. O criado, a governanta, o preceptor, o tio, a tia, os primos, etc., é tudo isso que vai se interpor entre a virtude dos pais e a inocência natural das crianças, e que vai introduzir a dimensão da perversidade. Deslandes dizia, ainda em 1835: "Desconfiem acima de tudo das criadas; como é aos cuidados delas que as criancinhas são confiadas, elas muitas vezes buscam nestas uma compensação pelo celibato forçado que observam."

Desejo dos adultos pelas crianças, eis a origem da masturbação. E Andrieux cita um exemplo que foi repetido em toda a literatura da época e, por conseguinte, vocês hão de me permitir que eu o leia. Aqui também, ele faz de uma espécie de relato paroxístico, para não dizer fabuloso, o ponto dessa desconfiança fundamental; ou antes, ele assiná-la muito bem qual é o objetivo da campanha: é um objetivo contra a criadagem doméstica, no sentido mais amplo da palavra doméstico. Ela visa esses personagens do intermediário familiar. Uma menina estava definhando com sua ama-de-leite. Os pais se inquietam. Um dia, entram no quarto em que estava a ama e qual não foi a cólera dos pais, "quando encontram essa infeliz ama extenuada, sem movimento, com o bebê que ainda buscava, numa sucção pavorosa e inevitavelmente estéril [na vagina da ama], um alimento que somente os seios poderiam dar!!!" Estamos portanto em plena obsessão doméstica. O diabo está ali, ao lado da criança, sob a forma do adulto, essencialmente sob a forma do adulto intermediário.

Culpabilização, por conseguinte, desse espaço mediano e malsão da casa, muito mais que da criança, mas que remete, em última instância, à culpa dos pais, pois é porque os pais não querem cuidar diretamente dos filhos que esses acidentes podem se produzir. É a ausência de cuidado, é a desatenção, é a preguiça, é o desejo de tranquilidade deles o que finalmente está envolvido na masturbação das crianças. Afinal de contas, era só os pais estarem presentes e abrirem os olhos. Nessa medida, muito naturalmente, o ponto de chegada - e será esse o terceiro ponto importante nessa campanha - é o questionamento dos pais e da relação entre pais e filhos no espaço familiar. Os pais, nessa campanha feita a propósito da masturbação das crianças, são objeto de uma exortação ou, na verdade, de um questionamento mesmo: "Fatos assim - dizia Malo -, que se multiplicam ao infinito, tendem necessariamente a tornar os pais e as mães mais circunspectos." Essa culpa dos pais, a cruzada faz que ela seja pronunciada pelas próprias crianças, por esses pequenos masturbadores esgotados que estão com o pé na cova e que, no momento de morrer, se voltam uma derradeira vez para os pais e lhes dizem, como um deles, parece, numa carta reproduzida por Doussin-Dubreuil: "Como são bárbaros os pais, os professores, os amigos que não me avisaram do perigo a que leva esse vício." E Rozier escreve: "Os pais que abandonam, por um descuido condenável, seus filhos num vício que deve perdê-los, expoem-se a ouvir um dia este grito de desespero de uma criança que perecia assim numa derradeira falta: 'Ai de quem me perdeu!"'

O que se requer - é este, na minha opinião, o terceiro ponto importante dessa campanha -, o que se exige é, no fundo, uma nova organização, uma nova física do espaço familiar: eliminação de todos os intermediários, supressão, se possível, da criadagem doméstica, em todo caso vigilância estreita dos empregados domésticos, a solução ideal sendo precisamente a criança sozinha, num espaço familiar sexualmente asséptico. "Se fosse possível dar como única companhia a uma menina sua boneca - diz Deslandes - ou a um menino seus cavalos, seus soldadinhos e seus tambores, far-se-ia muito bem. Esse estado de isolamento não poderia deixar de lhes ser infinitamente vantajoso." Ponto ideal, se vocês quiserem, a criança sozinha com sua boneca e seu tambor. Ponto ideal, ponto irrealizável. Na verdade, o espaço da família deve ser um espaço de vigilância contínua. Na hora do banho, de deitar, de acordar, durante o sono, as crianças devem ser vigiadas. Em torno das crianças, em suas roupas, em seu corpo, os pais devem estar à espreita. O corpo da criança deve ser objeto da sua atenção permanente. É a primeira preocupação do adulto. Esse corpo deve ser lido pelos pais como um brasão ou como o campo dos indícios possíveis da masturbação. Se a criança tem uma tez descorada, se seu rosto está sem viço, se suas pálpebras tem urna cor azulada ou arroxeada, se há nela certo langor no olhar, se ela tern um ar cansado ou relaxado no momento em que levanta da cama - a causa é sabida: é a masturbação. Se é dificil tirá-la da cama na hora: é a masturbação. Necessidade de estar presente nos momentos importantes e perigosos, quando as crianças se deitam e quando se levantam.

Trata-se também, para os pais, de organizar toda uma série de ciladas graças às quais poderão pegar a criança no momento mesmo em que ela estiver cometendo o que não é tanto uma falta como o princípio de tadas as suas doenças. Eis o que Deslandes dá como conselho aos pais: "Fiquem atentos à criança que busca a sombra e a solidão, que fica muito tempo sozinha sem poder dar bons motivos para esse isolamento. Que sua vigilância se volte principalmente para os instantes que sucedem o deitar e precedem o levantar; é principalmente então que o masturbador deve ser pego em flagrante. Nunca suas mãos estão fora da cama, e geralmente ele gosta de ficar com a cabeça debaixo do cobertor. Mal deita, parece mergulhado num sono profundo: essa circunstância, de que o homem experiente sempre desconfia, é uma das que mais contribuem para causar ou alimentar a certeza dos pais. Descubram entao bruscamente o rapaz, encontrem suas mãos, se ele não teve tempo de mudá-las de lugar, nos orgãos de que ele abusa, ou na vizinhança destes. Também poderão encontrar o pênis em ereção, ou até mesmo vestígios de uma polução recente: esta poderia também ser reconhecida pelo cheiro especial que vem da cama, ou com que os dedos dele estão impregnados. Desconfiem em geral dos jovens que, na cama ou durante o sono, tem as mãos com frequência na atitude que acabo de descrever. Há portanto razões para considerar os vestígios espermáticos como provas certas de onanismo, quando os sujeitos ainda não são púberes, e como sinais mais que prováveis desse hábito quando os jovens são mais velhos."

Desculpem-me se lhes cito todos esses detalhes (e debaixo do retrato de Bergson!), mas é que acho que assistimos à instituição de toda uma dramaturgia familiar que todos conhecemos bern, que é a grande dramaturgia familiar do século XIX e do século XX: esse teatrinho da comédia e da tragédia de família, com suas camas, seus lençóis, com a noite, com os abajures, com as aproximações na ponta do pé, com os cheiros, com as manchas nos lençóis cuidadosamente inspecionados; tada essa dramaturgia que aproxima indefinidamente a curiosidade do adulto do corpo da criança. Sintomatologia miúda do prazer. Nessa aproximação cada vez mais estreita do adulto à criança, no momento em que o corpo da criança está em estado de prazer, vamos encontrar, no limite, a diretriz, simétrica à diretriz de solidão de que lhes falava há pouco, que é a presença física imediata do adulto ao lado, ao longo da criança, quase em cima da criança. Se necessário - dizem os médicos como Deslandes -, deve-se dormir ao lado do jovem masturbador para impedi-lo de se masturbar, dormir no mesmo quarto e, eventualmente, na mesma cama.

Há toda uma série de técnicas para melhor ligar de certo modo o corpo de um dos pais ao corpo da criança em estado de prazer. Assim, fazia-se as crianças dormirem de mãos amarradas com cordões e um cordão amarrado às mãos do adulto. De modo que, se a criança agitasse as mãos, o adulto seria acordado. É a história, por exemplo, deste adolescente que pedira ele próprio para ser amarrado numa cadeira, no quarto do irmão mais velho. Havia na cadeira uns sininhos, de modo que ele dormia assim; mas, bastava ele se agitar em seu sono querendo se masturbar, para que os sininhos se agitassem e o irmão acordasse. E também a história, contada por Rozier, dessa jovem interna cuja superiora percebe que ela tinha urn "hábito secreto". A superiora logo "treme" ao percebe-lo. "A partir desse instante", ela resolve compartilhar "à noite, sua cama com a jovem enferma; de dia, ela não a deixa escapar um só instante da sua vista". Assim, "alguns meses depois", a superiora (do convento ou do internato) pode devolver a interna a seus pais, que tiveram o orgulho de poder apresentar então ao mundo uma jovem cheia "de espírito, de saúde, de razão; enfim, uma mulher muito agradável"!

Sob essas puerilidades creio que há um tema importantíssimo, afinal de contas. É a diretriz da aplicação direta, imediata e constante do corpo dos pais ao corpo dos filhos. Desaparecimento dos intermediários - mas isso quer dizer, em termos positivos: doravante, o corpo das crianças deverá ser vigiado, numa especie de corpo-a-corpo, pelo corpo dos pais. Proximidade infinita, contato, quase mistura; aplicação imperativa do corpo de uns sobre o corpo dos outros; obrigação premente do olhar, da presença, da contiguidade, do contato. É o que diz Rozier a propósito do exemplo que lhes citei: "A mãe de uma doente como essa será, por assim dizer, como que a roupa, a sombra da filha. Quando algum perigo ameaça os filhotes da sarigueia [uma espécie de canguru], ela não se limita a temer por eles, mas os coloca dentro de si." Envolvimento do corpo da criança pelo corpo dos pais: estamos agora, a meu ver, no ponto em que se evidencia (e me desculpem pelo longo desvio, pelas marchas e contramarchas) o objetivo central da manobra ou da cruzada. É que se trata de constituir um novo corpo familiar.

A família aristocrática e burguesa (já que a campanha se limita precisamente a essas formas de família), até meados do século XVIII, era afinal essencialmente uma espécie de conjunto relacional, feixe de relações de ascendência, descendência, colateralidade, parentesco, primogenitura, aliança, que correspondiam a esquemas de transmissão de parentesco, de divisão e repartição dos bens e dos estatutos sociais. Era essencialmente às relações que se referiam efetivamente os interditos sexuais. O que está se constituindo é uma espécie de núcleo restrito, duro, substancial, maciço, corporal, afetivo da família: a família-célula no lugar da família relacional, a família-célula com seu espaço corporal, com seu espaço afetivo, seu espaço sexual, que é inteiramente saturado pelas relações diretas pais-filhos. Em outras palavras, não serei tentado a dizer que a sexualidade perseguida e proibida da criança é, de certa forma, a consequência da formação da família restrita, digamos conjugal ou parental, do século XIX. Direi, ao contrário, que ela é um dos seus elementos constituintes. Foi valorizando a sexualidade da criança, mais exatamente a atividade masturbatória da criança, foi valorizando o corpo da criança em 'perigo sexual' que se deu aos pais a diretriz imperativa de reduzir o grande espaço polimorfo e perigoso da gente da casa e constituir com seus filhos, sua progenitura, uma espécie de corpo único, ligado pela preocupação com a sexualidade infantil, pela preocupação com o auto-erotismo infantil e com a masturbação: pais, cuidem de suas filhas excitadas e das ereções de seus filhos, e é assim que vocês se tornarão verdadeira e plenamente pais!

Não se esqueçam da imagem da sariguéia dada há pouco por Rozier. Trata-se de constituir uma família-canguru: o corpo da criança como elemento nuclear do corpo da familia. Em torno da cama quentinha e duvidosa do adolescente, a família se solidifica. O que poderíamos chamar de a grande, ou se vocês preferirem, a pequena involução cultural da família, em torno da relação pais-filhos, teve como instrumento, elemento, vetor de constituição, o destaque dado ao corpo sexualizado da criança, ao corpo auto-erotizado da criança. A sexualidade não-relacional, o auto-erotismo da criança como ponto de junção, como ponto de ancoragem para os deveres, a culpa, o poder, a preocupação, a presença física dos pais, foi isso um dos fatores dessa constituição de uma família sólida e solidária, de uma família corporal e afetiva, de uma pequena família que se desenvolve no meio, e claro, mas também à custa da família-rede, e que constitui a família-célula, com seu corpo, sua substância fisico-afetiva, sua substância fisico-sexual.

É bem possível (quer dizer, assim suponho) que, historicamente, a grande família relacional, essa grande família feita de relações permitidas e proibidas, tenha se constituido sobre urn fundo de interdição do incesto. Mas eu direi, de minha parte, que a pequena família afetiva, sólida, substancial, que caracteriza nossa sociedade, da qual, em todo caso, vemos o nascimento no fim do século XVIII, constituiu-se a partir do incesto bolinante dos olhares e dos gestos em torno do corpo da criança. Foi esse incesto, esse incesto epistemofílico, esse incesto do contato, do olhar, da vigilância, foi ele que constituiu a base da família moderna.

Claro, o contato direto pais-filhos, tão imperativamente prescrito nessa célula familiar, dá absolutamente todo o poder aos pais sobre os filhos. Todo o poder, sim e não. Porque, na verdade, no momento mesmo em que os pais se encontram, graças à cruzada em questão, obrigados, intimados a assumir a vigilância meticulosa, detalhada, quase ignóbil do corpo de seus filhos, nesse mesmo momento e na medida mesma em que se prescreve isso a eles, eles são remetidos a outro tipo de relações e de controle. Eis o que quero dizer. No mesmo momento em que se diz aos pais: "Muito cuidado, vocês não sabem o que acontece no corpo de seus filhos, na cama de seus filhos", no mesmo momento em que se coloca a masturbação na ordem do dia moral, como diretriz quase primeira da nova ética da nova família, nesse mesmo momento, como vocês se lembram, inscreve-se a masturbação no registro não da imoralidade, mas da doença. Faz-se dela uma espécie de prática universal, uma espécie de "x" perigoso, desumano e monstruoso, de que toda doença pode derivar. De sorte que, necessariamente, liga-se esse controle parental e interno, que é imposto aos pais e às mães, a um controle médico externo. Pede-se ao controle parental interno que modele suas formas, seus critérios, suas intervenções, suas decisões, com base em razões e num saber médicos: é porque os filhos vão ficar doentes, e porque vai acontecer, no corpo deles, esta ou aquela perturbação fisiológica, funcional, eventualmente até lesional, que os médicos conhecem bem, é por causa disso - diz-se aos pais - que é preciso vigiá-los.

Logo, a relação pais-filhos, que está se solidificando assim numa espécie de unidade sexual-corporal, deve ser homogênea à relação médico-doente; ela deve prolongar a relação médico-doente. É preciso que esse pai ou essa mãe tão próximos do corpo das crianças, esse pai e essa mãe que cobrem literalmente com seu corpo o corpo dos filhos, sejam ao mesmo tempo um pai e uma mãe capazes de diagnosticar, sejam um pai e uma mãe terapeutas, sejam um pai e uma mãe agentes de saúde. Mas isso quer dizer tambem que o controle deles é subordinado, que ele deve se abrir a uma intervenção médica, higiênica, que deve, desde o primeiro alerta, recorrer à instância externa e científica do médico. Em outras palavras, no momento mesmo em que se encerra a família celular num espaço afetivo denso, investe-se essa família, em nome da doença, de uma racionalidade que a liga a uma tecnologia, a um poder e um saber médicos externos. A nova família, a família substancial, a família afetiva e sexual, é ao mesmo tempo uma família medicalizada.

Desse processo de fechamento da familia e de investimento desse novo espaço familiar pela racionalidade médica, apenas dois exemplos. Um é o problema da confissão. Os pais devem vigiar, espiar, chegar pé ante pé, levantar cobertas, dormir ao lado do filho; mas, descoberto o mal, tem de fazer o médico intervir imediatamente para curá-lo. Ora, essa cura só sera verdadeira e efetiva se o doente aceitá-la e participar. O doente tem de reconhecer seu mal; tem de compreender as consequências dele; tem de aceitar o tratamento. Em suma, tem de confessar.

Ora, está muito bern dito, em todos os textos dessa cruzada, que a criança não pode e não deve fazer essa revelação aos pais. Só pode fazê-la ao médico: "De todas as provas - diz Deslandes -, a que é a mais importante adquirir é uma confissão." Porque a confissão elimina "toda espécie de dúvida". Ela torna "mais franca" e "mais eficaz a ação do médico". Ela impede que o sujeito recuse o tratamento. Ela coloca o médico e "todas as pessoas que tem autoridade, numa posição que lhes permite ir direto ao assunto, e por conseguinte ter êxito". Do mesmo modo, num autor ingles chamado La'Mert, há uma interessante discussão sobre o fato de saber se a confissão deve ser feita ao médico da família ou a um especialista. E conclui: não, a confissão não deve ser feita ao médico da família, porque ele ainda é demasiado próximo desta. Ele só deve herdar os segredos coletivos, os segredos individuais devem ser contados a um especialista.

E temos, em toda essa literatura, uma longa série de exemplos de curas obtidas graças a confissões feitas ao médico. De modo que vamos ter uma sexualidade, uma masturbação da criança que é objeto de vigilância, de reconhecimento, de controle parental contínuo. Ora, essa sexualidade vai se tomar, ao mesmo tempo, objeto de confissão e de discurso, mas no exterior, do lado do médico. Medicalização interna da familia e da relação pais-filhos, mas discursividade externa na relação com o médico; silêncio da sexualidade nas fronteiras da família, onde no entanto ela aparece com toda a clareza pelo sistema de vigilância, mas onde ela aparece não deve ser dita. Em compensação, deve ser dita além das fronteiras desse espaço, ao médico. Por conseguinte, estabelecimento da sexualidade infantil no cerne mesmo do vínculo familiar, na mecânica do poder familiar, mas deslocamento da enunciação dessa sexualidade para a instituição e a autoridade médicas. A sexualidade é esse gênero de coisas que só podem ser ditas ao médico. Intensidade física da sexualidade na família, extensão discursiva fora da família e no campo médico. A medicina é que poderá dizer a sexualidade e fazer a sexualidade falar, no mesmo momento em que é a família que a faz aparecer, pois é a família que a vigia.

Outro elemento que mostra esse encadeamento do poder familiar ao poder médico é o problema dos instrumentos. Para impedir a masturbação, a família deve ser o agente transmissar do saber médico. Do corpo da criança à técnica do médico, a família deve no fundo servir simplesmente de intermediária e como que de correia de transmissão. Daí essas medicações que os médicos receitam para a criança e que a família deve dar. Temos toda uma série nesses prospectos, nesses textos médicos de que lhes falava. Temos os celebres camisolões, que vocês talvez ainda tenham visto, com cordão para amarrar embaixo; temos os corpetes; temos as ataduras. Temos o célebre cinto de Jalade-Laffont, que foi utilizado décadas a fio e que compreende uma espécie de corpete de metal para ser aplicado no baixo-ventre, tendo, para os meninos, uma espécie de tubo de metal, com certo número de furinhos na ponta para que possam urinar, aveludado no interior, e que é trancado a cadeado uma semana inteira. E uma vez por semana, na presença dos pais, abre-se o cadeado e limpa-se o garoto. Era o cinto mais empregado na França no início do século XIX. Temos os meios mecânicos, como a vareta de Wender, que foi inventada em 1811 e que consiste no seguinte. Você pega uma simples varinha, fende-a até certo ponto, tira seu miolo, coloca-a em torno do pênis do menino e amarra. Como diz Wender, isso basta para afastar qualquer tentação voluptuosa. Urn cirurgião como Lallemand propunha colocar uma sonda em permanência na uretra dos meninos. Parece que a acupuntura, em todo caso a colocação de agulhas nas regiões genitais, foi utilizada contra a masturbação por Lallemand, no início do século XIX. Temos os meios químicos, claro, os opiáceos utilizados por Davila, por exemplo, os banhos ou Javagens com diversas soluções. Larrey, cirurgião de Napoleão, também havia inventado um remédio meio drástico. Consistia no seguinte. Injeta-se na uretra do menino uma solução do que ele chama (não sei exatamente o que é) subcarbonato de sódio (será bicarbonato? Não tenho a menor ideia). Mas, antes disso, toma-se a precaução de amarrar solidamente o pênis na base, de maneira que essa solução de bicarbonato de sódio fique em permanência na uretra e não atinja a bexiga; o que, parece, provocava lesões que levavam vários dias ou semanas para sarar e, enquanto isso, o menino não se masturbavaCauterização da uretra, cauterização e ablação do clitóris, no caso das meninas. Foi Antoine Dubois, parece que no início do século XIX, que retirou o clitóris de uma doente que tinham tentado curar em vão, amarrando-lhe as mãos e as pernas. Seu clitóris foi tirado "com um só corte de bisturi" - diz Antoine Dubois. Depois, cauterizou-se o coto "com um ferro de cauterizar". O sucesso foi "completo". Graefe, em 1822, após um fracasso (ele tinha cauterizado a cabeça de uma enferma, isto é, tinha provocado um ferimento, uma cicatriz a fogo na cabeça da doente, e injetado tártaro na ferida para que ela não cicatrizasse, mas apesar de tudo a masturbação continuou), praticou a ablação do clitóris. E a "inteligencia" da doente - que se perdera inclusive, creio eu, que nunca tinha se desenvolvido antes (era uma jovem idiota) -, "mantida de certo modo no cativeiro até então, desabrochou"...

Por certo, discute-se no século XIX a legitimidade dessas castrações ou quase castrações, mas Deslandes, o grande teórico da masturbação, em 1835, diz que "tal determinação, longe de ofender o senso moral, é conforme as suas exigências mais severas. Faz-se como todos as dias, quando se amputa um membro: sacrifica-se o acessório pelo principal, a parte pelo todo". E, claro, diz ele, mesmo que se tire o clitóris de uma mulher, que inconveniente haveria nisso? "O maior inconveniente" seria colocar a mulher assim amputada "na categoria, já tao numerosa", das mulheres que sao "insensiveis" aos prazeres do amor, "o que não as impede de virem a ser boas mães e esposas-modelos". Ainda em 1883, um cirurgião como Garnier praticava a ablação do clitóris das meninas que se entregavam a masturbação.

Em todo caso - através de tudo isso que não há como não chamar de uma grande perseguição física da infância e da masturbação no século XIX, perseguição que, sem ter as mesmas consequências, tem quase a mesma amplitude das perseguições às bruxas nos séculos XVI-XVII -, constitui-se uma espécie de interferência e de continuidade medicina-doente. A medicina e a sexualidade são postas em contato por intermédio da família: a família - apelando para o médico, recebendo, aceitando e aplicando se necessário as medicações prescritas pelo médico - ligou uma a outra a sexualidade, de um lado, e essa medicina que praticamente, até então, só se ocupara de maneira muito distante e indireta da sexualidade. A própria família se tornou um agente de medicalização da sexualidade em seu próprio espaço. Assim, vemos se esboçarem relações complexas com uma espécie de divisão, já que há, de um lado, a vigilância muda, o investimento não discursivo do corpo da criança pelos pais e, depois, de outro lado, esse discurso extrafamiliar, científico, ou esse discurso de confissão, que é localizado apenas na prática médica, herdeira assim das técnicas da confissão cristã.

Ao lado dessa divisão, temos a continuidade, que faz nascer, com a família, na família, um procedimento perpétuo de medicina sexual, uma espécie de medicalização da sexualidade, medicalização cada vez mais acentuada, que introduz no espaço familiar as técnicas, as formas de intervenção da medicina. Em suma, um movimento de intercâmbio que faz a medicina funcionar como meio de controle ético, corporal, sexual na moral familiar e que faz surgir, por outro lado, como necessidade médica, os distúrbios internos do corpo familiar, centrado no corpo da criança.

Os vícios da criança, a culpa dos pais chamam a medicina a medicalizar esse problema da masturbação, da sexualidade da criança, do corpo em geral da criança. Uma engrenagem médico-familiar organiza um campo ao mesmo tempo ético e patológico, em que as condutas sexuais são dadas como objeto de controle, de coerção, de exame, de julgamento, de intervenção. Em suma, a instância da família medicalizada funciona como princípio de normalização. É essa família, à qual foi dado todo poder imediato e sem intermediário sobre o corpo da criança, mas que é controlada de fora pelo saber e pela técnica médicos, que faz surgir, que vai poder fazer surgir agora, a partir das primeiras décadas do século XIX, o normal e o anormal na ordem sexual. A familia é que vai ser o princípio de determinação, de discriminação da sexualidade, e também o princípio de correção do anormal.

Claro, haveria uma questão a que seria necessário responder, que é a seguinte: essa campanha de onde vem e que significa? Por que se faz surgir assim a masturbação como problema maior ou, em todo caso, como um dos problemas maiores colocados à relação entre pais e filhos? Creio que é necessário situar essa campanha no seio de um processo geral de constituição dessa família celular, de que lhes falava há pouco, processo que - apesar de seu fechamento aparente - leva de volta a criança, os indivíduos, os corpos e os gestos, a um poder que assume a forma do controle médico. No fundo, o que se pediu à família restrita, o que se pediu à família-célula, o que se pediu à família corporal e substancial, foi que se encarregasse do corpo da criança que, no fim do século XVIII, estava se tornando um desafio importante por duas razões. De um lado, pediu-se a essa família restrita que cuidasse do corpo da criança simplesmente porque a criança vivia e não devia morrer. O interesse político e econômico que se começa a descobrir na sobrevivência da criança é certamente um dos motivos pelos quais se quis substituir o aparelho frouxo, polimorfo e complexo da grande familia relacional pelo aparelho limitado, intenso e constante da vigilância familiar, da vigilância dos filhos pelos pais. Os pais tem de cuidar dos filhos, os pais tem de tomar conta dos filhos, nos dois sentidos: impedir que morram e, claro, vigiá-los e, ao mesmo tempo, educá-los. A vida futura das crianças está nas mãos dos pais. O que o Estado pede aos pais, o que as novas formas ou as novas relações de produção exigem é que a despesa, que é feita pela própria existencia da familia, dos pais e dos filhos que acabam de nascer, não seja tornada inútil pela morte precoce dos filhos. A família tem de se encarregar, por conseguinte, do corpo e da vida dos filhos - essa e certamente uma das razões pelas quais se pede que os pais deem uma atenção contínua e intensa ao corpo dos filhos.

Em todo caso, é nesse contexto que, a meu ver, se deve situar a cruzada antimasturbação. No fundo, ela nada mais e que um capítulo de uma espécie de cruzada mais vasta que vocês conhecem muito bem e que é a cruzada pela educação natural das crianças. Ora, o que é essa famosa ideia de uma educação natural, que se desenvolve durante a segunda metade do século XVIII? É a ideia de uma educação tal que, em primeiro lugar, seria inteiramente, ou no essencial, confiada aos próprios pais, que são os educadores naturais dos filhos. Tudo o que é criadagem, preceptores, governantas, etc., se necessários, não podem ser mais que um intermediário, e o intermediário mais fiel possível, dessa relação natural entre pais e filhos. Mas o ideal é que todos esses intermediários desapareçam e que os pais sejam efetivamente os encarregados diretos dos filhos. Mas educação natural tambem quer dizer o seguinte: essa educação deve obedecer a certo esquema de radicalidade, deve obedecer a certo número de regras que, precisamente, devem garantir a sobrevivência das crianças, de urn lado, e sua educação e desenvolvimento normalizado, do outro. Ora, essas regras e a racionalidade dessas regras são detidas por instâncias como os educadores, como os médicos, como o saber pedagógico, como o saber médico. Em suma, toda uma série de instâncias técnicas que balizam e sobrepujam a própria família. Quando se reivindica, no fim do século XVIII, a instituição de uma educação natural, trata-se ao mesmo tempo desse contato imediato de pais e filhos, dessa substantivação da pequena família em torno do corpo da criança e, ao mesmo tempo, da racionalização ou da penetrabilidade da relação pais-filhos por uma racionalidade e uma disciplina pedagógica ou médica. Restringindo assim a família, dando-lhe uma aparência tão compacta e estreita, faz-se que ela fique efetivamente penetrável por certo tipo de poder; faz-se que ela fique penetrável por toda uma técnica de poder, de que a medicina e os medicos são os transmissores junto às familias.

Ora, é aí que vamos encontrar a sexualidade, no mesmo momento em que se pede assim aos pais para, de certo modo, assumirem séria e diretamente o cuidado dos filhos em sua corporeidade mesma, em seu corpo mesmo, isto é, em sua vida, em sua sobrevivência, em sua possibilidade de educação, o que é que acontece pelo menos nas camadas sociais de que falei até agora, isto é, em linhas gerais na aristocracia e na burguesia? Nesse mesmo momento, pede-se aos pais não apenas para educarem as crianças para que elas possam ser úteis ao Estado, mas pede-se a essas mesmas famílias que cedam efetivamente seus filhos ao Estado, que confiem a este se não a educação de base, pelo menos a instrução, pelo menos a formação tecnica, a um ensino que será direta ou indiretamente controlado pelo Estado. A grande reivindicação de uma educação estatal, ou controlada pelo Estado, é encontrada exatamente no momento em que começa a campanha da masturbação na França e na Alemanha, por volta de 1760-80. É La Chalotois, com seu Essai sur l'education nationale; é o tema de que a educação deve ser garantida pelo Estado. Vocês vão encontrar, na mesma época, Basedow com seu Philantropinum, isto é, a ideia de uma educação destinada às classes favorecidas da sociedade, mas que não deveria ser feita no espaço duvidoso da família, e sim no espaço, controlado pelo Estado, de instituições especializadas. É, de qualquer modo, a época - fora inclusive desses projetos ou desses lugares exemplares e modelares, como o Philantropinum de Basedow - em que se desenvolvem através de toda a Europa os grandes estabelecimentos educacionais, as grandes escolas, etc.: "Nós necessitamos de seus filhos", dizem. "Confiem-nos a nós. E necessitamos, como vocês também necessitam, aliás, que esses filhos sejam normalmente formados. Logo, confiem-nos a nós para que os formemos de acordo com certa normalidade."

De sorte que, no momenta em que se pede que as famílias assumam o próprio corpo dos filhos, no momento em que se pede que garantam a vida e a sobrevivência dos filhos, também se pede que elas abram mão desses mesmos filhos, abram mão da presença real deles, do poder que podem exercer sobre eles. Claro, não é na mesma idade que se pede aos pais para cuidar dos filhos e abrir mão do corpo dos filhos. Mas pede-se um processo de troca: "Mantenham seus filhos bem vivos e bem fortes, corporalmente sadios, dóceis e aptos, para que possamos fazê-los passar por uma máquina que vocês não controlam, que sera o sistema de educação, de instrução, de formação, do Estado." Penso que, nessa espécie de duplo pedido: "Cuidem de seus filhos" e "Abram mão mais tarde desses mesmos filhos", o corpo sexual da criança serve, de certo modo, de moeda de troca. Diz-se aos pais: "Há no corpo da criança algo que, de qualquer modo, pertence imprescritivelmente a vocês, algo que vocês nunca terão de abandonar, porque isso nunca abandonará vocês: a sexualidade de seus filhos. O corpo sexual da criança, é isso que pertence e sempre pertencerá ao espaço familiar, e sobre isso ninguém nunca terá efetivamente poder e relação. Mas, em compensação, no mesmo momento em que nós constituimos para vocês esse campo de poder tão total, tão completo, nós lhes pedimos para nos ceder o corpo, - ou, se quiserem, a aptidão - de seus filhos. Nós lhes pedimos que nos entreguem esses filhos para que façamos deles aquilo de que necessitamos efetivamente."

Nessa troca, vocês percebem onde está o engodo, porque a tarefa atribuída aos pais é precisamente tomar posse do corpo dos filhos, cobri-lo, zelar de maneira tão contínua sobre ele que as crianças não possam nunca se masturbar. Ora, não apenas nunca nenhum pai impediu com real eficácia que seus filhos se masturbassem, mas os médicos da época o dizem crua e cinicamente: como quer que seja, todas as crianças de fato se masturbam. No fundo, atribui-se aos pais essa tarefa infinita da posse e do controle de uma sexualidade infantil que, como quer que seja, lhes escapará. Mas, graças a essa tomada de posse do corpo sexual, os pais entregarão esse outro corpo da criança, que é seu corpo de desempenho ou de aptidão.

A sexualidade da criança é o engodo por meio do qual a família sólida, afetiva, substancial e celular se constituiu e ao abrigo do qual a criança foi subtraída da família. A sexualidade das crianças foi a armadilha na qual os pais caíram. É uma armadilha aparente - quero dizer, uma armadilha real, mas destinada aos pais. Ela foi um dos vetores da constituição dessa família sólida. Ela foi um dos instrumentos de troca que permitiram deslocar a criança do meio da sua família para o espaço institucionalizado e normalizado da educação.

Foi essa moeda fictícia, sem valor, essa moeda falsa que ficou nas mãos dos pais; uma moeda falsa que os pais, no entanto, como vocês sabem, tem em grande apreço, pois ainda em 1974, quando se discute sobre dar educação sexual para as crianças na escola, os pais teriam o direito, se conhecessem a história, de dizer: faz dois séculos que nos tapeiam! Faz dois séculos que nos dizem: deem-nos seus filhos, mas nós garantimos a vocês que a sexualidade deles se desenvolverá num espaço familiar controlado por vocês. Deem-nos seus filhos e o poder de vocês sobre o corpo sexual deles, sobre o corpo de prazer, será mantido. E agora os psicanalistas começam a dizer: "A nós, a nós, o corpo de prazer das crianças!"; e o Estado, os psicólogos, os psicopatologistas, etc. dizem: "A nós, a nós, essa educação!" Aí é que está a grande tapeação na qual o poder dos pais caiu. Poder fictício, mas cuja organização fictícia permitiu a constituição real desse espaço de que se fazia tanta questão pelas razões que eu lhes dizia há pouco, esse espaço substancial em torno do qual a grande família relacional se encolheu e se restringiu, e no interior do qual a vida da criança, o corpo da criança foi ao mesmo tempo vigiado, valorizado e sacralizado. A sexualidade das crianças, a meu ver, diz muito menos respeito às crianças do que aos pais. Em todo caso, foi em torno dessa cama duvidosa que nasceu a família moderna, essa família moderna sexualmente irradiada e saturada, e medicalmente inquieta.

É essa sexualidade assim investida, assim constituída no interior da família, que os médicos - que desde fins do século XVIII já tem controle sobre ela - vão retomar em meados do século XIX, para constituir, com o instinto de que lhes falei nas sessões precedentes, o grande domínio das anomalias.


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