quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O deísmo de Abraham Lincoln

" 'Aqui jaz Jonni Kongapod.
Sê-lhe indulgente, bom Senhor,
Como se ele fosse Deus
E tu fosses Jonni Kongapod.'
Neste jovial epitáfio, que Lincoln escreveu para um índio, encontram-se os indícios de sua crença. Esta quadra exprime o auxílio fraterno, a reciprocidade, a camaradagem, o amor do próximo que o guiaram durante a vida; mas até nessa sepultura o cômico desfralda o galhardete de sua ironia. No próprio além-túmulo não admite uma justiça que não seja toda ela feita de racionalidade e senso de proporção. (...)
Todos os seus amigos testemunham que, dos vinte anos em diante, Lincoln nunca mais se expressou de modo que os autorizasse a considerá-lo um verdadeiro cristão. Já em Nova Salem fora apontado como incrédulo (...). 'Cerca dos trinta anos', refere Herndon [seu sócio no escritório de advocacia], 'Lincoln se aproximou do ateísmo dum modo que me assombrou. Nessa época, eu, ainda jovem estudante, acreditava no que minha boa mãe me ensinara. Ele, porém, chegava ao escritório em que ambos trabalhávamos, abria a Bíblia, lia alguma passagem e argumentava, para a refutar. Ostentava, então, a sua incredulidade. Depois tornou-se mais discreto e deixou de discutir tais problemas em presença de estranhos'. Quase nos mesmos termos, Stuart, seu primeiro sócio, confirma esse julgamento: 'Eu nunca tinha ouvido rebater de tal forma os dogmas e os princípios cristãos. Lincoln sempre negou que Jesus fosse o messias e o filho do Altíssimo, como ensina a Igreja'. (...) 'Ele dizia-me', narra uma quarta testemunha, 'que não descria inteiramente da imortalidade, mas nunca pudera admitir as penas eternas'. Um quinto observador fala da crença de Lincoln num Criador que seria, segundo Lincoln, 'o Princípio sob cuja ação se move o mundo, donde provém animais e plantas e cuja existência é demonstrada pela harmonia da natureza. Maior prodígio seria que tudo isso derivasse de si mesmo, em vez de ter sido criado por uma Força Onipotente' (...)".


(LUDWIG, Emil. Lincoln. Porto Alegre: Editora Globo, 1934, p. 173-174) 

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