quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A inutilidade social do clero (Voltaire)

(Capítulo 8 da obra "O homem dos quarenta escudos", de VOLTAIRE)


O Homem dos Quarenta Escudos torna-se pai
e discorre sobre os monges

Quando se viu pai de um menino, o homem dos quarenta escudos começou a julgar-se de algum peso no Estado; esperava dar ao menos dez súbditos ao rei, e todos eles úteis. Era o melhor cesteiro do mundo, e sua mulher uma excelente costureira. Nascera ela nas proximidades de uma grande abadia de cem mil libras de renda. Seu marido perguntou-me um dia por que motivo aqueles senhores, que eram tão pouco numerosos, haviam embolsado tantas porções de quarenta escudos. 

— São mais úteis à pátria do que eu? 

— Não, meu caro vizinho. 

— Concorrem, como eu, para o povoamento do país? 

— Não, pelo menos aparentemente

— Cultivam a terra? Defendem o Estado quando este sofre uma agressão? 

— Não; apenas rezam pelo senhor. 

— Pois bem! Eu rezarei por eles, e dividamos. Quantos desses úteis indivíduos, entre homens e mulheres, encerram os conventos do reino? 

— Segundo os memoriais dos intendentes de fins do século passado, havia cerca de noventa mil. 

— Por nossa velha conta, a quarenta escudos por cabeça, eles só deveriam possuir dez milhões e oitocentas mil libras. Quanto possuem? 

— Chega a uns cinqüenta milhões, contando as missas e coletes dos monges mendicantes, que na verdade agravam consideravelmente o povo. Um irmão pedinte de um convento de Paris vangloriou-se publicamente de que a sua sacola dava oitenta mil libras de renda. 

— E divididos os cinqüenta milhões pelas noventa mil cabeças tonsuradas, quanto toca a cada uma? 

— Quinhentas e cinqüenta e cinco libras. É uma soma considerável numa sociedade numerosa, em que as despesas diminuem devido à própria quantidade dos consumidores; pois custa muito menos a dez pessoas viverem juntas do que se cada uma tivesse o teto e a mesa em separado. 

- E os ex-jesuítas, a quem dão hoje quatrocentas libras de pensão, perderam então nesse negócio? 

— Não o creio: pois estão quase todos morando com parentes que os ajudam; vários dizem missa a dinheiro, o que não faziam antes; outros se fizeram preceptores, outros são sustentados por devotas, e cada qual se arranjou à sua maneira; e talvez poucos existam hoje que, tendo provado do mundo e da liberdade, queiram retomar as antigas cadeias. A vida monacal, por mais que se diga, não é de todo invejável. É máxima bastante conhecida que os monges são criaturas que se unem sem conhecer-se, vivem sem estimar-se, e morrem sem se lamentarem

— Acha então que se lhes prestaria um grande serviço, desfradando-os [isto é, secularizando-os] a todos? 

— Ganhariam bastante, sem dúvida, e o Estado ainda maisdevolver-se-iam à pátria cidadãos e cidadãs que sacrificaram temerariamente a sua liberdade em uma época em que as leis não permitem que se disponha de um fundo de dez soldos de renda; tirar-se-iam esses cadáveres dos túmulos: seria uma verdadeira ressurreiçãoAs suas casas seriam prefeituras, hospitais, escolas, fábricas. A população aumentaria e todas as artes seriam melhor cultivadas. Poder-se-ia ao menos limitar o número dessas vítimas voluntárias, fixando o número dos noviços. A pátria teria mais homens úteis e menos infelizes. É o sentir de todos os magistrados, é o desejo unânime do público, desde que os espíritos se esclareceram, e o exemplo da Inglaterra e de tantos outros Estados é uma prova evidente da necessidade de tal reforma. Que seria hoje da Inglaterra se, em vez de quarenta mil marinheiros tivesse quarenta mil padres? Quanto mais se multiplicam as artes, mais necessário é o número de súditos laboriosos. Há sem dúvida pelos claustros muitas inteligências sepultas, que estão perdidas para o Estado. É preciso, para que um reino floresça, o mínimo possível de padres e o máximo possível de artesãos. A ignorância e barbaria de nossos país, longe de constituir uma regra para nós, não são mais que um aviso para fazermos o que eles fariam, se estivessem em nosso lugar, com as nossas luzes

— Quer dizer que não é por ódio aos monges que deseja o senhor aboli-los? É por piedade deles? E por amor à pátria? Sou do seu parecer. Não desejaria que meu filho fosse padre. E, se sonhasse que iria ter filhos para o claustro, não deitaria com a minha mulher

— Qual é, com efeito, o bom pai de família que não chore ao ver seu filho ou filha perdidos para a sociedade? Chamam a isto salvar-se; mas um soldado que se salva quando deve combater, é punido. Somos todos soldados do Estado; estamos a soldo da sociedade, e tornamo-nos desertores quando a deixamos. Que digo? Os monges são parricidas que aniquilam uma posteridade inteira. Noventa mil enclausurados, que berram ou fanhoseiam latim, poderiam dar, cada um, dois súditos ao Estado: o que soma cento e oitenta mil homens que eles fazem perecer ainda em germe. Ao cabo de cem anos, a perda é imensa, coisa que se demonstra por si mesma. 

— Por que então prevaleceu o monaquismo? 

— Porque o governo, desde Constantino, foi, quase por toda parte, detestável e absurdo; porque o império romano teve mais sacerdotes que soldados; porque só no Egito havia cem mil; porque eram isentos de trabalho e impostos; porque os chefes das nações bárbaras que destruíram o império, tendo-se feito cristãos para governar cristãos, exerceram a mais horrível tirania; porque as pessoas se lançavam em multidão nos claustros para escapar ao furor desses tiranos, e mergulhavam numa escravidão para evitar uma outra; porque os papas, instituindo tantas ordens diferentes de mandriões sagrados, constituíram outros tantos súditos nos outros Estados; porque um camponês prefere ser chamado meu reverendo padre e distribuir bênçãos a conduzir a charrua; porque não sabe que a charrua é mais nobre que a batina; porque gosta mais de viver à custa dos tolos do que por um trabalho honrado; enfim, porque não sabe que, fazendo-se monge, reserva para si mesmo dias infelizes, tecidos de tédio e arrependimento. 

— Basta, pois, de monges, para felicidade nossa e dos próprios monges. Mas causa-me aflição ouvir ao senhor de minha aldeia, pai de quatro filhos e três filhas, que não saberá como os estabelecer se não mandar as filhas para um convento. 

— Essa alegação, tantas vezes repetida, é inumana, antipatriótica e destrutora da sociedade. Todas as vezes que se possa dizer de uma condição, qualquer que seja: “Se todos se submetessem a esta condição, estaria perdido o gênero humano”, está demonstrado que essa condição não vale nada e que aquele que a abraça prejudica o gênero humano. Ora, é claro que, se todos os jovens de ambos os sexos se enclausurassem, o mundo pereceria; já só por isso, a fradaria é inimiga da natureza humana, independentemente dos terríveis males que efetivamente algumas vezes lhe causou

— Não se poderia dizer o mesmo dos soldados? 

— Certamente que não: pois, se cada cidadão se exercita nas armas, como outrora em todas as Repúblicas, e sobretudo na de Roma, não deixa o soldado de ser melhor cultivador; o soldado cidadão casa-se, e combate pela mulher e pelos filhos. Prouvera a Deus que todos os lavradores fossem soldados e esposos! Seriam assim excelentes cidadãos. Mas um monge só serve, como monge, para devorar a substância de seus compatriotas. Não há verdade mais reconhecida. 

— Mas e as filhas dos gentis-homens pobres, que não podem casar, que farão elas? 

— Farão, como já se disse mil vezes, o que fazem as da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda, da Suíça, da Holanda, de metade da Alemanha, da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Tartária, da Turquia, da África, e de quase todo o resto da terra. Serão melhores esposas e mães, quando os homens se tiverem acostumado, tal como na Alemanha, a tomar esposas sem dote. Uma mulher laboriosa e afeita às lides domésticas será de mais utilidade numa casa do que a filha de um financista, que, só em superfluidades, gasta mais do que trouxe ao marido. Cumpre que haja casas de retiro para a velhice, para a invalidez, para a deformidade. Mas devido ao mais detestável dos abusos, só existem fundações para a juventude e para as pessoas bem conformadas. Começa-se, nos claustros, por obrigar os noviços de um e outro sexo a patentear sua nudez, apesar de todas as leis do pudor; são atentamente examinados por diante e por trás. Vá uma velha corcunda apresentar-se para entrar num convento, e será ignominiosamente escorraçada, a menos que contribua com um dote imenso. Que digo? Toda religiosa deve trazer seu dote, sem o que se transformará no rebotalho do convento. Nunca se viu mais intolerável abuso. 

— Bem, senhor, juro-lhe que as minhas filhas jamais serão religiosas. Aprenderão a fiar, a coser, a fazer renda, a bordar, a ser úteis, em sumaConsidero os votos como um atentado contra a pátria e contra si mesmo. Mas como se explica que um de meus amigos, para contrariar o gênero humano, alegue que os monges são muito úteis à população de um estado, porque as suas casas têm melhor passadio que as dos senhores e as suas terras melhor cultivo? 

— E que amigo é esse, que faz uma asserção tão estranha? 

— É o Amigo dos Homens, ou antes, dos monges. 

— Estava brincando, com certeza; bem sabe ele que dez famílias, cada uma com cinco mil libras de rendas da terra, são cem vezes, mil vezes mais úteis do que um convento que desfruta de uma renda de cinqüenta mil libras e que tem sempre um tesouro secreto. Louva as belas casas construídas pelos monges, e é precisamente o que irrita os cidadãos; é motivo das queixas da Europa. O voto de pobreza condena os palácios, assim como o voto de aniquilar a própria raça está em contradição com a natureza. 

— Começo a crer que se deve desconfiar dos livros. 



— Deve-se é proceder com eles como com os homens, escolher os mais razoáveis, examiná-los, e só se render à evidência...

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