quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Efeito Placebo


Efeito Placebo: O Poder da Pílula de Açúcar

- Texto de Julio Rocha do Amaral e Renato M. E. Sabbatini -

Quando um medicamento é receitado ou administrado a um paciente, ele pode ter vários efeitos. Alguns deles dependem diretamente do medicamento, ou seja, de sua ação farmacológica. Existe, porém, um outro efeito, que não está vinculado à farmacologia do medicamento, e que também pode aparecer quando se administra uma substância farmacologicamente inativa. É o que denominamos “efeito placebo”. É um dos fenômenos mais comuns observados na medicina, mas também um dos mais misteriosos.

O efeito placebo é poderoso. Em um estudo realizado na Universidade de Harvard, testou-se sua eficácia em uma ampla gama de distúrbios, incluindo dor, hipertensão arterial e asma. O resultado foi impressionante: cerca de 30 a 40% dos pacientes obtiveram alívio pelo uso de placebo!

Além disso, ele não se limita a medicamentos, mas pode aparecer em qualquer procedimento médico. Em uma pesquisa sobre o valor da cirurgia de ligação de uma artéria no tórax na angina de peito (dor provocada por isquemia cardíaca crônica), o placebo consistia em apenas anestesiar o paciente e cortar a pele. Pois bem: os pacientes operados ficticiamente tiveram 80% de melhora. Os que foram operados de verdade tiveram apenas 40%. Em outras palavras: o placebo funcionou melhor que a cirurgia.

O que é o efeito placebo? Como ele pode ser explicado?

Neste artigo vamos examinar as bases neurobiológicas do efeito placebo, de acordo com as hipóteses mais recentes. Estudar e compreender melhor o efeito placebo e seu  lugar na medicina tem grande importância para o próprio ato terapêutico, além de ter grandes repercussões éticas na prática e na pesquisa médica. Vamos concentrar nossas explicações sobre um tipo específico de placebo, que é o agente farmacológico (medicamento). Mas os princípios discutidos podem ser generalizados para qualquer tipo de placebo.

O que é o efeito placebo?

A palavra placebo deriva do latim, do verbo “placere”, que significa “agradar”. Uma boa definição é a seguinte: “Placebo é qualquer tratamento que não tem ação específica nos sintomas ou doenças do paciente, mas que, de qualquer forma, pode causar um efeito no paciente.”

Note bem a diferença: placebo é o tratamento inócuo. Efeito placebo é quando se obtém um resultado a partir da administração de um placebo.

O conhecimento sobre o efeito placebo ampliou-se muito com a necessidade da medicina de realizar ensaios clínicos controlados, que são uma metodologia científica muito utilizada para determinar a eficácia terapêutica de novos fármacos.

Nestes ensaios administra-se obrigatoriamente um placebo a um grupo controle de pacientes, e depois se compara os resultados com os obtidos no grupo que recebe a medicação ativa, cuja ação se pretende demonstrar. Quanto maior a diferença nos resultados entre o segundo e o primeiro grupos, maior a eficácia farmacológica da substância em estudo.

Os médicos logo notaram nesses estudos que os placebos tinham muito mais efeitos sobre a doença estudada do que podia se esperar. Em alguns casos, os efeitos colaterais (indesejados) dos placebos chegavam a ultrapassar os do medicamento ativo. Em consequência, houve um aumento grande nas pesquisas científicas com a finalidade de esclarecer melhor o que é esse efeito, por que ocorre, qual a sua base fisiológica, etc.

Como o efeito placebo pode ser real, ou seja, provocar mudanças benéficas no paciente, ele pode ser útil na prática clínica. Isso é inclusive permitido pelo código de ética médica.

Tipos de placebo

Os placebos são classificados em dois tipos: inertes ativos.
Placebos inertes — são aqueles realmente desprovidos de qualquer ação farmacológica, cirúrgica, etc.
Placebos ativos — são os que têm ação própria, embora, às vezes, não específica para a doença para a qual estão sendo administrados.

Diz-se que os placebos têm efeito positivo quando o paciente relata alguma melhora, e efeito negativo quando eles relatam que houve piora ou surgimento de algum efeito colateral desagradável (nesse caso o placebo é chamado de nocebo, palavra que deriva do latim nocere, ou provocar dano).

Uma conclusão interessante é a seguinte: toda medicação administrada, além do seu efeito real farmacológico, tem também um efeito placebo, e eles dificilmente podem ser separados um do outro.

O que causa o efeito placebo?

Surge então a pergunta: se o efeito placebo não deriva de uma ação provocada no organismo do paciente, de onde vem ele?

A ciência médica ainda não explicou completamente qual a causa (ou causas) do efeito placebo. Mas, ao que parece, ele resultaria da espera do efeito por parte do paciente.

Como se explica isso? Existem diversas teorias, decorrentes de diversas escolas da psicologia. A que adotaremos aqui, e que parece ser uma das mais prováveis, é a do reflexo condicionado. Você deve se lembrar dele: foi descoberto por um fisiologista russo chamado Ivan Pavlov no final do século passado, que ganhou o primeiro prêmio Nobel de Medicina, em 1902. Ele é conhecido popularmente pelo famoso experimento do cão que salivava ao ouvir um sino.

A ideia geral é que o efeito placebo surge como um reflexo condicionado involuntário por parte do organismo do paciente. A seguir veremos como isso acontece.

Reflexos Condicionados

Segundo a teoria de Pavlov, podemos compreender o funcionamento do sistema nervoso como dependente de reflexos, ou seja, respostas a estímulos provenientes do meio externo ou do interno. Um estímulo sensorial, venha de dentro ou de fora do organismo, atinge um receptor e provoca modificação das condições orgânicas e, em consequência, uma resposta que pode ser motora, secretora ou vegetativa.

Existem dois tipos de reflexos: condicionados e incondicionados. Os reflexos incondicionados são aqueles com os quais os animais nascem, adquiridos ao longo da evolução de sua espécie, ou filogênese. Por exemplo, se colocarmos comida na boca de um cão, ele começa a salivar. Isso está determinado dentro do seu próprio sistema nervoso.

Os reflexos condicionados são aqueles que os animais adquirem durante suas vidas, ou ontogênese. Eles são um dos tipos de aprendizado de que o sistema nervoso é capaz. À medida que determinados estímulos ambientais vão agindo sobre eles, formam respostas condicionadas a esses estímulos. Logicamente, para que essas respostas condicionadas surjam, elas têm que se basear em respostas incondicionadas. No experimento clássico de Pavlov, tocar o sino não causava nenhuma salivação no cão, mas depois dele apresentar o sino repetidamente em conjunto com o estímulo incondicionado (a comida), o cão começou a salivar em resposta ao sino.

Pavlov definiu o reflexo condicionado como: “uma conexão nervosa temporária entre um dos inumeráveis fatores do ambiente e uma atividade bem determinada do organismo”.

Ou seja, o reflexo é uma conexão temporária entre um estímulo qualquer do meio ambiente e um reflexo incondicionado do organismo, que passará, assim, a ser condicionado, despertado por aquele estímulo ambiental, até então previamente indiferente.


Modificando a reação a Medicamentos pelo Condicionamento

Este é um tópico importante para podermos entender o efeito placebo. Vamos entendê-lo através de um experimento simples:

Após fazer soar um estímulo sonoro, aplica-se, em um cão, uma injeção de acetilcolina. Em resposta à acetilcolina, o cão tem hipotensão (queda da pressão arterial). Se, depois de diversas combinações do som com a injeção, substituirmos a acetilcolina por adrenalina, o cão continuará a ter hipotensão. Deveria ter hipertensão (aumento da pressão arterial), portanto o condicionamento mudou completamente a resposta ao segundo agente. A ação farmacológica da adrenalina foi anulada. Seria de se esperar que o cão, ao recebê-la, tivesse aumento da pressão arterial; mas como está recebendo aquela injeção temporalmente associada ao estímulo sonoro, que para ele é sinal de hipotensão, sua pressão continua a baixar. O organismo do cão ignora o efeito farmacológico da adrenalina e obedece ao sinal de hipotensão, registrado no sistema nervoso central.

Fato muito importante é que diversos estímulos ambientais podem conjugar-se entre si, formando uma verdadeira cadeia, e qualquer desses estímulos pode agir como sinal e por em marcha o reflexo condicionado. Outros estímulos do ambiente podem apresentar o mesmo efeito, como, por exemplo, a entrada na sala onde a experiência se realiza, a visão do experimentador, a audição de sua voz (mesmo fora da sala), etc.

Reflexos e Linguagem em Seres Humanos

E no ser humano, o que aconteceria? A mesma coisa. Existem diversas experiências mostrando que o homem tem suas funções tão condicionáveis quanto as dos animais. Por exemplo: doentes com dor intensa, provocada por uma doença chamada aracnoidite, que recebiam injeções endovenosas de novocaína (um anestésico), tinham alívio da dor e dormiam. Nesses mesmos doentes, depois de algum tempo, com a troca da injeção de novocaína por soro fisiológico (uma solução fraquinha de sal), continuavam a ocorrer alívio da dor e sono.

No homem existe ainda algo importante a ser considerado. Segundo Pavlov, nos animais existe apenas o que ele chamava de primeiro sistema de sinais da realidade. Trata-se dos sistemas do cérebro que recebem e analisam os estímulos que vêm de fora e de dentro do organismo (por exemplo, sons, luzes, nível de CO2 no sangue, movimentos intestinais, etc).
No ser humano, além desse primeiro sistema de sinais, existe um segundo sistema, o da linguagem, que aumenta as possibilidades de condicionamento. Para o ser humano, a palavra pode ser um estímulo tão real, tão eficaz, tão capaz de nos mobilizar como qualquer estímulo concreto, e, às vezes, até mais. Além disso, o fato de a palavra ser simbólica, ser uma abstração, permite que o estímulo condicionado seja generalizável.

Um exemplo? Se condicionarmos um homem dando-lhe choques na mão após ouvir a palavra campainha, haverá reação de defesa com retirada da mão. Depois de algum tempo, ao ouvir a palavra campainha, em seu idioma natal ou em algum outro que ele entenda, assim como ao ver uma campainha, real ou em foto, o homem terá a mesma reação de retirada da mão. Por quê? Porque o homem não foi condicionado a um conjunto de sons, como foi o caso do cão, e sim a uma abstração: a ideia [isto é, a representação neuroquímica registrada nas sinapses cerebrais] da campainha.

Outro exemplo de experiência de condicionamento em seres humanos: dá-se choque na mão de um sujeito após ele ouvir a palavra caminho, provocando retirada da sua mão. Depois de algum tempo, ouvindo a palavra caminho, esta pessoa retira a mão, fazendo o mesmo, também, ao ouvir sinônimos: estrada, via, rota, etc.

O Efeito Placebo como Condicionamento

Chegamos, então, a uma explicação fisiológica bastante convincente sobre o efeito placebo: trata-se de um efeito orgânico causado no paciente pelo condicionamento pavloviano ao nível de estímulos abstratos e simbólicos.

Segundo essa explicação, o que conta, no caso, é antes a ação do cérebro, do que a intervenção farmacológica. A expectativa do sistema nervoso em relação aos efeitos de uma droga pode anular, reverter ou ampliar as reações farmacológicas desta droga. Pode também fazer com que substâncias inertes provoquem efeitos que delas não dependem.

Poderíamos então definir efeito placebo como o resultado terapeuticamente positivo (ou negativo) de expectativas implantadas no sistema nervoso dos pacientes por condicionamento decorrente do uso anterior de medicação, contatos com médicos e informações obtidas por leituras e comentários de outras pessoas.

Conclui-se, portanto, que a ação curativa de agentes terapêuticos específicos, farmacologicamente ativos, pode ser reforçada por efeito placebo consequente às expectativas de cura, despertadas nos pacientes dentro do contexto de uma boa relação médico-paciente. Contrariamente, se não houver boa relação médico-paciente, pode ocorrer um efeito placebo negativo de tal monta que prejudique o tratamento.

Para terminar, lembramos que alguns autores consideram que o efeito placebo tem o seu lado negro, pois as curas a ele devidas favorecem a perpetuação do uso de medicamentos e procedimentos terapêuticos ineficazes e irracionais, como os que acontecem na chamada “medicina alternativa” [homeopatia, por exemplo].


(fonte: Revista Mente & Cérebro )

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Contra o Panteísmo (Arthur Schopenhauer)


A controvérsia contemporânea entre teísmo panteísmo travada pelos professores de filosofia pode ser apresentada alegórica e dramaticamente mediante um diálogo ocorrido na plateia de um teatro em Milão, durante a representação. Um dos interlocutores, convencido de se encontrar no grande e famoso teatro de marionetes de Girolamo, admira a arte com que o diretor fez os marionetes e dirige o espetáculo. O outro contradiz: 'De modo algum! Estamos no teatro della scalla, o próprio diretor e seus ajudantes participam do espetáculo, e realmente constituem as pessoas que enxergamos; até mesmo o poeta participa'.

É divertido ver, porém, como os professores de filosofia namoram o panteísmo, qual fruto proibido, sem coragem de prosseguir em sua ação. Este seu comportamento já o relatei em meu ensaio sobre filosofia universitária, e recordava o tecelão Botton no sonho da noite de São João. — 'Ah, é um pão amargo, o pão da docência de filosofia!' Primeiro há que dançar conforme o apito dos ministros, e, feito isto com suficiente graça, ainda se corre o risco do ataque dos selvagens antropófagos, os verdadeiros filósofos: estes são capazes de prender e arrastar alguém para, qual polichinelo de bolso, mostrá-lo para diversão em suas apresentações.

Contra o panteísmo, sustento principalmente que ele não diz nada. Chamar Deus ao Mundo não significa explicá-lo, mas apenas enriquecer a língua com um sinônimo supérfluo da palavra Mundo. Se dizeis “o Mundo é Deus” ou “o Mundo é o Mundo”, dá no mesmo. Quando partimos de Deus como se ele fosse o dado e o a-ser-explicado, e dizemos portanto: “Deus é o Mundo”; então numa certa medida existe uma explicação, ao se reconduzir ignotum a notius: mas trata-se somente de uma explicação de vocabulário. Porém, quando se parte do efetivamente dado, portanto o mundo, e se afirma “o Mundo é Deus”, então se torna claro que com isto não se diz nada, ou ao menos que se explica ignotum per ignotius [O desconhecido pelo mais desconhecido].

Justamente por isto o panteísmo pressupõe o teísmo como precedente: pois apenas enquanto partirmos de um Deus, e portanto já o temos e com ele estamos familiarizados, podemos por fim chegar a identificá-lo com o mundo, para eliminá-lo de uma maneira decente. Porque não partimos imparcialmente do mundo como o a-ser-explicado, mas de Deus como o dado; como contudo em pouco tempo não mais sabíamos o que fazer com este, seu papel deveria ser assumido pelo mundo. Eis a origem do panteísmo. 

A ninguém ocorrerá de imediato e despojadamente considerar este mundo um deus. Pois deveria se tratar de um Deus muito mal esclarecido, incapaz de algo melhor do que se transformar num mundo como este, tão faminto, e para aqui suportar, na figura de inumeráveis milhões de seres vivos, porém aterrorizados e maltratados, que em sua totalidade conseguem existir momentaneamente apenas um devorando ao outro, a miséria, a necessidade e a morte, sem medida nem objetivo, por exemplo, na figura de seis milhões de escravos negros a receber diariamente em média sessenta milhões de chicotadas sobre o corpo nu, e para vegetar debilmente na figura de três milhões de tecelões europeus, com fome e desgosto, em catres obscuros ou sinistras salas de fábricas etc. Que passatempo para um deus! Como tal, deveria estar acostumado com coisas inteiramente diferentes. Nem o panteísmo nem a mitologia judaica são suficientes, se pretendeis explicar o mundo; antes há que encará-lo de frente.

Em consequência, o pretenso progresso do teísmo ao panteísmo, encarado com seriedade e não apenas como negação mascarada, como acima, é apenas uma transição do improvado e pensado com dificuldade ao propriamente absurdo. Pois por mais indeciso, oscilante e difuso que seja o conceito associado à palavra de deus, dois predicados lhe são inseparáveis: o mais alto poder e a mais alta sabedoria. Ora nossa situação no mundo é tal que nenhum ser inteligente, e muito menos um ser onisciente, a adotará. O Panteísmo é necessariamente [um extremo de] otimismo, e por isto falso. Se há uma certa dificuldade em pensar que o mundo infinito é obra de um ser pessoal e individual, como conhecemos somente na natureza animal, pelo menos isso não é propriamente absurdo. Que um ser onipotente e onisciente crie um mundo sofrido, ainda pode ser pensado, mesmo que não conheçamos o porquê para tanto; por isto, ainda que lhe atribuamos também a propriedade da maior bondade, a imperscrutabilidade de sua decisão se torna a saída pela qual uma tal doutrina escapa à acusação de absurdidade. Mas com a aceitação do panteísmo, o próprio deus criador é o infinitamente atormentado, e somente neste pequeno mundo, o que morre uma vez em cada segundo, e isto por atos livres, o que constitui um absurdo. Muito mais correto seria identificar o mundo com o demônio, o que aliás fez o autor da Teologia Alemã, ao afirmar na p. 93 da sua obra imortal (conforme o texto reconstruído, Stuttgart, 1851): “Por isto o espírito do mal e a natureza são unos, e onde a natureza não foi subjugada, também o atroz inimigo não o foi”.

Estes panteístas aparentemente conferem ao Sansara o nome Deus. Por outro lado, os místicos dão o mesmo nome ao Nirvana. Deste, porém, contam mais do que podem saber: o que não fazem os budistas; motivo porque o seu nirvana é precisamente um relativo nada. Em seu sentido correto e apropriado, a palavra Deus é utilizada pela sinagoga, pela igreja e pelo islão. Se há entre os deístas os que entendem pelo nome deus o Nirvana, então o nome não seja motivo para discussão. São os místicos que assim parecem entendê-lo. Re intellecta, in verbis simus faciles [Uma vez compreendida a coisa, sejamos simples nas palavras].

A expressão “o mundo é um fim em si mesmo”, atualmente de uso frequente, conduz a uma indecisão quanto à sua explicação; se através do panteísmo ou do simples fatalismo, mas de qualquer modo permite apenas um significado físico, e não moral, da mesma, na medida em que, sob esta última hipótese, o mundo sempre se apresentaria como meio para um fim mais elevado. Porém justamente o pensamento de que o mundo possui apenas uma significação física e não moral constitui o mais grave engano, originado pela pior perversidade do espírito.

Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão


(Fonte: Coleção Os Pensadores. Editora Nova Cultural Ltda. São Paulo: 1997)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Prefácio da obra 'Isaac Newton e a transmutação da alquimia'


- Prefácio da obra 'Isaac Newton e a Transmutação da Alquimia', por Raphael De Paola [Doutor em Teoria Quântica de Campos e professor do Departamento de Física da PUC - Rio] - 

Na cultura mais geral, imposta aos milhões de vítimas da educação de massas como verdade consagrada, aquilo que se costuma chamar de ‘ciência moderna’ parece ter tido um início claro e um desenvolvimento linear até os dias de hoje, e não são poucos os próprios homens de ciência que difundem ingenuamente essa visão. Contam-nos, assim, a saga de um heróico empreendimento intelectual iniciado, quase espontaneamente, a partir do momento em que alguns “desbravadores da razão” resolveram desafiar e romper com todo o pensamento mágico anterior e com a infindável análise de textos de autoridades que o acompanhava, decidindo agora guiar o estudo do mundo natural por rígidos métodos indutivos aplicados à observação cuidadosa de experimentos controlados. O resultado de todo esse empreendimento se vê coroado em teorias matemáticas precisas, balizadas, por sua vez, por rigorosas técnicas lógicas que garantem a possibilidade de teste, falseamento e refutação.
O motor desse desenvolvimento seria tão-somente uma intensa e genuína sede de saber, e a única fonte de empecilhos a uma tão nobre e desinteressada busca pela ciência só poderia provir de mentes inferiores arraigadas a um passado de magia, mistério e superstições, sem contar, obviamente, as hoje em dia onipresentes acusações de manutenção de poder e status quo. Libertada assim do obscurantismo de autoridades retrógradas, o melhor da alma humana pôde dedicar suas energias intelectuais à busca do legítimo conhecimento do cosmos e à construção progressiva de uma sociedade mais perfeita, justa e igualitária.
Mas esse cenário não passa de propaganda autoglorificante, embaladinha para o consumo de gerações de egressos de nosso sistema de deseducação, que não resiste a um confronto sério com as pesquisas de mais de um século nos campos da história e da filosofia da ciência. Já não se pode mais pôr em questão a dívida da ciência moderna para com o passado, tanto na sua vertente filosófica da escolástica medieval, quanto na sua vertente esotérico-ocultista renascentista.
Da primeira, a ciência moderna herdou, acima de tudo, a premissa primeira e pilar básico em que se fundará toda a investigação futura: a existência de uma ordem universal que rege o comportamento do mundo natural. A expressão ‘leis da natureza’, inventada então e usada abundantemente hoje, nada mais é do que o recibo de que todos os envolvidos - filósofos escolásticos, sábios renascentistas e cientistas da modernidade- tinham essa mesma convicção, além, é claro, daquela ainda mais básica que a acompanha e fundamenta: a da existência do legislador da ordem natural. Tanto os precursores medievais e renascentistas quanto os representantes “oficiais” dos três primeiros séculos da ciência moderna só se voltavam à natureza porque o que eles viam e amavam nela não era outra coisa que a obra de Deus.
A tal ponto essa convicção se arraigou na mentalidade do cientista moderno, que ela nem é discutida mais. Todos dão por pressuposto que este é um problema que a filosofia escolástica já resolveu. O melhor da filosofia escolástica, profundamente ancorada na religião e nos textos sacros, mas também em catorze séculos de filosofia, concluía por considerar as coisas ou entes como seres concretos realmente existentes, passíveis de formulação em leis ontológicas e concepções metafísicas precisas, em vez de enxergar neles somente símbolos, expressáveis apenas no plano da imaginação criativa ou do sentimento.
A Idade Média foi, sim, a era do simbolismo, onde as realidades se dissolviam em significados místicos com os quais artistas, construtores e pensadores impregnavam suas obras. Bestiários, hinos, poesia, sistemas filosóficos, códigos de educação e de conduta, vitrais e pórticos de catedrais, cada um a seu modo expressava o universo simbólico no qual as coisas criadas, tomadas em sua verdadeira essência, podiam ser vistas como meras expressões de Deus. Contudo, menos como reação e muito mais como conseqüência da certeza de que o cosmos era precisamente uma criação, ao longo de toda a história da cristandade foi-se formando filosoficamente a justificação metafísica da noção de que as coisas criadas foram realmente criadas, isto é, de que elas possuíam uma existência real e, até certo ponto, autônoma.
Criar é causar o ser. Como efeito da existência real dos seres ancorada na suma existência do Ser, a filosofia escolástica se esforça, em seguida, para justificar a eficácia real das causas segundas, eficácia essa que é novamente ancorada em Deus, considerado agora como causa primeira. Criar é, sim, causar o ser, mas o ser, uma vez criado, passa a operar. Num universo plasmado pela Criação tal como o cosmos cristão, é inconcebível que os seres não fossem seres genuínos, e as causas, também genuínas causas. Deus infundiu nas próprias coisas criadas as sementes das coisas futuras através das “leis numéricas” que vão reger seu comportamento no tempo. Deus não se contenta apenas em dar existência às coisas, mas também as impregna com a causalidade que flui delas, e essa eficácia das causas segundas repousa nelas mesmas, ainda que como uma participação, mesmo que analógica, na causalidade divina.
Estabelecida racionalmente a conexão entre criação e Criador, através daquilo que Étienne Gilson viria a chamar de “metafísica do Êxodo” em L’Esprit de la philosophie médiévale, Deus penetrava agora mais profundamente na natureza à medida que esta ia se tornando mais conhecida. E, se é verdade que o ‘omnia in mensura, et numero, et pondere disposuisti’ das Escrituras justifica todo o empreendimento da matematização do mundo natural que surgirá com Roberto Grosseteste e os calculadores do Merton College (e que tomará grande impulso nos movimentos neopitagóricos e ocultistas no Renascimento movidos por estudos da Cabala), é muito mais verdade ainda que tal matematização só será possível, na mentalidade medieval, não apesar de, mas justamente porque ‘Coeli enarrant gloriam Dei’. Como diz Gilson: “A imagem divina é vista agora como mergulhada no coração mesmo da natureza, indo além da ordem, do número e da beleza, alcançando e saturando a própria estrutura material e tocando a eficácia mesma da causalidade. [...] A obra de Deus Onipotente não podia de modo algum ser um mundo inerte, que não desse testemunho do seu Artífice. Para o filósofo cristão, é sempre um erro fazer pouco da natureza sob o pretexto de exaltar a Deus.”
Regidos por uma metafísica que não será mais assunto para os cientistas praticantes “oficiais” dos períodos renascentista e moderno, todos os demais elementos principais que constituem o método científico moderno também já se apresentavam no período medieval: o binômio observação/experimentação, a quantificação dos fenômenos e a formulação de hipóteses testáveis. Nomes como Roberto Grosseteste, Roger Bacon, John Peckham, Guilherme de Occham, Walter Burley, Thomas Bradwardine, John Dumbleton, William Heytesbury, Richard Swineshead, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Teodorico de Freiberg, Pedro de Maricourt, Nicolau Oresme, Jean Buridan, Francisco de Marchia e Alberto da Saxônia são lugar comum para o estudioso de história e filosofia da ciência. Mas as obras destes personagens permanecem desconhecidas do público mais geral graças ao sistema de educação moderna, pois as trevas impostas pelo currículo do MEC ao homem culto a respeito do período medieval se transmutaram em uma projeção de algo que está acontecendo na nossa mente para algo que supostamente se passou na história: nossa ignorância sobre aquele período se transforma em arma de acusação de que ignorante era toda aquela gente.
Contudo, em que pese o fato de todo o empreendimento da ciência moderna ter tido seus germes e primeiros expoentes na escolástica cristã e tenha encontrado nela sua justificação metafísica, não se pode negar a impressão geral, para uns sentida com desconforto, para outros com alívio, de que o universo da ciência moderna parece se interpor entre nós e o universo simbólico da Alta Idade Média. Isso porque na Renascença algo se passou no enquadramento mais propriamente humano que embasa e possibilita a busca do saber: a formação do sábio e a estruturação da sociedade.
Em todo sistema de educação desde a Antigüidade, baseando-se na premissa totalmente razoável de que o homem é um ente da natureza, a formação do sábio pressupunha uma busca da conformidade e harmonia da alma com o cosmos. É nesse contexto que se desenvolveram, entre outras, as ciências da astrologia e da alquimia, com o intuito de amoldar a conduta humana ao movimento dos astros e ao comportamento dos elementos materiais mais próximos. Esse impulso foi uma constante em toda a história do Ocidente, desde a física dos estóicos, que era entendida mais como uma ética do que uma cosmologia, passando pelas escolas catedrais da Alta Idade Média que estudavam o Timeu também mais como uma obra de formação da moral e de hábitos sociais do que propriamente um estudo da realidade física (C. Stephen Jaeger, The Envy of Angels), culminando com a tentativa, nas universidades medievais, de um equacionamento racional da questão da interação ou correspondência dos fenômenos materiais mais básicos dos astros e da matéria bruta com os movimentos mais sutis da mente individual e da sociedade.
Durante os primeiros quinze séculos da Cristandade, toda essa ordem de estudos, mesmo bebendo de fontes pagãs como Platão, Aristóteles e Cícero, esteve sempre subordinada à visão religiosa do homem como um ser decaído necessitado da redenção. A Renascença, no entanto, marca a abertura de uma era em que o homem não só professa estar satisfeito como até sente orgulho de seu estado de natureza decaída. Daí a proliferação de magos e bruxos de todo tipo durante a Renascença, a época por excelência da pseudociência.
Devido a este influxo, praticamente todos os primeiros homens de ciência que compõem a historiografia “oficial” foram também entusiastas e praticantes das ciências esotéricas:
“Mesmo supondo-se que a distinção entre as duas [ciência e pseudociência] seja em todos os casos coisa simples e improblemática, que não o é de maneira alguma, o fascínio da pseudociência vem da mesma fonte que o da ciência genuína: tanto uma quanto a outra não apelam prioritariamente a nenhuma das paixões grosseiras da alma humana, como o desejo sexual ou a cobiça de dinheiro, mas à ambição cognoscitiva do eu pensante, ao impulso de conhecer a verdade e através dela controlar, se não o universo físico, ao menos as massas de ingênuos que vivem na ilusão.” (Olavo de Carvalho, Visões de Descartes. Entre o Gênio Mau e o Espírito da Verdade)


“Newton transformou feitiçaria em ciência”, e para isso “transmutou” a Royal Society durante o tempo em que a presidiu. Esta é a tese do presente livro, com a qual concordaria, por motivos quase contrários, o historiador da ciência William R. Newman. Os dois aspectos humanos da aquisição do conhecimento que mencionei acima passam a ser equacionados de uma nova forma na Renascença. Esta forma, segundo Philip Ashley Fanning, se consolida nas instituições de saber e na sociedade maior devido à operação empreendida por Newton na Royal Society, quando ele a tirou do total descrédito em que se encontrava: a formação da alma do indivíduo e de seu conhecimento é medida agora pela sua capacidade de estruturar a sociedade em torno – uma ambição alquímica, evidentemente.

Segundo o autor, Newton, ele mesmo um praticante da alquimia por mais de trinta anos, prefere ocultá-la sob o manto de um mecanicismo explícito mas fingido, ao mesmo tempo em que a perpetua na instituição que ele regenera. Para isso, ele teria se servido da tradição de quase duzentos anos das táticas herméticas doludibrium de Cornelius Agrippa, John Dee, Jan Amos Comenius, Robert Fludd e Francis Bacon, camuflando sob a aparência de cientificidade um projeto político e se aproveitando de um embate contra a ala secular dos alquimistas na Royal Society liderada por Robert Boyle.
Tendo sido ou não a intenção de Newton, é impossível não notar que esse mesmo mecanismo de imposição de um projeto de poder sob o manto da “ciência socialmente obrigante” foi ampliado mundialmente, consagrando-se hoje na tentativa de um governo mundial pela ONU mediada por seus organismos supostamente científicos como a OMS: o mundo não é mais aquilo que você vê, mas aquilo que o Dr. Drauzio Varella diz que é.


(Fonte: MSM)
 

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