segunda-feira, 1 de junho de 2015

Elogio de São Tomás de Aquino (Umberto Eco)


ELOGIO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO


por UMBERTO ECO -


A pior desventura da carreira de Tomás de Aquino não lhe acontece em 7 de março de 1274, quando morre em Fossanova, aos quarenta e nove anos, e os monges não conseguem transportar seu corpo escada abaixo, gordo como era. E não lhe acontece nem mesmo três anos após a morte, quando o arcebispo de Paris, Stéphane Tempier, promulga uma lista de proposições heréticas (duzentas e dezenove) que compreendem a maior parte das teses dos averroístas, algumas observações sobre o amor terreno propostas cem anos antes por Andrea o Capelão, e vinte proposições claramente atribuíveis a ele, o angélico Dr. Tomás, dos senhores de Aquino. Porque a esse ato repressivo a história faz rapidamente justiça e Tomás, ainda que morto, vence sua batalha, enquanto Stéphane Tempier termina com Guilhaume de Saint-Amour, outro inimigo de Tomás, na fileira infelizmente eterna dos grandes restauradores que começa com os juízes de Sócrates, passa pelos de Galileu e acaba, provisoriamente, com Gabrio Lombardi. O mal que compromete a vida de Tomás de Aquino ocorre em 1323, dois anos após a morte de Dante e quem um pouco por sua própria culpa: isto é, quando João XXII decide torná-lo Santo Tomás de Aquino. São aventuras malfadadas, como receber o prêmio Nobel, entrar para a Academia Francesa, ganhar o Oscar. Como a Gioconda, vira-se um clichê. É o momento em que um grande incendiário é nomeado bombeiro.

Este ano [1974] celebra-se o sétimo centenário da morte de Tomás. Tomás volta à moda, como santo e como filósofo, tenta-se saber o que faria Tomás hoje, se tivesse tido a fé, a cultura e a energia que tinha em sua época. Mas o amor às vezes obscurece os corações; para dizer que Tomás foi grande diz-se que foi um revolucionário, mas é necessário saber em que sentido o foi: porque, se não se pode dizer que tenha sido um restaurador, trata-se no entanto sempre de alguém que ergueu um edifício tão sólido que depois nenhum outro revolucionário conseguiu abalar por dentro - e o máximo que se podia fazer, de Descartes a Hegel, de Marx a Teilhard de Chardin, era falar dele "de fora".

Tanto mais que não se entende como o escândalo pode partir desse indivíduo tão pouco romântico, gordo e vagaroso, que na escola anotava em silêncio com ar de não estar compreendendo nada, e de quem os companheiros zombavam. A quem, quando no mosteiro, sentado em seu banco duplo no refeitório (e foi preciso cortar um braço divisório para proporcionar-lhe lugar suficientemente capaz), os frades brincalhões gritam que lá fora há um asno voador e ele corre para ver enquanto os outros se escangalham de rir (como se sabe, os frades mendicantes têm gostos simples): e então Tomás (que não é idiota) diz ter-lhe parecido mais verossímil um asno voar do que um frade pregar uma mentira, e os outros ficam duplamente desconcertados.

E em seguida esse estudante a quem os companheiros chamavam de boi mudo se torna professor, adorado pelos alunos, e um dia sai a passeio com os discípulos e olha Paris do alto de um morro, e estes lhe perguntam se gostaria de ser o senhor de uma cidade tão bonita e ele diz que lhe agradaria muito mais ter o texto das Homilias de São João Crisóstomo; mas depois, quando um inimigo ideológico lhe pisa os pés, torna-se uma fera e naquele seu latim que parece dizer pouco porque se entende tudo e os verbos estão justamente onde um italiano os espera, eis que explode em maldades e sarcasmos parecendo Marx quando fustiga o Sr. Szeliga.

Era um pachorrento, era um anjo? Era um assexuado? Quando os irmãos querem impedi-lo de tornar-se um dominicano (porque naquela época o filho caçula de uma boa família tornava-se beneditino, que era uma coisa digna, e não mendicante, que era como hoje entrar para uma comuna de Servir o Povo ou ir trabalhar com Danilo Dolci), prendem-no a caminho de Paris e o trancafiam no castelo da família; depois, para dissuadi-lo de suas teimosias e fazê-lo tornar-se um abade como se deve, mandam-lhe ao quarto uma jovem nua e disposta a tudo. Tomás pega um tição e sai correndo atrás dela com o firme propósito de queimar-lhe as nádegas. Então, nada de sexo? Como saber? Com efeito, a coisa o deixou tão perturbado que desde então, e é Bernard Gui quem o conta, "os encontros com as mulheres, quando não eram estritamente necessários, ele os evitava como se fossem serpentes".

Em todo caso o homem era um lutador. Robusto, lúcido, concebe um plano audacioso, leva-o a cabo e vence. Vejamos então qual era o campo de batalha, a aposta em jogo, as vantagens obtidas. Tomás nasce e há cinquenta anos as comunidades italianas venceram a batalha de Lenano contra o Império. Há dez anos a Inglaterra tem a Carta Magna. Em França mal acabou o reinado de Filipe Augusto. O Império agoniza. Dentro de cinco anos as cidades livres litorâneas e comerciantes do Norte formarão a Hansa. A economia florentina está em expansão, será cunhado o florim de ouro, Fibonacci já inventou a escrituração, há um século florescem a escola médica de Salerno e a escola de direito de Bolonha. As Cruzadas estão em fase avançada. Isso equivale a dizer que os contatos com o Oriente se acham em pleno desenvolvimento. Por outro lado, os árabes da Espanha deslumbram o mundo ocidental com suas descobertas científicas e filosóficas. A técnica conhece um vigoroso incremento: mudou o modo de ferrar os cavalos, de mover os moinhos, de dirigir uma nau, de pôr os arreios nos animais de carga e de arado. Monarquias nacionais ao norte e comunas livres ao sul. Em poucas palavras, isso não é Idade Média, pelo menos no sentido vulgar do termo: mesmo com o risco de uma polêmica, não fosse por aquilo que Tomás está para realizar, afirmaríamos que já era Renascimento. Mas é necessário justamente que Tomás termine o que está realizando para que as coisas aconteçam como aconteceram.

A Europa está tentando dar a si mesma uma cultura que espelhe uma pluralidade política e econômica, dominada, é verdade, pelo controle paternal da Igreja, que ninguém põe em discussão, mas aberta a um novo sentido da natureza, da realidade concreta, da individualidade humana. Os processos organizativos e produtivos racionalizam-se - é preciso encontrar as técnicas da razão.

Quando nasce Tomás, as técnicas da razão já estão sendo praticadas há um século. Em Paris, na Faculdade das Artes, ainda se ensinam música, aritmética, geometria e astronomia, mas também dialética, lógica e retórica, e de um novo modo. Por ali passou, um século antes, Abelardo: saiu perdendo o aparelho reprodutor, mas por motivos particulares, e a cabeça não perdeu o seu vigor: o novo método consiste em confrontar as opiniões das diversas autoridades tradicionais, e decidir de acordo com os procedimentos lógicos baseados numa gramática leiga das ideias. Lida-se com linguística e semântica; pergunta-se o que significa determinada palavra e em que sentido é usada. Os textos de lógica de Aristóteles são os manuais de estudo, mas nem todos foram ainda traduzidos e interpretados, o conhecimento do grego é exclusividade dos árabes, muito mais adiantados que os europeus, tanto na filosofia quanto na ciência. Mas já há um século a escola de Chartres, redescobrindo os textos matemáticos de Platão, constrói uma imagem do mundo natural governado por leis geométricas, por processos mensuráveis. Não é ainda o método experimental de Roger Bacon, mas é construção teórica, tentativa de explicar o universo sobre bases naturais, ainda que a Natureza seja vista como agente divino. Roberto Grossatesta elabora uma metafísica da energia luminosa que faz pensar um pouco em Bergson e um pouco em Einstein: surgem os estudo de óptica, o que equivale a dizer que ali é proposto o problema da percepção dos objetos físicos, traça-se um limite entre alucinação e visão.

Não é pouco; o universo da alta Idade Média era um universo de alucinação, o mundo era uma floresta simbólica povoada de presenças misteriosas, as coisas eram vistas como o relato contínuo de uma divindade que passava o tempo lendo e redigindo a Semana Enigmística. Esse universo da alucinação, na época de Tomás, não desapareceu sob os golpes do universo da razão: aliás este último continua sendo o produto das elites intelectuais e é visto com maus olhos. Porque, para dizer a verdade, é visto com maus olhos o universo das coisas terrenas. São Francisco fala aos passarinhos, mas o fundamento da teologia por trás disso é neoplatônico. O que significa: bem longe há Deus, em cuja inatingível globalidade se agitam os princípios das coisas, as ideias: o universo é efeito de uma benévola distração desse Um longínquo, que parece babar lentamente para baixo, largando indícios de sua perfeição nos grumos borrados da matéria que defeca, como indícios de açúcar na urina. Nesse caldo que representa a periferia mais insignificante do Um, podemos encontrar, quase sempre por um golpe de mestre enigmista, os sinais dos germes de compreensibilidade, mas a compreensibilidade mesma está em outro lugar e, se tudo vai bem, o místico chega lá, com sua intuição nervosa e descarnada, que penetra com o olho como que drogado na garçonnière do Um, onde se dá o único e verdadeiro festim.

Platão Agostinho tinham dito tudo o que era necessário para compreender os problemas da alma, mas quando se tratava de saber o que seja uma flor ou o nó nas tripas que os médicos de Salerno exploravam na barriga de um doente, e por que era saudável respirar ao ar fresco numa noite de primavera, as coisas se tornavam obscuras. Tanto que era melhor conhecer as flores nas iluminuras dos visionários, ignorar que existiam tripas, e considerar as noites de primavera uma perigosa tentação. Desse modo dividia-se a cultura europeia, quando se entendia o céu, não se entendia a terra. Se alguém ainda quisesse entender a terra deixando de lado o céu, a coisa ia mal. Ao redor vagavam as brigadas vermelhas da época, seitas heréticas que por um lado pretendiam renovar o mundo, e por outro praticavam a sodomia, a rapina e outros atos nefandos. Não havia como saber se era verdade, mas, na dúvida, o melhor era matar todos eles.

A essa altura os homens da razão aprendem dos árabes que há um antigo mestre (um grego) que poderia fornecer a chave para unificar esses membros esparsos da cultura: Aristóteles. Aristóteles sabia falar de Deus, mas classificava os animais e as pedras, e se ocupava com o movimento dos astros. Aristóteles sabia lógica, preocupava-se com psicologia, falava de física, classificava os sistemas políticos. Mas Aristóteles, sobretudo, oferecia as chaves (e Tomás nisso saberá tirar dele o máximo) para inverter a relação entre a essência das coisas (e isso significa aquela porção das coisas que pode ser entendida e dita, mesmo quando as coisas não estão ali debaixo dos nossos olhos) e a matéria de que as coisas são feitas. Deixemos Deus para lá, que vive bem por conta própria e que proveu o mundo de ótimas leis físicas para que este possa seguir sozinho. E não nos percamos na recuperação dos rastros das essências naquela espécie de catarata mística pela qual, perdendo no caminho o melhor, chegam a sujar-se de matéria. O mecanismo das coisas está aqui, debaixo de nossos olhos, as coisas são o princípio de seu movimento. Um homem, uma flor, uma pedra, são organismos que cresceram segundo uma lei interior que os moveu: a essência é o princípio de seu crescimento e de sua organização. É alguma coisa que está ali já pronta para explodir, que move a matéria de dentro, e faz com que cresça e se manifeste: por isso podemos compreendê-la. Uma pedra é uma porção de matéria que tormou forma: ao mesmo tempo, desse casamento nasceu uma substância individual. O segredo do ser, Tomás glosará num repente de engenho, reside no ato concreto de existir. O existir, o acontecer, não são incidentes que ocorrem às ideias, as quais de per si ficariam melhor no cálido útero da divindade distante. Primeiro as coisas existem concretamente, graças a Deus, e depois nós as compreendemos.

Naturalmente convém esclarecer dois pontos. Primeiro, pela tradição aristotélica, compreender as coisas não significava estudá-las experimentalmente [no sentido moderno]: bastava saber que as coisas existem, o resto ficava por conta da teoria. Coisa pouca, mas já um bom salto em relação ao universo alucinado dos séculos precedentes. Em segundo lugar, se Aristóteles devia ser cristianizado, era preciso dar mais espaço a Deus, que permanecia um tanto apartado demais [no aristotelismo]. As coisas crescem pela força interior do princípio de vida que as move, mas será necessário, no entanto, admitir que, se Deus toma a peito todo esse grande movimento, é capaz de pensar a pedra enquanto ela vira pedra por conta própria, e se decidisse cortar a energia elétrica (que Tomás chamava de "participação") haveria o black out cósmico. Portanto a essência da pedra está na pedra, é captada por nossa mente, que é capaz de pensá-la, mas [essa essência] já existia na mente de Deus, que é cheio de amor e passa os dias não cuidando das unhas, mas fornecendo energia ao universo. O jogo a ser feito era esse, caso contrário Aristóteles não entrava na cultura cristã, e se Aristóteles ficasse de fora ficavam de fora a natureza e a razão.      

E é um jogo difícil, pois os aristotélicos que Tomás topa pela frente quando começa a trabalhar tomaram outro caminho, que talvez para nós possa ser até mais agradável, e que um intérprete disposto a curto circuitos históricos poderia até mesmo definir materialista: mas era um materialismo muito pouco dialético, antes um materialismo astrológico, e perturbava a todos um pouco, desde os guardiães do Corão aos do Evangelho. O responsável fora, um século antes, Averróis, muçulmano de cultura, berbere de raça, espanhol de nacionalidade, árabe de língua. Averróis conhecia Aristóteles melhor que todos e compreendera a que levava a ciência aristotélica: Deus não é um intrigante que se mete em tudo por acaso; antes constituiu a natureza em sua ordem mecânica e em suas leis matemáticas, regulada pela determinação férrea dos astros; e visto que Deus é eterno, é eterno também o universo e sua ordem. A filosofia estuda essa ordem, ou seja, a natureza. Os homens são capazes de compreendê-la porque em todos age um mesmo princípio de inteligência, se não cada um veria as coisas a seu modo e ninguém mais compreenderia ninguém. A essa altura a conclusão materialista era inevitável: o universo é eterno, regulado por um determinismo físico previsível, e se um único intelecto vive em todos os homens, a alma individual e imortal não existe. Se o Corão diz de modo diferente, o filósofo deve acreditar filosoficamente naquilo que a sua ciência lhe demonstra e, em seguida, sem se colocar demasiados problemas, acreditar no contrário, porque a fé lhe impõe [e Alá que dê um jeito no paradoxo]. Há duas verdades e uma não deve perturbar a outra.

Averróis conduz a conclusões lúcidas aquilo que estava implícito num aristotelismo rigoroso, e a isso deve o sucesso que obtém em Paris junto aos mestres da Faculdade das Artes, em particular Siger de Brabant, que Dante colocou no Paraíso ao lado de São Tomás, embora Siger deva a Tomás o desabamento de sua carreira científica e a relegação aos capítulos secundários dos manuais de história da filosofia.

O jogo de política cultural que Tomás tenta fazer é duplo: de um lado fazer a ciência teológica da época aceitar Aristóteles, de outro dissociá-lo do emprego que dele faziam os averroístas. Mas ao fazer isso Tomás encontra um handicap: pertence às ordens mendicantes, as quais tiveram o azar de pôr em circulação Gioacchino da Fiore e um outro bando de hereges apocalípticos, perigosíssimos para a ordem estabelecida, para a Igreja e para o Estado. Com isso os mestres reacionários da Faculdade de Teologia, dentre os quais se destaca o terrível Guillaume de Saint-Amour, têm um bom trunfo para dizer que os frades mendicantes são todos hereges joaquimitas, tanto é verdade que querem ensinar Aristóteles, que é o mestre dos materialistas ateus averroístas.

Tomás, ao contrário, não era herege nem revolucionário. Tem sido chamado de "concordista". Para ele tratava-se de afinar aquela que era a nova ciência com a ciência da revelação, e de mudar tudo para que nada mudasse.

Mas nesse plano ele aplica um extraordinário bom senso e (mestre em sutilezas teológicas) uma grande aderência à realidade natural e ao equilíbrio terreno. Fique claro que Tomás não aristoteliza o cristianismo, mas cristianiza Aristóteles. Fique claro que nunca pensou que a razão dispensaria a fé: só quis dizer que a fé não estava em desacordo com a razão, e que, portanto, também ao crente era possível raciocinar em vez de alucinar. E assim compreende-se por que na arquitetura de suas obras os capítulos principais falam apenas de Deus, dos anjos, da alma, da virtude, da vida eterna: mas no interior desses capítulos tudo encontra um lugar, mais que racional, "razoável". No interior da arquitetura teológica tomista fica-se sabendo por que o homem conhece as coisas, por que seu corpo é feito de um certo modo, por que para decidir deve examinar os fatos e as opiniões, e resolver as contradições sem encobri-las, mas tentando compô-las a descoberto. Com isso Tomás restitui à Igreja uma doutrina que, sem tocar num fio de cabelo de seu poder, deixa livres as comunidades para decidir se devem ser monarquistas ou republicanas, e distingue, por exemplo, entre os vários tipos e direitos de propriedade, chegando a dizer que o direito de propriedade existe sim, mas quanto à posse, não [de modo irrestrito] quanto ao uso. Ou seja, que eu tenho o direito de possuir um prédio na Via Tibaldi, mas se há pessoas que vivem nos barracos, a razão exige que eu consinta seu uso a quem não possui igual (eu continuo dono do prédio, mas os outros, que necessitam, devem poder morar lá, ainda que isso não agrade ao meu egoísmo). E assim por diante. Que são todas soluções fundamentadas sobre o equilíbrio e sobre aquela virtude a que ele chamava "prudência", cuja tarefa é "conservar a memória das experiências adquiridas, ter o sentido exato dos fins, a pronta atenção às conjunturas, a investigação racional e progressiva, a previsão das contingências futuras, a circunspecção das oportunidades, a precaução das complexidades e o discernimento das condições excepcionais".

Consegue isso porque esse místico que não via a hora de perder-se na visão beatífica de Deus, à qual a alma humana aspira "por natureza", estava também humanamente atento aos valores naturais, respeitava o discurso racional.

Não se esqueça que antes dele, quando se estudava o texto de um autor antigo, o comentador ou o copista, quando encontravam algo que não concordava com a religião revelada, ou apagavam as frases "errôneas" ou as assinalavam em sentido dubitativo, para pôr em guarda o leitor, ou as deslocavam para a margem. O que faz Tomás, por sua vez? Alinhas as opiniões divergentes, esclarece o sentido de cada uma, questiona tudo, até o dado da revelação, enumera as objeções possíveis, tenta a mediação final. E tudo deve ser feito em público, como pública era justamente a disputatio em sua época: entra em função o tribunal da razão.

Que depois, lendo com atenção, se descubra que em cada caso o dado de fé acabava prevalecendo sobre qualquer outra coisa e guiava o deslindar da questão, ou seja, que Deus e a verdade revelada precediam e guiavam o movimento da razão laica, isso foi esclarecido pelos mais agudos e aficionados estudiosos tomistas, como Etiènne Gilson. Nunca ninguém disse que Tomás era um Galileu. Tomás simplesmente fornece à Igreja um sistema doutrinário que a concilia com o mundo natural. E vence em etapas rapidíssimas. As datas são explícitas. Antes dele se afirmava que "o espírito de Cristo não reina onde vive o espírito de Aristóteles", e em 1210 estão ainda proibidos os livros de filosofia natural do filósofo grego, e as proibições continuam nas décadas seguintes, enquanto Tomás manda traduzir esses textos por seus colaboradores e os comenta. Mas em 1255 toda a obra de Aristóteles está liberada, graças em boa parte a Tomás. Morto Tomás, como foi visto, tenta-se ainda uma reação, mas por fim a doutrina católica se alinha às posições aristotélicas. O domínio e a autoridade espiritual de um Croce sobre a cultura italiana de meio século são nada em comparação com a autoridade que Tomás demonstra ao mudar, em poucos anos, a política cultural de todo o mundo cristão.

Em seguida vem o tomismo. Ou seja, Tomás fornece ao pensamento católico um diapasão tão completo, em que tudo encontra lugar e explicação, que desde então o pensamento católico não consegue mudar mais nada. No máximo, com a escolástica contrarreformista, reelabora Tomás, erigindo um tomismo jesuíta, um tomismo dominicano, até mesmo um tomismo franciscano em que se agitam as sombras de BoaventuraDuns Scotus Ockham. Mas já não se pode tocar em Tomás. Aquilo que em Tomás era desejo construtivo de um novo sistema, na tradição tomista torna-se vigilância conservadora de um sistema intocável. Lá onde Tomás fez ir tudo por água abaixo para ser reconstruído novamente, o tomismo escolástico tenta não tocar em nada e faz prodígios de equilibrismo pseudotomasiano para fazer penetrar o novo nas malhas do sistema de Tomás. A tensão e o desejo de conhecimento, que o gordo Tomás possuía no mais alto grau, deslocam-se então para os movimentos heréticos e para os "apóstatas iluministas". De Tomás sobrou na Igreja o diapasão, não o esforço intelectual gasto para construir uma gama que, na época, era realmente "diferente".

A culpa naturalmente também foi sua: ele ofereceu à Igreja um método de conciliação das tensões e de englobamento não-conflitivo de tudo aquilo que não possa ser evitado. Foi ele quem ensinou a individuar as contradições para, em seguida, mediá-las harmonicamente. Uma vez tomado o jeito, acreditou-se que Tomás ensinasse, lá onde havia uma oposição entre sim e não, a compor um "nim". Só que Tomás o fez num momento em que dizer "nim" não significava deter-se, mas dar um passo adiante, e abrir as cartas na mesa.

Por isso é certamente legítimo perguntar o que Tomás e Aquino faria se vivesse hoje, mas será necessário responder que talvez não escrevesse uma Suma Teológica. Ajustaria antes as contas com o marxismo, com a física relativista, com a lógica matemática, com o existencialismo e com a fenomenologia. Não comentaria apenas Aristóteles, mas também Marx e Freud. Talvez mudasse seu método argumentativo, que se tornaria um pouco menos harmônico e conciliante. E finalmente perceberia que não pode e não deve elaborar um sistema definitivo, fechado como uma arquitetura, mas uma espécie de sistema móvel, uma suma com páginas substituíveis, porque em sua enciclopédia das ciências entraria a noção de provisoriedade histórica. Não sei lhes dizer se ele continuaria cristão. Mas digamos que sim. Sei com certeza que ele participaria de suas celebrações somente para lembrar que não se trata de decidir como ainda usar o que ele pensou, mas de pensar diferente. Ou no máximo de aprender com ele como se faz para pensar com lucidez, como homem do próprio tempo. Depois do que eu não queria estar em sua pele.

* * *

(ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 1984, páginas 331-342. Artigo original de Eco publicado no jornal italiano Dalla Periferia dell'Impero, em 1974)      


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