segunda-feira, 22 de junho de 2015

Até onde vai a Intolerância Religiosa?


Há quatro anos eu publiquei um texto (clique aqui) como é viver o dia a dia em país cada vez mais evangélico. Hoje reformulo para o texto falando como é viver o dia a dia em um país cada vez mais conservador e evangélico, ainda mais quando se é membro das religiões de matriz africana. Na semana passada, uma menina de onze anos foi apedrejada por alguns “malucos” e no momento do ato, eles estavam com a bíblia na mão, utilizando palavras como “diabo” e “Vai para o inferno” por esta com vestimentas da sua religião em saída de culto. De fato seria preciso entender um pouco, porque essa perseguição as religiões como Candomblé e umbanda e quem seria os culpados por esse tipo de intolerância que não termina e só aumenta.


No dia 21 de janeiro foi sancionado como Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa pelo Presidente Lula devido a morte de Mãe Gilda que foi perseguida e maculada pela Igreja Universal do Reino de Deus a qual foi condenada pelo crime bárbaro, mas continua funcionando normalmente, não fez ajustamento de conduta e sequer teve alguém preso, apenas pagou uma indenização ínfima frente ao tamanho do seu império. Fui membro por um ano da Igreja Universal e nesse período fiquei um pouco abismado com a utilização dos Deuses africanos em seus cultos. Em 1997, o líder da Igreja, o Bispo Edir Macedo lançou o livro chamado Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios? O livro virou Best-seller no país, vendendo mais de três milhões de exemplares. Nele, o autor atacou as religiões de matrizes africanas, comentando sobre manobras satânicas e como os responsáveis das doenças, vícios e outros males que o mundo vive. O livro chegou a ser retirado de circulação em 2005, porém voltou a vender no ano seguinte.


Em 2011, o Coletivo de Entidades Negras/CEN lançou um Mapa da Intolerância Religiosa no Brasil, denunciando diversos casos de intolerância registrados pela mídia, a má utilização das concessões públicas de rádio e televisão que muitas vezes se comportam como espaços de promoção do desrespeito, intolerância e ódio religioso, como também observou a necessidade do aprofundamento da garantia da democracia para além da letra fria, e muitas vezes distante do direito, mas pela concretização enquanto um fato no dia a dia das pessoas que necessitam ter acesso a justiça e crer no seu cumprimento enquanto um dever do Estado, mas uns dos problemas não estariam somente por essa má utilização, ela também pode ser encontrada nas salas de aula, principalmente nas escolas públicas. Um relato de um professor nas redes sociais sobre a dificuldade de falar de assuntos relacionado a África, durante essas aulas, é normal ver alunos que a situação vivida pelo continente, como fome e pobreza, vem decorrente da fé que eles acreditam, utilizando palavras de baixos cunhos como continente do Diabo e amaldiçoado, isso uma vez foi comentado pelo Pastor Marco Feliciano em seu twitter. É claro que os problemas da África não é ligado a religião, mas isso é uma outra história e requer um outro texto.


Os casos de intolerância religiosa como o que acontecem nos exemplos citados acima não são isolados. Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), somente em 2014, o Disque 100 registrou 149 denúncias de discriminação religiosa no país, com total de 26,17% ocorridos no estado do Rio de Janeiro e 19,46%, em São Paulo. Os números mostram que a intolerância religiosa ainda é uma realidade no país, onde as principais vítimas são as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), essa onda de conservadorismo e intolerância religiosa tem cada vez mais adquirido características violentas. “O que está na base disso tudo é a ideia violenta e reacionária da incapacidade de conviver com a diferença e a diversidade”, destaca o deputado. 


A perseguição institucionalizada a religiões de matrizes africanas já fez parte da história brasileira, onde no passado não muito distante terreiros eram perseguidos pela polícia e fechados (muitos objetos de culto foram parar em delegacias no Rio e em Salvador na primeira metade do século XX), mas a intolerância ainda permanece nos tempos de hoje, toda vez que o Candomblé e a Umbanda são demonizados em TVs, rádios e internet, o que acontece com frequência, porém não há punições para que isso aconteça e isso teoricamente tem a crescer.


Talvez seja um pouco fácil de encontrar os idealizadores e culpados, mas de fato serão imunes, as perseguições contra as religiões, assim como outras minorias e por mais que esteja escrito na Constituição, a intolerância não será combatida, talvez pelo simples fatos de não haver interesses para esses tais lideres e o crescimento de igrejas de cunhos neopentecostais, que historicamente, seriam os principais culpados ao ataques as religiões afros, principalmente nas ultimas décadas. Acho que precisamos repensar, ter mais controles sobre novas igrejas, com fiscalizações se elas pregam de fato o que era ser pregado, o amor de cristo, mas infelizmente, muitas dessas igrejas, usam o medo para adquirir mais membros e assim arrumam um culpado, as religiões de Matrizes Africanas. E será que por essa culpa teremos mais uma Naiara e Mãe Gilda para serem apenas mais uma nas estatísticas? É preciso combater a intolerância religiosa, senão, será tarde demais


 

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