segunda-feira, 23 de março de 2015

Elogio do silêncio


- por Rodrigo Antônio -


Quando os atletas da Grécia antiga se preparavam para as competições, havia um termo técnico para designar o conjunto de seus esforços pró-treino: "askésis", uma palavra grega latinizada como "ascesis" e daí traduzida para o português como "ascese". Seu significado abrange treinamento, luta, autocontrole, auto-exigência, disciplina, preparação, rigor, esforço, sacrifício. Pense-se na rotina de um atleta profissional se preparando para uma competição muito importante e se terá tido uma ideia do que "ascese" significa. 

Transpondo-se essa mesma ideia para o campo da vida moral, é possível e fácil reconhecer, nos esforços necessários à alma para vencer ou evitar os vícios e para adquirir e conservar as virtudes, uma analogia tão clara com a exercitação atlética, que também aqui se poderá, com propriedade, falar em ascese.

Uma vez que, por quaisquer vias que seja, se vislumbrou um ideal ético de vida, as tentativas práticas de conformar-se a esse ideal constituem aquilo que a tradição filosófica ocidental chama de vida ascética, ascese, ascetismo. Trata-se de empregar os meios apropriados à consecução do fim moral elegido - assim como o atleta que realmente quer a vitória trata de lutar por esta por todos os meios que lhe forem possíveis, mediante um treinamento inteligente e rigoroso e mediante um ataque, na "hora H", com técnica e sem regateio de forças. Aquele que adapta e adota esse modo de proceder também na vida moral, tendo como meta a aquisição de bons hábitos (as virtudes) e a vitória sobre os maus hábitos (os vícios), esse é o asceta de que a tradição fala, e o estudo sistemático dos meios a empregar no exercício das virtudes vem a ser a ascética.

A Ascética constitui-se uma investigação acerca de como aplicar concretamente aquilo que se aprende na Ética; é a ética-aplicada, se se preferir assim. A Ética revela-nos o bem e o mal moral; a Ascética nos ensina como afastar-nos desse mal e como chegarmos a esse bem e nele progredirmos.

Seria impossível tratar de todos os temas da Ascética em um único artigo; propomo-nos, portanto, uma apresentação destes fracionada em muitos textos, sendo que por hoje nos deteremos na consideração de uma virtude particularmente necessária - porque demasiado faltante - aos nossos tempos. Falaremos do silêncio.

Basta observar atentamente a civilização em que nos achamos e se constatará um excesso quase onipresente de palavras e de barulhos. Televisão, rádio, cinema, celulares, redes sociais, contatos os mais diversos: é um verdadeiro dilúvio de comunicação dos seres humanos entre si, submergindo os indivíduos em uma fútil tagarelice que passa a tomar o lugar do pensamento e impede os seus escravos de ocuparem melhormente o seu tempo, condenando-os à mediocridade e à tolice.

Nesse cenário de desequilíbrio no uso da palavra, a virtude do silêncio aparece como uma reação necessária para que possamos nos autodefender contra o dilúvio da conversação fútil, e para podermos oferecer aos demais um exemplo vivo de que é possível resistir.

O silêncio é o hábito da reta economia de palavras. Significa literalmente falar pouco, reservando esse pouco para os casos necessários. Não implica nenhum "mutismo", mas também não se coaduna com tagarelice e adoração ao barulho. Como é clássico dizer-se em filosofia, a virtude ocupa uma posição de sábio meio-termo entre o excesso realmente excessivo e a falta realmente faltosa. Em termos práticos, o tempo é comumente um bom indicador da silenciosidade de uma pessoa: quem gasta pouco tempo com "bate-papos" (presenciais, por telefone ou internet) próprios ou alheios; quem gasta pouco tempo vendo/ouvindo TV, filmes, músicas, rádio; quem não fica o tempo todo procurando companhia para conversar ou algum tipo de barulho para ouvir - esse é o asceta do silêncio.

Por que, porém, adquirirmos a hábito de economizar palavras? Por que o silêncio? A resposta a esse legítimo questionamento nós a podemos oferecer elencando os sete benefícios principais que a virtude do silêncio propicia a seus praticantes.

O primeiro deles é o ganho de tempo. O que a realização de qualquer coisa séria na vida demanda é sobretudo o tempo, e como este se mostra sempre cercado de limitações, em consequência administrá-lo com inteligência é mais do que necessário e conveniente. Urge poupá-lo em relação a umas coisas para gastá-lo com outras. O hábito do silêncio, nos livrando de perder tempo com conversas pouco úteis e nos afastando das dissipações da TV e de outros meios modernos de entretenimento, nos garante uma cota muito maior de tempo para coisas sérias do que aquela que teríamos seguindo o caminho da futilidade e da tagarelice. Considere-se, por exemplo, o quanto poderia progredir na vida intelectual alguém que trocasse por estudo as suas longas horas de "bate-papo" nas redes sociais e de assistência a novelas: rapidamente ascenderia a níveis de conhecimento sequer imagináveis pelos bobocas proseadores de boteco e de 'whatsapp'.

O segundo benefício proporcionado pela virtude do silêncio é o cultivo da vida interior. A alma silenciosa pode desenvolver em si uma grande concentração, e uma atenção assim focada favorece, por sua vez, tanto a memória quanto a geração, assimilação e aprofundamento de ideias. Desde que seja ativo e se nutra em boas fontes, o intelecto encontra no silêncio um potencializador eficaz de suas operações. Enquanto o fútil tagarela vê as aparências e se contenta com elas, o silencioso medita e se aprofunda no conhecimento daquilo que o véu das exterioridades encobre. O silêncio funciona como uma espécie de peso atado à alma, impedindo esta de boiar nas superfícies e impelindo-a a águas sempre mais profundas. O barulho dispersa as forças do espírito, desintegrando-as em mil e uma bobagenzinhas. O silêncio, pelo contrário, concentra as riquezas e capacidades do interior humano, dispondo-as a serem intensamente aproveitadas.

Em terceiro lugar, o hábito da economia de palavras nos preserva de vários dos problemas que costumam ter lugar na conversação excessiva: fofocas, mentiras, mal-entendidos, revelações indevidas de segredos, maus conselhos, desanimação do próximo, prejuízo de negócios, brigas desnecessárias, manifestação de opiniões equivocadas, sentimentalismos. Como diz um sábio provérbio popular brasileiro, "quem fala demais, dá bom-dia a cavalo". E assim de fato é, porque não é possível evitar os erros do campo da fala sem se pensar antes de falar, o que demanda o exercício do silêncio. Para sermos felizes em nossas falas, é preciso que estas estejam fundadas num silêncio que as fecunde com sua virtude, senão seremos como meros tambores tanto mais barulhentos quanto vazios. 

Quarto benefício do silêncio: o autoconhecimento. Quem não é silencioso, vive voltado para fora de si, disperso entre o que lhe dizem e o que dirá em seguida, submerso em sons e imagens que atuam como um ópio sobre seu espírito, impedindo o contato deste consigo mesmo. Essa estranheza do espírito em relação a si mesmo é uma das causas que fazem com que tantas pessoas achem difícil suportar qualquer momento de solidão, tratando logo de afugentar esta quanto possível, nem que seja através da companhia de alguma máquina falante (TV, rádio, etc.). O silêncio faz a pessoa refletir sobre si mesma; atua como um espelho em que a alma pode ver a sua própria face e auto-examinar a própria consciência, despertando a alma não apenas para a visão de seus atos, mas também de suas motivações secretas por trás destes, suas ideias e suas aspirações. Explorar assim o mundo que trazemos por dentro requer o afastamento dos obstáculos da distração e da dissipação - requer o silêncio portanto.

Quinto benefício: a independência afetiva. O silêncio nos desapega dos consolos humanos e nos habilita a fazermos o que temos de fazer sem nos apoiarmos em nada e para nada no estímulo advindo de outrem. O espírito silencioso se torna, aos poucos, profundamente indiferente às opiniões que os outros dele têm; não tenta "ganhá-los" e nem age tendo por fim a aprovação deles. Podem aplaudi-lo ou podem repeli-lo: ele não se incomodará, porque seus motivos são interiores a ele mesmo e se alicerçam no que sua mente meditou e não em qualquer espera de retribuição externa. É curioso, porém, ver como os escravos da tagarelice dependem afetivamente uns dos outros; como parecem não poder viver sem a companhia de quem lhes ouça as emoções e lhes retribua derramando seu coração também. À medida em que a alma se exercita no silêncio ela se distancia cada vez mais desse quadro e sua vida afetiva adquire a marca de uma independência e tranquila autossuficiência que conferem a ela um modo por assim dizer sobre-humano de sentir as coisas humanas.

Sexto benefício do silêncio: a evitação de más influências. Isso se dá por dois motivos: primeiro, porque a alma amiga do silêncio felizmente não atrai para si a amizade dos escravos da tagarelice e, assim, escapa às más influências destes (que costumam ser escravos de vários outros vícios além do da fala); e segundo, porque o amigo do silêncio não apenas evita as conversas inúteis, como também prefere atividades silenciosas àquelas que envolvem barulho e dissipação - evita a TV, por exemplo. Dessa maneira, o amor ao silêncio protege o seu possuidor contra muitas influências moral e intelectualmente deletérias a que se acham expostos os faladores.

E o sétimo benefício que se pode haurir do hábito do silêncio consiste, por sua vez, na serenidade do corpo e da mente, os quais são, por esse meio, tanto preservados do "estresse", quanto revigorados por um saudável relaxamento. Em outras palavras: o silêncio favorece a saúde física e mental. A calma que os hábitos silenciosos propiciam atua no organismo como um verdadeiro remédio inteiramente natural, muito eficaz e sem contra-indicações. Os ritmos cardíacos tornam-se mais suaves e regulares; a digestão pode ser feita sem atropelos; a respiração passa a dispor de inspirações e expirações mais profundas; o sistema imunológico funciona com maior prontidão; o sono é melhorado sensivelmente; nervos e músculos são aliviados das tensões; o cérebro, enfim, tem ocasião de, por assim dizer, organizar melhor os seus arquivos e preparar-se para a recepção e armazenamento de novos dados. Nossa saúde corporal e mental, portanto, só tem a lucrar com uma maior adesão ao silêncio de nossa parte, principalmente se essa atitude for acompanhada da prática de atividades físicas regulares e do cuidado com uma alimentação saudável (duas coisas que o silêncio também favorece, porque, livrando-nos das conversas inúteis e das futilidades televisivas e similares, sobra-nos maior tempo para dedicar a exercícios físicos; e porque, renunciando a tomar parte em atividades barulhentas como festas, frequência de bares, etc., nos livramos também da ingestão das porcarias que nesses locais se servem a título de bebida e comida).

Poderíamos enumerar ainda vários outros benefícios do silêncio, mas os apresentados são já suficientes para que nosso leitor compreenda a importância dessa virtude e o quanto é justificável, por conseguinte, o esforço por exercitar-se nela. Essa, como qualquer outra virtude, não cai do céu e nem brota do nada em nossa vida: é preciso tê-la seriamente como uma meta e lutar para conquistá-la - numa luta sobretudo contra si mesmo, no sentido de vencer-se e autodominar-se o quanto for necessário para ter o bom hábito que se deseja, sem desanimar com as dificuldades e nem mesmo com eventuais recaídas e retrocessos momentâneos. 

Se fôssemos traçar um retrato da alma silenciosa, diríamos que é alguém que dedica pouco tempo a conversas; que usa pouco as "redes sociais", sendo que esse pouco quase não inclui "bate-papos"; que não perde tempo com novelas e outras programas fúteis de televisão e rádio; que frequenta pouco o cinema e o teatro; que praticamente não vai a festas, bares, "chopadas" e similares; que prefere passeios e atividades de caráter mais silencioso e contemplativo do que agitado; que consome pouca música (e bem selecionada); que é amigo dos livros; que evita as rodas de conversa entre colegas; que não vive procurando a companhia dos outros, nem mesmo no momento das refeições; que encontra verdadeiro prazer em ficar a sós consigo mesmo; que medita com profundidade sobre as ideias que tem ou que observa outros terem; que não se inquieta por contar ou ouvir novidades; que não vive expondo suas emoções aos outros, nem mesmo a amigos íntimos (se os tiver); que gosta da quietude da natureza e dos sons suaves que nesta reinam; que não multiplica desnecessariamente as palavras; que se arrepende de ter perdido tempo após uma conversa alongada além do necessário; etc. 

Cabe à própria pessoa o examinar, discernir e determinar para si quais os gestos concretos que precisa realizar para exercitar-se nas virtudes - a do silêncio entre estas. Meios que se mostram excelentes para uns, podem não ser apropriados para outros, uma vez que as personalidades, as histórias de vida, os locais em que se vive, as relações e obrigações que se tem, os projetos de vida e tantos outros aspectos mais, diferem de indivíduo para indivíduo. Por isso a Ascética via de regra apresenta suas propostas para a vida virtuosa de modo um tanto quanto genérico, deixando a cada um a responsabilidade de adaptar ao seu próprio caso as reflexões oferecidas. Não há normas absolutas na Ascética: há sugestões, conselhos, visões oferecidas de um ideal; a prática concreta que daí se há de seguir, porém, depende da liberdade de cada um.

Sendo a virtude uma sábia mediania entre dois extremos - um hábito bom entre dois hábitos maus, um por excesso e outro por falta -, o silêncio virtuoso será aquele que nem se interrompe por futilidade e nem se recusa a interromper-se quando há necessidade. Quando o dever ou a reta caridade (que não se confunde com sentimentalismo) nos instam a que falemos, seria desregrado calar. Urge reconhecer, porém, que a maioria das coisas que falamos (ou que nos pomos a ouvir mediante os modernos meios de comunicação) não se enquadram nessa justificativa, sendo antes mera tagarelice que o silêncio substituiria com vantagem.

Convidado está o leitor a experimentar o aumento do silêncio em sua vida. A princípio, caso esteja muito desacostumado, poderá ser difícil, mas depois se tornará uma prática simplesmente deliciosa e, se nela se perseverar, os frutos falarão por si, no fundo mais fundo do espírito, lá onde os mistérios da existência se deixam ver por quem amou a Sabedoria.

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