quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Ordem Natural e Ordem Sobrenatural


ORDEM NATURAL E ORDEM SOBRENATURAL


(Por Rodrigo Antônio da Silva)


- Breve histórico e introdução da distinção
- Esquema didático da distinção
- Conclusão


Dois amores construíram para si
dois caminhos:
o amor à verdade e à realidade
construiu-se o Caminho da Razão;
o amor à ilusão e ao erro,
o (des) Caminho da Superstição.


Constituindo-se o Deísmo, que professamos, uma negação da pretensa existência da "ordem sobrenatural", convém que expliquemos melhor a distinção entre ordem natural e sobrenatural - e é o que agora faremos.

A distinção entre a ordem natural e a ordem sobrenatural foi uma obra da Escolástica medieval, sobretudo a partir de São Tomás de Aquino e seus discípulos. Depois, no furacão das controvérsias apologéticas desencadeadas pela Reforma e Contra-Reforma a questão foi trazida à baila mais de uma vez. Na Companhia de Jesus, em particular, este tema esteve sempre bastante presente. Assim o século XVII viu várias disputas relacionadas com o assunto aparecerem, tendo o próprio Papa de intervir algumas vezes. Algumas questões levantadas pelos jesuítas, especialmente em seu apostolado no Oriente e em seu trabalho como moralistas, exaltaram ainda mais os ânimos acerca dessa distinção entre ordem natural e sobrenatural. (Eram sobretudo questões teóricas, mas com algumas ressonâncias práticas, tal como se viu na famosa "Querela dos Ritos Chineses", que acabou com a condenação, por parte do Vaticano, das posições adotadas pelos jesuítas.)

Como, porém, a Companhia de Jesus dominava imensamente o cenário da educação europeia e dispunha de um prestígio intelectual sem precedentes, muitos filósofos de então foram educados em colégios dos jesuítas ou pelo menos influenciados por estes de alguma forma. Estavam, pois, familiarizados com o tema da distinção entre "natureza e graça" (note-se que não vivíamos ainda no clima de incrível mediocridade intelectual que desgraçadamente caracteriza nossa época: a Filosofia se fazia então de forma séria...).

O tema da distinção entre ordem natural e sobrenatural caiu, afinal, sob as reflexões dos filósofos. Aquilo que os teólogos pregavam como sendo partes da alegada ordem sobrenatural foi examinado meticulosamente pela pura luz da razão, e foi achado absurdo e injustificado. A própria existência da ordem sobrenatural teve sua realidade profundamente questionada. Chegou-se, por fim, à conclusão de que apenas a chamada ordem natural era segura e evidente, devendo-se excluir, como fabulosa e imaginária, a pretensa ordem sobrenatural. Logicamente, isso significava a rejeição de todas as religiões, consideradas a partir de então como meras invenções humanas e não como portadoras de qualquer revelação divina. A razão é, pois, a única luz do homem, e a ordem natural é o único - e suficiente - legado de Deus para este.

A esta posição filosófica de aceitação da ordem natural e de descrença quanto à alegada ordem sobrenatural convencionou-se dar o nome de DEÍSMO.

Fruto, portanto, da escolástica e apologética católica, que distinguiu natural e sobrenatural, e da filosofia moderna e iluminista, que analisou os termos dessa distinção e ficou com o natural excluindo o sobrenatural, o Deísmo aparece afinal como uma postura filosófica armada com toda a solidez da Razão em sua interpretação lógica da natureza, opondo-se tanto ao ateísmo quanto às religiões.

Que aquele que crê em alguma religião pretensamente revelada pare por um instante e pense nisso: suposto que Deus não tivesse feito a tal revelação sobrenatural que sua fé alega, qual seria necessariamente o caminho acertado para o homem? Não seria aquele que significasse um conhecimento de Deus pela simples via da razão? Seria o Deísmo pois, inegavelmente.

Antes de todos os tempos Deus, para falarmos em termos humanos, precisou decidir se deixava os seres humanos na esfera da ordem natural (que resulta logicamente no Deísmo) ou se acrescentava uma ordem sobrenatural à natural (do que resultaria uma religião revelada). O que Deus escolheu? O ordenamento geral das coisas que tocam à vida humana obedece puramente à natureza (como Deus a estabeleceu, ou seja, sob o império da razão) ou há "adendos" essencialmente sobrenaturais acrescentados por Deus mesmo às exigências e possibilidades da natureza?

A resposta, por certo, não a encontrará aquele que não se esforçar violentamente por ela... Lembramos: a idiotice generalizada e a mediocridade cretina de nossa época não favorecem em nada essa busca intelectual: se você quiser, pois, realizá-la, arme-se de coragem para enfrentar um mundo que nunca se tornou racional, embora adore a superstição e a bagunça. Isso é o que faz com que o Deísmo seja relativamente uma posição difícil de ser adotada: requer uma dedicação intelectual intensa, não estando muito facilmente à disposição de vagabundos e ignorantes.
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Apresentamos, a seguir, um esquema didático e sintético da distinção entre Ordem Natural e Ordem Sobrenatural. (Nota: há variantes na descrição da ordem sobrenatural segundo esta é feita pelas diferentes religiões, cujos detalhes não daremos aqui; abordaremos apenas a descrição clássica da Escolástica católica, visto que foi em resposta direta a esta que o Deísmo se constituiu.)

- Ordem Natural: Aquele ordenamento básico e geral das coisas concernentes ao ser humano, apoiado na natureza deste e do cosmos que o cerca.
- Ordem Sobrenatural: Aquele ordenamento especial das coisas concernentes ao ser humano, instituído e revelado por Deus mesmo.

- Provas da Ordem Natural: observação empírica e reflexão lógica e filosófica acerca da realidade.
- Provas (alegadas) da Ordem Sobrenatural: os milagres (ou seja, fenômenos extraordinários que vêm a ser considerados uma espécie de selo divino sobre a autenticidade da doutrina a eles relacionada).

- O homem na Ordem Natural: uma criatura de Deus.
- O homem na Ordem Sobrenatural: um filho adotivo (adoção ontológica pela Graça) de Deus.

- Fim natural do homem: conhecer a Deus pela razão, servi-lo mediante obras naturalmente boas e, por estas, desfrutar de um estado de alegria natural perpétua após a morte.
- Fim sobrenatural do homem: conhecer a Deus pela razão e pela revelação, servi-lo mediante o seguimento da religião revelada e, assim, desfrutar de um estado perene de alegria sobrenatural (visão beatífica) após a morte.

Culto divino natural: preces e homenagens de caráter filosófico a Deus, individual ou coletivamente, mas restringindo-se ao que faça sentido apenas à luz da razão.
- Culto divino sobrenatural: orações, sacramentos, ritos e homenagens baseados numa revelação divina.

- Moral natural: os deveres do homem tal como descobertos pela luz da razão.
- Moral sobrenatural: os deveres do homem tal como revelados por Deus.

- Os Primeiros Pais, na ordem natural: seres humanos normais, sempre iguais a nós.
- Os Primeiros Pais, na ordem sobrenatural: criaturas cheias de privilégios, perdidos pelo pecado original.

- Providência divina na ordem natural: Deus rege o cosmos apenas através das leis da natureza e do ordenamento próprio desta.
- Providência divina na ordem sobrenatural: Deus rege a criação não apenas através de leis naturais, mas através de intervenções extrínsecas e extraordinárias.

- O Estado Político na ordem natural: deve se guiar apenas por considerações racionais, filosóficas e sociais.
- O Estado Político na ordem sobrenatural: deve se guiar também pelos dogmas da religião revelada.

- Apostolado na ordem natural: difusão de verdades filosóficas e científicas.
- Apostolado na ordem sobrenatural: difusão da doutrina (supostamente) revelada.

- Ascética natural: esforço do homem por adequar sua vida à razão retamente esclarecida, mediante o exercício das virtudes naturais (basicamente: Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza [as quatro em sentido filosófico]).
- Ascética sobrenatural: esforço do homem por adequar sua vida às exigências práticas da revelação divina, mediante o exercício das virtudes sobrenaturais (basicamente: Fé, Esperança e Caridade [as três em sentido teologal]).

- Relação do homem com Deus, na ordem natural: pura e simples postura filosófica da criatura ante o Criador (conhecimento natural dEle pela razão e serviço a Ele pela ética e pelo culto natural), sem qualquer alteração substancial/ontológica da natureza humana.
- Relação do homem com Deus, na ordem sobrenatural: estado de união ontológica com Deus (Graça Santificante) ou estado de carência desta (pelo pecado original ou atual grave).

- "Religião" natural: o Deísmo, como fruto natural da razão humana.
- Religião sobrenatural: aquela que Deus mesmo revelou aos homens.

E etc... Poderíamos continuar apontando longamente as diferenças entre as duas espécies de ordenamento geral da realidade. Sem dúvida, a ordem sobrenatural seria ótima se fosse real, se fosse verdadeiramente existente, se Deus de fato a tivesse instituído (o que poderia, é claro, ter feito). Mas a análise atenta daquilo que se alega como sendo efetivamente a ordem sobrenatural demonstra que esta não passa de um sonho, uma ilusão, um engano. Há vários absurdos irracionais nas doutrinas pretensamente reveladas (e Deus não pode ensinar erros), além de não serem satisfatoriamente probatórias as "provas" postuladas pelos crentes da tal revelação (um milagre só poderia ser aceito como um selo divino sobre a tal doutrina, se sua própria origem divina pudesse ser demonstrada - e, na prática, nunca pode). Ora, não faz sentido achar que Deus imponha aos homens a crença numa pretensa revelação marcada por erros e ideias duvidosas por um lado, além de desprovida de provas realmente convincentes - em termos de certeza - por outro. Logo o Deísmo é o caminho, o único caminho seguro e acertado para o homem, e fora do Deísmo reinam apenas as trevas da superstição e da irracionalidade - pontilhadas, é fato, por algumas estrelinhas de acertos pontuais, e quiçá até mesmo clareadas pelo luar da boa vontade, mas ainda assim noite. Na Razão, porém, se realmente abraçada pra valer, tudo é luz e calor.

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