sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Entrevista com Padre excomungado por contestar moral sexual da Igreja

UM HOMEM COM RAZÃO
- Entrevista concedida pelo Padre Beto (recentemente excomungado pela Diocese de Bauru) à Revista H, edição de junho/2013, páginas 24 a 27 -


Roberto Francisco Daniel tem 47 anos e nasceu em Bauru, Estado de São Paulo, onde até pouco tempo arrastava muita gente para dentro da igreja em suas missas. Mais conhecido como Padre Beto, ficou nacionalmente famoso no mês de abril após ter sido iniciado seu processo de excomunhão da Igreja Católica. Seu "crime" foi defender um pensamento religioso mais arejado, mais contemporâneo, onde a homossexualidade não é um pecado, é apenas mais uma forma de amor.

Formado em Radialismo, em Direito, em História e em Teologia, ele é ainda professor de Filosofia da Faculdade de Direito (ITE), professor de Ética e pesquisador do Centro de Pós-Graduação da Instituição Toledo de Ensino, professor de Filosofia das Faculdades Integradas de Bauru (FIB) e professor de Filosofia e Ética das Faculdades Anhanguera em Bauru.

Sua atuação fora da igreja, segundo ele, começou justamente com o objetivo de lhe garantir uma independência econômica da Santa Sé e poder pregar suas ideias libertadoras e inovadoras para a fé católica sem medo de represálias. É como se ele previsse que defender a masturbação, a homossexualidade e tantas outras posições polêmicas para o catolicismo pudesse lhe tirar a batina. Na entrevista a seguir, ele é sincero, é coerente, é homem e, acima de tudo, é racional.

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Revista H: Uma primeira dúvida que eu tenho aqui é: ainda devo te chamar de padre ou não?
Padre Beto: Como esse processo de excomunhão ainda não foi ratificado pelo papa, você pode me chamar de padre sim, se você quiser.

Revista H: E como fica a sua vida religiosa neste momento? Você pode realizar missas, batismos, pode continuar atuando como padre?
Padre Beto: Não, eu não posso exercer nada. Eu fui banido, é praticamente a pena de morte na Igreja Católica, é radical mesmo.

Revista H: Você chegou para uma reunião da Cúria e a decisão do Bispo já estava tomada, já iria te excomungar de qualquer jeito. Você acha que já era uma vontade que as autoridades católicas tinham antes?
Padre Beto: Eu acredito que sim, isso já era o desejo de alguns da cúpula aqui. A gente já vinha incomodando eles tanto pela popularidade que a gente tem aqui em Bauru, como pela liberdade de pensamento, de reflexão.

Revista H: E você tem uma noção de quando começou a incomodar? 
Padre Beto: Eu acho que desde que eu cheguei. Eu passei 10 anos na Alemanha, lá eu fiz meus estudos, fiz a Teologia e o doutorado, e aí eu voltei para a diocese de Bauru. Eu fui como seminarista para lá em 1991, fiz todos os meus estudos por lá e voltei em 2001 para o Brasil. Sempre tive como meta levar o Evangelho, mas de uma forma autêntica, e trazê-lo para os dias atuais, para a contemporaneidade. E nesse esforço de atualizar o Evangelho, a gente sempre criou, vamos dizer assim, problemas com a ala mais conservadora.

Revista H: Mas tinha gente dentro da igreja que achava legal esse seu posicionamento diferente?
Padre Beto: Sim, eu encontro eco, mas infelizmente a grande maioria do clero tem uma dependência econômica em relação à Igreja, então eles ficam com um medo muito grande de se expressar livremente. Porque eles podem ser punidos como eu fui punido. E desde que eu cheguei da Alemanha, sabendo como funcionam as coisas no capitalismo, cheguei com a proposta também de dar aula em outras entidades que não sejam da Igreja Católica. Então eu dou aula em três universidades daqui e criei a minha independência financeira. Essa independência eu procurei justamente por saber que meu pensamento destoava da Igreja. Eu tentei criar um respaldo meu na busca de poder contribuir como padre na reflexão de diversas questões referentes à Igreja, para que a Igreja mude, e não faça tanto as pessoas sofrerem assim.

Revista H: É preciso que a Igreja se atualize então? 
Padre Beto: Ah, mas com certeza. Eu acho que o conhecimento humano mudou. Acho que a Igreja, inclusive, não deveria apenas se adaptar ao conhecimento humano, ela deveria é ser vanguardista. O Cristo foi vanguardista para a sua época, e a Igreja deveria ser uma instituição assim, de ponta. O conhecimento sobre a natureza humana mudou, não posso mais aceitar certas normas de comportamento que hoje mais vão contra o conhecimento humano do que contribuem.

Revista H: Porque fica parecendo que a Igreja não vê o que já foi descoberto e comprovado.  
Padre Beto: Exatamente. Ela ainda vê a sexualidade humana de uma forma negativa. É como se nós tivéssemos o pecado, tivéssemos uma tendência pecaminosa, isso é horrível. Ela ainda é contra os métodos anti-concepcionais e ela, claro, aceita o homossexual, mas não aceita a sua homossexualidade. O que é um absurdo. É uma forma disfarçada de dizer: eu sou homofóbico. Quer dizer, a Igreja é homofóbica, ela está sendo homofóbica, só que disfarça bem. Ela diz: a gente não é homofóbico, a gente aceita o homossexual, o que a gente não aceita é a sua sexualidade. Mas espera aí, isso é totalmente estranho.

Revista H: Se a Igreja desse uma modernizada no pensamento dela, ela deixaria de perder fiéis como está perdendo?
Padre Beto: Isso com certeza, mas eu acho que essa não deve ser a maior preocupação da Igreja. A preocupação maior da Igreja deve ser com a coerência. Independente de ela atrair ou não fiéis com a mudança das normas morais, ela tem que ser coerente com o Evangelho. Primeiro: o Cristo nada falou sobre sexo, ele falou sobre hipocrisia, isso sim. E ele vai estar acessível a todos, independente da sua religião, da sua sexualidade, da sua nacionalidade, ele é um ser totalmente aberto às pessoas, ao ser humano em si. E as regras morais que nós temos, por exemplo, contra a homossexualidade na bíblia, são regras que vêm de um costume da época, vêm de uma mentalidade da época. Então você tem no Antigo Testamento que é claro para um semita há três mil anos atrás que ele não ia aceitar a homossexualidade. E Paulo vai condenar a homossexualidade também, por quê? Porque ele teve uma educação estóica - Michel Foucault trabalhou bem isso -, ele vai ser contra tudo aquilo que vem do corpo, que vem do impulso sexual. E, portanto, a homossexualidade. Agora, a Igreja é capaz de entender isso, mas ela não quer. Apesar de ela já ter mudado em outro pontos, eu não sei por que essa relutância com relação à homossexualidade. 

Revista H: E você, Beto, desde quando percebeu que a homossexualidade não é pecado?
Padre Beto: A Alemanha está muito mais à frente, ela tem uma sociedade muito mais madura. Quando fui estudar lá, comecei a ver de uma forma tranquila na paisagem social a presença de homossexuais, casais de homossexuais. E, por sua vez, a Teologia lá é bastante arejada. Quando voltei ao Brasil como padre, atendi muita gente em confissão, com diversos dramas. Entre eles, atendi vários homossexuais, tanto masculinos quanto femininos. 

Revista H: E como era sua recepção para com eles?
Padre Beto: Eu sempre fui da postura de não repetir simplesmente o que a Igreja quer que eu repita; sempre tentei esclarecer esses homossexuais que eles têm uma tendência sexual e essa tendência sexual deve ser vivida com saúde, de forma saudável, sem culpa. Infelizmente a Igreja Católica trabalha muito em cima dessa coisa da culpa, do pecado. E o que é o pecado? Pecado é um desamor em relação à vida e à pessoa humana. Eu lembro do caso de um casal de namorados que eu via na minha missa, sempre presentes. Mas eu senti que a rapaz era homossexual, e dito e feito, depois de um ou dois meses ele veio se confessar e me contou que era homossexual. Aí eu falei para ele: por que você está namorando uma menina então? Ele disse que era um 'namoro santo'. O namoro deles era só segurar na mão. Fui conversando com ele e dizendo que ele não seria feliz assim, não iria fazê-la feliz, que ele estava enganando essa moça e se enganando. Consegui fazer com que ele se aceitasse como homossexual e largasse a menina.

Revista H: Por pregar ideias diferentes, de forma diferente, você já sofreu preconceito de algum paroquiano mais conservador?
Padre Beto: Não preconceito direto. É interessante porque padre é uma figura pública, então você está na mira. Por exemplo, eu corria muito, eu era uma pessoa de praticar esportes, e uma época comecei a correr na rua pela cidade, fazia uns 15 km. Cheguei assim a emagrecer bastante, aí soltaram o boato de que eu estava com AIDS. Aí por N fatores, pela correria do dia a dia, parei de correr e dei uma engordada, e coincidiu de eu estar ficando careca e raspar a cabeça, raspei no zero. Pronto, aí soltaram que eu estava com câncer. Aí depois de um ano, não sei porque, soltaram que eu tinha um filho. Tirei o maior sarro na igreja. Falei: olha, gente, estou me sentindo o Superman, porque já tive AIDS, peguei um câncer e ainda consegui gerar um filho. Eu sou o cara, meu! Já quando saiu o vídeo onde abordo a questão da bissexualidade, da homossexualidade, saiu o boato de que eu era gay. Nada contra, tudo bem, podem pensar que eu sou gay, eu poderia ser gay, numa boa.

Revista H: Mas não é? 
Padre Beto: Não, não sou gay. Mas e daí? Isso não me afeta. Não é uma ofensa para mim pensarem que sou gay. Infelizmente as pessoas usam isso para tentar denegrir, porque a nossa sociedade é hipócrita e preconceituosa, mas isso não me denigre. Eu poderia ser gay, numa boa.

Revista H: Você disse que é contra o celibato obrigatório, mas até agora se mantém celibatário.
Padre Beto: Me mantenho celibatário porque eu quero manter minha integridade. Aprendi a viver muito bem sozinho, estou bem sozinho. Pode ser que surja um relacionamento aí, mas não está nos meus planos, agora que fui banido da Igreja, me casar.

Revista H: Essa era uma pergunta que eu ia fazer. Agora que você não será mais padre, você pensa em se casar, se relacionar?
Padre Beto: Pode acontecer, mas eu não penso não. Eu prefiro me manter celibatário mesmo, eu me sinto livre assim.

Revista H: Mas você não sente falta de uma companhia, de sexo? 
Padre Beto: Olha, pode ser que com o tempo isso venha, mas por enquanto eu não sinto falta não. Pode ser até que eu tenha aprendido a ser um pouco egoísta, individualista. Mas por enquanto eu não estou sentindo falta, como também durante a minha vida de padre eu não sentia falta. Pelo contrário, chegava no meu apartamento e queria estar sozinho.

Revista H: E a coisa fisiológica do homem? A necessidade, aquele momento onde a testosterona bate forte? 
Padre Beto: Eu não tenho muito isso. Mas quando a testosterona grita, eu vou para o 'cinco contra um', eu me curto. E gozo com o maior prazer.

Revista H: Mas a Igreja não é contra isso? Pode?
Padre Beto: E desde quando a masturbação é pecado? Bem que eu falo que a moral sexual da Igreja tem que mudar. Ela tem que começar a ver a sexualidade como algo positivo, e não negativo. Mesmo porque, veja bem, eu estou com 47 anos, e 72% dos casos de câncer de próstata são causados pela inatividade sexual. É uma questão de saúde. Então leio um conto erótico, dou uma boa olhada em um site, numa boa

Revista H: É uma surpresa você me falar isso, porque tenho certeza de que seu eu perguntar isso para os padres, 95% deles vão negar. É uma hipocrisia então, padre sente tesão?
Padre Beto: É uma hipocrisia, é uma mentira muito grande. Para você ter uma ideia, já fiz uma homilia sobre masturbação, tanto masculina quanto feminina. Claro que se encaixou com o Evangelho, e tal. O Evangelho não falava de masturbação, claro, mas falava da saúde. E aí citei um exemplo de um e-mail que eu havia recebido de um rapaz dizendo para eu rezar por ele porque ele estava em pecado. Eu respondi ao e-mail dizendo que iria rezar por ele, mas perguntei qual era o pecado. Ele respondeu: é o pecado da satisfação momentânea. Respondi para ele perguntando se era masturbação e quantos anos ele tinha. Ele tinha 12 anos e queria uma oração de cura interior. Quer dizer, esse garoto, coitado, estava descobrindo a sexualidade e estava se sentindo doente. Isso é ridículo em pleno século XXI. Ele deveria é estar se sentindo orgulhoso por ser saudável, por ter uma libido, um desejo. Tive que colocar no e-mail que se ele não se masturbasse eu ia mandar ele procurar um médico, porque alguma coisa não estaria bem. A Igreja precisa se transformar. Então fiz essa homilia em cima disso, a importância da masturbação para os jovens, para depois eles serem bons amantes no futuro. O sexo é uma coisa que deveria ser vivida de uma forma muito prazerosa, muito legal. Não tem porque ficar no século 21 castrando uma coisa que é tão saudável. 

Revista H: E como foi recebida essa homilia sobre masturbação? Deu polêmica? 
Padre Beto: Por incrível que pareça, cara, não diminuiu os fiéis da minha missa, as minhas missas tinham sempre 1200 pessoas por domingo, a cada missa. É claro que eu estava em uma paróquia que era bem eclética de público; por incrível que pareça, o pessoal de mais idade veio me cumprimentar, dizer parabéns pela minha coragem, diziam que os jovens precisavam ouvir aquilo mesmo.

Revista H: Você pensa em continuar falando sobre esses assuntos? Você continua dando aula nas faculdades? Porque agora fora da Igreja você terá mais liberdade. 
Padre Beto: Continuo dando aulas sim. E continuo a falar sobre isso sim. Vou continuar sendo um teólogo que vai procurar refletir sobre fé e vida e, no caso, fé cristã e sexualidade. Sempre com essa visão contemporânea, não poderia ser outra, a minha consciência não permite. 

Revista H: Com mais tempo livre agora, vai voltar a praticar esportes? 
Padre Beto: Eu vou à academia ainda. Eu tenho um personal, ele que programa, mas eu faço mais é musculação mesmo.

Revista H: Mas você se sente com 47 anos? 


Padre Beto: Eu me sinto com 47, e ter 47 anos é muito bom! Porque você junta vitalidade com experiência. É muito legal. É um auge. Você já viveu muita coisa. Para você ver, se eu fosse um pouco mais jovem, talvez menos experiente, nossa, essa excomunhão teria sido um soco no estômago, no rosto. Não senti uma tristeza, senti pena da Igreja por ela pensar assim. Ela aplica uma pena de excomunhão para um padre que reflete, pensa, procura com pensamentos e tal, apesar dele ser um cara que tenta viver na coerência, na integridade. Com pedófilos aí, ou heterossexuais que vivem uma vida dupla - a gente sabe de padre aqui em Bauru que já é avô -, ela não aplica nada. É uma instituição que infelizmente precisa passar por um processo de cura. A Igreja está doente. Não pretendo ir para outra igreja. Me sinto católico, fui criado dentro dessa igreja. Eu me sinto católico, não pretendo fundar outra religião nem outra igreja. 

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