terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O problema da coexistência do ser criado na presença do Ser Incriado (Cardeal Journet)

(Nota aos colegas deístas: reproduzimos abaixo um belo texto  - uma meditação metafísica - escrito, em meados do século passado, por um Cardeal católico bastante reconhecido em sua área como um competente teólogo. Muito embora ele use uma citação bíblica para introduzir seu assunto, no restante do texto ele se concentra em simples reflexões filosóficas, tiradas da metafísica, e, portanto, puramente racionais, independentes do recurso a qualquer "revelação". Podemos, pois, como deístas, aceitá-las tranquilamente e utilizá-las na ilustração de nosso espírito. [E aproveitem mesmo: não é todo dia que um Cardeal romano escreve um texto coincidindo com o que os deístas defendemos!] Rodrigo.) 



O problema da coexistência do ser criado
na presença do Ser incriado

Cardeal Charles JOURNET
(1959)

"É porque Deus é tão diferente do mundo,
tão distante do mundo,
que Ele pode ser tão próximo do mundo,
tão interior ao mundo.
É porque Deus está tão fora do mundo,
que Ele pode estar tão dentro do mundo.
O paradoxo da presença de criação
é ela poder ser, a uma só vez,
presença infinita
ausência infinita"
(Cardeal Journet)


O Espírito de Deus movia-se sobre as águas (Gn 1, 2).

Pagãos como Celso e Juliano, o Apóstata, lançavam em face dos cristãos a grosseria do relato da criaçãoVê-se ali Deus criar o céu e a terra. Céu é o firmamento onde estão as estrelas. Nada se diz da criação dos seres de natureza espiritual, dos anjos [os quais já a pura luz natural da razão reconhece como perfeitamente possíveis]Como responder a essa questão dos pagãos?

Exegetas dirão que a Bíblia é uma história da humanidade, mais precisamente uma história da eleição de Israel. Tudo ali aparece em função desse grande tema. O universo, com o sol e a lua, é o lugar de habitação do homem, o sítio onde ele está colocado; a inteligência tentadora da Serpente explica a queda, a força do Querubim guarda o paraíso terrestre, mas é ao homem que é feita a promessa da Redenção. Essa resposta dos exegetas é verdadeira. No entanto, pode-se dar à questão colocada pelos pagãos uma resposta em profundidade, muito mais misteriosa.

Dir-se-á que, ao narrar-nos a criação do mundo visível, do mundo material, a Bíblia quis propor de imediato à nossa inteligência, da maneira mais contrastante possível, mais brutal possível, o problema do ser criado.

A existência do ser criado é como que um escândalo para a nossa inteligência. É como que um à parte de Deus, e não há à parte de Deus, apêndice de Deus. É como um exterior a Deus, e não há exterior a Deus. É algo que não é Deus, que de início não era, mas que uma vez [no caso do homem] tenha aparecido durará para sempre, permanecerá para sempre distinto de Deus, e que, no entanto, não pode ser senão em Deus.

Em se tratando do ser espiritual, o escândalo fica como que atenuado. O ser espiritual é aparentado ao Espírito. É permeável pelo Espírito. Compreende-se melhor que ele esteja no Espírito, em Deus; que ele não esteja fora de Deus.

Mas o ser material é pesado, opaco. Parece por natureza impermeável ao Espírito. É fechado e encerrado, está prisioneiro de um lugar no espaço; enquanto que o Espírito é livre, ignora todos os limites de lugar. Dizer que Deus criou um mundo material é dizer que Ele criou diretamente aquilo que Lhe é mais estranho, mais contrário, mais oposto. A Bíblia dirige sem demora a nossa atenção para isso. Ela não tenta nos fazer passar por uma série infinita de degradações, de Deus aos espíritos, a seguir aos arquétipos das coisas, depois às coisas visíveis mesmas. É desse jeito que procederia um filósofo [de orientação platônica]. A Bíblia faz contrastarem diretamente o Espírito infinito e a matéria. Ela põe o problema do ser criado, da coexistência do ser criado na presença do Ser incriado, naquilo que tem de mais paradoxal, de mais chocante, de mais escandaloso. Ela faz mesmo questão de deixar transparecer um carinho do Espírito pela matéria: “O Espírito de Deus movia-se sobre as águas”.

Como é possível que Deus e o mundo coexistam? Se Deus é tudo, nada há fora d’Ele; então, onde encontrar espaço para o mundo? Se digo, pelo contrário, que o mundo existe, há algo que não é Deus; aí então, Deus não é tudo, o que equivale a dizer que Deus não é Deus. Eis aí escândalo da coexistência entre Deus e o mundo.

Todos os homens percebem-no, ao menos obscuramente. A inteligência não pode viver na presença de um escândalo. É preciso que ela tente reduzi-lo, reabsorvê-lo. Os homens inventaram, para isso, três tipos de respostas.

Uma é o ateísmo. Não há nada além do mundo, do mundo material. Deus é pura ilusão. Há que admitir o mundo tal como ele é, de olhos fechados. Não se deve colocar questões de saber se é possível que o ser limitado, que o ser material tenha chegado por si só à existência, ou se é possível que uma vez posto na existência ele possa, por mais imperfeito que seja, subsistir por si só, sem depender de nada. Metafisicamente, é preciso virar cego; aí então, o ateísmo é uma solução. Moralmente, sucede um curioso fenômeno. O homem, sendo criatura, é feito para adorar; e, quanto mais humano, mais profundamente tem necessidade de adorar. Se ele se cega a respeito de Deus, lhe é necessário adorar ao mundo, ou a si mesmo, ou a mitos, qualquer coisa, enfim, que não seja Deus, e isso é causa de todas as catástrofes.

O ateísmo não é a primeira “solução” em que o homem tenha pensado. Em estado esporádico, ele é sem dúvida de todos os tempos. Mas em estado de corrente coletiva, de mito cultural, é recentíssimo. A Índia, povo de metafísicos, cogitara buscar a solução numa direção inteiramente contrária. A última resposta de Shankara é que é um erro crer na dualidade de mundo e Deus. Mas é o mundo, e principalmente a matéria, que é sonhado, ilusão, maya. Mais exatamente, mas só para o sábio, o mundo acaba não sendo mais nem sequer um sonho, uma ilusão; ele se dissipa. Nada mais resta que Brahma, o Absoluto. Nem por um instante o pensamento vedantino sequer cogita duvidar de Deus, mas não cessa jamais de duvidar do mundo. Sua tentação nunca é o ateísmo, ela é constantemente o acosmismo.

Entre essas duas soluções absurdas, desesperadas, há uma terceira que não resolve nada. Ela não quer negar o mundo. Não quer negar a Deus, tampouco. Ela coloca Deus diante do mundo, diante da matéria principalmente, como perante um fato consumado. Ele não tem nada a ver com isso. É uma fatalidade. Não lhe resta senão tirar daí o melhor partido possível. Deus é o Demiurgo, o Operário, o Organizador do mundo [o Grande Arquiteto do Universo...]. Ele não é seu Criador.

É a solução grega. Na Índia encontra-se solução semelhante, mas menos brutal. Para Ramanuja, o universo não é exterior a Deus; vem de Deus, emana de Deus, é o corpo cósmico de Deus, onde Deus exprime a superabundância interior do Seu ser. Porém, pensa esse sábio, há necessidade para Deus de criar assim para Si um corpo cósmico. Ele instala no próprio Deus uma necessidade de produzir o mundo, logo uma dependência em relação ao mundo. Também ele, portanto, se vê afinal na necessidade de diminuir Deus para dar lugar ao mundo. De tanto que é difícil, nesse problema da coexistência do criado e do Incriado, tocar a verdade tão alta, e todavia tão simples.

* * *

Qual é a verdade? Deus existe? Sim! O mundo existe? Sim! São distintos um do outro? Sim! Logo, dividem o ser entre si?; logo há concorrência entre eles? Não! É justamente esse o erro, o pior erro!

Para dar um verdadeiro lugar ao mundo, é loucura querer suprimir Deus, ou diminuir Deus, ou tirar do ser de Deus. E, para dar todo o lugar a Deus, seria outro tipo de delírio querer suprimir o mundo, considerá-lo como um sonho, uma alucinação: nós sabemos muito bem que o mundo é real, que o nosso sofrimento é real, que os nossos lutos são reais, que eles dilaceram realmente o nosso coração, que o sangue dos homens ensanguenta uma terra real.

Toda a verdade cristã [e - por que não? - deísta também] é justamente descobrir que Deus é demasiado diferente do mundo para que o mundo possa entrar em concorrência com EleDeus é, e o mundo é: mas eles não são de igual maneira; eles são, pelo contrário, de maneira essencialmente diferente. O significado da palavra ser, ao passar do mundo para Deus, ou de Deus para o mundo, fica inteiramente transposto. É preciso dizer: o ser do mundo está para o finito assim como o ser de Deus está para o infinito. É preciso dizer, é preciso pensar, sobretudo, com o IV Concílio do Latrão, “que do Criador à criatura, a semelhança nunca chega a ser tal, que a dissemelhança não seja ainda maior” [Denz., nº. 432].

O Ser de Deus é um abismo, uma vertigem para o pensamento; é justamente por isso que Ele não entra em concorrência com o ser do mundo. Todos os outros seres, que estão no patamar do finito, dividem o ser entre eles, um tendo isto, outro aquilo; eles se limitam mutuamente, entram em concorrência uns com os outros. Mas o Ser de Deus é Abismo: justamente não está no patamar do finito, justamente não sofre concorrência dos outros seres. Procura-se um exemplo? Mas não há nenhum! Deus, precisamente, é um caso único! Não há, quando muito, senão imagens. Eis aqui uma, ela é bem pobre. O som não é incomodado pela luz, ele não precisa eliminar a luz para ocupar todo o lugar, ele penetra a luz, ele a torna inteiramente sonora. Assim Deus, para ocupar todo o lugar, não tem necessidade de eliminar o mundo: o ser do mundo é completamente incapaz de incomodá-Lo; o Ser de Deus embebe o ser do mundo, penetra-o; cria-o, sustenta-o, conserva-o, move-o; tange no coração mesmo do mundo como o som no coração das luzes, sem que Sua total liberdade, sem que Sua total pureza seja afetada em nada por ele. Que o mundo seja ou não seja, Deus não é perturbado em nada, mudado em nada, em nada acrescido nem diminuído; mas se o mundo é, é em Deus que ele será, viverá, mover-se-á; e, no coração mesmo do mundo, para que ele possa ser, viver e mover-se, será preciso que Deus esteja escondido.

* * *

Caso cessemos por um instante de formar ideia tão sublime e tão vertiginosa do Ser de Deus, caso deixemos um instante de concebê-Lo como essencialmente diferente do ser finito, o que acontecerá?

Imediatamente o Ser de Deus cairá ao nível em que Ele encontrará o ser finito, em que Ele entrará em competição com o ser finito. Eis que eles serão rivais, dividirão entre si e disputarão um com o outro o âmbito do ser; o que a um for dado, do outro será tirado, e reciprocamente.

Aí então, fica-se enredado nas dificuldades que nós assinalamos. Ou defendemos o ser do mundo; e, dado que Deus pretende tudo invadir, vamos muito simplesmente negar Deus: é o ateísmo. Ou então defendemos Deus, damos todo o ser a Deus, e vemos o mundo esvanecer como um sonho: é o acosmismo.

Ou ainda, por fim, procuramos dar a parte de Deus e a parte do mundo. Colocamos ponta com ponta o ser de Deus e o ser do mundo, a fim de recompor o ser total. Há maneiras grosseiras de o fazer e outras que são mais sutis. Há o panteísmo de Spinoza ou Schelling ou Hegel, em que o mundo aparece como um enriquecimento, um desenvolvimento, uma atualização de Deus. Há o dualismo grego, em que o Demiurgo e a matéria se defrontam desde sempre. Há a tese de Ramanuja, em que Deus cria o mundo, que não Lhe contribui nada, que não é senão como que um espelho no qual Ele Se reflete (e isso é exato); mas Deus está obrigado a criar esse espelho: se não o criasse, n’Ele haveria algo de inactuado, um vazio, uma carência (e isso é inexato).

Mas um Deus que não é todo o ser, um Deus que possa aumentar, Se atualizar, talvez seja um deus, mas não é Deus. Uma vez que se tenha aceito de partilhar o âmbito do ser entre Deus e o mundo, de dar a parte de Deus e a do mundo, não restam logicamente senão duas saídas, todas duas absurdas: o ateísmo, ou o acosmismo.

A questão que deve ser colocada aqui — é uma questão de princípio, uma questão que orienta ou desvia todo o pensamento — é a seguinte: Deus + mundo = mais do que Deus só? Ou então, Deus sozinho não é mais nem menos do que Deus + o mundo?

Se eu não tiver compreendido o mistério único do Ser de Deus, se em meu pensamento rebaixei o Ser de Deus ao plano do ser finito, aí então serei levado necessariamente a adicionar o Ser de Deus e o ser finito, como se somam duas quantidades. Um milímetro + um quilômetro, isso resulta em mais do que um quilômetro só. Deus + o mundo, isso resulta em mais do que Deus só.

Mas, se entrevi o mistério do Ser de Deus, sei que Ele é qualitativamente diferente do ser finito; que Ele, com relação ao ser finito, não está no mesmo plano, não é unívoco, mas de um outro plano, somente análogo ou proporcional — aí então, é-me impossível somá-los. Somar o róseo ao vermelho não é torná-lo mais vermelho; somar a ciência do aluno à do mestre não é torná-la mais intensa: ao final de uma lição, há deveras numa sala de aula mais “cientes”, não, porém, mais ciência, maior intensidade de ciência. Deus mais o mundo é igual a mais seres, mas não é igual a mais Ser.

Tudo está aí. Porventura Deus é, para vocês, um ídolo, um ser maior e mais belo, lado a lado de seres menores e mais débeis? Ou Ele é para vocês o único Adorável, o Abismo insondável onde o pensamento de vocês não dá pé, afunda e se afoga? O altitudo divitiarum et sapientiae et scientiae Dei!

* * *

Tocamos aqui num primeiro e maravilhoso paradoxo. É porque Deus é assim vertiginosamente diferente do mundo, que por isso o Ser d’Ele não pode ser somado ao ser do mundo, nem entrar de maneira alguma em concorrência, em competição, em rivalidade com o ser do mundo. Então, Deus pode ocupar exatamente o mesmo lugar que o mundo ocupa, sem de modo algum eliminar o mundo. Noutras palavras, é porque Deus é tão diferente do mundo, tão distinto do mundo, tão distante do mundo, que Ele pode ser tão maravilhosamente próximo do mundo, tão íntimo ao mundo, tão interior ao mundo. É porque Deus está tão fora do mundo, que Ele pode estar tão dentro do mundo. É porque Ele é absolutamente transcendente ao mundo, que Ele pode ser absolutamente imanente ao mundo.

É uma grande vaidade, é uma grande loucura dar a escolher entre um Deus transcendente ao mundo ou um Deus imanente ao mundo. A transcendência e a imanência são as duas faces de um único mistério, o da coexistência do Ser infinito no ser finito, e também, da Ação infinita na ação finita. Quando se entreviu esse mistério, vê-se que é preciso tudo escolher de uma vez: transcendência e imanência. Quem separa a transcendência da imanência, para escolher uma ou outra, não apreendeu nem o que é uma nem o que é a outra. Não divisou ainda que é necessário elevar-se bem alto acima da superfície de um lago, para ver a sua profundidade.

Quanto mais uma coisa é superficial, mais ela age na superfície das outras coisas; e, quanto mais uma coisa tem valor, mais age em profundidade nas outras coisas. Há pessoas cuja conversação, cuja presença mesma cansa; há pessoas cuja conversa, cujo próprio silêncio alimenta. É a mesma coisa com livros. Um jornal, uma revista, enfadam; a leitura de Antígona ou Ifigênia, ou de algumas estrofes da Divina Comédia, apazigua.

Comparada à Ação de Deus, a ação dos homens é sempre superficial. Mesmos os maiores dentre os homens, aquele que esculpiu a vitória alada da Samotrácia ou o que construiu a cúpula de Santa Maria del Fiore, agem somente na superfície das coisas: eles dão à pedra o ser assim ou assado, não lhe dão o ser pedra; principalmente, não lhe dão o ser. Nós podemos modificar as coisas, dar a elas o serem estas ou aquelas; não lhes podemos dar o ser pura e simplesmente. Estamos perto demais delas, somos semelhantes demais a elas. Nós somos incapazes de aniquilar ou de criar a menor parcela de ser. Nada mais fazemos do que transformar as coisas. Nesse sentido, a nossa ação passeia pela superfície das coisas.

Mas Deus eleva-Se por sobre as coisas. A profundeza das Suas riquezas é infinita. O altitudo, ou seja, o profunditas, divitiarum Dei. Ele pode tocar o que há de mais profundo nas criaturas, Ele dá a elas o serem, o existiremNão estivesse Ele assim secretamente, maravilhosamente presente, por Sua ação, no coração do mundo, no coração deste grão de areia, para lhe dar o seu ser de base, este fundo último pelo qual ele é, o mundo, este grão de areia, recairia imediatamente, não digamos no lixo, seria ainda dizer muito, digamos: no nadaA conservação dos seres é uma criação continuada. Esse pensamento de Santo Tomás significa que a mesma virtude todo-poderosa, que foi necessária para fazer o mundo emergir para fora do nada, é sem cessar exigida para sustentá-lo acima do nada. Um só instante de esquecimento em Deus, uma única distração em Deus e, ato contínuo, o universo desabaria no nada. Prodigiosa presença de Deus pela Sua ação no coração mesmo da coisa mais ínfima.

Mas a Ação de Deus é Deus. O Agir de Deus, realmente, é idêntico ao Existir de Deus. Eis então que o Existir de Deus, simples, indivisível, está todo inteiro no mundo, todo inteiro está num grão de areia. Não como aprisionado neles! Ele está neles como deles transbordando por todos os lados, como não atingido por eles, como não embaciado por eles, como soando através deles com infinita liberdade, infinita sutileza, infinita transcendência. Deus está inteiramente no mundo, Ele está por inteiro neste grão de areia, não como neles contido, mas como contendo-os, mantendo-os unidos (con-tinere), como o bem mais interior deles, a força de concentração mais íntima deles, à qual devem eles tudo o que são, sem a qual eles se dissipariam imediatamente no nada. Ele está neles, sem dúvida que não como idêntico a eles ou como imerso neles, mas como Causa infinitamente perfeita de efeitos infinitamente imperfeitos; infinitamente distinta deles e, ao mesmo tempo, a eles interior; a Sua transcendência é inimaginável, e também a Sua imanência.

Chardon disse bem essas coisas:

Esta presença de Deus incessantemente tira a criatura do nada, acima do qual a Sua onipotência mantém-na suspensa, de medo que, pelo próprio peso dela, a criatura não recaia no nada. E ao mesmo tempo que, por uma efusão contínua, ela lhe é causa do ser, da vida e da operação — não por uma virtude que se afaste de seu princípio, mas sempre unida ao seu manancial —, ela lhe serve como de cimento, de meio de ligação para que tudo o que ela recebe do Criador não se dissipe e não derrame como água que não é contida no canal, e para que o universo não perca a harmonia deslumbrante e essa excelente relação que constitui uma beleza — na ordem das obras da Providência — digna da sabedoria de seu Operário.” [La Croix de Jésus, p. 388.]

Como deve ser chamada esta presença de Deus no coração do mundo? Os teólogos se utilizam de uma palavra técnica. Eles dizem que é uma presença de imensidade. As coisas são todas mensuradas; elas têm medidas quantitativas, e uma não está onde a outra está; elas têm principalmente medidas qualitativas: e uma não é o que a outra é, o som não é cor nem perfume. É porque elas dividem entre si o ser no interior dos limites delas que elas entram em concorrência, em oposição umas com as outras. É porque elas são limitadas que elas não podem coexistir, permanecendo sempre alheias umas às outras. Mas, justamente, Deus não é limitado, Ele é sem medidas, o que significa literalmente imenso. Ele é sem medidas comuns com as coisas, e é por isso que Ele não entra em concorrência com elas, Ele as envolve todas, permeia a todas.

Como se vê, é necessário atribuir à palavra imenso, ou ao termo presença de imensidade, um sentido técnico. Senão, nos extraviaremos. Santo Agostinho narra como ele próprio se enganou por muito tempo, querendo encontrar Deus em imagens e não sabendo ainda que Ele não se encontra senão em uma noite que está acima das imagens. “E a Vós também, ó meu Deus, Vida da minha vida, eu Vos imaginava como um ser imenso, penetrando por toda parte, através dos espaços infinitos, toda a massa do universo e, para além do universo, alastrando-Vos sem limites pelo infinito, de maneira que a terra, o céu e todas as coisas Vos contivessem, encontrando em Vós o limite delas enquanto que Vós não o encontraríeis em parte alguma… Mas eu estava no erro. Pois se assim fosse, uma parte maior da terra teria contido uma parte maior de Vós… o corpo de um elefante teria encerrado mais de Vós do que o corpo de um passarinho” [Confissões, livro 7, cap. 1, nº. 2.].

Com efeito, como escreverá Chardon, Deus está por toda parte “não por partes, como poderíamos imaginar um corpo imenso, que se estendesse por todos os espaços… Ele está por toda parte de tal maneira que Ele não possui maior bondade e maior beleza, não tem maior liberdade e maior poder, mais alegrias e mais perfeições no mundo todo junto do que no menor grãozinho de areia ou na mais mínima gota d’água do mar, ou ainda no mais leve e ínfimo átomo de ar. Ele aplica tanto ser, presença, potência e sabedoria às partes indivisíveis do espaço quanto a todo o espaço do inteiro universo. Ele está por toda parte e em cada parte desse todo, por toda parte Ele mesmo, indivisivelmente. O mundo não o abarca em sua capacidade, é antes Ele quem envolve o mundo com Sua imensidade”. [Chardon, La Croix de Jésus, p. 387.]

Poderíamos falar de uma presença de causalidade, mas sem nos esquecer de que Deus é Causa com uma profundidade absolutamente única, que não pertence a nenhuma das causas que nós conhecemos. Falemos, se se quiser, de uma presença de criação, de uma presença de conservação ou de criação contínua.

* * *

Detenhamo-nos por um momento num aspecto do paradoxo da presença de Deus nas coisas: Deus está nelas e Deus não está nelas. Ele está infinitamente mais nelas do que pensamos, e Ele está infinitamente menos nelas do que pensamos. E isto não contradiz aquilo. O paradoxo da presença de criação é ela poder ser, a uma só vez, presença infinita e ausência infinita.

Deus está infinitamente mais nas coisas do que pensamos. Quer isto dizer que é necessário nada menos do que a presença de Deus inteiro, que ultrapassa infinitamente este grãozinho de areia, para este grãozinho de areia poder existir. Toda a eficiência indivisível de Deus está empenhada na criação de um grão de areia. De maneira que todas as coisas traem o seu Deus, entregam o seu Deus. Cada coisa contém o seu Deus, ou melhor, descobre o Deus que a contém. Causalmente, Deus está presente nas coisas com a Sua infinitude, Ele está infinitamente presente nas coisas. Ele está nelas como a base que as sustentaO ser que elas possuem pertence mais a Deus do que a elas; ele está em Deus como em Fonte, ele está nelas como em derivaçãoO sublime âmago das coisas é Deus. Há que dizer com Chardon:

“Deus no céu é mais meu céu do que o céu mesmo; no sol, Ele é mais minha luz do que o sol; no ar, Ele é mais meu ar do que este que respiro sensivelmente… Sua presença, por Sua imensidade, serve-me de mundo, de céu, de espaço, de lugar e de todas as coisas; Ele opera em mim tudo que sou, que vivo, que posso, que ajo, como intimíssimo, presentíssimoinexistentíssimo em mim, como o autor supra-essencial e primeiro das minhas obras, sem o Qual nos dissiparíamos nós e as nossas operações. Mas então — exclama Chardon — onde estão os nossos olhos, os nossos pensamentos, os nossos amores que se refletem incessantemente naquilo que há de menos principal em nós e dentro do resto do universo, sem ali contemplar, adorar e amar Àquele que é plenitude de ser e abundância soberana de suficiência em todas as coisas!” [La Croix de Jésus, pp. 389-390.]

E Deus está infinitamente menos nas coisas do que nós pensamos. Quer dizer isto que as coisas sendo finitas, e Deus infinito, as coisas são infinitamente incapazes de contê-Lo. As mais belas dentre elas são, com relação a Ele, infinitamente pobres, miseráveis. Em comparação com Deus, todas as coisas são infinitamente frustrantes. Todas fazem sofrer infinitamente àquele que deseja Deus infinitamente. A medida do sofrimento que nos vem da criatura é a medida de nosso desejo do Criador. Falta uma infinidade para Deus poder coincidir com as coisasConsiderando-se a diferença de naturezas, formalmente, Deus é infinitamente ausente das coisas.

Era este o sofrimento de São João da Cruz:

Ah! Quem poderá curar-me?
Acaba de entregar-Te deveras;
não queiras enviar-me
mais nenhum mensageiro,
que eles não sabem dizer-me o que quero.
[Cântico Espiritual, estrofe 6.]

Deus infinitamente presente nas coisas; Deus infinitamente ausente das coisas. Será preciso passar constantemente desta [ausência] àquela [presença], e daquela a esta: é a dialética do cristão [e também a do deísta], mesmo do cristão ordinário, do cristão da rua, do poeta que conta a história de nossos pobres corações exilados em meio às criaturas:

Se o mundo não falasse tanto de Vós, o meu enfado não seria tal.
Se a voz delas não fosse tão tocante, se não falassem tão bem de outra coisa,
As criaturas não seriam um problema para nós, e estaríamos em paz com a vida.
[Claudel, poema A missa lá embaixo.]

Como é que Deus, tão diferente das coisas, pode sofrer as coisas ao lado d’Ele? Não é que elas estejam, claro está, ao lado d’Ele como um lugar onde Ele não estaria, como um claustro onde o próprio Ser d’Ele não pudesse entrar. (Essa é a maneira de pensar, assaz… surpreendente, do filósofo romando Charles Secretan!) Ao lado d’Ele, isso quer dizer que verdadeiramente as coisas também existem; que elas coexistem: por Ele, com Ele, n’Ele.

Será que Deus não vai varrê-las como o furacão varre as nuvens? Será que a opacidade delas não vai irritá-Lo? Será que que Ele não vai incendiá-las com o sol de Seu Ser, pulverizá-las, dissipá-las, dissolvê-las?

Não! Eis que Deus, pelo contrário, suporta o mundo; eis que Ele detém-Se diante do mundo, diante do grãozinho de areia, como que tomado de respeito; eis que, em presença da fragilidade das criaturas, Ele parece refrear Sua onipotência e Sua exigência infinita de perfeição. Um místico judeu [1] escreveu: “O Santo —bendito seja Ele— contraiu a Sua glória, a fim de que os mundos pudessem suportá-la!”. É essa espécie de contração de Deus, de recolhimento de Deus, de contenção de Deus, de cortesia de Deus, para tudo dizer numa palavra: de carinho de Deus, tendo como finalidade permitir que a criatura subsista na frente d’Ele, que os místicos hassidim chamavam de tzim-tzum, o recolhimento. Eles tinham compreendido [2] que o primeiro brado da criatura a Deus é para se escusar de aparecer diante d’Ele, é para estremecer por existir, por coexistir. A primeira palavra que ela deve dizer é a de Pedro na barca: “Afasta-Te de mim, Senhor… pois eu sou homem pecador!” (Lc 5,8).

[1. N. do T. – Trata-se do “Rabbi Dov Beer (aprox. 1780), o mais profundo místico dentre os hassidim” (Ch. Journet, Connaissance et Inconnaissance de Dieu, 1943; na recente edição de 1996 pelas Éditions Saint-Augustin, cit. à p. 28). Mons. Journet cita-o a partir da obra que parece ser a mais profunda sobre o tema, a do Rev. Pe. Pierre-Jean de Menasce, Quand Israël aime Dieu [Quando Israel ama a Deus], Paris, 1931, p. 124]

[2. N. do T. – Na página 27 de sua obra citada na nota anterior, Mons. Journet é um pouco mais recolhido do que na conferência que estamos traduzindo e, mantendo embora essa interpretação extremamente cortês da mística judaica, emprega todavia o mais contido verbo “entrever”:
« Se se quiser transformar em verdade o pensamento de Charles Secretan segundo o qual Deus, ao criar, Se limita, seria preciso fazê-lo significar o mistério do inefável carinho e cortesia [A palavra está em Juliana de Norwich, Revelações do Amor Divino (na trad. fr. de Dom G. Meunier, Paris, 1925, p. 337).] de um Deus que, longe de aniquilar a criatura ao tocá-la, não cessa de sustentá-la e de conservá-la na existência. É o mistério que cabalistas e mais tarde os hassidim entreviram e chamaram de o tzim-tzum, ou seja, a contração, o recolhimento. “Nos cabalistas essa palavra designa o ato de Deus cedendo ao mundo, por Ele criado, parte de Seu Lugar. Não se trata de uma imagem espacial, como se o ser, totalmente preenchido por Deus, não pudesse admitir o mundo senão às custas de Deus; sentido grosseiro que nem sempre é evitado pelos que tratam da Cabala. Em sentido lógico e primeiro, a noção de tzim-tzum é introduzida para exprimir o mistério, não da criatura como estando noutra parte que não em Deus, mas do ato criador como fazendo proceder de Deus — e de Deus somente — alguma coisa que é outra que não Deus. Esse outro não é alheio a Deus: seria isto limitar a onipotência d’Ele; nem tampouco ele é necessário a Deus: seria isto limitar a liberdade d’Ele” [P.-J. de Menasce, Quand Israël aime Dieu, Paris, 1931, p. 115.]…“Ao criar o mundo, Deus lhe dá, ao mesmo tempo, o meio de O conhecer, Ele Se torna de certo modo acessível ao mundo. Movimento de expansão, de expressão: tudo o que há no mundo é uma dilatação e uma expressão de Deus, que sai para fora d’Ele mesmo. Mas também [movimento] de contração, de recolhimento, porque Deus, para tornar-Se cognoscível pela criatura, sujeita-Se a um modo e a uma ordem de conhecimento necessariamente inferior ao Seu modo próprio de ser e de conhecer, ou seja, a Ele mesmo. Por isso, paralelamente às imagens que exprimem a dilatação, a saída, a criação, o cabalismo mantém a metáfora da contração, da diminuição (os modernos diriam: da adaptação) de Deus ao mundo” [Ibid., p. 117]. »

Mas o Senhor não Se afasta! Desde toda a eternidade, Ele não Se afastará. Ele criou o universo não para aniquilá-lo, mas para que ele exista. E mesmo para que ele exista desabrochado para sempre, desfraldado para sempre. A imagem hindu é enganosa, que representa Deus como eternamente ocupado em expirar para fora d’Ele, depois em aspirar de volta a Ele, um mundo que repassaria assim eternamente do estado explícito para o estado implícito, do estado de eclosão para o estado de germe, do estado de vigília para o estado de sonho. Deus criou o universo uma vez por todas e para todo o sempre. Ele criou a matéria para sempre.

Então, veja-se este paradoxo. Eis um Deus infinito que cria, para tê-lo sempre como companhia, o finito. Bem mais ainda: esse Deus sendo infinito, sem limite de essência, só pode ser Espírito. E eis que Ele cria, para tê-lo eternamente como companhia, aquilo que há de mais finito, de mais limitado, ou seja, o ser da matéria: pois, além dos seus limites de criatura, a matéria está aprisionada em limites de espaço e em limites de tempoEis, então, um Deus infinito que cria o que há de mais finito, de mais distante, de mais distinto d’Ele; um Deus que é Espírito puro, Transparência pura, e que cria o que há de mais opaco, de mais dissemelhante a Ele: a tal ponto, que Descartes não acreditava que se pudesse concluir, do ser dos corpos, para o ser de Deus.

Por que isso? Por que, senão por Ele querer manifestar as profundezas da Sua condescendência; por Ele querer que saibamos o quanto Ele é capaz de Se rebaixar, fazendo coexistir com Ele a mais humilde criatura.

Deus Espírito, criando o que há de menos Ele, a matéria, e suportando-a eternamente “ao lado” d’Ele, envolvendo-a eternamente com a Sua bondade, mimando-a eternamente com o Seu carinho — tal é o sentido da primeira narrativa do Gênesis: “O Espírito de Deus movia-se sobre as águas”...
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(Fonte: Blog "Acies Ordinata" ["Exército em Ordem de Batalha"])



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Falsidade da Astrologia

(Artigo de Newton Gonzales)


"(Astrologia): ... essa extravagância universal
que durante tanto tempo infectou o gênero humano..."
(VOLTAIRE)

"(Astrologia): ... essa miserável imbecilidade
pela qual os homens por tanto tempo se deixaram levar..."
(LALANDE)

"(Astrologia): ... a mais longa doença
que já afligiu a razão humana..."
(BAILLY)


“Uma mente crédula encontra satisfação 
ao acreditar em coisas estranhas, 
e quanto mais estranhas, 
mais facilmente são aceitas; 
mas ela não dá importância 
às coisas comuns e possíveis, 
pois nestas qualquer 
um pode acreditar” 
(Samuel Butler)


“A falha, caro Brutus, 
não está em nossas estrelas, 
mas em nós mesmos”
(William Shakespeare)

Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Astrologia: foi na sexta série, quando uma garota, por quem eu era apaixonado e para a qual eu sempre comprava um bombom na cantina, havia me perguntado qual era meu signo ascendente. Como fui criado sob uma vigilante e temerosa doutrinação cristã — hoje, adulto, livre dos grilhões mentais de qualquer religião que seja, graças a Deus —, falar com meus pais sobre um dos animais do zodíaco em contextos específicos, na mesa do jantar, era motivo suficiente para explodir um jihad em média escala. Uma pena, pois tudo que a catequese me proibia, acabava criando em mim o impulso de curiosidade necessário para fazer uma investigação pessoal sobre o assunto. Naquela época, a Internet ainda era um privilégio de poucas centenas de pessoas no Brasil, portanto minha única fonte de informações era o boca-a-boca, enciclopédias e revistas emprestadas sobre horóscopo. Dessa maneira, aprendi tudo que uma criança poderia aprender sobre astrologia, o que serviu de base para me aprofundar no assunto futuramente, dentro dos limites de um mero curioso. Por muitos anos, fui um militante defensor da influência dos astros sobre nós.

A ideia de que nossa vida era previsivelmente regida por um mecanismo preciso, embora invisível e não compreendido pela ciência, deixava-me estranhamente aliviado. Era reconfortante saber que, por mais caóticas que nossas vidas fossem, tudo estava pré-determinado a acontecer de uma maneira singular — e essas previsões estavam ao alcance de qualquer um com papel, lápis e uma tabela de coordenadas planetárias. A posição dos astros ao longo da abóbada celeste delineava os traços de personalidade das pessoas, e isso se mostrava a mim como a solução do maior dilema antropológico da humanidade: o autoconhecimento. Conhecer a si mesmo com boa acuidade permitiria um melhor entendimento do mundo à nossa volta, sem contar com as facilidades em saber de antemão as decisões que deveríamos tomar ao longo da vida: qual profissão escolher, como saber quem é seu par ideal, se terei problemas de relacionamento baseando-se pelos signos, como lidar com seu chefe etc. O mundo poderia ser um lugar melhor se tivéssemos como estudar o mapa astral das pessoas e tratá-las da maneira adequada.

Quando eu batia o olho numa descrição a respeito de mim mesmo, canceriano com ascendente Gêmeos e lua em Libra, era claro que aquilo representava meu perfil psicológico com alta fidelidade. Todos que me conheciam bem não poderiam negar a precisão das descrições a meu respeito através da Astrologia. Vez ou outra eu percebia que certas descrições não condiziam com a realidade das pessoas, mas deixei sempre passar; para que se importar com erros tão bobos e que eram apenas uma questão de interpretação?

Porém, o meu mundo astrológico previsível e infalível veio a cometer eventualmente uma inconsistência séria. Descobri, a certa altura, que o mapa astral que eu tinha em mãos havia sido calculado errado. Para mim, que achava tudo aquilo tão real quanto o céu e a terra, desde a adolescência, foi como se me dissessem que houve um erro no registro da maternidade e meus verdadeiros pais biológicos, na verdade, eram de Papua Nova-Guiné e eu me chamava Joseph Ubuntu. Devido a uma falha humana, meu signo ascendente deveria ser Câncer, e não Gêmeos, como sempre acreditei. Muitos dos planetas, inclusive, estavam em casas erradas.

Nasceu aí a centelha de dúvida que me manteve pensando sobre a veracidade da Astrologia como mecanismo que rege a personalidade dos indivíduos. Vários outros fatos dos quais tomei conhecimento, seja por observação própria ou literatura, me colocaram impreterivelmente fora do mundo mágico da relação íntima com os astros. Minha vontade desesperada de acreditar fez com que eu me cegasse ao brilho intenso das respostas fáceis e acabasse deixando de lado, durante muitos anos, fatos óbvios que fragilizavam toda a estrutura do meu sistema de crenças.

Os que acreditam piamente na Astrologia declaram que os ataques céticos contra tal ciência é injusta por não considerarem os fundamentos mais complexos, e por degenerarem os estudos herméticos avançados a simples horóscopos de jornal. Portanto, minha intenção é introduzir ao leitor, seja ele cético ou crente, alguns pontos de vista que talvez não tenham sido percebidos acerca da Astrologia e por que talvez ela seja apenas superstição levantada a partir de más interpretações estatísticas e influências cognitivas da nossa mente. Não quero que você acredite em tudo que estiver escrito aqui. Você não poderia nem se quisesse, caso esta seja sua primeira leitura do meu artigo. Eu mesmo levei anos até cair em mim. É difícil raciocinar claramente quando se está mergulhado em um oceano de informações equivocadas, que só tendem a se multiplicar. Peço somente que pense a respeito do conteúdo deste artigo pelo tempo que julgar necessário.

Dedico humildemente este texto a todas as pessoas que alimentam seus espíritos investigativos através da introspecção e do aprendizado; às pessoas que têm a coragem de encarar o mundo do jeito que ele é, caótico ou não, sem a necessidade de buscar por muletas invisíveis nas crenças místicas; às pessoas que enxergam na ciência um mundo tão mágico, excitante e fantástico quanto no esoterismo. Acima de tudo, dedico este artigo a quem ainda não se deu conta de que há outros pontos de vista e maneiras de enxergar o mundo, e que estas maneiras devem ser experimentadas em toda sua profundidade pelo indivíduo para, então, ele ser capaz de abrir o próprio caminho até uma conclusão final justa e ponderada.

Introdução à Astrologia

A Astrologia é um assunto conhecido há, seguramente, muitos séculos. As estrelas sempre mereceram o devido deslumbre do homem. Afinal, se algo poderia ser eterno e constante no mundo, com certeza seria o céu estrelado. Ele sempre estará lá, independente de tudo, e sempre podemos, com os devidos cálculos, prever sua configuração em determinada data. A ideia de que algo tão seguro no céu quanto os fundamentos da Terra pudesse tomar conta de nós, simples mortais, era bastante atrativa e encantou povos das mais diversas regiões do planeta.

Existem numerosas vertentes de Astrologia: ocidental, chinesa, indiana, celta etc. Dada a inviabilidade de abordar todas elas em um pequeno artigo como este, trataremos especificamente sobre a Astrologia Ocidental, que é a mais comum em nossa cultura — entenda isso também como desculpa por eu ser um completo ignorante acerca das outras vertentes.

A Astrologia Ocidental como a conhecemos começou na antiga Grécia com Ptolomeu, sobrevivendo através da era medieval e pousando finalmente em nossos dias atuais como uma versão modernizada (incluindo os planetas descobertos nos últimos 120 anos). Contudo, seu verdadeiro berço foi a Mesopotâmia de 4000 a.C. Os povos daquele tempo careciam de uma maneira sistemática de medir o tempo para saber quando entrariam na próxima estação e, consequentemente, serem capazes de otimizar suas colheitas. O melhor calendário era o ciclo lunar mensal e o ciclo anual de várias estrelas.

As observações dos sábios da Mesopotâmia para planejarem a agricultura eventualmente veio a ter um significado religioso. Os mesopotâmicos cultuavam os planetas como divindades e assim começaram a relacionar suas trajetórias com o propósito da adivinhação. A evolução da matemática combinada com os estudos dos astros e a prática da adivinhação eventualmente levou ao desenvolvimento da astrologia como conhecemos hoje.

Eis um breve resumo da Astrologia como popularmente a conhecemos:

Nosso perfil psicológico e até nosso destino podem ser previstos pela posição relativa dos astros. A constelação pela qual o Sol viaja no céu no momento do nascimento se traduz como nosso signo solar. O mesmo ocorre com a Lua e todos os outros 8 planetas mais Plutão.

Há um total de 12 casas no círculo astral e, como são 11 os astros observados pela Astrologia, a combinação de arranjos planetários entre os quadrantes do céu pode resultar em 3,13 x 10¹² tipos diferentes de personalidades.

Os astrólogos fazem um mapa astral de um indivíduo tendo em mãos a data e hora precisa do nascimento, local onde nasceu e uma tabela chamada efeméride, que indica a posição dos astros no céu naquele dia e para aquela região do globo.

Dentre os três itens citados anteriormente, um deles não está totalmente correto. Popularmente, acreditava-se que a constelação pela qual passa um determinado astro na hora do nascimento é que indica um determinado traço psicológico de uma pessoa. Isto ocorria, de fato, há alguns séculos e não hoje. Mas por que esse mecanismo não funciona mais assim? (1)

Das teorias que permeiam os astros

Inúmeras vezes eu ouvi esta sentença: “Você com certeza é canceriano”. Como se não bastasse, um mapa astral super transado fez-me acreditar que eu assim o era. As descrições sobre mim serviam com uma luva, como comentei no prefácio deste artigo. Porém, certo dia, veio à minha mente a possibilidade dos astrólogos atuais utilizarem efemérides defasadas. Afinal, a astrologia é uma prática que nasceu há muitos séculos e, naquela época, pode-se dizer que nosso conhecimento sobre a natureza dos astros celestes se resumia a pequenos pontos etéreos que dançavam harmoniosamente ao redor de uma Terra plana.

Ao consultar uma carta celeste ao invés de um mapa astral, algo que confessadamente eu deveria ter feito logo no princípio, minhas suspeitas se confirmaram. As posições dos astros na efeméride astrológica se encontravam defasadas.

Para compreender este fato, deve-se primeiramente conhecer o fenômeno chamado “precessão dos equinócios”. Devido ao eixo de inclinação da Terra e a seu movimento não tão regular quanto pensavam os astrólogos medievais, as estrelas, ao final de um dia completo, se encontram no céu ligeiramente deslocadas do nosso ponto de vista anterior. Diariamente, esta diferença é imperceptível, mas, ao longo de vários anos, a defasagem passa se tornar bastante acentuada.

Para este experimento, utilizei o programa Stellarium, um aplicativo que simula um planetário em 3D — e também possui código aberto, portanto, é gratuito. Eu, canceriano, entrei com minha data de nascimento, local e hora certa. Apesar de arcar com uma leve suspeita da defasagem das efemérides, espantei-me com o que vi (Figura 1).

Fig. 1: Configuração celeste na hora do nascimento do autor (17/07/1983) 

Segundo o programa, meu signo solar deveria ser Gêmeos, como mostra a Figura 1, ao contrário do que sempre me pregaram os astrólogos. Por puro desencargo de consciência, chequei sobre qual constelação a Lua permanecia, também no momento de meu nascimento e, para minha surpresa novamente, estava na constelação de Virgem; os astrólogos haviam me categorizado como libriano no signo lunar. Fui tirar a prova com um programa menos 3D e mais academicamente correto — mesmo resultado.

Temendo uma desilusão amorosa definitiva com a Astrologia, tive a oportunidade de conversar a respeito desse assunto com uma astróloga profissional, cuja amizade, para mim, tem valor inestimável. Segundo ela, acontece que, quando a astrologia começou a ser “medida”, existia uma espécie de Sol espiritual, simultaneamente com o Sol material. Coincidentemente eles estavam na mesma posição, mas o Sol material andou, enquanto o espiritual permaneceu fixo (atenção especial ao inconveniente do Sol real ter se movido). Situação análoga ocorreu com todos os outros astros em estudo.

Não satisfeito com a explicação, consultei um livro de astrologia (cujo nome não me vem à mente). Lá dizia a mesma coisa, mas de uma maneira aparentemente mais científica e evidentemente ilógica. Segundo este livro, os signos são tomados de acordo com o calendário sideral, e não o usual. Um dia sideral é o tempo necessário para uma estrela longínqua dar a volta no céu, ao invés do Sol. Isso estabelece uma diferença de poucos minutos entre o dia como conhecemos e o sideral. Já com o ano sideral, há uma diferença de alguns dias com nosso ano gregoriano. Mas… que diabos? Quer dizer que meu signo é dado pela constelação em que o Sol estava em quase uma semana depois do meu nascimento? Esta certamente era a desculpa mais esfarrapada e sem fundamentos que alguém poderia elaborar para corrigir a falta lógica dentro da teoria astrológica.

Recentemente, tive a oportunidade de conhecer um astrólogo, arquiteto e proeminente escritor. Este astrólogo participou há alguns anos de cursos de Astrologia com uma das maiores autoridades no assunto no Brasil, e defende que as constelações não servem para nada na Astrologia séria. São apenas referências simbólicas que os antigos encontraram para explicar para as pessoas algo que é extremamente difícil descrever apenas com palavras. Se formos avaliar diferentes métodos astrológicos (astrologia chinesa, védica, asteca etc.) veremos que, apesar de cada uma delas dar nomes diferentes para casa signo, as descrições de cada período temporal em relação ao comportamento dos indivíduos é rigorosamente o mesmo. Mudam apenas a referência. Em um horóscopo são animais, em outro são deuses, no terceiro constelações e assim por diante (…) Na Astrologia Hermética, temos 10 planetas (o nome Planeta vem de “viajante”, ou os “astros que caminham no céu”, por isso consideramos o Sol, a Lua e Plutão como planetas) mas, na realidade, são apenas os ponteiros do Sistema solar que contam.

O referido escritor afirma que as versões que popularmente conhecemos sobre Astrologia, como aquelas em sites de relacionamento, é uma degeneração banal da verdadeira teoria por trás da sabedoria hermética. O escritor explica também que os astros não têm influência nenhuma sobre nós; não são os planetas no céu que ditam as regras de nosso destino. Em verdade, eles seriam indicadores de um calendário cósmico, onde cada planeta representaria o ponteiro de um relógio que cumpre uma “ementa espiritual”. Portanto, os astros apenas no dariam pistas sobre os planos reservados às nossas encarnações, gerenciados por uma dimensão espiritual que vela por nós. Esta explicação, pelo menos, não choca inescrupulosa e diretamente com o bom senso e a razão.

Não obstante, as duas primeiras teorias, que supõem uma influência dos astros sobre nossas vidas, tentam — ainda que sem sucesso — levantar uma hipótese com base em elementos físicos, como a suposta existência de campos de força ou algum vínculo direto que misteriosamente a ciência ainda não descobriu. Já a última, afirma apenas que podemos ter pistas sobre nosso destino (se é que tal coisa existe) bastando observar a posição dos astros dentro de um círculo imaginário arbitrariamente dividido em 12 quadrantes, e que isto ocorre porque somos parte de uma espécie de “plano maior” com um calendário a seguir que nunca poderemos investigar através de nossa ciência mundana.

Esta teoria carece tanto de evidências científicas quanto dizer que adquirimos a personalidade do animal zodiacal que está sobre nossas cabeças ao nascermos, pois para que isso tudo seja válido, toma-se como verdade antecipadamente que exista um mundo espiritual que nos zela, que engenheiros angelicais moldam nossas almas com características variadas de acordo com uma agenda e que todas estas informações foram aprendidas pelos seres humanos através de intuição, sugestão espiritual ou iluminação divina de eras passadas — em vista disso, tais preceitos levam a Astrologia mais para o patamar da fé religiosa do que para o de uma ciência, como muitos astrólogos indignados gostariam que acontecesse. Todos esses elementos citados, apesar de povoarem as crenças populares, nunca foram comprovados dentro de ambientes controlados e, por mais que se tente, sempre surgirá uma nova defesa que impede um experimento apropriado. Apesar de parecerem edificantes, todos esses argumentos soam mais como uma esquiva a inquéritos científicos.

Exemplo: Fenômenos telecinéticos não podem ser observados em laboratório porque a aura cética dos cientistas inibe a ação do chakra coronário do psíquico.
Ou: Não se pode medir experimentalmente a correlação entre a posição dos astros e as características vitais das pessoas porque ela não acontece no plano material.

Este tipo de impostura teórica é normalmente conhecida como “dragão de garagem” e, para entendê-la melhor, será ilustrada a seguir.

“Tem um dragão na minha garagem”

A confiança em experimentos cuidadosamente planejados e controlados é de suma importância, como tentei enfatizar antes. Não aprenderemos com a simples contemplação. É tentador ficarmos satisfeitos com a primeira explicação possível que passa pelas nossas cabeças. Uma é muito melhor que nenhuma. Mas o que acontece se podemos inventar várias? Como decidir entre elas? Não decidimos. Deixamos que a experimentação faça as escolhas para nós. Francis Bacon indicou a razão clássica: “A argumentação não é suficiente para a descoberta de novos trabalhos, pois a sutileza da natureza é muitas vezes maior do que a sutileza dos argumentos”.

O experimento mental a seguir foi sugerido por Carl Sagan em “O Mundo Assombrado por Demônios”. Suponha que eu faça tal afirmação a você, de que existe um dragão na minha garagem, e quero que você acredite em mim. Certamente você desejará conferir essa afirmação pessoalmente. Houve inúmeras histórias sobre dragões ao longo dos séculos, mas sem evidências concretas. Que tamanha oportunidade!

“Mostre-me”, você diz. Eu, então, levo-o até minha garagem. Você entra e olha ao seu redor — há uma bicicleta velha, algumas latas de tinta, uma mesa, mas nenhum dragão.
“Onde está o dragão?”, você pergunta.
“Ah, ele está bem aqui”, eu respondo, apontando para uma direção qualquer. “Eu esqueci de mencionar que o dragão é invisível”.
Você então me propõe espalhar farinha pelo chão da garagem para, pelo menos, ver as pegadas da criatura.
“Boa ideia”, eu digo, “mas o dragão está o tempo todo flutuando e não encosta os pés no chão”.
Então você sugere a utilização de um sensor infravermelho para detectarmos o fogo invisível que provavelmente sai da boca do dragão.
“Boa ideia, mas o fogo desse dragão não produz calor”.
Você pensa, dessa vez, em usar uma lata de spray pela garagem toda para tornar visíveis as escamas do dragão.
“Boa ideia, mas o dragão é etéreo e a tinta não vai pegar em suas escamas”, e assim sucessivamente. Eu desbanco cada teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não funcionará.

Agora, qual seria a diferença entre um dragão invisível, etéreo, flutuante e que cospe fogo sem calor, e dragão nenhum? A impossibilidade de invalidar minhas hipóteses não é o mesmo que provar que elas sejam verdadeiras. Argumentos que não podem ser testados, afirmações imunes a qualquer prova, inevitavelmente não têm qualquer valor, não importa quão valiosos sejam para nos inspirar ou excitar em nós um sentimento de profunda admiração.

Todas as experiências sugeridas pelo corpo científico para validar a Astrologia foram negadas, porque sempre há um “porém”; quando uma leitura astral é imprecisa, diz-se que tudo depende da interpretação do indivíduo. Além da interpretação do indivíduo, há também a interpretação do astrólogo. Ainda, o mapa pode não dizer tudo corretamente em relação a uma pessoa, pois é importante o ambiente em que ela cresceu. Também não se esqueça de sua herança genética. Como se isso não bastasse, há o livre-arbítrio, que concede à pessoa o poder de trilhar sua vida da maneira que bem entender.

Ora, se é possível mesmo ter pistas sobre uma pessoa através da posição dos astros, mas nelas há embutidos os erros inerentes a interpretações do astrólogo, da pessoa em questão, de sua genética, do determinismo cultural e do livre-arbítrio, qual é a diferença entre tudo isso e pista nenhuma?

Falácias comuns da lógica e retórica

Em qualquer apresentação de uma ideologia para a qual não há evidências concretas e reconhecidas, é comum que seus defensores apelem para falácias da lógica e retórica. Estes artifícios são normalmente encontrados na religião e na política, porque seus profissionais são frequentemente obrigados a justificar suas proposições contraditórias; na Astrologia, isto não é exceção. Entre essas falácias, estão:

Argumento da autoridade — chegar à conclusão de que uma teoria não pode estar errada pelo fato de uma pessoa famosa ou especialista em alguma área acadêmica apoiar tais ideias.
Exemplo: O presidente Richard Nixon deve ser reeleito porque ele tem um plano secreto para pôr fim à guerra no Sudeste da Ásia — mas, como era secreto, o eleitorado não tinha meios de avaliar os méritos do plano; o argumento se reduzia a confiar em Nixon porque ele era o presidente dos Estados Unidos: um erro, como se veio a saber.
Ou: A faculdade Mackenzie de São Paulo incluiu na ementa de alguns cursos o Criacionismo; logo, deve ser verdade que as mulheres descendem de uma costela de Adão.

Diz-se que muitos cientistas aclamados eram adeptos da Astrologia — entre eles, Johannes Kepler, Tycho Brahe e Isaac Newton (e, quanto a este, alguém já chegou ao extremo pudor de publicar em livros que suas obras de Física e Matemática foram feitas com descaso, pois o que realmente lhe interessava era estudar mapas astrais das pessoas). Isso, em tese, conferiria à Astrologia uma legitimidade inquestionável. Sua veracidade aparenta ainda mais plausível se entrar em cenário o fato de que a própria Astronomia veio da Astrologia; a amputação ocorreu quando alguns estudiosos descartaram as implicações antrópicas da Astrologia — e também por haver sido banida pela Igreja por soar como um “desafio subversivo contra a autoridade de Deus”; algo não tão diferente quanto um conflito de conceitos religiosos.

A confiança em uma teoria pela inexpressível defesa por alguma autoridade não possui a menor lógica. A História já demonstrou que muitas autoridades, um dia, estiveram erradas sobre determinados conceitos. Lavoisier, por exemplo, acreditava que o calor era um líquido oleoso e etéreo que fluía de um corpo para o outro.

Kepler, que contribuiu com as famosas fórmulas matemáticas para o cálculo de períodos planetários em órbitas elípticas, é amplamente mencionado nos círculos astrológicos como maior evidência de que a Astrologia funciona. Contudo, poucos leram seus tratados para notar que os estudos de Kepler se concentravam em estabelecer relações entre a posição dos astros e as condições climáticas da Terra. Por vezes, ele arriscava palpites sobre como essas condições afetariam o humor dos homens. No entanto, em se tratando dos fundamentos por traz desta possível relação, Kepler é humilde e reconhece, por exemplo, em seu livro Fundamentis Astrologiæ Certioribus (Dos Mais Certos Fundamentos da Astrologia):

"Eu não rejeito as (bem sabidas) observações de autores passados, Hesíodo, Strates, Virgílio, Plautus nem outras modernas (observações) de agricultores, que chegaram a algumas conclusões acerca da temperatura futura do ar em relação ao nascer anual de estrelas e fases da Lua no momento em que observam estes fenômenos (não com muita antecedência). Pois eles não consideram essas observações como sinais mágicos dos céus, nem a causa de constituição futura (pois para diferentes anos eles têm uma sorte diferente da prevista), mas como sinais de disposição terrestre geral que já se encontra presente e continuará por certo período. Mas, em relação às leis que governam esses períodos, devo admitir minha ignorância."

Argumento da maioria — sugerir que uma coisa é real partindo do número de pessoas que acreditam nela.
Exemplo: Existem milhares de radiestesistas profissionais pelo Brasil. Milhares de pessoas não podem estar erradas.
Ou: O Catolicismo é a religião mais correta, pois é a mais numerosa, com mais de 1 bilhão de fiéis.

Apelo à ignorância — a afirmação de que qualquer coisa que não se provou ser falsa deve ser verdade, e vice-versa. Essa impaciência com a ambiguidade pode ser criticada pela expressão “a ausência de evidência não é evidência da ausência”.
Exemplo: Não há evidência convincente de que a quiromancia (leitura de mãos) não funcione; logo, a quiromancia funciona.
Ou: Talvez haja trilhões e trilhões de outros mundos Universo afora, mas não se conhece nenhum que ostente vida inteligente; logo, ainda somos o centro do Universo.

Estatística dos números pequenos — falácia aparentada a partir de estatísticas com baixa quantidade amostral.
Exemplo: Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa.
Ou: No meu mapa astral, a maioria das descrições sobre Sol em Áries e Vênus em Sagitário condiz com minha personalidade; logo, meu mapa é perfeito.

Alegação especial — consiste em uma alegação especial usada frequentemente para salvar uma proposição em profunda dificuldade teórica.
Exemplo: Como um Deus todo-misericordioso pode condenar as gerações futuras a um tormento interminável, só porque, contra as suas ordens, uma mulher induziu um homem a comer uma maçã? Alegação especial: Você não compreende a doutrina sutil do livre-arbítrio.
Ou: Como pode haver um Pai, um Filho e um Espírito Santo igualmente divinos na mesma Pessoa? Alegação especial: Você não compreende o mistério da Santíssima Trindade.
Ou: Por que os mapas astrais mostram descrições altamente ambíguas e generalizadas sobre as pessoas? Alegação especial: Porque o vocabulário humano é extremamente limitado.

Quando confrontados com a subjetividade exacerbada, é comum ouvir dos astrólogos que “não dá (por exemplo) para diferenciar um repórter de um fofoqueiro; Mercúrio em Gêmeos só nos mostra que a pessoa é boa com as palavras”. Isto nos dá uma infinidade de interpretações. Ao se tratar de uma ciência que se fundamenta basicamente na leitura de perfis, não ser capaz de fazê-lo é no mínimo inesperado.

Post hoc, ergo propter hoc — expressão latina que significa “aconteceu após um fato, logo foi por ele causado”.
Exemplo: Conheço uma moça de 26 anos que aparenta sessenta porque ela toma a pílula anticoncepcional.
Ou: Antes de as mulheres terem o direito de votar, não havia armas nucleares.
Ou: Meu irmão é bizarro e alternativo, deve ser porque seu signo solar é Aquário.

Confusão de correlação e causa — costuma-se atribuir uma resposta urgente a eventos que não são imediatamente explicáveis. É comum desde eras remotas, inclusive, atribuir a eventos curiosos uma causa de natureza mística e invisível.
Exemplo: Um levantamento mostra que é maior o número de homossexuais entre os que têm curso superior do que entre os que não o possuem; portanto, a educação torna as pessoas homossexuais.
Ou: Duas irmãs, que nasceram praticamente ao mesmo tempo, têm um talento musical inato, como previa a Astrologia (2); logo, a Astrologia funciona.

Seleção das observações — também chamada de enumeração das circunstâncias favoráveis, ou, segundo a descrição do filósofo Francis Bacon, “contar os acertos e esquecer os fracassos”. As descrições astrológicas sobre as tendências, temores e predileções de uma pessoa geram acertos, mas também cometem erros contundentes e que são sutilmente descartados. Se há uma cadeia de argumentos que sustentam uma teoria, todos os elos na cadeia devem funcionar, e não apenas a maioria deles.
Tal seleção de observações pode ocorrer inconscientemente, devido a algumas peculiaridades de nossa mente que, dada sua importância para a sua própria conclusão acerca da Astrologia, merecerá o escopo do próximo capítulo.

Nem tudo que reluz é ouro (mas tem elétrons livres)

“A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas ‘ciências conforme a nossa vontade’. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho, coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.” (Francis Bacon, em Novum Organum)

Fazer o quê? Antes eu era um canceriano, agora eu era geminiano (com a Lua em Virgem). Quando li a descrição do meu novo signo, percebi que aquela descrição condizia tão perfeitamente com minha personalidade quanto a descrição antiga. Obviamente, havia algo errado. O que fiz foi ler a descrição de todos os signos (algo que todos que depositam sua fé na astrologia deveriam fazer). Em suma, todos eles poderiam ser encaixados no meu perfil, de uma maneira ou de outra. Por que, então, milhares e milhares de pessoas juram que seus mapas astrais são coerentes?

Efeito Forer (também chamado de falácia da validação pessoal — ou Efeito Barnum em homenagem ao comentário “sempre temos algo para qualquer um”, feito por Phineas Taylor Barnum, apresentador de circo e famoso por suas farsas) é a observação de que indivíduos classificarão como “altamente precisas” descrições sobre suas personalidades, que foram supostamente escritas individual e especialmente para elas, mas que na verdade são vagas e genéricas o suficiente para serem aplicadas a qualquer pessoa. O Efeito Forer provê uma explicação parcial para a vasta aceitação de crenças em práticas como a Astrologia, adivinhação, leitura de tarôs e alguns tipos de testes de personalidade.

Em 1948, o psicólogo Bertram R. Forer distribuiu um teste de personalidade a seus estudantes. Feito isto, disse a todos que cada um receberia uma análise individual de suas personalidades, baseada nos resultados do teste, e pediu para que dessem uma nota em uma escala de 0 (muito ruim) a 5 (excelente) sobre quão precisas estavam as descrições. Na realidade, todos receberam a mesma análise:

"Você tem certa necessidade de que as outras pessoas gostem de você e lhe admirem, por isso você tende a ser bastante crítico consigo mesmo. Você tem algumas fraquezas de personalidade, mas geralmente é capaz de compensá-las com outras qualidades. Você possui um potencial muito especial, mas que não usa para vantagem própria. Disciplinado e centrado por fora, você tende a ser preocupado e inseguro por dentro. Algumas vezes você tem sérias dúvidas se fez a decisão certa. Você prefere uma certa quantidade de novidade e variedade e fica insatisfeito quando alguém tenta lhe impor restrições e limitações. Você é orgulhoso por ser um pensador independente; e não aceita que outros lhe imponham argumentos sem evidências razoáveis. Algumas vezes você é introvertido, afável e sociável, enquanto outras vezes você é introvertido, precavido e reservado. Algumas de suas aspirações tendem a ser utópicas."

Em média, a nota dada a esta análise foi 4,26 e só foi revelado ao grupo que as análises eram cópias idênticas depois que cada um deu sua nota. Forer formulou este texto a partir de páginas de um livro de Astrologia. (3)

O psicólogo Barry Beyerstein acredita que “a esperança e a incerteza evocam processos psicológicos poderosos que mantêm em atividade todos os que leem personalidades por meios ocultos e pseudocientíficos”. Tentamos constantemente “encontrar sentido na avalanche de informações desconexas que encontramos diariamente”, e “tornamo-nos tão bons em completar as coisas de forma a obter um quadro razoável a partir de dados incoerentes que às vezes encontramos sentido onde ele não existe”.

Frequentemente preenchemos as lacunas e oferecemos uma imagem coerente do que ouvimos e vemos, embora um exame cuidadoso das evidências pudesse revelar que os dados são vagos, confusos, obscuros, inconsistentes, ou mesmo ininteligíveis. (4) David Marks e Richard Kamman argumentam que:
uma vez que seja encontrada uma crença ou expectativa, especialmente alguma que resolva incertezas desconfortáveis, isso predispõe o observador a notar novas informações que confirmem a crença, e a ignorar evidências em contrário. Esse mecanismo autoperpetuante consolida o erro original e cria uma confiança exagerada, na qual os argumentos dos opositores são vistos como fragmentados demais para desfazer a crença adotada.

Outro efeito relevante e mais genérico que o Efeito Forer é o chamado validação subjetiva. Este efeito ocorre quando dois eventos aleatórios não relacionados são percebidos pelo observador com alguma correlação entre si, devido a crenças, expectativas ou hipóteses que careceriam de uma relação. Esta é uma das tendências cognitivas que podem afetar um indivíduo que lê seu mapa astral e faz automaticamente associações com sua personalidade, não porque realmente faz sentido, mas apenas porque ela previamente tinha em mente que aquilo deveria ocorrer.

Jeffrey Rudski, em seu trabalho Competition, Superstition and the Illusion of Control, faz o seguinte experimento: dois candidatos eram apresentados a uma lâmpada vermelha e outra azul que acenderiam aleatória e intermitentemente, e a uma mesa com botões de mesma cor. O experimentador disse a elas que havia alguma relação entre o pressionar dos botões e o acendimento das lâmpadas e pediu para que descobrissem qual era. No entanto, os botões nem ao menos estavam ligados em um circuito. O resultado foi tal, que os candidatos juravam que havia alguma relação entre os botões e as lâmpadas, e que era possível prever seus acendimentos.

Quanto menos é possível quantificar um resultado, mais atenção e experimentação controlada deve ser necessária para validar uma teoria. Confiar somente na mente humana tão vulnerável a falhas, para dizer se a Astrologia deve ser uma ciência como qualquer outra, uma vez que os mapas astrais desferem sentenças interminavelmente subjetivas, é uma atitude no mínimo precipitada, para não dizer religiosamente cega.

Confira abaixo uma lista de outras influências cognitivas às quais todo ser humano pode estar sujeito: (5)
Efeito rebanho — tendência a fazer (ou acreditar) determinadas coisas porque muitas outras pessoas fazem (ou acreditam) o mesmo.
Influência confirmativa — tendência a procurar ou interpretar informações de modo que confirmem as crenças do indivíduo.
Influência conservacionista — tendência a ignorar consequências de uma nova evidência.
Ilusão de controle — tendência do ser humano acreditar que pode controlar ou ao menos influenciar sistemas que ele claramente não pode.
Escalação irracional — tendência em tomar decisões irracionais baseadas em decisões que eram racionais no passado, para justificar ações já efetuadas.
Aversão à perda — o fato de pessoas acharem muito mais difícil abrir mão de um sistema de crenças do que tomar partido delas.
Efeito da mera exposição — tendência das pessoas em expressarem empatia por certos resultados simplesmente porque são familiares.
Necessidade de reconhecimento — a necessidade de chegar a um veredito em termos relevantes; necessidade inconsciente de chegar a uma resposta e escapar do sentimento de dúvida e incerteza.
Negligência da probabilidade — a tendência a ignorar completamente probabilidades ao fazer uma decisão sob determinada incerteza.
Pensamento 'positivo' — formação de crenças e decisões baseadas no que for mais agradável de se imaginar, ao invés de apelar para evidências ou razão.
Cascata da disponibilidade — processos autorreforçadores onde um sistema de crenças ganha mais e mais plausibilidade através da constante repetição em discursos públicos (o famoso “uma mentira contada mil vezes se torna verdade”).
Ilusão do agrupamento — tendência em enxergar padrões onde não existe.
Influência do antemão — algumas vezes chamada de efeito “eu-já-sabia”, é a inclinação a julgar eventos passados como passíveis de previsão.

Analisando meu mapa astral

Poucos cientistas têm a oportunidade de estudar o próprio mapa astral, principalmente pelo fato de tal obra possuir um preço que normalmente não vence o ceticismo. Contudo, como parte de um desafio retórico proposto por um astrólogo para me convencer sobre a validez da Astrologia hermética, recebi um mapa astral completo de 19 páginas para meu deleite. Quando esta pessoa ofereceu-me tamanho presente sem qualquer custo, fiquei inefavelmente feliz. Talvez esta fosse a oportunidade de mudar de ideia e voltar a crer na Astrologia tal como um dia eu o fiz cegamente, mas desta vez com plena consciência e estudo. E dessa vez eu teria em mãos um mapa astral mesmo, feito por um astrólogo reconhecidamente bom, que escreveria tudo sem ao menos me conhecer pessoalmente e estaria presente de corpo e alma em cada tópico do mapa — não seria somente mais um horóscopo de jornal ou um algoritmo online de previsão astral.

Minha euforia foi passando aos poucos enquanto percorria as 19 páginas e percebi que aquele mapa, assim como qualquer outro, seria tão aplicável a mim quanto a qualquer outra pessoa que conheço. Como ele é deveras extenso, mostrarei aqui apenas alguns trechos.
Fig. 2: Este é o resumo do mapa (17/07/1983 — 5h45 — Poços de Caldas, MG) 

1) Como pessoa carinhosa que é, pode querer um trabalho em que ajude as outras pessoas a crescer e se desenvolver. Tem também talento para negócios.
Eu posso querer como também posso não querer, isto permite que a sentença acima seja aplicável a virtualmente qualquer um. Curiosamente, na sentença seguinte onde não há subjetividade, o erro é hilariante; sou terrível para negócios.

2) Apesar de seu temperamento ser muito volúvel, prefere a opção da segurança e é quase sempre fortemente impelido por considerações de família.
Se alguém no mundo tem o estranho desejo sádico de se sentir inseguro, que seja então levado ao psicólogo.

3) Pode existir em si uma ligação particularmente forte com a sua mãe ou sua família.
Claro que pode, e geralmente há na maioria dos casos… como também algumas vezes não há.

4) Ascendente conjunção Marte: este aspecto é extremamente poderoso em seu horóscopo; qualquer atitude que tome será matizada por essa energia. Esta conexão entre dois planetas mostra uma fusão de dois princípios, para o bem ou para o mal.
Isto pode ter uma gama de significados a perder de vista. Ao menos a frase fica coerente no final: posso usar minha fusão de princípios “para o bem ou para o mal”. Fico feliz por não haver outra alternativa.

5) É um bom general, porém mau diplomata.
Tudo bem, ponto para a Astrologia desta vez, que acertou em cheio. Descobri como professor que sou péssimo para lidar com pessoas, mas sou muito bom em dar ordens — talvez daí venha minha predileção por Starcraft e outros jogos de estratégia.

6) Em matéria de carreira, tem um dom natural para a diplomacia.
Ei, um momento… até há pouco eu não era um mau diplomata?

7) Sua maior satisfação é quando está firmemente instalado entre amigos ou em segurança entre sócios.
É um pouco melhor quando se está entre amigos em um emprego novo do que entre estranhos, ou quando você deixa sua empresa nas mãos seguras dos sócios ao invés deixá-la com um desconhecido qualquer. Alguém tem uma objeção quanto a isso? Acredito que não.

9) A injustiça pode causar-lhe indignação, e você se preocupa muito com retidão e equidade.
As únicas personalidades que amam injustiça estão devidamente sepultadas no mundo 2D das revistinhas da Marvel e DC Comics.

10) Pode querer trabalhar em áreas relacionadas com o lar, com terras e propriedades, ou em setores ligados à prestação de cuidados, ou talvez na solução ou prevenção de questões ambientais.
“Ou, ou, talvez, talvez”. Minhas intenções não são com o lar, nem com terras, nem prestação de cuidados. Contudo, realmente sou preocupado com o meio-ambiente, assim como muitas outras pessoas. Se depois de um desfile cadenciado de opções o mapa não acertasse sobre nenhum aspecto meu, minha decepção beiraria o mau humor por se tratar de uma ciência esotérica que diz tudo que uma pessoa não é.

11) Funciona melhor quando vivem em paz no ambiente doméstico, mas frequentemente se vê distraído por inquietações familiares.
Lembrando-me de todos os meus conhecidos, não conheci nenhum que frequentemente não se visse distraído por inquietações familiares — e veja que “inquietação familiar” pode ter vários sentidos.

12) Não aceita intrusos de bom grado, e leva tempo para se acostumar com a entrada de gente nova para o seu círculo profissional.
Eis um exemplo de tentativa em acertar na mosca algo sobre mim. Infelizmente, a afirmação acima está redondamente enganada. Quando surgem colegas novos de trabalho ou em algum grupo de estudo, eu sou o primeiro a proporcionar um tour pelo lugar (e também o primeiro a fazer amizade).

13) Nunca esquece as pessoas de quem gosta.
Um item generalizado, mas não gostaria de ver o impacto inconveniente e injustamente sádico que tal afirmação causaria a alguém que sofre de Alzheimer.

14) As qualidades naturais de liderança que possui, seu poder pessoal e seu charme asseguram-lhe a permanência no foco das atenções quando pisa no palco, por assim dizer.
Seria muito bom que fosse assim, pois nas festinhas de aniversário eu sempre seria notado, e na educação física sempre me escolheriam primeiro para o time.

15) Você gosta de trabalhar em algo que lhe dê oportunidade de conhecer as pessoas.
Isso não é nem de longe minha prioridade. Para falar a verdade, eu me sinto muito melhor quando estou sozinho no laboratório. Quando dei aulas por aí, minha preferência era por classes onde eu pudesse interagir com o menor número de alunos possível.

16) Você preocupa-se demais (no trabalho) em deixar uma boa impressão.
… ou posso ser despedido.

17) Precisa de um parceiro que não seja superficial e que compartilhe sua percepção intensa da vida.
Você se casaria com alguém burro e que discorde de sua visão de mundo?

18) Você precisa estar apaixonado pelo seu trabalho e trabalha melhor quando tem contato com outras pessoas. Trabalha melhor com as pessoas do que com os objetos, mas possui talento empresarial, sobretudo no campo imobiliário.
Dead wrong.

19) Seu período escolar também teve forte impacto emocional sobre você, para o melhor e para o pior.
Mais uma vez, a probabilidade de acerto é de 100%.

20) Do ponto de vista profissional, você é bastante motivado pela segurança e estabilidade no emprego.
Mesmo considerando quem aplica em bolsa de valores, penso que até eles não devem apreciar instabilidades com o próprio ganha-pão.

21) Por qualquer razão, ela (sua mãe) não pôde criar você: talvez tenha sido levado para longe dela por algum tempo, talvez ela não tenha podido amamentá-lo, ou talvez, ainda, ela tenha estado sob grande pressão psicológica e não tenha tido os recursos necessários para cuidar devidamente de você.
Minha mãe deixou de trabalhar para ficar em casa e tentar me dar uma educação decente, portanto a veracidade da informação acima vai de mal a pior.

22) Algumas pessoas podem considerá-lo muito tagarela ou linguarudo, mas você considera o conhecimento e a conversa os verdadeiros motores do mundo.
Isso é o que gostariam que eu fosse, não o que sou — salve escrever em demasia.

23) Você não gosta de dar asas à imaginação — é o tipo de pessoa que lê cuidadosamente as instruções dos manuais.
Um dos meus problemas é justamente tirar os pés do chão e viajar nas ideias. Mas uma coisa a Astrologia nos ensina, mesmo que seja de conhecimento comum: se você está perdido e pega um manual para procurar por instruções, com certeza você não dará “asas à imaginação”.

24) Você tem algumas qualidades mentais que beiram a genialidade.
Heh, obrigado. Difícil negar coisa assim.

25) Em sua vida amorosa pede provas tangíveis de amor, quanto mais dispendiosas melhor.
Novamente: dead wrong.

Em resumo, nota-se que há rica abundância de descrições integralmente genéricas, que serviriam até para pessoas que, segundo a Astrologia, seriam meu extremo oposto. Uma técnica bastante usada é a da imprecisão com condicionamentos e truques de probabilidade: “Talvez você tenha um dom para a diplomacia”, ou talvez não. A união de diversas probabilidades dá ao leitor uma falsa confiança de que tudo que foi dito seja verdade, como previa as experiências de Forer; é curioso notar, inclusive, que muitas descrições do meu mapa são parecidas com as utilizadas por ele. Além disso, há inúmeras contradições (“você ama o trabalho e dispensa a família” / “você prefere dar mais atenção à família que ao trabalho”), que acaba anulando qualquer acerto proferido pelo astrólogo.

Em relação aos itens que não tentam ser genéricos nem apresentam probabilidades vagas, a maioria está previsivelmente errada. Enquanto lia o arquivo, fui fazendo marcas em cada tópico, de certo ou errado. Retirando as instâncias que julguei serem generalizações, sobraram 16% de descrições certas sobre mim e 84% erradas — uma estatística não mais esclarecedora que despejar sobre uma mesa alguns cartões com adjetivos e selecionar um punhado para me descrever.

Este traquejo estatístico é o procedimento correto para desbancar a Astrologia? Nem de longe. Pois meus cálculos têm uma estatística torpe, além da minha opinião sobre o que é uma generalização poder ser tão subjetiva quanto o próprio mapa astral que a acompanha. Não constitui o método científico em atribuir valores numéricos, que vão com minhas convicções pessoais, a elementos abstratos. Como ter alguma certeza então sobre a Astrologia?

Kit para testar a Astrologia e resultados

“Não sou capaz de dar a um cientista de qualquer idade melhor dica que esta: o tamanho de nossa convicção em uma hipótese ser verdadeira não diz em nada se ela é mesmo verdadeira. A grandeza de nossas convicções é somente para nos providenciar um incentivo proporcionalmente grande em descobrir se tal hipótese permanecerá em pé após um exame crítico” (Peter Medawar em “Conselho a um Jovem Cientista”)

Expus como nossa mente possui bugs que afetam nosso senso de julgar os acontecimentos que nos cercam e, sem dúvida, deturpam nossa visão de mundo. O dito popular “só acredito vendo” mostra-se insensato, afinal. De maneira alguma devemos nos guiar pelo que costumamos chamar de “intuição”, pois somos passíveis de ser enganados e/ou de aceitar as respostas mais fáceis — somos ainda mais vulneráveis quando um determinado assunto toca em nosso lado emocional. Como disse no começo deste artigo, sinto-me confortável em imaginar como seria um mundo previsível, onde teríamos todas as respostas, bastando olhar para o céu. Fiquei de certo desapontado ao descobrir que a Astrologia não funcionava para mim.

Em vista desses fatos, não acredito que os astrólogos todos sejam charlatões. Isto seria uma generalização infundada e mesquinha. Mas minha suspeita é de que a esmagadora maioria deles é composta por pessoas que um dia tiveram em mãos seus respectivos mapas astrais e concluíram que aquilo não poderia ser fruto de um jogo bem tecido de palavras, aliado a nossa percepção vulnerável a falhas — e por isso não os culpo, muito pelo contrário. Ao calcularem os mapas para seus clientes e obtendo consequentemente feedbacks positivos, perpetua-se então um engano que poderia facilmente ser desbancado com uma pausa para refletir: “Ei, espere um pouco! Deixe- me analisar isso direito.”

Desde o alvorecer da raça humana, teorias e teorias têm nascido nas mentes dos pensadores e, sem sombra de dúvidas, mais de 99% delas estavam erradas. A ciência existe para esses casos; é algo palpável ao qual podemos nos agarrar frente a uma inundação de falsas impressões do cérebro. Teorias erradas podem parecer inofensivas, até que sejam tomadas como verdades pelo senso comum. A ausência da ciência para pôr tais teorias à prova na Idade Média, por exemplo, fez com que muitos fossem ridicularizados por ousarem discordar das crendices comuns sobre a Terra plana e o geocentrismo (e alguns até foram reduzidos às cinzas).

A ciência, segundo Carl Sagan, é muito mais uma maneira de pensar do que mero um grupo de conhecimentos. Essa maneira de pensar é o que chamamos de “método científico”, que pode ser aplicada a quaisquer áreas da vida, das promessas políticas aos mapas astrais. Sagan, em “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, explica:

"Na ciência, podemos começar com resultados experimentais, dados, observações, medições, “fatos”. Inventamos, se possível, um rico conjunto de explicações plausíveis e sistematicamente confrontamos cada explicação com os fatos. Ao longo de seu treinamento, os cientistas são equipados com um kit de detecção de mentiras. Este é ativado sempre que novas ideias são apresentadas para consideração. Se a nova ideia sobrevive ao exame das ferramentas do kit, nós lhe concedemos aceitação calorosa, ainda que experimental. (…) A confiança em experimentos cuidadosamente planejados e controlados é de suma importância, como tentei enfatizar antes. Não aprenderemos com a simples contemplação. É tentador ficar satisfeitos com a primeira explicação possível que passa pelas nossas cabeças. Uma é muito melhor que nenhuma. Mas o que acontece se podemos inventar várias? Como decidir entre elas? Não decidimos. Deixamos que a experimentação faça as escolhas para nós. Francis Bacon indicou a razão clássica: “A argumentação não é suficiente para a descoberta de novos trabalhos, pois a sutileza da natureza é muitas vezes maior do que a sutileza dos argumentos”.

Barry Beyerstein sugere o seguinte teste para determinar se a aparente validade da Astrologia pode ou não se dever ao efeito Forer, à predisposição para a confirmação, ou a outros fatores psicológicos: (6)

"(…) um teste adequado deveria primeiramente obter leituras feitas para um grande número de clientes, e então remover os nomes dos perfis (codificando-os de forma que possam mais tarde ser associados a seus respectivos donos). Após cada um dos clientes ler todos os perfis de personalidade, seria solicitado a cada um que escolhesse aquele que melhor o descrevesse. Se o leitor tiver realmente incluído material unicamente pertinente o bastante, os membros do grupo, em média, devem ser capazes de exceder o esperado pelo acaso ao escolher, do conjunto de perfis, qual o seu."

Beyerstein observa que “nenhum método oculto ou pseudocientífico de leitura de personalidades teve sucesso num teste assim”. De fato, muitos estudos falharam repetidamente em mostrar uma correlação estatisticamente significante entre a posição dos astros e qualquer traço cognitivo, comportamental ou físico das pessoas.

Sociedade Astronômica do Pacífico publicou um excelente artigo (7) que sumariza os estudos mais confiáveis nessa área. No entanto, a pesquisa mais convincente é a compreensiva bateria de testes com “gêmeos astrais”, (8) ou seja, com pessoas de uma mesma região e que nasceram praticamente ao mesmo tempo nas maternidades. A matéria do Washington Post sobre tal pesquisa diz:

"Durante algumas décadas, pesquisadores observaram mais de 2000 pessoas — a maioria delas nascidas com poucos minutos de diferença entre si. (…) Os bebês foram originalmente recrutados como parte de um estudo médico que começou em Londres no ano de 1958 sobre como as circunstâncias do nascimento afetam sua saúde no futuro. (…) Os bebês foram registrados e o desenvolvimento foi monitorado em intervalos regulares.
Os pesquisadores analisaram mais de 100 características diferentes, incluindo área profissional, nível de ansiedade, situação conjugal, agressividade, sociabilidade, QI, habilidade em artes, esportes, matemática e literatura. Os cientistas falharam em encontrar qualquer evidência de similaridade entre os “gêmeos astrais”, no entanto. No relatório publicado no Journal of Consciousness Studies, dizem: “As condições do teste dificilmente poderiam ser melhoradas para um resultado positivo… mas os resultados foram uniformemente negativos.”

A análise desta pesquisa foi feita por Geoffrey Dean, cientista e ex-astrólogo, e por Ivan Kelly, um psicólogo da Universidade de Saskatchewan, Canadá.

Uma abordagem que aprecio em casos como a Astrologia, em que não há evidências concretas, mas apenas achismos, é ver uma situação por um ângulo extremo para pôr à prova a teoria. Este procedimento é bastante adequado para qualquer aspecto da vida e pode render ideias notáveis. Eis algumas perguntas que elaborei e que todos que acreditam na Astrologia deveriam se perguntar:

i) Suponha então que os traços psicológicos de uma pessoa são de certa forma relacionados pela posição relativa entre planetas específicos e a Terra, na hora do nascimento do indivíduo. Porém, nas últimas décadas descobriram-se mais astros dentro de nosso sistema solar, alguns maiores até mesmo que Plutão (Eris, por exemplo) Alguns deles inclusive têm órbitas menores ao redor do Sol, passando bem mais perto de nós que Urano ou Netuno. Esses astros recém-descobertos então podem nos dizer algo. Por que, no entanto, eles nunca são — e nunca foram — citados nos mapas astrais?

ii) Por que a posição dos astros nos diz sobre nossa personalidade somente no nascimento, e não na concepção, que é quando passamos a ser considerados existentes?

iii) Por que não alguns minutos antes de nascermos? A única diferença entre o antes e depois do parto, é que o bebê adquire oxigênio pelos pulmões e não mais pelo cordão umbilical. Nosso destino só é selado pela agenda espiritual, que é nos mostrada pela posição dos astros, quando estamos com os pulmões cheios? Ou precisamos estar fora do ventre, pois nossas mães funcionam como uma blindagem antiespiritual?

iv) Isto quer dizer que, antes de nascer, o bebê possuía uma ausência completa de personalidade?

v) Por que gêmeos univitelinos, que nascem na mesma hora, têm personalidades diferentes?

vi) As colônias interplanetárias poderão ser uma realidade no futuro. Um dia o ser humano habitará outros planetas. Suponhamos que um indivíduo tenha nascido em Marte. Tal planeta deixaria de entrar em seu mapa astral e, por consequência da localização, a posição relativa da Terra passaria a ter alguma relação astrológica sobre o indivíduo?

vii) Se uma criança nascer em uma maternidade localizada em outro sistema solar, quais astros passarão a fazer parte do mapa astral do indivíduo? Os que estão próximos à Terra, berço de sua raça, ou os planetas deste outro sistema solar?

viii) E se este mesmo sistema solar possuir somente um planeta: aquele no qual o indivíduo nasceu? Ele terá uma personalidade regida somente pelo signo solar?

ix) E se nascermos em uma nave no espaço sideral, fora do alcance de quaisquer sóis ou planetas? Haverá uma ausência completa de personalidade, assim como no feto na visão da Astrologia?

x) Plutão possui uma órbita excêntrica, permanecendo ora distante, ora um pouco mais próximo de nós. Contudo, os astrólogos afirmam que a distância dos astros em relação à Terra não interfere: independente de quão longe um astro pode estar, o que vale é a relação entre ângulos. Se isto for verdade, por que outros planetas da nossa galáxia não nos dizem nada nos mapas astrais?

xi) Se nossa Lua faz parte do mapa astral, porque as luas dos outros planetas do sistema solar não fazem?

xii) Apenas a raça humana é regida pelo calendário dos astros, ou outros animais também teriam um mapa astrológico? Se sim, por que filhotes da mesma ninhada, que nasceram praticamente ao mesmo tempo, têm personalidades tão distintas?

xiii) Tomemos os animais ovíparos. A personalidade astrológica seria definida no momento em que o indivíduo passa pela cloaca da mãe ou na primeira rachadura da casca do ovo em que se encontra?

Todas essas perguntas podem não ter um sentido ou propósito imediato, já que algumas delas não interessariam a alguém que tem fé na Astrologia. No entanto, mesmo as perguntas sem sentido servem para que novas ideias apareçam e coloquem uma teoria à prova. Saber se Marte diz algo sobre personalidade dos animais ovíparos pode não ter utilidade prática, mas uma análise racional dessa ideia ajudaria a desvendar qual é o mecanismo de atuação com que a Astrologia sugere trabalhar. Steven Levitt, autor de Freakonomics: A rogue economist explores the hidden side of everything, diz em seu livro: “Uma vez que façamos perguntas suficientes, por mais estranhas que pareçam no momento, acabamos por aprender algo que valha a pena.

Lembre-se que basicamente toda a Física moderna começou com um simples exercício mental como esse, e foi proposto por Albert Einstein mais ou menos da seguinte maneira: “Imagine um elevador. Agora imagine que esse elevador pode viajar pelo espaço. Agora imagine que ele está na velocidade da luz, e você se encontra dentro dele (…)”.


Considerações finais

Eu seria extremamente presunçoso e pedante se ousasse escrever alguma conclusão concreta sobre algo que, hoje em dia, é aceito entre os meios populares praticamente como uma religião. Portanto, ao invés de concluir algo per se, quero apenas fazer algumas considerações finais sobre o tema.

Não quero dizer que a Astrologia é uma maldição destruidora de lares. Pelo contrário, aparentemente ela serve inclusive como um recurso para auto-psicólogos. É sempre bom exercitar a autoanálise, olhando para dentro de si e depurando quais são as suas próprias qualidades, assim como os próprios defeitos e como eles podem ser melhorados (outro fator que deveria ser corrigido: mapas astrais dificilmente apontam os defeitos das pessoas). Um estudo de si mesmo, na intensidade como os crentes na Astrologia o fazem, economizariam muitas horas de divã, mesmo que as descrições caibam a qualquer um.

Mas mesmo que possivelmente haja um lado bom na Astrologia, eu percebi ao longo dos anos que é muito mais prazeroso o deleite da verdade científica do que a do místico. É certo abrir mão de investigar a verdade cientificamente, apenas porque ela parece menos divertida e atraente para você no momento? Em uma passagem de “Círculo das Estações”, Edmund Way Teale diz:

"Moralmente é tão mau não querer saber se algo é verdade ou não, contanto que você se sinta bem, como o é não querer saber de onde vem seu dinheiro, contanto que ele esteja em suas mãos".

Determinadas crenças parecem inofensivas, até que o indivíduo misture “alhos com bugalhos” e deixe que ela se apodere de todas as decisões de sua vida, deixando a racionalidade encostada em algum canto escuro da mente. Não é incomum conhecer pessoas que não se misturam com outras de determinado signo. Em comunidades de Astrologia no Orkut, inclusive, é possível emergir preconceitos contra pessoas sob determinado signo (em sua maioria, sabe-se lá por que raios, Escorpião). Na Áustria, algumas empresas selecionam seus futuros funcionários baseando-se em seus mapas astrais. Já testemunhei uma garota abrir mão de sua possível felicidade ao dispensar um garoto do qual ela gostava “por ter um signo incompatível com o dela” (apesar disso parecer mais uma desculpa esfarrapada). Se ao menos ela soubesse que existem casais com signos incompatíveis que estão juntos há anos, ou que a taxa de divórcios é igual para signos compatíveis e incompatíveis…

Alguns dirão que ser cético também é tão religioso quanto acreditar na Astrologia. Contudo, isto é tão incoerente quanto afirmar que a calvície é uma cor de cabelo. Salvo todas as diferenças entre as duas coisas, a principal é a que o ceticismo não acredita em uma teoria sem evidências, e as evidências não são analisadas através de interpretações humanas, mas através de inúmeras etapas impessoais pelo método científico, justamente por ter-se noção de que nós todos, na condição humana, estamos sujeitos a inúmeras falhas cognitivas. Nossos sentidos nos pregam peças e isto é mais do que sabido. Thomas Henry Huxley comenta:

"Acredite em uma testemunha de maneira que nem o interesse dela própria, suas paixões, seus preconceitos, nem seu amor pelo misterioso estejam em evidência. Quando estes elementos estão envolvidos, exija uma evidência corroborativa na exata proporção à aversão da probabilidade pela coisa testemunhada."

Como Henri Poincaré disse em A Ciência e a Hipótese: “Duvidar de tudo ou em tudo crer são duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas, de refletir.” Os cientistas não fazem parte de um clube restrito e sabem que eles não detém a verdade absoluta, e que a qualquer momento velhos paradigmas serão quebrados por teorias completamente novas.

Ao contrário do que pode parecer, o método científico como o conhecemos atualmente é uma novidade para o ser humano, pois nasceu há apenas alguns séculos. Desde o berço da raça humana, todos os fenômenos naturais que não pudessem ser explicados eram atribuídos a elementos divinos: relâmpagos são jacarés de fogo que cruzam o céu; ataques epiléticos são possessões demoníacas; tsunamis são o castigo de Deus sobre um país pagão; deficiências congênitas são características de uma divindade encarnada; relâmpagos esféricos são discos-voadores; gases fluorescentes do pântano são fantasmas e pessoas esquisitas são aquarianos. A ideia de que a Terra era plana, o centro do Universo e de que o movimento das estrelas era consequência do grande motor que não se movia — leia-se o deus cristão — era justamente defendida pela Igreja Católica e encontrava grande aceitação entre a população. Os cientistas, que afirmavam o contrário e expunham evidências lógicas, tinham vários problemas pela frente.

A ciência não opõe obstáculos a novas teorias, tampouco menospreza novos pontos de vista, desde que façam algum sentido; ou seja, o proponente da teoria deve ter alguma maneira de demonstrar que ela não é pura fantasia. Portanto, se a suposta teoria que permeia a Astrologia carregasse consigo alguma prova de sua validade, certamente seria recebida de páginas abertas nos livros de Ciência.
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Notas

1- Aos astrólogos profissionais que leram até aqui, por favor, não queiram minha cabeça na ponta do piquete. Este dilema pode ser trivial a vocês, mas não ao público.

2- O psicólogo Steven Pinker, em seu livro “The Blank Slate” (Tábula Rasa), demonstra extensivamente como feitios psicológicos e predisposições a determinados talentos são moldados pela genética da família e pela educação que os indivíduos recebem, sendo o primeiro mais importante que o segundo.

3- Forer, B. R. (1949). “The fallacy of personal validation: A classroom demonstration of gullibility”. Journal of Abnormal and Social Psychology (American Psychological Association) 44 (1): 118–123.

4- Médiuns, por exemplo, muitas vezes fazem tantas questões desconexas e ambíguas em uma rápida sucessão que dão a impressão de ter acesso a conhecimentos pessoais sobre seus clientes. De fato, se o paranormal desejar, não precisa ter qualquer informação sobre a vida pessoal do cliente, já que este irá, voluntariamente ou não, fornecer todas as associações e validações necessárias.

5- Lista completa de influências pode ser encontrada em http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cognitive_biases (em inglês)

6- O teste proposto também usa validação subjetiva ou pessoal, e não tem como objetivo testar a precisão de qualquer ferramenta de levantamento de personalidade, mas sim a neutralizar a tendência ao autoengano nessas questões.

7- Disponível em http://www.astrosociety.org/education/astro/act3/astrology3.html#defense e verificado em 22 de março de 2009.

8-Disponível em:

(Fonte: http://ateus.net/artigos/ceticismo/pensamentos-sobre-astrologia-fato-ou-desejo-de-acreditar/ )
 

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