terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O caso Edgardo Mortara (Richard Dawkins)


(Trecho inicial do Capítulo 9 da obra "Deus, um delírio", de Richard Dawkins)

"Há em cada cidade uma tocha – o professor;
e um extintor – o padre."
(Victor Hugo)

Começo com um caso da Itália do século XIX. Não estou insinuando que qualquer coisa parecida com essa história terrível possa acontecer hoje. Mas as posturas mentais que ela demonstra são lamentavelmente atuais, mesmo que os detalhes factuais não sejam. Essa tragédia humana oitocentista denuncia sem dó as atitudes religiosas de hoje em dia em relação às crianças.

Em 1858, Edgardo Mortara, um menino de seis anos filho de judeus que morava em Bolonha, foi capturado pela polícia papal que agia sob as ordens da Inquisição. Edgardo foi arrancado dos braços da mãe em prantos e do pai desesperado e levado ao Catecúmeno (casa de conversão de judeus e muçulmanos) em Roma, e a partir de então educado como católico apostólico romano. Tirando as visitas ocasionais e rápidas, sempre sob forte supervisão dos padres, seus pais jamais o viram novamente.

A história é contada por David I. Kertzer em seu extraordinário livro O sequestro de Edgardo Mortara. A história de Edgardo não era incomum na Itália daquela época, e a razão para esses raptos sacerdotais era sempre a mesma. Em todos os casos, a criança havia sido secretamente batizada em algum momento anterior, normalmente por uma babá católica, e a Inquisição mais tarde ficava sabendo do batizado. Uma parte central do sistema de fé católico determinava que, uma vez que uma criança tivesse sido balizada, por mais informal e clandestinamente que fosse, ela era irrevogavelmente transformada em cristã. Naquele universo mental, permitir que uma "criança cristã" ficasse com seus pais judeus não era uma opção, e eles mantinham firmemente essa postura bizarra e cruel, com a maior sinceridade, para a indignação do mundo todo.

Essa revolta generalizada, aliás, foi desqualificada pelo jornal católico Civiltà Cattolica, que a atribuiu ao poder internacional dos judeus ricos — soa familiar, não?

Exceto pela publicidade que atraiu, a história de Edgardo Mortara era igual a muitas outras. Ele tinha ficado sob os cuidados de Anna Morisi, uma católica analfabeta que tinha então catorze anos. Ficou doente e ela entrou em pânico, achando que ele pudesse morrer. Criada sob a crença automática de que uma criança que morresse sem ser balizada sofreria para sempre no inferno, ela pediu conselhos a um vizinho católico, que lhe mostrou como realizar um balismo. Ela voltou para casa, jogou um pouco da água de um balde na cabeça do pequeno Edgardo e disse: "Eu tê batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". E foi isso. A partir daquele momento Edgardo era legalmente um cristão.

Quando os padres da Inquisição souberam do incidente, anos depois, agiram prontamente, sem se preocupar com as tristes conseqüências de seu ato. De forma surpreendente, para um ritual que podia ter um significado tão monumental para famílias inteiras, a Igreja Católica permitia (e ainda permite) que qualquer pessoa batizasse qualquer um. O autor do batismo não precisa ser padreNem a criança, nem os pais nem ninguém mais tem de concordar com o batismo. Nada precisa ser assinado. Não são necessárias testemunhas oficiais para nada. Bastam uns pingos d'água, algumas palavras, uma criança indefesa e uma babá supersticiosa e que tenha sofrido lavagem cerebral pela catequese. Na verdade, só é necessário mesmo este último item, porque, pressupondo que a criança é jovem demais para ser testemunha, quem é que vai saber?

Uma colega americana que foi educada como católica escreveu-me o seguinte: "Costumávamos batizar nossas bonecas. Não lembro de nenhum de nós batizando nossos amiguinhos protestantes, mas não duvido que já tenha acontecido e aconteça hoje. Fazíamos de nossas bonecas pequenas católicas, levando-as para a igreja, dando a elas a comunhão etc. Já tínhamos sofrido lavagem cerebral para ser boas mães católicas desde cedo". Se as meninas do século XIX fossem pelo menos um pouco parecidas com minha colega, é de surpreender que casos como o de Edgardo Mortara não fossem ainda mais comuns.

Histórias como essa eram, mesmo assim, perturbadoramente freqüentes na Itália oitocentista, o que nos obriga a fazer a pergunta óbvia. Por que os judeus dos Estados Papais contratavam empregados católicos, considerando o risco que isso poderia significar? Por que não contratavam só funcionários judeus? A resposta, mais uma vez, não tem nada a ver com bom senso e tem tudo a ver com religiãoOs judeus precisavam de funcionários cuja religião não lhes proibisse trabalhar no ShabatUma criada judia certamente não batizaria o filho do patrão, levando-o à orfandade espiritual. Mas ela não poderia acender o fogo ou limpar a casa no sábado. Era por isso que, das famílias judias bolonhesas que tinham dinheiro para contratar funcionários naquela época, a maioria contratava católicos.

Neste livro, evitei deliberadamente detalhar os horrores das Cruzadas, dos conquistadores ou da Inquisição espanhola. Pessoas cruéis e más há em todos os séculos, com todas as motivações. Mas essa história da Inquisição italiana e sua atitude em relação às crianças é particularmente reveladora do modo de pensar religioso e dos males que se originam especificamente porque ele é religioso.

Primeiro é a incrível idéia da cabeça religiosa de que uma gota de água e um breve ritual de palavras podem mudar totalmente a vida de uma criança, assumindo precedência sobre o consentimento dos pais, o consentimento da própria criança, a felicidade e o bem-estar psicológico da criança... Sobre tudo o que o bom senso e o sentimento humanitário considerariam importante. O cardeal Antonelli disse isso com todas as letras naquela época numa carta a Lionel Rothschild, o primeiro judeu a ser membro do Parlamento britânico, que tinha escrito para protestar contra a abdução de Edgardo. O cardeal respondeu que não tinha poderes para intervir, e acrescentou: "Aqui pode ser oportuno observar que, se a voz da natureza é poderosa, ainda mais poderosos são os deveres sagrados da religião". Bem, isso diz tudo, não diz?

Em segundo lugar está o fato extraordinário de que os padres, os cardeais e o papa pareciam genuinamente não compreender que coisa terrível estavam fazendo com o pobre Edgardo Mortara. Isso supera qualquer entendimento sensato, mas eles sinceramente acreditavam que estavam fazendo um bem a ele ao tirá-lo de seus pais e dar-lhe uma educação católica. Sentiam que tinham o dever de protegê-lo! Um jornal católico nos Estados Unidos defendeu a posição do papa no caso Mortara, argumentando que era impensável que um governo cristão "deixasse uma criança cristã ser criada por um judeu" e invocando o princípio da liberdade de religião, "a liberdade de uma criança de ser cristã, e não forçada compulsoriamente a ser judia [...] A proteção da criança pelo Santo Padre, diante de todo o fanatismo e intolerância ferozes, é o espetáculo moral mais grandioso de eras e eras no mundo". Terá havido alguma vez uma distorção tão flagrante de palavras como "forçada", "compulsoriamente", "ferozes", "fanatismo" e "intolerância"?

E ainda assim há todas as indicações de que os apologistas católicos, do papa para baixo, sinceramente acreditavam estar fazendo a coisa certa: absolutamente certa em termos morais e para o bem-estar da criança. Esse é o enorme poder da religião (normal, "moderada") de desvirtuar o juízo e perverter a decência humana.

O jornal Il Cattolico estava francamente estupefato com a cegueira generalizada em relação ao favor magnânimo que a Igreja tinha feito a Edgardo Mortara quando o resgatou de sua família judia: "Qualquer um de nós que pensar seriamente sobre a questão, que comparar a condição de um judeu — sem uma Igreja de verdade, sem um rei, e sem um país, dispersos e sempre estrangeiros onde quer que vivam na face da Terra, e, mais que tudo, famosos pela terrível mancha que marca os assassinos de Cristo [...] entenderá imediatamente a grande vantagem temporal que o papa está obtendo para o menino Mortara."
Em terceiro lugar está a presunção com que as pessoas religiosas sabem, sem evidências, que a fé em que nasceram é a única fé verdadeira, e que todas as outras são aberrações ou simplesmente mentiras. As citações acima são exemplos claros dessa atitude por parte dos cristãos. Seria totalmente injusto equiparar os dois lados nesse caso, mas aqui é um bom lugar para lembrar que os Mortara poderiam, de um golpe só, conseguir Edgardo de volta, se tivessem aceitado as súplicas dos padres e concordado em ser eles batizadosEdgardo havia sido roubado por causa de uns pingos de água e uma dúzia de palavras sem sentidoA insensatez da cabeça doutrinada pela religião é tamanha que outro par de respingos era o que bastava para reverter o processo. Para alguns de nós, a recusa dos pais indica uma teimosia injustificada. Para outros, sua postura firme os coloca na longa lista de mártires de todas as religiões ao longo dos séculos.

"Console-se, mestre Ridley, e seja homem: acenderemos hoje pela graça de Deus na Inglaterra uma chama que, confio, jamais será apagada." Sem dúvida existem causas pelas quais é nobre morrer. Mas como os mártires Ridley, Latimer e Cranmer puderam se deixar queimar só para não abrir mão de seu lado-pequenense protestante e adotar o lado-grandense católico — faz tanta diferença assim de que lado quebrar um ovo cozido? Tamanha é a convicção teimosa — ou admirável, se você vê assim — da mente religiosa que os Mortara não foram capazes de ceder e aproveitar a oportunidade proporcionada pelo ritual sem sentido do batismo. Será que eles não podiam ter cruzado os dedos, ou sussurrado um "não" bem baixinho enquanto fossem batizados? Não, não podiam, porque tinham sido criados sob uma religião (moderada), e portanto levavam toda aquela farsa ridícula a sério.

Eu, do meu lado, só penso no pobre Edgardo — nascido involuntariamente num mundo dominado pelo pensamento religioso, desgraçado em meio ao fogo cruzado, praticamente tornado órfão num ato bem-intencionado, mas, para uma criança, devastadoramente cruel.

Em quarto lugar, para ficar no mesmo tema, está a suposição de que se possa dizer que uma criança de seis anos tem uma religião, seja ela a judaica ou a cristã ou qualquer outra. Para usar outras palavras, a idéia de que batizar uma criança inconsciente pode mudá-la de uma religião para outra em um só golpe parece absurda — mas certamente não é mais absurda que rotular uma criancinha como pertencente a qualquer religião específica.

O que importava para Edgardo não era a "sua" religião (ele era pequeno demais para possuir opiniões religiosas ponderadas), mas o amor e o cuidado de seus pais e sua família, e ele foi privado dos dois por padres celibatários cuja crueldade grotesca só era mitigada pela insensibilidade crassa aos sentimentos humanos normais — insensibilidade da qual uma cabeça sequestrada pela fé religiosa é presa fácil.

 Mesmo sem a abdução [sequestro] física, não é sempre uma forma de abuso infantil classificar que crianças possuam crenças sobre as quais elas são pequenas demais para ter refletido? Mas a prática persiste até hoje, quase totalmente inquestionada. Questioná-la, porém, é meu principal objetivo neste capítulo.

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