segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cosi-Sancta (Voltaire)


COSI-SANCTA

UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM
Novela Africana

(Conto de Voltaire)

É uma das tantas máximas falsamente acreditadas, essa de que não é permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um bem maior. Mas era assim que pensava Santo Agostinho, como se pode depreender da narrativa desta pequena aventura acontecida na sua diocese, sob o proconsulado de Septímio Acindino, e que vem no livro da Cidade de Deus.

Havia em Hipona um velho cura, grande inventor de confrarias, confessor de todas as raparigas da vizinhança, e que passava por homem inspirado de Deus, pois costumava deitar sortes, ofício de que se desempenhava assaz passavelmente.

Levaram-lhe um dia uma jovem chamada Cosi-Sancta; era a mais bela criatura da província. Tinha pais jansenistas que a haviam educado nos princípios da mais rígida virtude; e, de todos os pretendentes que tivera, não houvera um só que lhe causasse um momento de distração nas suas preces. Fazia alguns dias que fora ela prometida a um velhote encarquilhado, chamado Capito, conselheiro do presidial de Hipona. Era um homenzinho brusco e rabugento a quem não faltava inteligência, mas que era ríspido de conversação, escarninho, e amante de brincadeiras de mau gosto; e, de resto, ciumento como um veneziano, e que por nada no mundo se teria conformado em ser amigo dos galanteadores da esposa. A jovem criatura fazia o possível para amá-lo, pois que ele deveria ser seu marido; mas por maior boa-fé com que se empenhasse em tal coisa não conseguia nada.

Foi pois consultar o seu cura para saber se seria feliz no casamento. O nosso padre disse-lhe num tom profético:

Minha filha, a tua virtude causará desgraças, mas serás um dia canonizada por teres sido três vezes infiel a teu esposo.

Esse espantoso oráculo escandalizou cruelmente a inocência da bela rapariga. Ela pôs-se a chorar; depois pediu explicações, julgando que tais palavras ocultavam, algum sentido místico; mas a única explicação que conseguiu foi que as três vezes não deviam ser interpretadas como três encontros com o mesmo amante, mas sim como três aventuras diferentes.

Cosi-Sancta pôs-se então aos gritos; chegou até a dizer algumas injúrias ao bom do cura, e jurou que nunca seria canonizada. E no entanto o foi, como já ides ver.

Casou-se pouco depois: as núpcias foram esplêndidas; ela suportou muito bem todos os maus discursos que teve de ouvir, todos os trocadilhos sem graça, todas as grosserias mal disfarçadas com que costumam constranger o pudor das noivas. Dançou de bom grado com alguns jovens muito bem parecidos e com os quais o marido não simpatizou absolutamente.

E foi deitar-se ao lado do pequeno Capito, com um pouco de repugnância. Passou boa parte da noite a dormir; e acordou-se muito pensativa. Mas o assunto das suas cismas não era tanto o marido, e sim um jovem chamado Ribaldos, que lhe tomara conta do pensamento, sem que ela propriamente o suspeitasse. Esse jovem parecia formado pelas mãos do Amor, de quem tinha as graças, a ousadia e o espírito travesso; era um pouco indiscreto, mas só com aquelas que no fundo assim queriam: era a coqueluche de Hipona. Incompatibilizara todas as mulheres da cidade umas com as outras e, por sua vez, estava incompatibilizado com todos os maridos e todas as mães. Amava, de ordinário, por estouvamento, e um pouco por vaidade; mas amou Cosi-Sancta por gosto, e tanto mais perdidamente quanto mais difícil se lhe antolhava a conquista.

Como homem de espírito que era, aplicou-se de início em agradar ao marido. Fazia-lhe mil cumprimentos, felicitava-o por sua boa fisionomia e seu espírito arejado e galante. Perdia para ele no jogo, e todos os dias lhe fazia alguma pequena confidência. Cosi-Sancta achava-o a criatura mais amável do mundo. Já o amava mais do que supunha; era verdade que não o suspeitava, mas o marido suspeitou por ela. Embora tivesse todo o amor-próprio que um homenzinho possa ter, não deixou de desconfiar que as visitas de Ribaldos não eram somente para ele. Rompeu com este sob qualquer pretexto, e proibiu-lhe a entrada em casa.

Cosi-Sancta ficou muito aborrecida, mas não ousou dizê-lo; e Ribaldos, cujo amor crescera com as dificuldades, passava todo o tempo a espiar uma oportunidade para a ver. Disfarçou-se de monge, de vendedora de roupas, de apresentador de títeres. Mas não fez o bastante para triunfar de sua amada, e fez demasiado para que não fosse reconhecido pelo esposo. Se Cosi-Sancta estivesse em combinação com ele, saberiam ambos como tomar as necessárias medidas para que o marido nada suspeitasse; mas, visto que ela combatia as suas inclinações, e nada tinha a censurar-se, salvava tudo, fora as aparências, e o marido a julgava culpabilíssima.

O homenzinho, que era muito colérico e que imaginava que a sua honra dependia da fidelidade da mulher, ultrajou-a cruelmente, e puniu-a pelo fato de a acharem bela. E Cosi-Sancta se viu na mais horrível situação em que possa estar uma mulher: acusada injustamente e maltratada por um marido a quem era fiel, e dilacerada por uma paixão violenta que procurava dominar.

Achou que, se o seu apaixonado parasse com as perseguições, poderia o marido parar com as injustiças, e que ela se daria por muito feliz curando-se de um amor que nada mais alimentava. Nessa intenção, aventurou-se a escrever a Ribaldos a seguinte carta:

Se tendes virtude, deixai de tornar-me infeliz: vós me amais, e o vosso amor me expõe às suspeitas e às violências de um senhor que eu me impus para o resto da vida. Quem dera que fosse esse o único risco em que eu incorro! Por piedade, deixai de perseguir-me; conjuro-vos a isso por este mesmo amor que constitui vossa desgraça e a minha, e que jamais vos poderá fazer feliz.

Não previra a pobre Cosi-Sancta que uma carta tão terna, embora tão virtuosa, causasse um efeito inteiramente contrário ao que esperava. Só serviu para inflamar mais do que nunca o coração de seu enamorado, que resolveu expor a vida para avistar-se com ela..

Capito, que era assaz tolo para querer ser informado de tudo e que tinha bons espiões, foi avisado de que Ribaldos se disfarçara em carmelita pedinte para ir implorar caridade à sua mulher. Julgou-se perdido: imaginou que um hábito de carmelita era muito mais perigoso que qualquer outro para a honra de um marido. Contratou alguns homens para darem uma sova no irmão Ribaldos, no que foi muito bem servido. O jovem, ao entrar na casa, foi recebido pelos tais senhores: por mais que bradasse que era um honrado carmelita e que não era assim que se tratavam pobres religiosos, recebeu valente sova, vindo a morrer dali a quinze dias de um golpe que recebera na cabeça. Choraram-no todas as mulheres da cidade. Cosi-Sancta ficou inconsolável. O próprio Capito aborreceu-se muito, mas por outro motivo: é que se metera numa terrível situação.

Ribaldos era parente do procônsul Acindino. Quis esse romano dar um castigo exemplar àquele assassínio, e, como outrora tivera algumas questões com o presidia de Hispano, não se incomodou em achar tal pretexto para enforcar um conselheiro; e ainda mais se agradou de que a sorte coubesse a Capito, que era na verdade o mais vaidoso e insuportável togado da região.

Cosi-Sancta vira pois assassinarem o seu apaixonado, e estava prestes a ver enforcarem o marido; e tudo isso por ter sido virtuosa. Porque, como já disse, se houvesse concedido seus favores a Ribaldos, o marido teria sido muito menos enganado.

Eis como se cumprira a metade da predição do cura. Cosi-Sancta lembrou-se então do oráculo, e muito se arreceou de cumprir o resto. Mas, tendo refletido que não se pode vencer o destino, entregou-se à Providência, que a levou ao fim pelos mais honestos caminhos do mundo.

O procônsul Asinino era um homem mais debochado que voluptuoso, que muito pouco se divertia nas preliminares, um sujeito brutal, sem cerimônias, verdadeiro herói de guarnição, muito temido na província, e com quem todas as mulheres de Hispano haviam tido um caso, unicamente para evitar complicações.

Mandou chamar a senhora Cosi-Sancta. Ela chegou banhada em lágrimas, o que não deixava de lhe aumentar os encantos.

— Vosso marido, Senhora, vai ser enforcado, e só de vós depende a sua salvação.

— Eu daria a minha vida pela sua – respondeu-lhe a dama.

— Ha! mas não é isso que se vos pede – replicou o procônsul.

— Que é preciso então fazer? – indagou ela.

— Desejo apenas uma de vossas noites – tornou o procônsul.

— Elas não me pertencem – disse Cosi-Sancta. – São um bem de meu marido. Darei meu sangue para salvá-lo, mas não posso dar a minha honra.

— Mas se vosso marido consentir? – perguntou o procônsul.

— Ele é o proprietário – respondeu a dama – e cada qual tem o direito de dispor dos seus bens como lhe aprouver. Mas conheço meu marido, não abrirá mão de nada; é um sujeitinho cabeçudo, que preferirá deixar-se enforcar a permitir que me toquem com um dedo.

— É o que veremos – disse o juiz, encolerizado.

Imediatamente manda chamar o criminoso; propõe-lhe ou a forca ou um par de ornamentos [chifres]: não havia outra alternativa. O homenzinho começou com coisas. Mas afinal fez o que qualquer outro teria feito no seu lugar. Sua esposa, por pura caridade, salvou-lhe a vida. E foi essa a primeira das três vezes.

No mesmo dia o seu filho caiu doente de uma enfermidade assaz extraordinária e que nenhum médico de Hipona conhecia. Só havia um que estava a par dos segredos dessa doença, mas que morava em Áquila, a algumas léguas de Hipona. Era então proibido que um médico estabelecido numa cidade saísse desta para ir exercer em outra a sua profissão. Cosi-Sancta viu-se obrigada a ir procurá-lo pessoalmente em Áquila, com um irmão que tinha e a quem estimava muito. No caminho foi detida por salteadores. O chefe dos referidos cavalheiros achou-a muito bonita. E, como o irmão de Cosi-Sancta estava prestes a ser morto, aproximou-se e disse-lhe que, se ela tivesse um pouco de complacência, não lhe matariam o irmão e que isso afinal não lhe custaria nada. A coisa era urgente. Cosi-Sancta acabava de salvar a vida do marido, a quem não amava; ia perder um irmão a quem estimava muito; por outro lado, alarmava-a o perigo de seu filho; não havia um minuto a perder. Ela encomendou-se a Deus, e fez tudo o que quiseram. E foi essa a segunda das três vezes.
No mesmo dia chegou em Áquila e foi ter com o médico. Era um desses médicos da moda que as mulheres mandam chamar quando têm vapores ou quando não têm absolutamente nada. Era confidente de umas e amante de outras; homem polido, condescendente, um pouco estremecido aliás com a Faculdade, contra a qual fizera a propósito uns bem aplicados gracejos.

Cosi-Sancta lhe expôs a doença do filho e ofereceu-lhe um sestércio grande. (E notai que um desses sestércios corresponde, em moeda de França, a mais de mil escudos.)

— Não é com essa moeda que eu pretendo ser pago, Senhora – respondeu o galante médico. – Eu próprio vos ofereceria todos os meus haveres, se quisésseis cobrar as curas que podeis fazer: curai-me apenas do mal que me causais, e eu devolverei a saúde a vosso filho.

A proposta pareceu extravagante à dama, mas o destino a acostumara às coisas mais estranhas. O médico era um teimoso que não queria outro preço pelo seu remédio. Cosi-Sancta não tinha o marido à mão, para o consultar. Mas como deixar morrer um filho a quem adorava, por falta daquele pequeno auxílio que ela lhe poderia dar?! Era tão boa mãe quanto boa irmã. Comprou o remédio pelo preço que lhe pediram. E foi essa a última das três vezes.

Voltou a Hipona com o irmão, que não cessava de agradecer-lhe, durante o caminho, a coragem com que lhe salvara a vida.

Assim Cosi-Sancta, por ter sido, demasiado virtuosa, fez morrer o seu amado e condenar o marido à morte, e, por ter sido complacente, conservou os dias do irmão, do filho e do marido. Acharam que uma mulher como essa era muito necessária em uma família, canonizaram-na após a morte, por ter feito tanto bem a seus parentes, mortificando-se, e gravaram-lhe no túmulo: UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM.

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