terça-feira, 16 de dezembro de 2014

SEM REVELAÇÃO (A. D. Sertillanges)

"De sua voz tão medida e tão autorizada, 
o Senhor começa enfim a fazer ouvir a palavra 
que eu sonhava desde tanto tempo 
ouvir francamente na Igreja" 
(Trecho da carta de Teilhard de Chardin 
ao Padre A. D. Sertillanges
parabenizando-o por seus escritos. 
Citado em "Philosophia Perennis", 
de Pierre Secondi, OP, Edit. Vozes, 1992) 

Deísmo consiste numa doutrina filosófico-teológica que compõem-se de duas partes essenciais, uma positiva (a afirmação da existência de Deus) e outra negativa (a negação de todas as pretensas revelações divinas sobrenaturais alegadas pelas religiões). Em sua parte positiva, o Deísmo, bem entendido, nada mais é do que a boa e velha metafísica aristotélica. Ora, dentre os comentadores de Aristóteles, São Tomás de Aquino ocupa um lugar de tremendo destaque. Devemos à S. Tomás (e seus continuadores escolásticos) a distinção clara e precisa entre o âmbito do natural, onde a luz suprema e suficiente é apenas a pura Razão, e o do sobrenatural, só inaugurável e só regível por uma Revelação Divina. O reino da pura Razão é o local básico e essencial do homem - a ordem natural -, e basta-lhe, em princípio, perfeitamente. Se, porém, ao reino da pura Razão a vontade livre de Deus quisesse adicionar o complemento de uma Revelação - ou seja, se à ordem natural Deus quisesse acrescentar uma ordem sobrenatural - poderia fazê-lo, é claro. Mas tal elevação à ordem sobrenatural - tal Revelação - só poderia ser aceita por nós após sua autenticidade ser efetivamente comprovada (visto que falsas revelações, de origem não-divina, também se poderiam dar) e o primeiro critério de averiguação da validade e origem divina de qualquer suposta Revelação seria precisamente sua total conformidade com o demonstrado pela Razão (uma ordem sobrenatural supõe e requer a natural). Uma pretensa "revelação" que, por exemplo, imputasse a Deus algum defeito ou erro ou mal, seria necessariamente falsa, visto estar em desacordo com o conceito de Deus mostrado pela Razão: Ato PuroMotor ImóvelPerfeição Perfeitíssima. Até aqui, S. Tomás e Deísmo estão de pleno acordo. Apenas a partir da averiguação acerca de ter havido ou não uma verdadeira Revelação Divina feita aos homens, é que os Deístas nos separamos de S. Tomás: este, crendo na "Revelação" proposta pelo Cristianismo e nós não julgando esta (e nem outra qualquer) como verdadeira. 

Antonin-Dalmace Sertillanges, OP
[1863-1948]
Ciente disso, no princípio do século XX um sábio frade dominicano chamado A. D. Sertillanges resolveu sintetizar aquela parte da doutrina tomista sobre a qual todos os que usam a simples luz da Razão podem estar de acordo, sempre apoiados, como referencial primeiro, no magistério filosófico de Aristóteles. "As Grandes Teses da Filosofia Tomista" foi a obra-prima nascida desse intento. E agora, neste dezembro de 2013, temos a gratíssima honra de reproduzir em nosso blog, capítulo por capítulo, na íntegra, esse preciosíssimo livro - por nós lido e relido e meditado muitas vezes. Rebatizamo-lo com um novo título, transformamos-lhe o primeiro capítulo (sobre o próprio S. Tomás) em introdução, acrescentamos-lhe nossos grifos, mas quanto a ilustrá-lo com imagens preferimos não fazê-lo - para evitar confusões antropomórficas com conceitos sumamente abstratos, puramente intelectuais e estritamente não apreensíveis pela imaginação.

O leitor atente bem para o fato de que não estamos lidando com nenhuma "Fé" religiosa ao tratar os  temas da metafísica. Estamos pura e simplesmente no domínio da Razão, chegando a conclusões com base em meros raciocínios, sem apelar em nada para qualquer pretensa "revelação sobrenatural". A metafísica filosófica é uma matéria, por assim dizer, "laica" - isto é, independente de qualquer religião.

Por que há seres ao invés de nada? Lembramos-lhes, caros leitores, que estamos aqui em face do campo mais elevado dos estudos humanos, bem diante do cimo supremo da Razão, nos limites máximos além dos quais a pura Razão não pode ir, frente à mais perfeita e mais sublime das glórias da Razão - a Metafísica. Somente uma intervenção direta do próprio Autor de Tudo (uma Revelação Divina propriamente dita) poderia nos levar mais adiante ainda. Esperamos, pois, que nossos visitantes leiam e meditem com muita atenção e diligência todos e cada um dos pontos apresentados nessa obra, buscando sinceramente a verdade, e apenas a verdade. Somente assim poderão iniciar-se na compreensão dos laços metafísicos que unem o Criador e a criatura e se extasiar intelectualmente com os vislumbres que já a pura Razão nos faz ter do amor da Sabedoria Eterna.
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SEM REVELAÇÃO

Até onde a simples Razão pode chegar
mesmo sem nenhuma revelação divina
segundo São Tomás de Aquino

A. D. SERTILLANGES, O.P. - 

(Título original: As Grandes Teses da Filosofia Tomista)


"Não sabemos o que Deus é,
mas apenas o que Ele não é,
e as relações das criaturas para com Ele"
(S. Tomás de Aquino)

Sumário:


Capítulo I: SER E CONHECIMENTO

Capítulo II: DEUS

Capítulo III: A CRIAÇÃO

Capítulo IV: A PROVIDÊNCIA

Capítulo V: NATUREZA E VIDA

Capítulo VI: A ALMA HUMANA



Capítulo VII: ATIVIDADE MORAL
(Complemento nosso ao 7º Cap.: O sexo à luz da Razão)

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