terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Profissão de Fé do Vigário da Saboia (ROUSSEAU)

* Publicamos hoje um dos textos que mais geraram polêmica no século XVIII: "Profissão de fé do vigário da Saboia", de Jean-Jacques Rousseau. Trata-se, na realidade, de uma parte da obra deste intitulada "Emílio ou Da Educação", mas uma parte que não tardou a ganhar vida autônoma e ser publicada e divulgada em separado. Nela, Rousseau expõe, por assim dizer, a sua versão do Deísmo: primeiramente trata de defender a existência de Deus, a espiritualidade e imortalidade da alma humana, o livre-arbítrio e o valor das virtudes naturais, fazendo também suas críticas aos ateus; em seguida, demonstra por que não devemos crer realmente em nenhuma das pretensas 'revelações divinas' alegadas pelas religiões, criticando então, duramente, as superstições religiosas. E, por fim - e foi, em seu tempo, talvez a parte mais polêmica de seu escrito -, sustenta que, apesar de as religiões serem problemáticas como são  (sob todos os pontos de vista), os deístas não deveriam abandoná-las nem sair delas, mas sim nelas permanecer, como membros ativos, embora sem crerem no que elas ensinam, a fim de pode-las reformar/transformar desde dentro...

"Profissão de fé do vigário da Saboia" chocou a todos no século XVIII, desagradando visceralmente não só aos religiosos, como também aos próprios antirreligiosos: parece que Rousseau conseguiu, de um só golpe, atingir todo mundo bem na cara. De Voltaire ao Papa, passando pelo Rei da França, não houve quem não dissesse, por um motivo ou por outro, se sentir revoltado com as páginas que a seguir publicamos. O livrinho de Rousseau foi colocado por Roma, em tempo recorde, no "Index" de livros proibidos e excomungados. Em Paris, exemplares da obra foram queimados em público, por ordem da Casa Real. Rousseau teve de fugir e se esconder rapidamente, senão acabaria executado.

Vale notar, também, que "Profissão de fé do vigário da Saboia", embora seja um conto fictício, se inspira num caso real, o do sacerdote católico Jean Meslier (1664-1729) o qual, ao morrer, deixou um ácido testamento confessando que, embora fosse padre, secretamente não acreditava em nada dos dogmas cristãos... 

Boa reflexão a todos! Rodrigo.



PROFISSÃO DE FÉ DO VIGÁRIO DA SABOIA


- JEAN-JACQUES ROUSSEAU - 



"Sinto apenas que sou a obra e o instrumento do Ser Supremo,
que quer o bem, que o faz, que fará o meu com o concurso
das minhas vontades e das suas
e pelo exercício da minha liberdade;
submeto-me à ordem por ele estabelecida,
certo de desfrutar um dia dessa mesma ordem,
onde encontrarei a felicidade."
(J.-J. Rousseau)


(Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada. Fonte: Clássicos Jackson)

Há trinta anos que, em uma cidade da Itália, um jovem expatriado se via reduzido à última miséria. Nasceu calvinista, mas uma estroinice o levara fugitivo e sem recursos a país estrangeiro, e teve que mudar de religião para poder comer. Havia na cidade um albergue para convertidos. Nele foi admitido.

À medida em que o iam instruindo nas artes da controvérsia, infundiam-lhe dúvidas que não tinha, ensinavam-lhe o mal que ignorava. Falaram-lhe de novos dogmas; presenciou costumes mais novos ainda, de que esteve para ser vítima. Quis fugir, encarceraram-no; queixou-se e castigaram-no por suas queixas. À mercê de seus tiranos, foi tratado como um criminoso por não querer ceder ao crime.

Só os que sabem como um coração ainda tenro, se exaspera com a primeira prova da violência e da injustiça poderão avaliar o estado do seu. Dos olhos, corriam-lhe lágrimas de raiva, a indignação sufocava-o; implorava ao céu e aos homens, confiava-se a todo o mundo, e ninguém o ouvia. Só via à sua volta fâmulos vis submetidos ao infame que o ultrajava, ou cúmplices do mesmo crime que zombavam da sua resistência, incitando-o a imitá-los. Se não fosse um eclesiástico que passou pelo albergue, e com quem pôde desabafar em segredo, estaria perdido.

O eclesiástico era pobre, necessitava de todo o mundo, mas o oprimido ainda mais necessitava dele; e não vacilou em favorecer-lhe a fuga, ainda com risco de ganhar um perigoso inimigo. Escapado ao vício para cair na indigência, o moço não cessava, de lutar contra o destino; houve um momento em que julgou sobrepor-se-lhe.

Aos primeiros lampejos da sorte, esqueceu-se de seus males e do protector. Mas logo sofreu o castigo dessa ingratidão; todas as esperanças se lhe desvaneceram. A juventude favorecia-o, mas em vão; suas idéias romanescas deitavam tudo a perder. Não tinha capacidade nem astúcia que lhe abrissem caminho fácil, e, como não era morigerado nem malicioso, tantas coisas pretendeu que não alcançou nenhuma.

Caído novamente na miséria, sem pão, sem asilo, quase a morrer de fome, lembrou-se de seu benfeitor. Procurou-o outra vez, encontrou-o, e foi bem recebido. A presença do jovem recordou ao eclesiástico uma das boas acções da sua vida; lembranças destas rejubilam sempre a alma. Era um homem naturalmente humano, compassivo, que avaliava, pelas suas, as penas dos outros; o bem-estar não lhe endurecera o coração, e as lições da sabedoria e uma virtude esclarecida tinham-lhe fortalecido a boa índole.

Acolheu o moço e diligenciou-lhe um abrigo, onde o recomendou, repartindo com ele tudo de que dispunha, que mal chegava para os dois. Fez mais: instruiu-o, consolou-o, ensinou-lhe a difícil arte de suportar pacientemente a adversidade. Homens de preconceitos, esperaríeis, porventura, isto de um padre e na Itália?

Este honrado eclesiástico era um pobre vigário saboiano, de mal com seu bispo, devido a uma aventura de juventude, e que atravessara os montes em busca dos recursos que lhe faltavam em seu país. Não carecia de talento nem de cultura; com uma figura interessante, encontrou protectores que o colocaram em casa de um ministro, como educador de seu filho. Preferia a pobreza à dependência, e não sabia como se conduzir com os grandes. Não ficou muito tempo com este, mas não perdeu sua estima, quando o deixou; e, como levava uma vida sensata e era estimado de toda a gente, alimentava a esperança de reconquistar um dia o apreço do bispo e obter um pequeno curato nas montanhas, onde passasse o resto da vida. Não tinha mais ambições.

Sentia natural inclinação pelo moço fugitivo, e estudou-o atentamente. Verificou que a má sorte já lhe tinha secado o coração, que o opróbrio e o desprezo lhe haviam abatido a coragem, e que a sua altivez, transformada em amargo despeito, lhe mostrava apenas, na injustiça e na soberba dos homens, o vício da sua natureza e a quimera da virtude. Para ele, a religião era apenas a máscara do interesse, e o culto sagrado a salvaguarda da hipocrisia; o paraíso e o inferno eram, na subtileza das vãs disputas, simples jogo de palavras; via a sublime e primitiva ideia da Divindade desfigurada pelas caprichosas imaginações dos homens; e, convencido de que, para crer em Deus, era mister renunciar ao raciocínio que ele nos deu, sentia o mesmo desdém pelas nossas ridículas fantasias e pelo seu objecto. Como não sabia nada sobre o que existe, nem meditava sobre a gênese das coisas, caiu em uma estúpida ignorância e em profundo desprezo pelos que julgavam saber mais do que ele. O olvido de toda a religião leva o homem ao olvido de todos os deveres.

Mais da metade deste caminho já tinha sido percorrido no coração do libertino. Não era, no entanto, um moço de maus sentimentos; mas a incredulidade e a miséria iam-lhe minando a pouco e pouco a boa índole, e precipitando rapidamente a sua perda, dando-lhe os hábitos do mendigo e a moral do ateu.

O mal, quase inevitável, não estava, porém, totalmente consumado. O moço tinha alguns conhecimentos e havia cultivado a sua educação. Estava nessa idade feliz em que o sangue, fermentando, começa a levar calor à alma, sem a escravizar ao furor dos sentidos. A dele ainda estava na posse de toda a sua iniciativa. O constrangimento era nele modéstia inata, seu carácter tímido prolongava-lhe esse período em que o aluno tantos cuidados requer. O exemplo odioso da depravação brutal e do vício sem encantos não lhe estimulavam a imaginação, amorteciam-lha. A repugnância foi durante muito tempo a virtude que lhe conservou a inocência; esta só devia sucumbir a seduções mais delicadas.

O eclesiástico viu o perigo e o remédio. As dificuldades não o desanimavam. Comprazia-se na sua obra e resolveu levá-la até ao fim, restituindo a virtude à vítima que havia arrancado à infâmia. Tomou com calma a execução do seu projecto; a beleza do tema dava-lhe coragem e inspirava-lhe meios dignos de tanto zelo. Fosse qual fosse o resultado, estava certo do que não perdia o seu tempo. Quando só se pretende fazer o bem, sempre se triunfa.

Começou procurando ganhar a confiança do rapaz, não lhe cobrando nada pelos seus serviços; não era inoportuno, nem lhe fazia sermões, pondo-se sempre ao seu alcance e diminuindo-se para se colocar ao seu nível. Era um espectáculo impressionante ver como um homem grave se tornava o camarada de um vadio, e como a virtude sintonizava com o vício para deste obter triunfo mais seguro.

Quando o estouvado lhe fazia suas loucas confidências, expandindo-se com ele, o padre ouvia-o e punha-o à vontade; não aprovava o mal, mas demonstrava interesse por tudo; nunca lhe detinha a loquacidade ou lhe confrangia o coração com uma censura indiscreta. O prazer de se saber ouvido era ainda maior que o de não ter que calar nada. Fez, assim, uma confissão geral, sem saber que se estava confessando.

Depois de lhe estudar bem os sentimentos e o carácter, viu o padre claramente que, embora não fosse um ignorante para a sua idade, havia esquecido tudo quanto lhe interessava saber, e que o opróbrio, a que a sorte o reduzira, ia apagando nele todo o verdadeiro sentimento do bem e do mal. Há um grau de embrutecimento que arranca a vida à alma; e a voz interior não chega ao que só pensa em alimentar-se.

Para preservar o desventurado moço desta morte moral, de que tão perto se encontrava, começou por lhe despertar o amor próprio e a estima por si mesmo; apontava-lhe um destino mais feliz, se empregasse melhor as suas capacidades; reanimava em seu coração um generoso ardor, contando-lhe as belas ações dos outros, e, provocando-lhe a admiração pelos que as haviam feito, incitava-lhe o desejo de os imitar.

Para afastá-lo insensivelmente daquela vida ociosa e vagabunda, mandava-o copiar extractos de livros escolhidos; e, fingindo que necessitava deles, incutia-lhe o nobre sentimento do reconhecimento. Doutrinava-o indirectamente por esses livros. Fazia-o formar um conceito bastante lisonjeiro de sua própria pessoa para que não se julgasse um ser inútil para o bem, nem se visse desprezível aos seus próprios olhos.

Um simples episódio nos dará ideia dos métodos de que este homem benemérito se servia para elevar insensivelmente o coração do aluno acima das baixezas humanas, sem que ele pressentisse tal intuito. Era tão patente a probidade do eclesiástico e tão firme o seu bom senso, que muita gente preferia confiar-lhe suas esmolas em vez de aos padres ricos das cidades. Certo dia, em que lhe deram algum dinheiro para os pobres, teve o moço a fraqueza de, a título de pobre, pedir-lhe a sua parte. — "Não, disse-lhe o vigário, nós somos irmãos, és coisa minha; e só devo tocar neste dinheiro para o empregar como me foi determinado." A seguir, porém, deu-lhe de suas economias a quantia solicitada. Lições como esta raras vezes se perdem no coração dos homens que não estão totalmente corrompidos.

Já estou cansado de falar em terceira pessoa; a preocupação é inútil porque você já viu, meu caro concidadão, que esse infeliz fugitivo era eu. Creio-me bastante desviado dos desatinos da juventude para poder confessá-los, e a mão que se me estendeu bem merece que eu, sacrificando embora um pouco de vergonha, preste algumas homenagens aos benefícios que dela recebi.

O que mais me sensibilizava era ver, na vida particular do meu digno mestre, a virtude sem hipocrisia, a humanidade sem desfalecimentos, juízos sempre rectos e simples, e uma conduta constantemente de acordo com esses juízos. Não lhe importava saber se os que recebiam seu auxílio iam ou não à missa, se se confessavam muitas vezes ou jejuavam nos dias de preceito, se faziam abstinência, nem lhes impunha outras condições semelhantes, sem as quais morreríamos de necessidade se tivéssemos que contar com a ajuda dos devotos.

Suas observações davam-me coragem, e, longe de alardear em sua presença o zelo próprio de um novo prosélito, nunca lhe ocultava meu modo de pensar, sem nele advertir jamais o menor sinal de reprovação. Pensava às vezes comigo: perdoa-me a indiferença pelo culto que abracei pela que me vê ter também pelo culto em que nasci; sabe que a minha indiferença já não é sectarismo.

Mas que pensar, quando o ouvia, devez em quando, aprovar os dogmas contrários aos da Igreja romana, parecendo não ter em grande estima as suas cerimónias? Crê-lo-ia um protestante disfarçado, se não o visse tão fiel a essas práticas, a que, aparentemente, não prestava grande atenção; mas, observando que cumpria tão pontualmente seus deveres de sacerdote, sem testemunhas, como em público, não sabia como interpretar essas contradições. Exceptuando o defeito que, em outros tempos, fora a causa de sua desgraça, e de que não se havia corrigido muito, levava vida exemplar: seus costumes eram irrepreensíveis, sua forma de pensar  judiciosa e honesta.

Vivia com ele na maior intimidade, e aprendi a respeitá-lo cada vez mais; conquistou-me inteiramente o coração com tantas bondades, o que me fazia esperar, com curiosa inquietação, o momento de saber em que princípios fundava uma vida tão uniforme e singular. Esse momento não se apresentou logo. Antes de se abrir com o discípulo, fez germinar as sementes da razão e da bondade que lhe lançara na alma.

O que havia mais difícil de destruir em mim era uma orgulhosa misantropia, certa quizília contra os ricos e os homens felizes deste mundo, como se eles o fossem à minha custa, ou a sua pretensa felicidade me tivesse sido usurpada. A louca vaidade da juventude, que se subleva contra a humilhação, provocava-me este humor colérico; e o amor próprio, que meu mentor procurava despertar em mim, feria-me a soberba, tornando os homens ainda mais vis a meus olhos; todo o meu desprezo e ódio se concentrava neles.

Não combateu este orgulho directamente, mas não consentiu que se transformasse em dureza de alma; não me privou da estima própria, mas fê-la menos desdenhosa para com os outros. Apontava-me sempre as falsas aparências, mostrando-me os males reais que nelas se ocultam, e ensinava-me a deplorar as faltas de meus semelhantes, a comover-me com suas misérias, a sentir por eles mais pena que inveja.

Um profundo sentimento das próprias misérias inspirava-lhe compaixão pelas fraquezas alheias, considerando sempre os homens vítimas de seus vícios e dos alheios; via os pobres gemer sob o jugo dos ricos, e os ricos sob o jugo dos preconceitos. Crê, dizia-me ele, as ilusões não nos encobrem os males, aumentam-no-los, dando valor aos que o não têm, e fazendo-nos sofrer mil privações que, sem elas, não sentiríamos. A paz da alma consiste no desprezo por tudo quanto a possa perturbar: o homem que mais apego tem à vida é o que menos a desfruta, e o mais infeliz, o que mais avidamente aspira à felicidade.

— "Ah que triste quadro! exclamava eu, com amargura; se temos que renunciar a tudo, para que nascer? Se temos que desprezar a própria felicidade, quem poderá ser feliz?"

— "Eu", respondeu um dia o padre, num tom de voz que me impressionou.

— "Feliz, vós! tão pouco afortunado, tão pobre, exilado, perseguido? vós, feliz! E que caminho seguistes para sê-lo?"

— "Meu filho, replicou ele, vou dizer-te com prazer".

Deu-me logo a entender que, depois de ter recebido as minhas confissões, sentiu o desejo de me fazer as suas.

— "Vou depositar em teu seio, disse, abraçando-me, todos os sentimentos do meu coração. Ver-me-ás, senão como sou, pelo menos, como me vejo. Quando ouvires toda a minha profissão de fé e conheceres bem o estado da minha alma, compreenderás por que me sinto feliz; e, se concordares comigo, verás o caminho a seguir para o seres também. Mas estas confissões não são coisa de um instante. Dizer tudo o que penso sobre o destino do homem e a verdadeira paz da vida requer algum tempo. Marquemos hora e lugar cômodo para conversar com toda a tranquilidade".

Mostrei impaciência por ouvi-lo. Combinámos logo o encontro para a manhã do dia seguinte. Era verão; levantámo-nos ao nascer do dia. Levou-me para fora da cidade, para o alto de uma colina; aos pés passava o rio Pó, serpenteando através de férteis ribeiras, vendo-se, ao longe, a imensa cadeia dos Alpes, dominando a paisagem. Os raios do sol que nascia derramavam-se pelas planícies, projectando nos campos, em longas sombras, as árvores, os outeiros, as casas, e enriquecendo com mil acidentes de luz o mais belo quadro que olhos humanos podiam ter surpreendido. Dir-se-ia que a natureza exibia à nossa frente toda a sua magnificência, como que suscitando um tema para as nossas conversas. Foi ali que, depois de contemplar por algum tempo, em silêncio, esses objectos, o homem de paz falou assim:

— Meu filho, não esperes de mim discursos sábios ou conceitos profundos. Não sou um grande filósofo, nem faço muita questão de o ser. Às vezes, porém, tenho bom senso, e prezo sempre a verdade. Não me proponho argumentar contigo, nem mesmo tentarei converter-te; quero só dizer-te o que penso na simplicidade do meu coração. Consulta o teu no decurso desta palestra; nada mais te peço. Se me enganar, será de boa fé; basta isso para que não me imputem o erro a crime, e se tu, da mesma forma, te enganasses, também não havia mal nenhum nisso. Se meu pensar for bom, a razão ser-nos-á comum,e igual interesse teremos em prestar-lhe ouvidos. Por que não hás-de pensar como eu?

Nasci pobre e aldeão, destinado pelo meu estado a trabalhar na terra; mas acharam que devia aprender a ganhar o pão no ofício de sacerdote, e facilitaram-me os meios de estudar. Decerto que nem meus pais nem eu buscávamos com isso o que era bom, verdadeiro e útil, mas o que era preciso saber-se para receber a Ordenação. Aprendi o que me mandaram aprender, disse o que me mandaram dizer, comprometi-me ao que me ordenaram, e fizeram-me padre. Mas adverti logo que, quando me comprometi a deixar de ser homem, prometera mais do que me era dado prometer.

Dizem que a consciência é obra dos preconceitos; sei, no entanto, por experiência própria, que ela se obstina em seguir a ordem da natureza contra todas as leis humanas. Em vão nos proíbem isto ou aquilo, porque nunca o remorso reprova com energia o que a natureza bem ordenada consente, e, com mais razão, o que prescreve. Oh! meu rapaz, não contraries nunca os teus sentidos: deixa-te viver nesse feliz estado em que a vida é inocente. Lembra-te que mais a ofendemos evitando-a que combatendo-a; aprendamos, primeiro, a resistir, para saber, depois, quando devemos ceder sem culpa. 

Desde a juventude, sempre respeitei o casamento como a primeira e a mais sagrada instituição da natureza. Privado do direito de contrair matrimónio, resolvi não o profanar; porque, apesar de minhas aulas e estudos, sempre levei uma vida igual e simples, e conservei no espírito todo o resplendor das primeiras luzes; não as obscureceram as máximas do mundo, e a pobreza arredava-me das tentações que os sofismas do vício nos oferecem. Essa resolução foi precisamente o que me perdeu; o respeito pelo tálamo alheio, deixou minhas culpas a descoberto. Tive que expiar o escândalo; detido, suspenso, expulso, fui mais a vítima dos meus escrúpulos que da minha incontinência; compreendi, então, pelas recriminações que acompanharam minha desgraça, que basta às vezes agravar a falta para fugir ao castigo.

Bastam algumas experiências como esta para afectar profundamente um espírito reflexivo. Tristes observações subvertiam o conceito que eu formava do justo, do honesto e dos deveres do homem, fazendo-me perder dia a dia as opiniões em que tinha sido criado; as que me restavam eram insuficientes, em conjunto, para formar um corpo capaz de se sustentar por si só, e sentia que a evidência dos princípios se ia obscurecendo no meu espírito. Não sabendo, finalmente, o que pensar, cheguei ao ponto em que tu te encontras hoje, com a diferença de que a minha incredulidade, fruto tardio de uma idade mais madura, se tinha gerado mais lentamente que a tua, e era, portanto, mais difícil de destruir.

Estava nessas disposições de incerteza e de dúvida que Descartes requer para a investigação da verdade; estado de pouca duração, inquietante e penoso, em que nos deixa o interesse do vício ou a indolência da alma. Não tinha ainda o coração bastante corrompido para me conciliar com ele; o que melhor conserva o hábito de reflexionar é sentirmo-nos mais satisfeitos conosco do que com o destino.

Meditava, pois, na triste sorte dos mortais, lançados no mar das opiniões humanas, sem leme nem bússola, entregues às paixões tempestuosas, levando como único guia um piloto inexperiente que desconhece a rota e não sabe donde vem nem para onde vai. Amo a verdade, pensava, procuro-a e não a encontro; que alguém ma indique, e eu a abraçarei. Por que se furtará às ânsias do meu coração que nasceu para adorá-la?

Experimentei muitas vezes outros males piores, mas nunca tive uma vida tão desagradável como nesses tempos de agitações e ansiedades, em que, vagando, sem cessar, de dúvida em dúvida, não tirava de minhas longas meditações senão incertezas, obscuridades e contradições sobre a origem do meu ser e as normas de meus deveres.

Como se pode ser cético [isto é, no fim das contas, relativista] por sistema e de boa-fé? Não compreendo. Esses filósofos, se é que existem, são os mais infelizes dos homens. A dúvida sobre o que devemos conhecer é um estado violentíssimo para o espírito humano, a que este não resiste por muito tempo, preferindo tomar uma decisão, qualquer que ela seja, a resignar-se a não crer em nada. O que aumentava a minha confusão era ter nascido no seio de uma Igreja que tudo decide sem deixar margem à dúvida; rejeitar um ponto equivalia a rejeitar todos os outros, e a impossibilidade de admitir tantas decisões absurdas não me consentia aceitar as que não o eram. Mandavam-me crer em tudo e não me permitiam crer em nada [visto que junto do que era crível devia crer também no que era absurdo]; não sabia onde me deter.

Consultei os filósofos [philosophes], folheei seus livros, analisei suas opiniões; todos me pareciam arrogantes, afirmativos, dogmáticos, até em seu pretenso cepticismo, nada ignorando, nada provando, zombando uns dos outros; e este ponto, a todos comum, parecia-me o único em que todos tinham razão. Triunfam no ataque, mas não se sabem defender com vigor. Se reflectires nas razões disto, concluirás que só as têm para destruir, e se contares as opiniões que os seguem, verás que não contam senão com a sua. Só estão de acordo num ponto: discutir. Escutá-los, pois, não era o melhor meio de sair da minha incerteza.

Compreendi que a incapacidade do espírito humano é a primeira causa dessa prodigiosa diversidade de sentimentos, e a segunda, o orgulho. Como se nos escapam as dimensões dessa imensa máquina [que é o universo], não lhe podemos calcular as relações; ignoramos suas principais leis e a causa final. Ignoramo-nos a nós mesmos; desconhecemos a nossa natureza e o nosso princípio activo. Mal sabemos se o homem é um ser simples ou composto; estamos rodeados de mistérios impenetráveis que nos dominam a região sensível, julgamo-nos com inteligência para os devassar, e não temos senão imaginação.

Através desse mundo imaginário, traçamos a rota que julgamos certa, mas ninguém pode saber se é, realmente, a que leva ao fim. Entretanto, tudo queremos penetrar e conhecer. Só não sabemos ignorar o que não podemos saber. Preferimos lançar-nos ao acaso, e crer no que não existe, a confessar que não sabemos ver o que existePequenina parte de um grande todo, cujos limites nos fogem, e seu autor expõe às nossas loucas disputas, somos suficientemente vãos para pretender decidir o que esse todo é em relação a si e nós em relação a ele.

E mesmo que os filósofos pudessem encontrar a verdade, qual deles se interessaria por ela? Nenhum ignora que seu sistema não é melhor fundado que o dos outros; mas sustenta-o porque é seu. Todos sabem onde está o verdadeiro e o falso, mas preferem a mentira por eles encontrada à verdade por outros descoberta. Onde está o filósofo que, para glória sua, não engane conscientemente o género humano? Onde aquele que, no fundo de seu coração, se proponha outro objectivo que o de se distinguir? Chegar a ultrapassar o nível do vulgar, eclipsar o brilho de seus concorrentes, eis todas as suas aspirações! O essencial é não pensar como os outros. Entre os crentes é um ateu, entre os ateus um crente.

A primeira vantagem que tirei dessas reflexões foi aprender a reduzir minhas pesquisas ao que imediatamente me interessava, a viver  em profunda ignorância de tudo o mais, a me inquietar apenas com a dúvida das coisas que devia saber. Compreendi ainda que os filósofos não me desembaraçavam das dúvidas inúteis; multiplicavam, ao contrário, as que me atormentavam e não esclareciam nenhuma.

Segui, pois, outros caminhos, pensando: Consultemos a luz interior que não me extraviará tanto, e, se errar, o erro, pelo menos, será só meu; se me deixar levar pelas minhas próprias ilusões, não me perverterei tanto como com as suas falsidades.

Repassando então no meu espírito as opiniões que me haviam incutido desde que nasci, verifiquei que, conquanto nenhuma oferecesse evidência capaz de me levar a uma convicção imediata, tinham entre si vários graus de verossimilitude, e que o assentimento interior as admitia ou repelia em distinta medida. De acordo com esta primeira observação, comparei todas essas idéias no silêncio das minhas preocupações, e vi que a principal e a mais comum era também a mais simples e razoável, faltando-lhe apenas ser a última para conquistar todos os sufrágios.

Imaginai todos os filósofos antigos e modernos, esgotando seus extravagantes sistemas de força, acasos, fatalidades, necessidade e átomos, de mundo animado, de matéria viva, de materialismo de toda a espécie, e aparecer, depois, o ilustre clarão a iluminar o mundo e a anunciar finalmente o Ser dos seres, o que concede todas as coisas! Com que universal admiração, com que unanimidade de aplausos não teria sido recebido esse novo sistema tão grande, tão reconfortante, tão sublime, tão próprio para elevar a alma e ser a base da virtude, e, ao mesmo tempo, tão impressionante, tão luminoso, tão simples, e, ao que parece, apresentando menos coisas incompreensíveis ao espírito humano que de absurdos se encontram em qualquer outro sistema!

Pensava, pois, que as objecções insolúveis são comuns a todos eles porque o espírito humano é muito limitado para as solucionar; nada provam, pois, contra nenhum em particular. Como não preferir o único que tudo explica e não apresenta dificuldades superiores aos outros?

Levando, pois, comigo, como única filosofia, o amor à verdade, e, como único método, uma regra fácil e simples que me dispensa da vã subtileza dos argumentos, analiso de novo os conhecimentos que me interessam, disposto a admitir como evidentes os que não pugnam com a sinceridade do meu coração, e, como verdadeiros, os que me pareça terem forçosa conexão com estes, deixando os mais na incerteza, não os repelindo nem admitindo, e sem me preocupar com o seu esclarecimento, visto que a nada de útil podem conduzir na prática.

Mas quem sou eu? Que direito tenho a julgar as coisas? Que determina os meus juízos? Se as impressões que recebo os arrastam e forçam, é inútil cansar-me em semelhantes investigações, que não se farão, ou se farão por si sós, sem necessidade de eu intervir. Tenho, pois, antes de mais nada, que me voltar para mim, a fim de conhecer o instrumento de que me servirei e saber até que ponto me posso fiar do seu uso.

Existo e tenho sentidos que me guiam. Eis a primeira verdade que encontro e sou obrigado a aceitar. Tenho o sentimento próprio da minha existência, ou sinto-a por meio das minhas sensações? Eis a primeira dúvida que, por agora, não posso resolver. Porque, se estou constantemente sujeito às minhas sensações, de modo directo ou por meio da memória, como poderei saber se o sentimento do eu está fora dessas sensações e é independente delas? As sensações passam-se em mim, pois que, por elas, sinto que existo; mas a causa que as determina é-me estranha, posto que me impressionem independentemente da minha vontade, e não depende de mim produzi-las ou eliminá-las.

Concebo, pois, claramente, que a minha sensação (que está em mim) e a sua causa ou objecto (que está fora demim) não são uma e a mesma coisa. Assim, não existo somente eu, mas também outros seres: os objectos das minhas sensações. E, embora esses objectos não passassem de meras idéias, o certo é que tais idéias nunca seriam eu.

Chamo matéria a tudo quanto sinto fora de mim e actua sobre os meus sentidos; e corpos, a todas as porções de matéria que concebo reunidas em seres individuais. Portanto, carecem de sentido todas as discussões entre materialistas idealistas, e as distinções que eles fazem entre aparência e realidade dos corpos não passam de quimeras.

Já estou, pois, tão convencido da existência do universo como da minha. Medito, depois, sobre os objectos das minhas sensações, e, achando em mim a faculdade de as comparar, sinto-me na posse de uma força activa que até aqui ignorava. Se perceber é sentir, e comparar é julgar, julgar e sentir não são a mesma coisa. Os objectos oferecem-se-me, pelas sensações, separados, isolados, tal como estão na natureza; por meio da comparação reúno-os e transporto, por assim dizer, colocando uns em cima dos outros, para me pronunciar pela sua diferença ou semelhança, e suas relações em geral.

A meu ver, a faculdade distintiva do ser activo e inteligente consiste em dar um sentido a esta palavra "é". Procuro em vão no ser puramente sensitivo aquela força inteligente que sobrepõe os objectos e depois se pronuncia; não poderei descobri-la em sua natureza. Este ser passivo sente cada objecto separadamente, ou o mesmo objecto total formado por ambos; mas, como não tem força para colocar um em cima de outro, nunca os poderá comparar ou julgar. Assim como ver dois objectos ao mesmo tempo não é ver suas relações nem julgar suas diferenças, distinguir vários objectos, uns separados dos outros, não é contá-los.

Posso ter a ideia de uma vara grande e de uma vara pequena num mesmo instante, sem as comparar e verificar se uma é menor que a outra, como posso ver toda a minha mão, ao mesmo tempo sem contar os dedos. Estas idéias comparativas do maior e do menor, bem como as idéias numéricas de um e dois, etc., não são, de certo, sensações, embora o meu espírito não as produza senão por meio das minhas sensações.

Dizem que o ser sensitivo distingue as sensações pelas diferenças que as separam. Isto requer uma explicação: quando as sensações são diferentes, o ser sensitivo distingue-as pelas suas diferenças; quando semelhantes, por sentir umas separadas das outras. Como, senão, uma sensação simultânea podia distinguir dois objectos iguais? Confundiria, necessariamente, esses dois objectos, tomando-os por um só, sobretudo num sistema em que se pretende que as sensações representativas da extensão não são extensas.

No momento em que se percebem as duas sensações a comparar, já se obteve a sua impressão, e sente-se cada objecto por si só, e sentem-se os dois, mas não as suas relações. Se a determinação dessas relações fosse uma simples sensação que me fosse dada apenas pelo objecto, minhas conclusões não me enganariam, pois que nunca é falso sentir o que sinto. Por que me engano, pois, na relação entre essas duas varas, sobretudo se não estão paralelas? Por que digo, por exemplo, que a mais pequena é um terço da maior, quando não passa de um quarto? Por que não concorda a imagem, que é a sensação, com o seu modelo, que é o objecto? Porque, quando julgo, sou activo, e é falível a operação que estabelece a comparação, e o meu entendimento, que julga as relações, confunde os erros, que lhe são próprios, com a verdade das sensações, que mostram apenas os objectos.

Atenta noutra reflexão que não deixará, sem dúvida, de te impressionar, se a meditares bem, e é que, se fôssemos simplesmente passivos no uso dos nossos sentidos, não haveria a menor comunicação entre eles, e não saberíamos se o corpo que tocamos e o objecto que vemos eram ou não o mesmo. Ou nada sentiríamos fora de nós, ou existiriam para nós cinco substâncias sensíveis, cuja identidade não haveria meio de perceber.

Que se dê este ou aquele nome à força do meu espírito que aproxima e compara as minhas sensações; que se lhe chame atenção, meditação, reflexão ou como se quiser, o certo é que ela reside em mim, e não nas coisas, que só eu a produzo, embora só a produza pela impressão que os objectos exercem sobre mim. Sentir ou deixar de sentir não depende de mim, mas depende, sim, examinar, mais ou menos, o que sinto. Não sou, pois, um mero ser sensitivo e passivo, mas activo e inteligente, e, diga a filosofia o que disser, ouso aspirar à honra de pensar.

Sei apenas que a verdade está nas coisas, e não no meu espírito, que as julga, e que, quanto menor puser de mim nos juízos que faça, mais certo estou de me aproximar da verdade. Assim, a minha norma de me entregar mais ao sentimento do que à razão está confirmada pela própria razão.

Já seguro, por assim dizer, de mim mesmo, olho para o exterior, e vejo-me lançado e perdido, não sem certa comoção, no vasto universo, e como que submerso na imensidade dos seres, sem nada saber do que eles são entre si e em relação a mim. Estudo-os e observo-os e o primeiro objecto de comparação que se me apresenta, sou eu mesmo.

Tudo quanto percebo pelos sentidos é matéria, e deduzo todas as propriedades essenciais da matéria das qualidades sensíveis pelas quais a percebo e dela são inseparáveis. Vejo-a umas vezes em movimento e outras em repouso; donde concluo que nem o repouso, nem o movimento são da sua essência, mas que, sendo o movimento uma acção, é o efeito de uma causa, da qual o repouso está ausente. Assim, quando nada actue sobre a matéria, esta não se move, e, sendo indiferente ao repouso e ao movimento, seu estado natural é permanecer em repouso.

Percebo nos corpos duas espécies de movimentos, a saber: movimento comunicado, e movimento espontâneo ou voluntário. No primeiro, a causa motriz é estranha ao corpo que se move, e no segundo está nele. Não concluirei daí que o movimento de um relógio, por exemplo, seja espontâneo, porque, se nada de estranho à corda actuasse sobre ele, não funcionaria por si só, nem aquela se gastaria. Pela mesma razão, não posso atribuir espontaneidade aos fluidos, nem mesmo ao fogo que produz a sua fluidez [4]. Se me perguntarem se os movimentos dos animais são espontâneos, responderei que não sei, mas que a analogia responde pela afirmativa.

Como saber, então, se há movimentos espontâneos? Sei, porque o sinto. Quero mover um braço e movo-o, sem que esse movimento tenha outra causa imediata, que a da minha vontade. Seria inútil que alguém, pelo raciocínio, procurasse destruir em mim esse sentimento, que é mais forte que toda a evidência; seria o mesmo que provar que não existo. Se não houvesse espontaneidade nas acções dos homens, nem em nada do que se faz sobre a terra, mais difícil seria ainda imaginar a causa de todo o movimento.

Quanto a mim, estou tão persuadido de que o estado natural da matéria é permanecer em repouso, e de que a matéria carece, por si só, de força para actuar, que, quando vejo um corpo em movimento, logo penso, ou que é um corpo animado ou que esse movimento lhe foi comunicado. Meu espírito recusa-se a admitir a ideia da matéria não organizada, movendo-se por si só ou produzindo alguma acção. No entanto, o universo visível é matéria dispersa e morta [5], que não tem em seu todo nada da união, da organização, do sentimento comum das partes de um corpo animado, pois que é certo que nós, que somos partes, de forma alguma nos sentimos no todo.

Esse mesmo universo está em movimento, e, em seus movimentos ordenados, uniformes, submetidos a leis constantes, não há nada da liberdade que aparece nos movimentos espontâneos do homem e dos animais. O mundo não é, pois, um grande animal que se move por si só; há em seus movimentos uma causa que lhe é estranha, e de que eu não me apercebo, mas a persuasão íntima torna-me essa causa tão sensível que não posso ver o sol mover-se, sem pensar na força que o move, nem girar a terra, sem crer que sinto uma força que a faz girar.

Se tenho que admitir leis gerais, de cujas relações essenciais com a matéria não me apercebo, que adiantei eu? Se essas leis não são seres reais, substâncias, têm outro fundamento que me é desconhecido. Pela experiência e pela observação, conhecemos as leis do movimento, as quais, determinando os efeitos, sem demonstrar as causas, não bastam para explicar o sistema do mundo e a marcha do universo. Descartes formava por meio de cubos o céu e terra, mas não pôde dar o primeiro impulso a esses cubos nem imprimir-lhes força centrífuga, sem se valer do movimento de rotação. Newton descobriu a lei da atração [gravidade]; mas a atração, de per si, reduziria logo o universo a uma massa imóvel; foi necessário juntar a essa lei uma força projéctil para que os corpos celestes descrevessem curvas. Descartes nos diga que lei física fez girar seus turbilhões; que Newton nos mostre a mão que lançou os planetas sobre a tangente de suas órbitasAs primeiras causas do movimento não estão na matéria; esta recebe o movimento, transmite-o, mas não o produz.

Quanto mais observo a acção e a reacção das forças da natureza, actuando umas sobre as outras, mais me convenço de que, de efeito a efeito, temos que chegar a uma vontade para determinar uma primeira causa; porque imaginar uma série de causas até ao infinito, seria não imaginar nenhuma. Em conclusão, movimento não produzido por outro, só pode provir de um acto espontâneo, voluntário; os corpos inanimados só agem pelo movimento, e não há verdadeiras acções sem vontade. Eis o meu primeiro princípio.

Creio, pois, que há uma vontade que move o universo e anima a natureza. E aqui está o meu primeiro dogma, ou o meu primeiro artigo de fé.

Como poderá uma vontade produzir uma acção física e corpórea? Não sei, mas vejo em mim que a produz. Quero actuar e actuo; quero mover meu corpo, e meu corpo move-se; mas que um corpo inanimado e em repouso se mova por si só ou produza o movimento é incompreensível e sem exemplo. Conheço a vontade pelos seus actos e não pela sua natureza. Conheço essa vontade como causa motriz; mas, conceber a matéria como produtora do movimento é, sem dúvida alguma, conceber um efeito sem causa, e não conceber, portanto, absolutamente nada.

É tão impossível conceber minha vontade [que é imaterial] movendo meu corpo, como minhas sensações [que são materiais] afectando minha alma. Não sei mesmo como se possa explicar mais facilmente um desses mistérios que o outro. No que a mim respeita, quer activo ou passivo, me parece absolutamente incompreensível o meio de união das duas substâncias. É realmente estranho alegar essa incompreensão para fundir as duas substâncias, como se operações de natureza tão diferente se explicassem melhor em um só sujeito do que em dois.

O dogma que acabo de estabelecer é, de certo, obscuro; mas oferece, finalmente, um sentido, e não há nada nele que repugne à razão e à observação; dir-se-á o mesmo do materialismoNão está claro que, se o movimento fosse essência da matéria, seria inseparável desta, na que entrava sempre no mesmo grau, sempre o mesmo em cada porção de matéria, que seria incomutável, não aumentando nem diminuindo, não se podendo mesmo conceber a matéria em repouso? Quando me dizem que o movimento não lhe é essencial, mas necessário, querem confundir-me com palavras, que seriam mais facilmente refutáveis se tivessem um pouco mais de sentido. Porque, ou o movimento da matéria provém dela e pertence à sua essência, ou de uma causa estranha, e, neste caso, só lhe é necessário enquanto a causa motriz actua sobre ela; e voltamos à primeira dificuldade.

As idéias gerais e abstractas são nos homens as fontes dos seus maiores erros; nunca a linguagem arrevesada da metafísica descobriu uma só verdade, enchendo a filosofia de absurdos que envergonham, quando despidos de suas palavras pomposas. Dize-me, meu amigo, se, quando te falam de uma força cega espalhada em toda a natureza, te levam ao espírito alguma verdadeira idéia? Crêem dizer alguma coisa com essas palavras vagas de força universal, de movimento necessário, e não nos dizem absolutamente nada.

A ideia do movimento é apenas a ideia da deslocação de uma parte para a outra; não há movimento sem direcção, porque um ser individual não se pode mover em todos os sentidos ao mesmo tempo. Em que sentido, pois, a matéria se move necessariamente? Toda a matéria, em conjunto, tem um movimento uniforme, ou cada átomo, de per si, tem o seu próprio movimento? Segundo a primeira ideia, todo o universo forma uma massa sólida e indivisível; pela segunda, um fluido disperso e incoerente, dada a impossibilidade da junção de dois átomos. Em que direcção se faz esse movimento comum a toda a matéria? Em linha recta ou circular, para cima ou para baixo, para a direita ou para a esquerda? Se cada molécula de matéria tem a sua direcção própria, onde estão as causas de todas essas direcções e diferenças? Se cada átomo ou molécula de matéria girasse sobre seu próprio centro, nada sairia do seu lugar, e não haveria movimento comunicado; seria mesmo forçoso que esse movimento circular fosse determinado nalgum sentido. Dar à matéria movimento por abstracção, é dizer palavras que nada significam; e dar-lhe um movimento determinado, é supor uma causa que determine esse movimento. Longe de imaginar uma ordem no concurso fortuito dos elementos, nem sequer me é permitido imaginar seu choque, e o caos do universo seria ainda mais inconcebível do que a sua harmonia.

Sei que o mecanismo do mundo pode não ser ininteligível ao espírito humano, mas quando um homem se mete a explicá-lo, deve dizer coisas que os outros homens entendam. Se a matéria em movimento me demonstra uma vontade, a matéria, que se move sob certas leis, também me demonstra uma inteligência. Eis o meu segundo artigo de fé. Agir, comparar, seleccionar são operações de um ser activo e pensante; logo esse ser existe. Onde vês tu a sua existência? Não somente nos céus que giram, no astro que nos alumia, em mim mesmo, mas também na ovelha que pasta, na ave que voa, na pedra que cai, na folha que o vento leva. Julgo a ordem do mundo, embora ignore o seu fim, porque, para julgar essa ordem, basta-me comparar as partes entre si, estudar seu concurso, suas relações, e advertir o seu concerto. Não sei como o universo existe, mas vejo como está ordenado, e percebo a íntima correspondência pela qual os seres que o constituem se prestam um concurso mútuo.

Sou como um homem que visse pela primeira vez um relógio aberto, admirasse o seu trabalho, mas não soubesse para que servia a máquina, nem visse o mostrador. Não sei, diria ele, para que serve tudo isto, mas verifico, que cada uma das peças está relacionada com as outras; admiro o artífice na minúcia do seu trabalho, e estou certo de que todas essas rodas, assim combinadas, marcham para um fim comum que me é impossível determinar.

Comparemos os fins particulares, os meios, as relações ordenadas de toda a espécie, e escutemos depois o sentimento íntimo; que espírito são se pode recusar a ouvir essa voz? A que olhos, não preconcebidos, não revela a ordem sensível do universo uma suprema inteligência? E que quantidade de sofismas não teremos que acumular para ignorar a harmonia dos seres e o admirável concurso de cada peça para a conservaçãodas outras?

Fale-se quanto se quiser de combinações e acasos; de que vale que me reduzam ao silêncio, se não me convencem? E quem me poderá privar do sentimento involuntário, que sempre se afirma, independentemente mesmo da minha vontade? Se os corpos organizados se combinam de mil maneiras, fortuitamente, antes de tomarem formas permanentes, se os estômagos se formaram, primeiro, sem bocas, os pés sem cabeças, as mãos sem braços, órgãos imperfeitos de toda a espécie, que pereceram por não se poderem conservar, por que já não assistimos hoje a essas experiências informes? Por que teria decretado a natureza leis, a que, de princípio, não se submeteu? 

A ninguém deve surpreender, concordo, que uma coisa aconteça simplesmente quando possa acontecer, e que a dificuldade do acontecimento seja compensada por uma série de tentativas. No entanto, se me dissessem que os caracteres lançados ao acaso produziram a Eneida já ordenada, não perderia um segundo em verificar tal mentira. Esqueceis, objectarão, a quantidade de actos que se produziram. Mas, quantos devo supor para tornar a combinação verossímil? Eu, que não vejo senão um, aposto o infinito contra um que esse produto não é o efeito do acaso.

Acrescentemos a isso que as combinações e os acasos só dão produtos da mesma natureza que os elementos combinados; que a organização e a vida não provém de um surto de átomos, e que um químico, fazendo combinações de misturas, não as fará sentir e pensar no seu cadinho [6].

Li Nieuwentit com surpresa, e quase com escândalo. Como se lembrou esse homem de fazer um livro das maravilhas da natureza, que nos mostra, aliás, a sabedoria do seu autor? Não esgotaria o assunto, ainda que o livro fosse do tamanho do mundo. Quando entra em detalhes, escapa-lhe a maior maravilha, que é a harmonia e o concerto do todo. É no abismo do espírito humano que se geram os corpos vivos e organizados; a barreira intransponível que a natureza ergueu entre as espécies para que não se confundissem, demonstra as suas intenções com a maior evidência. Não se limitou a estabelecer a ordem; tomou medidas certas para que nada pudesse perturbá-la.

Não há ser no universo que não possa ser considerado, sob qualquer aspecto, como centro comum a todos os outros, e em torno do qual todos se ordenam de forma, a serem reciprocamente fins e meios, uns em relação aos outros. O espírito se confunde e perde nessa infinidade de relações, em cuja multidão nem uma só se perde e confundeQuantas hipóteses absurdas teríamos que fazer para deduzir toda essa harmonia do mecanismo cego da matéria movida fortuitamente! Os que negam a unidade de intenção nas relações de todas as partes desse grande todo, procuram, em vão, ocultar seus galimatias nas abstracções, nas coordenações, nos princípios gerais, nos termos emblemáticos e apesar de todos os seus esforços, não posso conceber um sistema de seres tão constantemente ordenados, sem uma inteligência que os ordene.

Não depende de mim crer que a matéria passiva e moral produzisse seres vivos e sensitivos, que seres inteligentes tenham sido o produto de uma cega fatalidade, que seres que pensam saíssem do que não pensaCreio, pois, que o mundo está governado por uma vontade poderosa e sábia; vejo-a, ou melhor, sinto-a, e é isso que me importa saber.

Mas esse mundo é eterno ou criado? Há um só princípio que rege todas as coisas? Não sei, nem me importa. À medida que esses conhecimentos me interessem, procurarei adquiri-los; até lá, renuncio a questões ociosas, que me podem espicaçar o amor próprio, mas são inúteis para a minha conduta, e superiores à minha razão.

Tem sempre presente que não pretendo impor o que sinto, mas expor. Seja a matéria eterna ou criada, exista ou não um princípio passivo, o certo é que o todo é um só, e denuncia uma inteligência única; porque nada vejo que não esteja, ordenado no mesmo sistema, e que não concorra para o mesmo fim, que é a conservação do todo na ordem estabelecida. A esse ser que quer e pode, a esse ser activo por si só, a esse ser, enfim,seja ele qual for, que move o universo e ordena todas as coisas, chamo eu Deus. Alio a esse nome as idéias de inteligência, de poder, de vontade conjugadas e a da bondade, que é a sua consequência fatal; mas nem por isso conheço melhor o ser a que assim chamei. Oculta-se-me, por igual, aos sentidos e ao entendimento, e, quanto mais nele penso, mais me confundo. Sei muito bem que existe e que tem existência própria, que a minha está subordinada à sua, e que todas as coisas que conheço se encontram absolutamente no mesmo caso.

Reconheço Deus em tudo por suas obras, sinto-o em mim, vejo-o à minha volta, mas quando quero contemplá-lo directamente, saber onde está, o que é, qual a sua substância, escapa-se-me, e meu espírito, confuso, nada mais compreende. Persuadido da minha incapacidade, jamais discorreria sobre a natureza de Deus, se não fosse impelido pelo sentimento de suas relações comigo. Tão aventurados são esses raciocínios que um homem criterioso não se aventuraria a eles sem estremecimento e cônscio de não poder aprofundá-los; porque o que mais ofende a Divindade não é pensar nela, mas pensar mal.

Descobertos os atributos pelos quais compreendo a minha existência, volto-me para mim e indago que lugar ocupo na ordem das coisas que a Divindade governa e eu posso analisar. Pela espécie a que pertenço, encontro-me, sem dúvida, no primeiro, porque, graças à minha vontade e aos instrumentos de que disponho para executar essa vontade, tenho mais forças para actuar sobre todos os corpos que me cercam, de me expor ou furtar à sua acção, como me aprouver, que qualquer outro para actuar sobre mim, a despeito meu, e unicamente pelo impulso físico; e, mercê da minha inteligência, sou o único que tudo pode observar.

Além do homem, qual é o ser na terra que sabe observar os astros, medir, calcular, prever seu movimento, seus efeitos, e enlaçar, digamos, o sentimento da existência comum com o da sua existência individual? Não me parece, pois, tão ridículo pensar que Deus fez tudo por mim, visto eu ser o único que tudo posso relacionar com ele. É, portanto, verdade que o homem é o rei da terra em que habita; porque não só domina todos os animais e dispõe dos elementos por seu engenho, mas também é o único que na terra sabe dispor deles, e se sabe apropriar, pela contemplação, dos próprios astros, de que não se pode aproximar. Mostrem-me outro animal no mundo que saiba usar do fogo e admirar o sol.

Posso, então, observar, conhecer os seres e as suas relações? Sentir a ordem, a beleza, a virtude? Contemplar o universo e elevar-me à mão que o governa? Amar o bem e praticá-lo? E eu que me julgava semelhante aos animais! Alma abjecta, é a triste filosofia que a eles te assemelha; ou melhor, em vão pretendes envilecer-te, quando teu génio depõe contra teus princípios, teu coração generoso desmente a tua doutrina, cuja excelência se demonstra, mesmo contra tua vontade, pelo próprio uso dastuas faculdades.

Para mim, que não sustento sistemas, homem simples e verdadeiro, que não me deixo arrastar pelo ardor de nenhum partido nem aspiro à honra de ser chefe de nenhuma seita, e me considero satisfeito com o lugar que Deus me deu, nada vejo, além dele, superior à minha espécie; e se me fosse dado escolher um posto na ordem dos seres, que outro mais alto que o de ser homem?

Esta reflexão comove-me, mas não me envaidece, porque não fui eu o árbitro de tal estado, nem ele se deve ao mérito de um ser que não existia ainda. Como gozar desse privilégio, sem me felicitar do honroso posto que ocupo e abençoar a mão que nele me colocou? Paro a contemplar-me, e irrompe-se-me do coração um sentimento de gratidão e reconhecimento pelo autor da espécie a que pertenço, e a primeira homenagem desse reconhecimento vai para a Divindade benfeitora. Adoro o poder supremo e sinto-meemocionado com seus benefícios. Não preciso que me ensinem esse culto; a própria natureza se encarrega disso. Não é uma consequência natural do amor de nós mesmos honrar o que nos protege e amar o que bem nos quer?

Mas, quando pretendo saber o meu lugar individual dentro da minha espécie, e considero suas diversas categorias e os homens que as ocupam, onde me vejo eu? Que espectáculo! Onde está a ordem que observei? A natureza oferece-me um quadro de harmonia e proporções, enquanto o género humano só me dá confusão e desordem! Reina a concórdia entre os elementos, e nos homens o caos! Os animais são felizes; só seu rei é desgraçado! Ó sabedoria, onde estão tuas leis? Ó Providencia, é assim que reges o mundo? Ser benemérito, onde está o teu poder? Só vejo o mal sobre a terra.

Julgas, meu bom amigo, que destas pobres reflexões e contradições aparentes se formaram no meu espírito aquelas idéias sublimes da alma, a que não consegui chegar  pelo resultado das minhas pesquisas? Meditei na natureza dos homens, e pareceu-me descobrir dois princípios distintos: um, que o levava ao estudo das verdades eternas, ao amor pela justiça e pela beleza moral, àquelas regiões do mundo intelectual, cuja contemplação faz as delícias do sábio; o outro, arrastava-o grosseiramente para si próprio, escravizando-o ao império dos sentidos, às paixões que o dominam, neutralizando tudo quanto o sentimento do primeiro lhe inspirava.

Sentindo-me empurrado e combatido por esses dois sentimentos contrários, pensava: "Não, o homem não é um só; quero e não quero, sinto-me ao mesmo tempo escravo e livre; vejo o bem, amo-o e pratico o mal; sou activo, quando ouço a razão, passivo, quando me submeto às paixões; e meu maior tormento, ao sucumbir, é verificar que podia ter resistido".

Escuta confiado, meu rapaz, e não duvides da minha boa-fé. Se a consciência é obra dos preconceitos, falta-me, de certo, a razão e não há moral que se demonstre; mas se a tendência natural do homem é preferir-se a si sobre todas as coisas, e, se, apesar disso, o primeiro sentimento da justiça é inato no coração humano, que resolvam essas contradições os que fazem do homem um ser simples, e neste reconhecerei, depois, uma só substância.

Observa que, pela palavra substância, entendo, em geral, o ser dotado de uma qualidade primitiva, abstraindo de todas as suas modificações particulares ou secundárias. Se, pois, todas as qualidades primitivas que conhecemos podem encontrar-se reunidas no mesmo ser, não devemos admitir senão uma substância; mas, se há qualidades, que se excluem mutuamente, haverá tantas substâncias distintas quantas as exclusões feitas. Por muito que diga Locke, reflexionarás tu então, basta-me saber que a matéria é extensa e divisível para me convencer de que não lhe é dado pensar; e quando um filósofo me disser que as árvores sentem e as rochas pensam [7]já não me poderá confundir com seus argumentos subtis, e só verei nele um sofista de má fé, que prefere conceder um sentimento às pedras a atribuir uma alma ao homem.

Suponhamos um surdo que negasse a existência dos sons pelo facto de nunca se lhe terem registrado nos ouvidos. Por-lhe-íamos na frente um instrumento de corda, acionado, em uníssono, por outro oculto. O surdo via a corda vibrar, e nós dir-lhe-íamos: "É o som que a faz vibrar". "Não, senhor, responderia ele, a causa da vibração da corda está nela mesma; vibrar é uma qualidade comum a todos os corpos". "Mostrai-nos, pois, volveríamos nós, essa vibração nos outros corpos, ou, pelo menos, a sua causa nesta corda". "Não posso, concluiria ele, mas pelo facto de não conceber como esta corda vibra, pretendeis que vo-lo explique pela existência de uns sons, de que não tenho a menor idéia! Seria explicar um facto escuro por outro mais escuro ainda. Se não me fizerdes sentir os sons, negarei sempre a sua existência".

Quanto mais medito sobre o pensamento e natureza do espírito humano, mais me convenço de que o raciocínio dos materialistas é idêntico ao deste surdo. São surdos, com efeito, à voz interior, que lhes grita num tom difícil de se deixar ouvir. Uma máquina não pensa, e não há movimento ou figura capaz de nela produzir esta reflexão: "Há alguma coisa em ti que pugna para romper os laços que te oprimem. Sentes o espaço pequeno; nem todo o universo te basta. Teus sentimentos, teus desejos, tua inquietação, teu próprio orgulho têm um princípio diferente ao do corpo estreito em que te sentes encadeado". Nenhum ser material é activo por si só, mas eu, sim. Não importa que me digam que não, porque o sinto, e o sentimento que me fala é mais forte do que a razão que o combate [isto é, a evidência clara é preferível ao discurso obscuro].

Tenho um corpo sobre o qual os outros actuam e sobre estes actua, por seu turno. Essa acção recíproca não se pode pôr em dúvida. Mas a minha vontade é independente dos meus sentidos. Cedo ou resisto, sucumbo ou venço, e sinto perfeitamente em mim quando faço o que quero fazer, ou quando sou impelido pelas minhas paixões. Tenho sempre o poder de querer, mas não a força de executar. Quando me abandono às tentações, obro sob o impulso dos objectos externos. Quando me recrimino por tal fraqueza, sigo apenas a minha vontade. Sou escravo por meus vícios, e livre por meus remorsos. O sentimento da liberdade só se me apaga quando me depravo, quando não permito que a voz da alma se insurja contra a lei do corpo. Não conheço a vontade senão pelo sentimento da minha, e, da mesma forma, o entendimento.

Quando me perguntam qual é a causa que determina a minha vontade, pergunto, por minha vez, qual a que determina o meu discernimento? Porque é claro que estas duas coisas são apenas uma. E, se compreendermos claramente que o homem é activo em seus juízos, que seu entendimento é apenas o poder de julgar e comparar, logo veremos que seu ânimo é um poder semelhante, ou derivado daquele. Escolherá o bem como julgar a verdade, e se julgar erradamente, escolherá o mal.

Qual é, pois, a causa que lhe determina a vontade? É o discernimento. E qual a que determina o discernimento? Sua faculdade inteligente, seu poder de julgar; a causa determinante está em si. Fora disso, nada mais entendo. Não sou de certo livre de querer o meu próprio bem, nem de querer o meu mal. Mas a minha liberdade consiste precisamente em não poder querer senão o que me convém, ou julgue como tal, sem que nada de estranho em mim me leve a essa determinação.

Infere-se daí que eu sou árbitro de mim mesmo, independente de todo ser outro que não eu? O princípio de toda a acção reside na vontade de um ser livre. Não se pode ir além disso. Não é a palavra da liberdade, que nada significa, mas a da necessidade. Supor qualquer acto ou efeito, que não derive de um princípio activo, seria realmente supor efeitos sem causa e cair no círculo vicioso. Ou não há primeiro impulso, ou todo o primeiro impulso carece de causa que o preceda, o não há verdadeira vontade sem liberdade. O homem é, pois, livre em suas acções, e, como tal, está animado de um asubstância imaterial. E eis meu terceiro artigo de fé.

Dos três primeiros, facilmente deduzirás todos os outros, sem necessidade de eu tos dizer. Se o homem é activo e livre, age por si só; tudo quanto livremente faz cai fora do sistema ordenado pela Providência, e a ela não deve ser imputadoEsta repudia o mal que o homem faz, abusando da liberdade que lhe confere; mas não o evita, ou porque o mal praticado, por ser tão insignificante, apareça nulo aos seus olhos, ou por não poder agir sem lhe reprimir a liberdade, causando um mal maior, ao degradar-lhe a natureza. Fê-lo para praticar o bem, e não o mal, e por preferir aquele a este. Pô-lo em condições de optar e fazer bom uso das faculdades de que o dotou; mas limitou-lhe tanto as forças que o abuso da liberdade, que lhe concedeu, não pode perturbar a ordem geral.

O mal que o homem faz recai sobre si mesmo, não altera em nada o sistema do mundo, nem impede a conservação da espécie humanaQueixar-mo-nos de Deus por não evitar o mal que fazemos, seria queixarmo-nos da excelente natureza de que nos fez a espécie, de ter posto nossas acções ao alcance da moralidade que as enobrece, concedendo-nos o direito à virtude. A suprema alegria consiste na própria satisfação; e, para merecer essa satisfação, é que somos lançados à terra e dotados de liberdade, tentados pelas paixões e contidos pela consciência. Que mais poderia ter feito em nosso favor o próprio poder divino? Introduzir a contradição na nossa natureza, premiando o que praticasse o bem por não ter a faculdade de praticar o mal? E, para evitar que o homem fosse mau, devia limitar-lhe ao instinto e transformá-lo em besta?

Não, Deus da minha alma, jamais te recriminarei por me teres feito à tua imagem, concedendo-me, assim, o poder de ser livre, bom e feliz como tu. O abuso de nossas faculdades torna-nos infelizes e maus. Nossos desgostos, preocupações e penas vêm-nos de nós. O mal moral é, sem dúvida alguma, obra nossa, e o mal físico não existiria, se não existissem nossos vícios que o tornam sensível. Não é para a nossa conservação que a natureza nos faz sentir nossas necessidades? Que é a dor do corpo senão um sinal de que a máquina está descomposta, e um aviso para que lhe procuremos um remédio? A morte… Não envenenam os maus sua vida e a nossa? Quem quereria viver sempre? A morte é o remédio para os males que nos infligimos; a natureza não permite que soframos eternamente.

A quão poucos males não está exposto o homem que vive na simplicidade primitiva! Vive quase sem doenças nem paixões, nem prevê nem sente a morte. Quando a sente, suas desventuras lha fazem desejar, e desde esse momento ela deixa de ser um mal para ele. Se nos conformássemos com ser o que somos, não deploraríamos a nossa sorte; mas, para procurar um bem-estar  imaginário, infligimo-nos mil males reais. Quem não souber suportar um pouco o sofrimento, deve preparar-se para muito sofrer. E o que destrói a sua constituição, levando uma vida desregrada, procurando restabelecer-se com remédios, junta no mal que sente o mal que receia; antever a morte, é fazê-la horrível, precipitá-la; quanto mais lhe queremos fugir, mais a sentimos; e passamos toda a vida a morrer do medo, queixando-nos da natureza dos males que a nós fazemos, ofendendo-a.

Homem, não indagues quem é o autor do mal; o autor do mal és tu. Só existe o mal que praticas ou sofres, e todos vêm de ti. O mal geral só reside na desordem, e eu observo no sistema do mundo uma ordem que não se desmente. O mal particular está apenas no sentimento do ser que sofre, e o homem não recebe esse sentimento da natureza, mas de si mesmo. A dor não se sacia no que carece de previsão e memória, por pouco reflexionar. Suprimi nossos funestos progressos, suprimi nossos erros e vícios, suprimi a obra do homem, e a ordem não se subverterá. Onde tudo está em ordem não há injustiça. A justiça é inseparável da bondade, e a bondade o efeito inevitável de um poder ilimitado e do amor de nós, que é da essência de todo o ser que sente.

Aquele que tudo pode, funde, por assim dizer, sua existência com a dos seres. Produzir e conservar são o acto perpétuo do poder, que não actua sobre o que não existe. Deus não é o Deus dos mortos; não podia destruir nem fazer o mal sem se prejudicar. Aquele que tudo pode só pode querer o bem [8]. Portanto, o Ser soberanamente bom, porque é soberanamente poderoso, deve ser também soberanamente justo, sem o qual se contradiria, porque o amor da ordem que o produz chama-se bondade, e justiça o amor da ordem que o conserva.

Dizem-nos que Deus nada deve aos que criou. Creio, ao contrário, que lhes deve tudo quanto lhes prometeu ao dar-lhes o ser. Ora, prometer-lhes um bem, é infundir-lhes a ideia dele, e fazer-lhes sentir a sua necessidade. Quanto mais me penetro e me interrogo, melhor leio estas palavras escritas na minha alma: sê justo e serás feliz. Mas mal verificamos isso quando consideramos o actual estado de coisas; prospera o mau, e o justo é oprimido.

Que indignação se levanta em nós quando se frustra essa esperança! A consciência subleva-se e reclama contra seu autor, e geme, e lhe grita: "Enganaste-me!" Enganar-te eu, temerário! Quem to disse? Tens a alma extinta? Deixaste de existir? Oh! Bruto, ó meu filho, não macules, na morte, a tua nobre vida. Não deixes no campo de Filipe, com o teu cadáver, a glória e a esperança! E dizes que a virtude nada é, quando vais receber o prémio da tua. Pensas que morrerás? Não, vais viver, e será então que cumprirei tudo quanto te prometi.

Quando se ouvem as queixas dos mortais impacientes, dir-se-ia que Deus lhes deve dar a recompensa antes de a merecerem, pagando-lhes a virtude por adiantado. Oh! sejamos bons para ser felizes! Não exijamos o prémio antes da vitória, nem o salário antes do trabalho. Nas liças, dizia Plutarco, os vencedores de nossos jogos sagrados só são coroados depois das corridas. Se a alma é imaterial, sobreviverá ao corpo; e se lhe sobrevive, está justificada a Providência. Embora não me fosse dado, como prova da imaterialidade da alma, senão o triunfo do mau e a opressão do justo neste mundo, é quanto me bastaria para afastar qualquer dúvida a esse respeito. Tão desconcertante dissonância na harmonia universal seria um estímulo para procurar resolvê-la.

Nada acaba, pois, com a vida; tudo voltará à ordem com a morte. Ficaria, realmente, confuso, se não soubesse onde o homem se encontrava, depois de destruído tudo quanto nele havia de sensível. Mas essa questão já não me oferece a menor dificuldade, posto que reconheci nele duas substâncias. É bem simples compreender que, se tudo percebia pelos sentidos, durante a minha vida corpórea, se me escape depois tudo o que foge à alçada destes. Quando se rompe a união entre o corpo e a alma, concebo que o primeiro se dissolva e a última se conserve. Por que há-de implicar a destruição do corpo na destruição da alma? Pelo contrário, sendo de naturezas tão diferentes, encontravam-se, unidas, num estado violento; e, ao cessar essa união, ambas regressam ao seu estado natural. A substância activa e viva recupera a força que dispendia em mover a passiva e morta.

Ah! não me dizem os meus vícios que o homem só vive plenamente durante a vida, e que a vida da alma só começa com a morte do corpo? Mas que vida é essa! É a alma imortal por natureza? Não sei. Meu entendimento, que é limitado, nada concebe sem limites; tudo quanto se chama infinito se me escapa à compreensão. Que posso negar ou afirmar? Que raciocínios fazer sobre o que não posso conceber? Creio que a alma sobrevive ao corpo o bastante para a conservação da ordem; mas quem sabe se o bastante para durar sempre? Concebo, no entanto, que o corpo se gasta e destrói pela separação das partes, mas não posso conceber semelhante destruição no ser  pensante; e, não imaginando como este pode morrer, presumo que não morre. Se esta presunção me consola e nada tem de absurda, por que não admiti-la?

Sinto a alma, conheço-a pelo sentimento e pelo pensamento, sei que existe, mas ignoro a sua essência; não posso discorrer sobre idéias que não tenho. Sei, porém, bem que a identidade do eu só se prolonga pela memória, e que me devo lembrar de ter existido para ser efectivamente eu. Como recordar, após a morte, o que fui durante a vida, se não recordar o que senti e, por consequência, o que fiz? Confio que essa recordação há-de fazer um dia a felicidade dos bons e o tormento dos maus. Aqui, na terra, mil paixões ardentes absorvem o sentimento interno, ludibriando os remorsos. As humilhações e as desgraças, que o exercício das virtudes acarreta, não nos deixam sentir todo o seu encanto. Mal poderemos gozar da contemplação do Ser Supremo e das verdades eternas, de que ele é a fonte, quando, livres das ilusões do corpo e dos sentidos, tenhamos todas as potências da alma embargadas pela beleza da ordem, preocupando-nos apenas comparar o que fizemos com o que devíamos ter feito; então a voz da natureza recuperará toda a sua força, e domínio, e a volúpia pura, que nasce da própria satisfação, e o amargo pesar de nos termos envilecido, distinguirão, com inesgotáveis sentimentos, o destino que nos vínhamos preparando.

Não me perguntes, meu bom amigo, se existem outras fontes de felicidade e de penas. Ignoro-o. O que, porém, imagino, basta para me consolar desta vida e aguardar a outra. Não afirmo que os bons sejam recompensados, porque que mais alto bem pode esperar um ser virtuoso que viver segundo os ditados da sua natureza? Mas afirmo que serão felizes, porque seu autor, o autor de toda a justiça, que os fez sensíveis, não os fez para sofrer; e não enganaram, por própria culpa, o seu destino, por não terem abusado da liberdade na terra. Se sofreram nesta vida, serão indenizados na outra. Não se funda este sentimento no mérito do homem, mas na noção da bondade, que julgo inseparável da essência divina. Limito-me apenas a supor observadas as leis da ordem, e Deus constante consigo mesmo [9].

Não me perguntes também se os tormentos dos maus serão eternos, e se está na bondade do autor de seu ser condená-los a tormentos perpétuos; também não sei e não tenho a vã curiosidade de esclarecer questões inúteis. Que me importa o que será dos maus? Pouco me interessa a sua sorte. Todavia, custa-me crer que sejam condenados a tormentos sem fim. Se a suprema justiça se vinga, vinga-se nesta terra. Vós, ó nações! vós e vossos erros sois os seus ministros. Serve-se dos males que vos infligis a vós mesmos para castigar os crimes que os determinaram. É em vossos corações insaciáveis, corroídos de inveja, de avareza e de ambição, no meio das vossas prosperidades ilusórias, que as paixões vingativas castigam vossas más acções. Para que ir procurar o inferno noutravida, quando está nesta, no coração dos maus? Onde acabam nossas necessidades perecíveis, onde cessam nossos desejos insensatos, cessam também nossas paixões e nossos crimes.

Caberá perversidade nos espíritos puros? Se de nada necessitam, para que serem maus? Sem os nossos sentidos grosseiros, toda a felicidade para eles consiste na contemplação dos seres, e, portanto, não quererão senão o bem. E quem deixar de ser mau, será infeliz? Eis o que me inclino a crer, sem que o possa afirmar como ponto de fé. Oh! Ser clemente e bom! quaisquer que sejam teus decretos, eu os adoro. Se castigares eternamente os maus, minha pobre razão se extinguirá perante a tua justiça, mas se os remorsos desses desventurados desaparecem com o tempo, e seus males findam, e a mesma paz nos espera a todos igualmente um dia, então eu vos agradecerei. Não é, o mau, meu irmão também? Quantas vezes não tive a tentação de o imitar! Que, livre de sua desgraça, perca também a malignidade que o acompanha. Que seja feliz como eu, pois sua felicidade aumentará a minha e não me fará invejá-lo.

Foi assim que, contemplando Deus em suas obras, e estudando-o pelos atributos que lhe pertencem e me interessava conhecer, cheguei a estender e ampliar gradualmente a ideia, antes imperfeita e limitada, desse ser imenso. Mas quanto mais essa ideia se enobrece e aumenta, mais foge às proporções da razão humana. Quanto mais me aproximo, em espírito, da eterna luz, mais seu brilho me perturba e deslumbra, e sou obrigado a abandonar todas as noções terrestres pelas quais a imaginava. Deus já não é corpóreo e sensível; a suprema inteligência que governa o mundo já não é o próprio mundo: exalto e canso em vão o espírito para conceber essa essência inconcebível.

Quando penso que é ele quem dá vida e actividade à substância viva e activa que rege os corpos inanimados, e outros me vêm dizer que minha alma é espiritual e Deus um espírito, insurjo-me contra esse aviltamento da essência divina. Como se Deus e a minha almafossem da mesma natureza! Como se Deus não fosse o único ser absoluto, o único verdadeiramente activo, o que sente, pensa e quer por si só, e do qual recebemos o pensamento, o sentimento, a actividade, a vontade, a liberdade, o ser! Somos livres apenas porque ele quer que o sejamos, e sua substância inexplicável é para nossas almas o que estas são para o nosso corpo. Se foi ele quem criou [do nada] a matéria, os corpos, os espíritos e o mundo, não sei. A ideia da criação ["ex nihilo"] confunde-me e não está ao meu alcance; creio nela até onde posso concebê-la. Mas sei, sim, que foi ele quem formou o universo e tudo quanto existe, e quem tudo fez e ordenou.

Deus é eterno, sem dúvida; mas pode meu espírito abranger a ideia da eternidade? Por que me satisfazer com palavras sem ideia? Compreendo, sim, que ele é antes de todas as coisas, e que sempre o será enquanto as coisas subsistirem; só seria depois delas, se tudo se acabasse um dia. Que um ser, que não concebo, dê existência a outros seres, é obscuro e incompreensível; mas que o ser e o nada se confundam, é uma contradição palpável, um claro absurdo.

Deus é inteligente. Como! O homem é inteligente porque raciocina, e a suprema Inteligência não tem necessidade de raciocinar; para ela, não há premissas nem consequências, nem mesmo proposição. É puramente intuitiva, tanto vê o que é como o que será, todas as virtudes são para ela uma só ideia, como todos os lugares um só ponto, e todos os tempos um só instante. A potência humana age por meios interpostos; a divina por si só. Deus pode porque quer; sua vontade faz seu poder.

Que Deus é bom, nada há-de mais patente; mas a bondade no homem é o amor pelos seus semelhantes, e a bondade de Deus é o amor da ordem, porque só pela ordem se conserva o que existe e une as partes ao todo.

Convenço-me de que Deus é justo; é uma das consequências da sua bondade. A injustiça dos homens é obra destes, e não sua; a desordem moral que, aos olhos dos filósofos, constitui uma prova contra a Providência, aos meus, demonstra-a. Mas a justiça dos homens consiste em dar a cada um o que lhe pertence, e a de Deus, a todos pedir contas do que lhes deu.

Chego a descobrir sucessivamente esses atributos, de que não tenho nenhuma ideia absoluta, por meio de consequências inevitáveis e pelo exercício que faço da razão; mas, afirmá-los e não compreendê-los é no fundo não afirmar nada. Pensar que Deus é assim, que o sinto, que tenho dele a evidência, é pensar em vão, porque não concebo, só por isso, como Deus pode ser assim. Enfim, quanto mais quero contemplar sua essência infinita, menos a concebo. Mas existe, e isso me basta, e quanto menos a concebo, mais a adoro. Humilho-me e digo-lhe: Ser dos seres, existo porque existes; medito em ti constantemente, e desperto na minha origem. O melhor uso que posso dar à razão é humilhar-me perante ti; o enlevo do meu espírito, o encanto da minha fraqueza é ver-me prostrado diante da tua grandeza.

Da impressão dos objectos sensíveis e do sentimento interior que me leva a julgar as causas segundo as minhas luzes naturais, deduzi as principais verdades que me interessava saber; faltava-me agora saber a que máximas devo submeter a minha conduta, e que normas seguir para cumprir meu destino na terra, de acordo com a intenção daquele que a ela me trouxe. Seguindo sempre o mesmo método, não deduzo essas regras dos princípios de uma alta filosofia; vou encontrá-las no fundo do meu coração, gravadas pela natureza com caracteres indeléveis. Basta-me saber o que quero fazer. É bom o que sinto como bom, e mau o que sinto como mau. A consciência é o melhor de todos os casuístas, e só pugnamos com ela quando acudimos às subtilezas do raciocínio.

A primeira de nossas preocupações somos nós mesmos; no entanto, quantas vezes a voz interior nos diz que procedemos mal quando procuramos o bem próprio a expensas de outrem! Cremos seguir o impulso da natureza e não fazemos senão resistir-lhe; atendendo ao que nos diz aos sentidos, abstraímos do que nos fala ao coração. O ser activo obedece, o passivo manda. A consciência é a voz da alma; as paixões, a do corpo. A quem pode estranhar que estas duas vozes tantas vezes se contradigam? E qual delas ouvir? A razão engana-nos tão frequentemente que já nos assiste o direito de a recusarmos. Mas a consciência não nos engana nunca; é o verdadeiro guia do homem, é para a alma o que o instinto para o corpo [10]; o que a seguir, obedecerá à natureza, enão receará extraviar-se.

Este ponto é importante, — prosseguiu meu benfeitor, notando em mim vontade de interrompê-lo; — permite-me que me detenha um pouco mais no seu esclarecimento. Toda a moralidade das nossas acções está no juízo que delas formamos. Se o bem é realmente o bem, tanto o será no fundo dos nossos corações como em nossas obras, e ao sentir que o praticamos, recebemos o primeiro prémio da justiça. Obedeçamos à natureza, e saberemos do encanto do seu império, e, depois de termos ouvido a sua voz, que prazer sentimos em formar bom conceito de nós. O malvado receia e foge de si, lança em torno os olhos inquietos e procura um objecto de distracção. Sem a sátira amarga, sem a mofa insultante, estaria sempre triste; seu único prazer é o riso que escarnece. A serenidade do justo, pelo contrário, é interior; seu riso não é maligno, mas alegre, e a fonte está em si. E tão alegre é só como entre os outros, porque o contentamento não lhe provém dos que se lhe aproximam, que são por ele contagiados.

Olha para todos os povos do mundo, repassa as suas histórias! Sempre encontrarás as mesmas idéias de justiça e honestidade, os mesmos princípios de moral, as mesmas noções do bem e do mal entre tantos cultos desumanos e extravagantes, entre tão prodigiosa diversidade de costumes e de caracteres. O antigo paganismo forjou deuses abomináveis, que teriam sido perseguidos na terra como celerados; a única imagem de felicidade suprema que esses deuses nos ofereceriam eram crimes a cometer e paixões a saciar. Mas o vício baixava da morada divina revestido em vão de uma autoridade sagrada, porque o instinto moral o afastava do coração humano. Celebrava-se a devassidão de Júpiter e admirava-se a continência de Xenócrates; a casta Lucrécia adorava a impudica Vénus. O intrépido romano imolava-se ao Pavor, invocando o deus que mutilara o próprio pai, e morria da mão do seu, sem proferir uma queixa. Os maiores homens rendiam-se às divindades mais desprezíveis. A sacrossanta voz da natureza, mais forte que a dos deuses, fazia-se, contudo, respeitar na terra, parecendo desterrar para o céu o crime e seus autores. Há, pois, no fundo das almas um princípio inato de justiça e de virtude, pelo qual julgamos boas ou más as nossas acções como as dos outros, a despeito das nossas próprias máximas, e é a esse princípio que eu chamo consciência.

Mas ao som dessa palavra, de toda a parte se levantam os clamores dos pretensos sábios. Erro da infância, preconceito de educação! bradam todos à uma; só existe no espírito humano o que nele introduzimos pela experiência, tudo julgamos por meio de idéias adquiridas! Vão mais longe: chegam a rejeitar esse concerto evidente e universal de todos os povos, e, contra a uniformidade que resplandece na opinião dos homens, vão buscar às trevas algum exemplo obscuro, que só eles conhecem, como se bastasse a corrupção de um povo para eliminar todas as tendências da natureza, ou a espécie se acabasse com a existência dos monstros. Mas de que serve ao céptico Montaigne passar tormentos para desterrar para um canto do mundo um costume contrário às noções de justiça? [11] De que lhe serve atribuir aos viajantes mais suspeitos uma autoridade que nega aos escritores mais célebres? Alguns usos incertos e bizarros, fundados em causas locais que desconhecemos, poderão acaso destruir a conclusão geral que se tira do concurso dos povos, apenas concordes nesse ponto e opostos em tudo o mais? Oh! Montaigne, tu que te prezas de ser franco e veraz, sê sincero e verdadeiro, quanto um filósofo o pode ser, e dize-me se existe país na terra onde seja crime guardar a fé, ser-se clemente, generoso, benemérito, onde se despreze o homem de bem e se honre o pérfido?

Dizem que todos concorremos para o bem público pelo nosso interesse. Como explicar, pois, que o justo contribua para ele em seu prejuízo? Que significa ir à morte por interesse próprio? Ninguém procede, decerto, senão para seu bem, mas, se considerarmos o bem moral, só se explicarão por interesse próprio as acções dos maus, e é mesmo de crer que ninguém procure ir mais longe. Abominável filosofia a que proclamasse, como obstáculos a vencer, as acções virtuosas, atribuindo-lhes deliberadamente baixos intuitos e motivos sem virtude em defesa de sua tese, e nos levasse a envilecer Sócrates e caluniar a Régulo! Se semelhantes doutrinas germinassem dentro de nós, contra elas se insurgiria sempre a voz da natureza e da razão, e nenhum de seus adeptos teria a desculpa da boa-fé.

Não pretendo entrar aqui em discussões metafísicas, que não estão ao meu alcance nem ao teu, e que a nada conduzem. Já disse que não me propunha filosofar contigo, mas que queria apenas ajudar-te a consultar teu coração. Ainda que todos os filósofos do mundo me demonstrassem que estou em erro, bastava-me que tu sentisses que tenho razão. Devo, para isso, distinguir entre idéias adquiridas e sentimentos naturais, pois que sentimos necessariamente antes de conhecer; e, como não aprendemos a desejar o bem, nem a evitar o mal, visto essa vontade nos vir da natureza, o amor ao bem e o ódio ao mal são em nós, do mesmo modo, tão inevitáveis como o amor a nós mesmosOs actos da consciência não são opiniões, mas sentimentos, embora as idéias nos venham de fora. Os sentimentos que os apreciam estão dentro de nós, o só por eles percebemos a discrepância ou a analogia que existe entre nós e as coisas que devemos respeitar ou evitar. Para nós, existir é sentir; nossa sensibilidade é incontestavelmente anterior à nossa inteligência, e já tínhamos sentimentos antes de ter idéias [12].

Seja qual for a causa do nosso ser, ela contribuiu para a nossa conservação, dando-nos sentimentos de acordo com a natureza; e que estes sentimentos são inatos, ninguém o vai negar. No que respeita ao indivíduo, tais sentimentos são o amor de nós mesmos, o medo à dor, o horror à morte, o desejo de bem-estar. Mas, se o homem é sensível por natureza, como não se pode pôr em dúvida, ou é feito, pelo menos, para ser sensível, só o será por outros sentimentos inatos, relativos à sua espécie, pois que, se considerarmos somente a necessidade física, esta dispersa os homens em vez de os aproximar. É, portanto, do sistema moral formado pela dupla reacção entre nós e nossos semelhantes que nasce o impulso da consciência. Conhecer o bem, não é amá-lo; o homem não tem dele o conhecimento inato, mas logo que a razão lho faz conhecer, ama-o pela consciência, sentimento, este último, inato.

Não me parece, pois, meu amigo, impossível explicar, como consequência da nossa natureza, o princípio imediato da consciência, independente mesmo da razão. E fosse embora impossível, tal explicação seria desnecessária, porque os que negam esse princípio, admitido e reconhecido pelo género humano, não provam a sua inexistência, limitam-se apenas a afirmá-la; temos tão bons fundamentos como eles para declarar que existe, e dispomos, além disso, do testemunho íntimo, e da voz da consciência que se faz ouvir por si só.

Se os primeiros lampejos do julgar nos confundem e ofuscam os objectos, esperemos que nossos pobres olhos se reabram e reafirmem, e veremos novamente esses objectos à luz da razão, como antes no-los mostrava a natureza. Ou, melhor, sejamos mais simples e menos vãos, restringindo-nos aos primeiros sentimentos que em nós se manifestam, pois que é sempre para eles que o estudo nos reconduz, quando não nos extravia.

Consciência! Consciência! Divino instinto, celeste voz imortal, guia seguro de um ser ignorante e limitado, mas inteligente e livre, juiz infalível do bem e do mal, pelo qual o homem se assemelha a Deus, és tu que lhe sublimas a natureza e fazes a moralidade das suas acções. Sem ti, nada sentiria que me elevasse acima dos animais, como não fosse o triste privilégio de vagar de erro em erro, levado por um entendimento sem norma e uma razão sem princípio.

Graças ao céu, já estamos livres desse espantoso aparelho de filosofia; podemos ser homens, sem ser sábios. Dispensados de consumir a vida no estudo da moral, achamos, com menor esforço, um guia mais firme no dédalo imenso das opiniões humanas. Não basta, no entanto, que esse guia exista; é mister saber reconhecê-lo o segui-lo. Se a todos os corações fala, por que tão poucos o entendem? Ah! porque nos fala a linguagem da natureza, que tudo nos faz esquecer. A consciência é tímida; ama a solidão e a paz. O mundo e o ruído espantam-na. Os preconceitos, de que a querem fazer filha, são os seus inimigos mais cruéis, diante dos quais foge ou se cala, e cuja voz estridente apaga a sua e não a deixa ouvir. O fanatismo ousa desfigurá-la e decreta o crime em seu nome. Esmorece à força de abandonada; não nos torna a falar e a responder, e, após tão longo desprezo, custa tanto despertá-la como custou bani-la.

Quantas vezes, em minhas investigações, não me cansei da frialdade que em mim sentia! Quantas vezes a tristeza e o desgosto não me envenenaram as primeiras meditações, fazendo-as insuportáveis! Meu árido coração entregava-se, com tíbio e desfalecido zelo, ao amor da verdade. Por que me atormentar — pensava — à procura do que não existe? O bem moral não passa de uma quimera; o único real é o prazer dos sentidos. Oh! quando uma vez se perde o gosto pelos prazeres da alma, quão difícil é recuperá-lo! Porém mais difícil é adquiri-lo a quem nunca o teve! Se existisse um homem tão miserável, sem uma única recordação que o reconciliasse consigo mesmo e lhe desse a alegria de viver, esse homem seria incapaz de se conhecer; e como não podia sentir a bondade que corresponde à sua natureza, permaneceria forçosamente mau e seria eternamente infeliz. Será, porém, que haverá no mundo homem tão depravado que jamais entregasse o coração sequer à tentação de fazer o bem? Essa tentação é tão natural e agradável que é impossível resistir-lhe sempre; e a recordação do prazer que uma vez nos deu basta para a lembrarmos constantemente.

Infelizmente, ao princípio, não é fácil satisfazê-la; tem mil razões para se esquivar aos pendores do coração. A falsa prudência comprime-a nos limites do eu humano; só com mil esforços de coragem ousará franqueá-los. Comprazermo-nos em bem fazer é o prémio das nossas boas obras, e só alcançamos esse prémio quando o merecemos. Nada existe mais grato que a virtude, mas só assim a julgamos quando nos dá alegria. Pretendemos abraçá-la, mas, como o Proteu da fábula, reveste-se, ao princípio, de mil formas espantosas, só se mostrando na que realmente tem aos que nunca a abandonaram.

Combatido sempre pelos sentimentos naturais, que se pronunciavam a favor do interesse comum, e pela razão que tudo relacionava comigo, andaria eu a vida inteira flutuando nessa alternativa contínua, se novas luzes me não iluminassem o coração, e a verdade, que me firmou os juízos, não me tivesse marcado a conduta e posto de acordo comigo mesmo. Não se pode estabelecer a virtude unicamente pela razão. É inútil pretendê-lo. Que base sólida caberia dar-lhe? Dizem que a virtude é o amor da ordem. Mas pode e deve sobrelevar-se esse amor ao que sinto pelo meu bem-estar? Que me dêem uma razão mais clara e capaz; perfilhá-la-ei. No fundo, esse pretenso princípio é um simples jogo de palavras, visto que poderei dizer também que o vício é o amor da ordem, tomada em sentido inverso. Onde houver sentimento e inteligência existe ordem moral. A diferença consiste em que o bom se coordena em relação ao todo, e o mau ordena o todo em relação a si, tornando-se o centro de todas as coisas; o primeiro mede seu raio e se coloca na circunferência, ordenando-se em relação ao centro comum, que é Deus, e em relação a todos os círculos concêntricos, que são os seres criados. Se a Divindade não existisse, só o mau raciocinaria e o bom não passaria de um insensato.

Oh!, meu filho, oxalá possas ter um dia a sensação de alívio que experimentamos quando, esgotada a vaidade de todos os juízos humanos e saboreada a amargura das paixões, achamos, finalmente, tão perto de nós o caminho da sabedoria, o prémio dos trabalhos desta vida, a fonte da felicidade, de que já havíamos desesperado. Todos os deveres da lei natural, que a injustiça dos homens havia quase afastado do meu coração, ressurgem de novo em nome da eterna justiça, que mos impõe e vê cumprir. Sinto apenas que sou a obra e o instrumento do Ser Supremo, que quer o bem, que o faz, que fará o meu com o concurso das minhas vontades e das suas e pelo exercício da minha liberdade; submeto-me à ordem por ele estabelecida, certo de desfrutar um dia dessa mesma ordem, onde encontrarei a felicidade. Que maior felicidade, com efeito, do que nos sentirmos coordenados com um sistema onde tudo está em ordem? Vítima da injustiça, suporto-a pacientemente, pensando que é transitória e provém de um corpo que não é o meu. Se cometo uma má acção sem testemunhas, sei que estou sendo visto e que constituirá na outra vida testemunho do meu proceder na terra. Quando sofro uma injustiça, sei que o Ser justo, que tudo rege, ma compensará, e que as exigências do corpo e as misérias da vida me tornarão a ideia da morte mais suportável. Serão menos laços a romper quando abandonar o mundo.

Por que tenho a alma submetida aos sentidos e encadeada ao corpo que a escraviza e oprime? Não sei, porque não estou dentro dos desígnios de Deus. Mas não julgo temerário aventurar umas modestas conjecturas. Se o espírito humano fosse livre e puro, que méritos seriam os seus em amar e seguir uma ordem já estabelecida e que não teria interesse em alterar? Seria feliz, é certo, mas faltaria a essa felicidade o grau mais sublime: a glória da virtude e a própria satisfação. Assemelhar-se-ia aos anjos, mas um homem virtuoso é decerto superior a eles. Unida a alma a um corpo mortal por laços tão poderosos como incompreensíveis, o cuidado da conservação desse corpo obriga-a a relacionar tudo com ele, dando-lhe um interesse em pugna com a ordem geral, que é, no entanto, capaz de ver e amar; só assim o exercício da sua liberdade se converte em mérito e recompensa, ao mesmo tempo, e lhe tece uma felicidade inalterável, combatendo-lhe as paixões terrestres e mantendo-a fiel à sua primeira vontade.

Se, mesmo no estado de rebaixamento em que nos encontramos durante a vida, são legítimos nossos primeiros impulsos; se todos nossos vícios de nós provêm, por que nos queixamos de que nos subjuguem? Por que atribuir ao autor das coisas os males que só nós nos infligimos e os inimigos que contra nós armamos? Ah! não corrompamos o homem; ele será sempre bom sem sacrifício, e feliz sem remorsosOs culpados, que se crêem forçados a cometer o crime, são tão mentirosos como malvados, porque sabem que a fraqueza de que se queixam é a sua própria obra, que sua primeira depravação é fruto de sua vontade e que, à força de quererem ceder às tentações, lhes cedem, finalmente, mesmo a pesar seu, tornando-as irresistíveis. Não depende deles, certamente, não serem maus nem fracos, mas, sim, não se fazerem uma coisa nem outra.

Oh! quão fácil não seria sermos senhores de nós e das nossas paixões, mesmo durante esta vida, se, ainda não adquiridos os nossos hábitos e quando nosso espírito começa a abrir-se, soubéssemos ocupá-lo com os objectos que deve conhecer para avaliar os que não conhece; se quiséssemos ficar realmente esclarecidos, não para brilhar aos olhos alheios, mas para sermos bons e sábios, de acordo com a nossa natureza, a fim de que encontrássemos a felicidade no cumprimento dos deveres; parece-nos este estudo fastidioso e árduo porque, quando nele pensamos, já estamos vencidos pelo vício eentregues às nossas paixões. Fixamos nossos juízos e apreço antes de conhecer o bem e o mal, e, amoldando tudo a tão falsa medida, a nada damos seu justo valor.

Há uma idade em que o coração, ainda livre, mas ardente, inquieto, ávido da felicidade que ignora, a procura com curiosa incerteza, e, enganado pelos sentidos, se volta para a sua falsa imagem, julgando vê-la onde não existe. Muito tempo duraram em mim essas ilusões! Ah! descobri-as já tarde e não as pude destruir completamente; e agora durarão tanto como o corpo mortal que as causa. Ao menos, é inútil que tentem seduzir-me porque já não me enganam; conheço-as pelo que são, sigo-as, mas desprezo-as, e, longe de ver nelas o objecto da minha felicidade, vejo o seu obstáculo. Aspiro ao momento em que, livre dos entraves do corpo, eu seja eu mesmo sem contradições nem partilhas, e precise apenas de mim para ser feliz; entrementes, já o sou nesta vida, porque faço abstracção de todos os males, e a contemplo como quase estranha ao meu ser, sabendo que de mim depende todo o verdadeiro bem que dela possa tirar.

Para me antecipar, enquanto é tempo, a esse estado de felicidade, de força e de liberdade, exercito-me nas contemplações sublimesMedito na ordem do universo não para explicá-lo por meio de vãos sistemas, mas para admirá-lo incessantemente e admirar o sábio autor que nele se faz sentir. Converso com ele, embebo todas as minhas faculdades na sua divina essência, enterneço-me com os seus benefícios e bendigo-o pelos seus donsmas não lhe dirijo preces. Que lhe poderia eu pedir? Que alterasse, para me dar satisfação, o curso das coisas e operasse milagres a meu favor? Como pretender que a ordem se perturbe em benefício meu, eu, que devo amar sobre todas as coisas a ordem que a sua sabedoria estabeleceu e a sua providência mantém! Não, este rogo temerário, não mereceria louvor, mas castigo. Não lhe peço tão pouco me conceda o poder de fazer bem; para que solicitar dele o que dele já recebi? Não me concedeu a consciência para amar o bem, a razão para o conhecer, a liberdade para optar? Se proceder mal, não terei desculpa; procederei assim, porque quero. Pedir-lhe que me modifique a vontade? Equivaleria a pedir-lhe o que ele me pede, e pretender que trabalhasse por mim, recebendo eu o salário. Se não estou satisfeito com o meu estado, é porque quero ser o que não sou e desejo a desordem e o mal. Fonte da justiça e de verdade, Deus clemente e bom!, tenho tanta confiança em ti que a maior ânsia de meu coração é que seja feita a tua vontade. Juntando-lhe a minha, sigo teus passos e anuo à tua bondade, e creio já participar no mundo da suprema felicidade que é o prémio da minha conduta.

Na justa desconfiança de mim mesmo, só lhe peço, ou melhor, aguardo de sua justiça que rectifique meu erro, quando esse erro me extraviar e me trouxer perigo. Quando estamos de boa-fé, não nos julgamos infalíveis, e os juízos que mais verdadeiros nos parecem são talvez outras tantas falsidades. Por que não seguir, pois, os seus? E quantos homens estão de acordo em tudo? A ilusão que me engana provém de mim mesmo; só ele me pode curar. Faço o que posso para alcançar a verdade, mas a origem da verdade está muito alta; se me faltarem forças para seguir adiante, a culpa não será minha. A ela corresponderá aproximar-se. [fim da primeira fala do vigário]

O bom sacerdote havia falado com veemência. Estava comovido, e eu também. Parecia-me ouvir o divino Orfeu cantando os primeiros hinos e ensinando aos homens o culto dos deuses. Tinha, porém, muitas objecções a fazer-lhe; mas não lhe fiz nenhuma, porque não eram tão sólidas como confusas, e a persuasão estava de seu lado. Falava-me, segundo os ditados, da sua consciência, e a minha parecia confirmar tudo quanto dizia.

— As idéias que acabais de expor, disse eu, julgo-as mais novas pelo que confessais ignorar do que pelo que dizeis crer. Vejo nelas, pouco mais ou menos, o deísmo ou religião natural, que os cristãos fingem confundir com o ateísmo e a irreligião, e é, no entanto, doutrina diametralmente oposta. Mas, no estado actual da minha fé, devo-me elevar, e não descer, para seguir esses princípios, e considero indispensável vossa judiciosa sabedoria para permanecer no ponto, precisamente, em que vos encontrais. Para ser, ao menos, também sincero, pretendo consultar comigo. Só pela voz interior poderei chegar ao exemplo que me dais, e vós mesmo me ensinastes que recorrer a essa voz não é coisa de momento, quando a tivemos muito tempo em silêncio. Vossas opiniões apossaram-se-me do coração; vou agora meditar nelas. Se, depois de consultar comigo, chegar à vossa convicção, sereis meu último apóstolo, e eu vosso prosélito até à morte. Continuai, todavia, instruindo-me; só me dissestes metade do que tenho que saber. Falai-me da revelação, das escrituras, dos dogmas obscuros que desde a infância me perseguem, sem neles crer, nem os conceber, admitir ou rejeitar.

— Sim, meu filho, respondeu ele, abraçando-me, dir-te-ei tudo o que penso. Quero abrir-te o coração de par em par, mas precisava que me manifestasses antes esse desejo para me crer autorizado a não ter reservas contigo. Até agora, nada te disse que, a meu ver, não te fosse útil e de que não estivesse intimamente persuadido. A análise que me falta fazer é bem diferente; só vejo confusão, mistério, obscuridade, e prossigo incerto e desconfiado. Caminho e tremo, e mais saberás das minhas dúvidas que dos meus juízos. Se teus sentimentos fossem mais firmes, hesitaria eu expor-te os meus; mas, no estado em que te encontras, creio que deverás, em teu benefício, pensar como eu [13]. Quanto ao mais, nenhuma outra autoridade atribuas às minhas palavras que a da razão. Não sei se estou errado. É difícil, para quem argumenta, não tomar às vezes um tom afirmativo; mas tem sempre presente que todas as minhas informações são meras razões para duvidar. Indaga a verdade por ti só, porque, da minha parte, só te posso prometer boa-fé.

No que te expus, vês apenas a religião natural. Notas a falta de outra? Como explicar essa necessidade? Se sirvo a Deus com os sentimentos que ele próprio inspira ao meu coração, de que me podem acusar? Que pureza de moral, que dogma útil para o homem e honroso para o seu autor, cabe extrair de uma doutrina positiva que não se possa tirar do exercício mesmo das nossas faculdades? Para a glória de Deus, para o bem da sociedade, e para meu próprio benefício, que devo eu acrescentar aos deveres que me são impostos pelas leis naturais? Haverá algum novo culto, que não seja uma consequência do meu, que nos possa trazer uma nova virtude? As maiores idéias da Divindade vêm-nos apenas da razão.

Contempla o espectáculo da natureza, escuta a tua voz interior. Que mais poderá dizer Deus aos nossos olhos, à nossa consciência, ao nosso discernimento? E os homens, que mais nos dirão? Suas revelações, atribuindo a Deus paixões humanas, só conseguem degradá-lo. Vejo que os dogmas particulares das religiões, longe de esclarecer as noções do Ser Supremo, só as complicam; não as enobrecem, aviltam–nas. Aliam as contradições absurdas aos mistérios inconcebíveis que o cercam; tornam o homem orgulhoso, ignorante e cruel. Não trazem a paz à terra; trazem-lhe o ferro e o fogo. Se me perguntarem para que serve tudo isso, não sei que responder. Se só me revela os crimes dos homens e as misérias do género humano…

Dizem-nos que seria mister uma revelação para ensinar aos homens o melhor meio de servirem a Deus; aduz-se, como prova, a diversidade de cultos extravagantes instituídos na terra, e não se vê que essa diversidade provém da fantasia das próprias revelações. Desde que os povos pensaram que podiam mandar Deus falar, já todos o mandaram falar a seu modo e dizer o que lhes aprouve. Se ouvissem apenas o que Deus diz ao coração dos homens, não existiria senão uma religião no mundo. Seria mister um culto uniforme, não digo que não; mas seria ele tão importante que exigisse todo o aparato da potência divina para a sua instituição? Não confundamos o cerimonial da religião com a religião. O culto que Deus solicita é o do coração, e este, quando sincero, é sempre uniformeQue vaidade louca pensar que Deus tanto se preocupa com a forma dos hábitos do sacerdote, com a ordem de suas palavras, com os seus gestos no altar e todas as suas genuflexões! Ah! meu amigo, por muito que subas à tua altura, ficarás sempre perto da terra. Deus gosta de ser adorado em espírito e em verdade; é esse o dever de todas as religiões, de todos os povos e de todos os homens. Quanto ao culto externo, se deve ser uniforme para a boa ordem, é essa uma mera questão de polícia; não se necessita de revelação para isso.

Não comecei logo por todas estas reflexões. Arrastado pelos preconceitos da educação e pelo perigoso amor próprio, que sempre quer colocar o homem acima da sua esfera, não podendo elevar minhas pobres concepções até ao Ser Supremo, procurei rebaixá-lo até mim. Aproximava as relações infinitamente distantes que ele pôs entre a sua natureza e a minha. Pretendia ter comunicações mais imediatas, instruções mais particulares; e, não me contentando ainda com fazer Deus semelhante aos homens, para eu ser privilegiado entre os meus semelhantes, aspirava a luzes sobrenaturais, a um culto exclusivo, a que Deus me dissesse o que não dissera aos demais homens, ou o que os demais homens não haviam entendido como eu.

Considerando o ponto a que chegara como o ponto comum, donde todos os crentes partiam para atingir um culto pretensamente mais esclarecido, só nos dogmas da religião natural [isto é, no Deísmo] fui encontrar os elementos [primitivos e autênticos] de toda a religião.

Olhava para a diversidade de seitas que imperam na terra e se acusam mutuamente de erro e mentira, e perguntava: "Qual a boa?" E todos me respondiam: "a minha". E todos diziam: "só eu e meus adeptos pensamos certo; todos os mais laboram em erro". — "E como sabes tu que a tua seita é a melhor?" — "Porque o disse Deus" — "E quem te disse que foi Deus quem o disse?" — "O meu pastor, que o sabe bem; disse-me que devia crê-lo, e eu assim o creio, e que mentem os que afirmam o contrário, e eu não lhes dou ouvidos".

Então a verdade não é só uma? pensava eu. E o que para mim é verdade, pode ser falso para os outros? Se os métodos do que segue o bom caminho e do que vai pelo mau são iguais, que mais razão tem um do que o outro? A escolha é fruto do acaso, e imputá-la aos homens seria uma iniquidade. Seria como premiar ou castigar o facto de se ter nascido neste ou naquele país. Atribuir a Deus semelhantes juízos é ultrajar a sua justiça.

Ou todas as religiões são boas e agradam a Deus, ou só existe uma que ele decretou para os homens, castigando os que a ignoram. Neste caso, outorgou Deus a essa religião sinais tão inequívocos e manifestos que nos habilitam a distingui-la e reconhecê-la como a única verdadeira, sinais que são de todos os tempos e lugares e igualmente sensíveis a todos os homens, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, europeus, índios, africanos e selvagens. Se houvesse uma religião na terra que condenasse à pena eterna os que não a seguissem, e existisse um só mortal de boa-fé no mundo, em qualquer país, fosse ele qual fosse, a quem não se revelasse a sua evidência, o Deus dessa religião seria o mais iníquo e cruel dos tiranos. Busquemos, pois, sinceramente a verdade, sem recorrer ao direito de nascimento ou à autoridade de nossos pais e sacerdotes, mas levando ao exame da consciência e da razão tudo quanto eles nos ensinaram desde a infânciaQue ninguém me diga: "Submete a tua razão [à fé]", pois que o mesmo me pode dizer o que me está enganando. Para submeter a razão, necessito de razões.

Toda a teologia que possa adquirir por mim na contemplação do universo, e pelo bom exercício das minhas faculdades, limita-se ao que te expliquei anteriormente. Para saber mais, teremos que recorrer a meios extraordinários. Tais meios não dependem dos homens, porque não havendo homens de espécie diferente da minha, tudo o que o homem naturalmente conhece, posso eu também conhecer, e, como eu, se pode enganar. Se creio no que se me diz, não é porque se mo diz, mas porque se mo prova. No fundo, otestemunho dos homens não é senão o da minha razão, e em nada contribui para os conhecimentos naturais que Deus me concedeu para conhecer a verdade. Apóstolo da verdade, que me podeis dizer vós [de vossa parte], portanto, que eu não possa julgar [a partir de minha própria razão]? "Foi Deus quem falou; escutai a sua revelação!" Isso já é outra coisaMas, Deus falou? Parece-me, na verdade, um exagero. A quem falou Deus? Aos homens. Então, por que não o ouvi eu? "Porque incumbiu outros homens de vos transmitir as suas palavras." Entendo: são os homens que me devem dizer o que disse Deus... Preferiria ouvir o próprio Deus; não lhe custaria muito esforço, e ainda me preservaria contra a sedução [de falsas revelações]. "Ele vos preserva dela, manifestando-se na missão de seus enviados." Como assim? "Por meio de milagres." E onde estão esses milagres? "Nos livros." E quem fez esses livros? "Homens." E quem viu esses milagres? "Homens também, que os atestam." Oh! sempre testemunhos humanos. Homens sempre que me transmitem o que outros homens lhes transmitiram antes. Quantos homens, entre Deus e a minha pessoa! Vejamos, porém; examinemos, comparemos, verifiquemos. Ah! se Deus se dignasse dispensar-me desse trabalho, tê-lo-ia servido acaso de pior vontade?

Repara, meu amigo, em que terrível discussão me meti eu; de que imensa erudição necessito para me transportar às mais remotas antiguidades, para examinar, pesar, confrontar as profecias, as revelações, os pretensos milagres, todos os documentos de fé existentes em todos os países do mundo para designar as épocas, os lugares, os autores, as ocasiões! Que exactidão crítica não seria preciso para distinguir as peças autênticas das supostas, para comparar as objecções com as réplicas, as versões com os originais, para julgar da imparcialidade dos testemunhos, do seu bom senso, dos seus conhecimentos; para saber se nessas peças alguma coisa teria sido suprimida ou acrescentada, transposta, mudada, falsificada; para esclarecer as contradições que ainda prevalecessem, para ajuizar que valor atribuir ao silêncio dos adversários nos factos contra eles aduzidos; para averiguar se conheceram essas alegações, ou se as consideraram, realmente, dignas de uma resposta; se os livros lhes seriam realmente tão acessíveis como hoje os nossos; se houve suficiente boa-fé para permitir a circulação dos seus, bem como as suas mais fortes objecções, nos termos em que as fizeram! Reconhecida a incontestabilidade de todos esses documentos, teríamos ainda que passar a analisar qual o objectivo de seus autores; conhecer a fundo as leis do acaso, as probabilidades eventuais, para julgar se existe predição que não possa ser executada sem milagre; conhecer o génio das línguas originais a fim de distinguir nelas o que é predição das simples figuras de retórica; que factos pertencem ou não à ordem da natureza; para dizer até que ponto um homem astuto pode fascinar os olhos dos simples e ofuscar até as pessoas ilustradas; investigar a espécie dos prodígios, e que grau de autenticidade atribuir-lhes, não só para que acreditemos neles, como também para que mereça castigo quem deles duvide; comparar as provas dos verdadeiros e dos falsos prodígios, e determinar regras seguras para os discriminar; dizer, enfim, por que teria escolhido Deus, para justificar sua palavra, meios que, de per si, tanta justificação requerem, como se ele quisesse zombar da credulidade dos homens, furtando-lhes, deliberadamente, os verdadeiros meios de persuasão. [Supõem tu que um Deus infinitamente bom e sábio imporia aos pobres homens, sob pena de atroz condenação eterna, uma crença que necessitasse de tal labor intelectual para poder ser justificadamente discernida entre os erros e firmemente abraçada? A menos que esse Deus fosse inimigo da razão que ele mesmo criou e quisesse que apenas tolos e irresponsáveis se salvassem...] 

Suponhamos que a majestade divina tanto se dignasse descer até nós que convertesse um homem em órgão de suas vontades sagradas; seria razoável e justo exigir de todo o género humano obediência à voz desse ministro, sem que Deus não no-lo desse a conhecer como tal [em termos de absoluta certeza]? Seria equitativo que Deus lhe entregasse como únicas credenciais alguns signos particulares feitos na presença de um pequeno grupo de pessoas obscuras, e dos quais os outros homens não saberiam senão por ouvir dizer? Se, em todos os países do mundo, se tivessem por verdadeiros os milagres que o povo e os simples dizem ter visto, a seita de cada um desses povos seria realmente a autêntica; haveria mais milagres do que acontecimentos naturais, e o maior de todos seria que não os houvesse onde os homens fossem perseguidos. Todavia, é a ordem inalterável da natureza o que melhor nos mostra a sábia mão que a dirige; se se registrassem muitas excepções [miraculosas], não saberia o que pensar. Por minha parte, creio muito em Deus para não acreditar em tantos 'milagres' e tão poucos dignos da sua grandeza.

Se um homem nos viesse confirmar estas palavras: "Mortais, anuncio-vos a Vontade do Altíssimo, que em minha voz reconhecereis; ordeno ao sol que altere seu curso, às estrelas que formem outras constelações, às montanhas que se tornem planas, às ondas que se alteiem, à terra que mude de aspecto". Quem não reconheceria logo nessas maravilhas o árbitro da natureza! Esta não obedece aos impostores, cujos milagres se operam nas encruzilhadas, nos desertos, nos quartos fechados, onde se fascina um pequeno grupo de espectadores já predispostos a crer em tudo. Quem ousará dizer quantos testemunhos oculares são necessários para tornar um milagre digno de fé? Se os milagres, feitos para provar uma doutrina, também requerem provas, para que servem? Que adiantam? Falta, finalmente, o exame mais importante da doutrina anunciada, porque, como nos dizem que os milagres de Deus na terra são às vezes imitados pelo diabo, nada nos provam os milagres melhor testemunhados. Se os mágicos de Faraó executavam, na presença de Moisés, os mesmos sinais que este fazia por ordem expressa de Deus, por que, em sua ausência, não se atribuiríam, a igual título, à mesma fonte [isto é, ao demônio]? Verifica-se, pois, que provada a doutrina pelo milagre [o que já é muito difícil], é mister, depois, provar o milagre pela doutrina, sob o risco de se tomar a obra do demónio pela de Deus [e mesmo nesse caso, nada impede que o anjo das trevas, disfarçado em anjo de luz, apresente uma doutrina em grande parte boa, mas sedutoramente mesclada com erros.] Que pensas tu deste dialelo*? (* Nome que se dá em lógica ao argumento pelo qual se revela o círculo vicioso resultante de um raciocínio que se reduz a provar uma coisa incerta e obscura por outra que tem os mesmos defeitos, e depois esta por aquela.)

Consta isto, de modo formal, em várias passagens das próprias Escrituras, entre outras, no capítulo XIII do Deuteronômio, onde se diz que um profeta que anuncie deuses estranhos e confirme sua missão por meio de milagres, pelos quais se verifiquem as suas predições, longe de nos inspirar apreço, devemos dar-lhe morte. Não sei, pois, que objectais de sólido contra aqueles pagãos que matavam os apóstolos que lhes anunciavam um deus estranho, provando sua missão por meio de predições e milagres, que eles não pudessem objectar contra nós. Que fazer em semelhante caso? Uma coisa apenas: voltar ao raciocínio e deixar os milagres de lado. Mais valia não ter recorrido a eles. Isto é do mais elementar bom senso, que só se obscurece à força de distinções muito subtis. Subtilezas no cristianismo! Porventura, teria andado mal Jesus Cristo em prometer aos simples o reino dos céus e começar a mais bela das suas orações abençoando os pobres de espírito, quando tanto espírito se requer para entender sua doutrina e aprender a crer nela? Provai-me que me devo submeter, e estaremos de acordo; mas colocai-vos antes ao meu nível, ajustando vossos raciocínios à capacidade de um pobre de espírito. Ou então não vos reconhecerei como o verdadeiro discípulo de vosso mestre, nem verei a sua doutrina na que me anunciais.

Numa doutrina que venha de Deus deve estar impresso o sagrado carácter da Divindade, e deve esclarecer-nos, não apenas as idéias confusas que o raciocínio de seus princípios nos deixa no espírito, mas propor-nos também um culto, uma moral, e as máximas correspondentes aos atributos pelos quais concebemos a sua essência. Se ela nos ensinasse, pois, coisas absurdas e destituídas de razão, e nos inspirasse sentimentos de aversão pelos nossos semelhantes, ou de pavor, e nos apresentasse um Deus colérico, invejoso, vingativo, parcial, rancoroso para com os homens, um Deus das guerras e dos combates, sempre pronto a destruir e a fulminar, falando constantemente de tormentos e castigos, e vangloriando-se de castigar os próprios inocentes, meu coração não se deixaria atrair por esse Deus terrível, nem trocaria pela sua a religião natural [deísmo], pois que estás vendo claramente que era forçoso optar por uma das duas. Vosso Deus não é o nosso, diria eu a seus sectários. O que começa por preferir um só povo, proscrevendo o resto do género humano [mesmo que depois mude de ideia...], não é o pai de todos os homens; o que condena ao suplício eterno a maioria dos seres por ele criados não é o Deus clemente e bom de que a razão me fala.

Diz-me aquela [a razão] que os dogmas devem ser claros, luminosos, impressionantes pela sua evidênciaSe a religião natural [deísmo] é, como pretendeis, insuficiente pela obscuridade em que deixa as grandes verdades que nos ensina, caberia então à "revelação" ensinar-nos essas verdades de um modo mais acessível ao espírito humano, colocá-las ao seu alcance de modo mais direto; fazer que este as conceba com mais clareza para poder crer nelas. A verdadeira fé afirma-se-ia e fortalece-se-ia pelo entendimento; a melhor de todas as religiões seria infalivelmente a mais clara. O que rodeia de mistérios e contradições o culto que me predica, ensina-me por isso mesmo a desconfiar dele. O Deus que adoro não é o Deus das trevas; ele não me deu o entendimento para me proibir o usar dele. Exigirem que submeta a minha razão ao ininteligível, é ultrajar Quem ma concedeu. O ministro da verdade não tiraniza minha razão: ilumina-ma.

Temos deixado de parte toda a autoridade humana, e, sem ela, não sei como um homem pode convencer outro, predicando-lhe uma doutrina contrária à razão. Figuremos um breve encontro entre estes dois homens, e vejamos o que nos dizem nessa aspereza de linguagem tão comum a ambos os bandos.

inspirado:
Diz-vos a razão que o todo é maior que a parte; mas eu digo-vos, da parte de Deus, que a parte é maior que o todo.

O RACIOCINADOR:
E quem sois vós para atribuir a Deus tal contradição? E em quem devo crer: nele, que me ensina, pela razão, as verdades eternas, ou em vós, que me inculcais, em seu nome, um absurdo?

inspirado:
Em mim, porque tenho uma instrução mais positiva; e vou provar-vos insofismavelmente como sou um enviado de Deus.

O RACIOCINADOR:
Como? Sereis capaz de me provar que Deus vos envia para depor contra ele? E que espécie de provas me dais para me convencer que mais certo é Deus falar por vossa boca que pelo entendimento que me concedeu?

inspirado:
O entendimento que vos concedeu! Homem mesquinho e vão! Como se fôsseis o primeiro ímpio que se perde na razão corrompida pelo pecado!

O RACIOCINADOR:
"Homem de Deus", também não sois vós o primeiro velhaco que apresenta a arrogância como prova de sua missão!

inspirado:
O quê? Os filósofos também injuriam?

O RACIOCINADOR:
Às vezes, quando os santos lhes dão o exemplo.

inspirado:
Oh! tenho o direito de falar assim; falo da parte de Deus.

O RACIOCINADOR:
Por que não me mostrais o título, antes de usardes do privilégio?

inspirado:
Meus títulos são autênticos; a terra e os céus respondem por mim. Peço-vos que me acompanheis no raciocínio.

O RACIOCINADOR:
Vosso raciocínio! Não pensais no que dizeis. Afirmar que a razão me engana, não será refutar de antemão o que ela me possa dizer em vosso abono? Quem nega a razão deverá convencer sem recorrer a ela. Suponhamos que me convenceis com vossos argumentos; como saber se não será a minha razão corrompida pelo pecado que me faz anuir ao que me dizeis? Ou, por outra, que prova ou demonstração mais evidente me podeis apresentar que o axioma, que ela mesma destrói? Um bom silogismo, suposto que a razão nos engana, pode ser falsidade tão grande como aquilo de que a parte é maior que o todo.

inspirado:
É muito diferente! Minhas provas não admitem réplica; são de ordem sobrenatural.

O RACIOCINADOR:
Sobrenatural! Que significa essa palavra? Não a entendo.

inspirado:
Alterações na ordem da natureza, profecias, milagres, prodígios de toda a espécie.

O RACIOCINADOR:
Prodígios! Milagres! Nunca os vi.

inspirado:
Outros os viram por vós. Multidão de testemunhos… o testemunho dos povos…

O RACIOCINADOR:
O testemunho dos povos é de ordem sobrenatural?

inspirado:
Não; mas, quando unânime, não se pode contestar.

O RACIOClNADOR:
Nada há de mais incontestável que os princípios da razão, e não há testemunho humano que possa autorizar um absurdo.

inspirado:
Oh! coração empedernido! É a graça que não vos fala.

O RACIOCINADOR:
A culpa então não é minha, porque, segundo vós, devemos receber primeiro a graça, para depois invocá-la. Falai-me, pois, vós, por ela...

inspirado:
Ah! é o que estou fazendo, mas não me escutais. Que me dizeis das profecias?

O RACIOCINADOR:
Digo-vos, antes de mais nada, que tenho ouvido tantas profecias como visto milagres... Além disso, não lhes concedo a menor autoridade.

inspirado:
Satélite do demónio! E por que não lhes concedeis autoridade?

O RACIOCINADOR:
Porque, para que tivessem autoridade, seriam necessárias três coisas, cujo concurso é impossível: que eu fosse testemunha da profecia, que o fosse do acontecimento, e me fosse demonstrado que esse acontecimento não podia coincidir, por acaso [ou por pérfida premeditação], com a profecia; porque, embora esta fosse mais precisa, mais clara, mais luminosa que um axioma de geometria - o que não é, sendo antes a obscuridade na linguagem uma marca dos profetas -, a claridade de uma predição não impossibilitaria o seu cumprimento ao acaso [ou de modo pensado]; este cumprimento, ao realizar-se, portanto, nada provaria, em rigor, a favor de quem o predisse.
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Quantos países muito populosos não editam livros, nem lêem os nossos! Como julgarão as nossas opiniões? E nós, as suas? Rimo-nos deles, e eles nos desprezam; e, se nossos viajantes os ridicularizam, bastaria que viajassem entre nós para nos pagar na mesma moeda. Em que país não há "pessoas sensatas", "gente de boa-fé honrada", "amiga da verdade", que só procura conhecê-la para a abraçar? Todos a vêem em seus cultos, mas acham absurdos os cultos das outras nações: portanto, ou esses estranhos cultos não são tão extravagantes quanto nos parecem, ou a razão que no nosso vamos encontrar nada prova.

Há na Europa três religiões principais. Uma [a judaica] admite uma só revelação, a outra [a cristã], duas, e a última [a islâmica], três. Cada uma delas detesta e maldiz as outras, acusando-as de cegueira, de insensibilidade, de obstinação, de mentira. Que homem imparcial será capaz de julgá-las, sem antes ponderar devidamente as suas provas e ouvir as suas razões? A mais antiga, e parece que a mais segura, é a que admite apenas uma revelação; a que admite três é a mais moderna e parece que a mais consequente; a que admite duas, rejeitando a terceira, talvez seja a melhor, mas tem, de certo, todos os preconceitos em contra.

A inconsequência salta aos olhos. Nas três revelações, os livros sagrados estão escritos em línguas desconhecidas para os povos que as seguem. Os judeus já não entendem o hebraico; os cristãos, nem o hebraico nem o grego; os turcos e os persas não entendem o árabe; e os árabes modernos deixaram de falar a língua de Maomé. Não é um modo extravagante esse de doutrinar os homens, falando-lhes sempre numa língua que eles não entendem? Dir-se-á que esses livros estão traduzidos. Bela resposta! E quem me garante a fidelidade da tradução, ou sequer se esta era possível? E, se Deus pode falar aos homens, para que necessita de intérpretes? Nunca poderei conceber que esteja nos "livros sagrados" o que todo homem está obrigado a saber, nem que deva ser castigado por voluntária ignorância o que não está ao alcance dos livros nem das pessoas que os entendam.

Sempre "livros santos"! Que mania! Por que será que a Europa está cheia de livros santos, que os europeus consideram indispensáveis à salvação eterna, sem pensar que existem três quartas partes da terra em que jamais se viu um deles! Não foram esses livros escritos por homens? Como há-de, pois, o homem necessitar deles para conhecer suas obrigações naturais? E de que meios disporia ele para conhecer seus deveres, antes de compostos esses livros? Ou aprenderá esses deveres por si só ou está dispensado de os saber. Nossos católicos fazem grandes espaventos com a autoridade da Igreja; mas que adiantam com isso, se, para instituir essa autoridade, precisam de tão grande aparato de provas como as demais seitas para estabelecer a sua doutrina? A Igreja decide que a Igreja tem direito a decidir. Queres autoridade melhor demonstrada? E se saíres daí, cairás em todas as nossas discussões.

Conheces muitos cristãos que já se tenham dado ao trabalho de examinar cuidadosamente o que o judaísmo contra eles alega? Se alguns deles encontraram alguma coisa sobre isso, foi nos livros dos próprios cristãos. Boa maneira, não há dúvida, de averiguar as razões dos contrários! Mas, que fazer? Se alguém, entre nós, ousasse publicar um livro que favorecesse abertamente o judaísmo, seria castigado o autor, o editor o o livreiro. Nossa polícia é suficientemente cómoda e segura para ter sempre razão. É sempre agradável refutar a quem não pode se atrever a falar sem ir para a fogueira. (Diz Plutarco que os estóicos, entre outros paradoxos extravagantes, sustentavam a inutilidade de, num juízo de provas, ouvir ambas as partes, porquanto, alegavam, ou o primeiro prova o seu direito, ou não o prova; se o prova, no há mais nada a dizer, e a outra parte deve ser condenada; se não o prova, não terá razão, e deve, portanto, a acção ser denegada. Penso que o método dos que admitem uma revelação exclusiva se parece muito com o destes estóicos. Visto todos pretenderem que só eles têm razão, a todos devemos ouvir antes de decidir entre tantos bandos, sob pena de faltarmos à justiça.)

Os que conseguem falar com os judeus não adiantam muito mais. Os desgraçados sentem-se à nossa mercê! A tirania que contra eles se exerce fá-los medrosos; sabem quão pouco custa à caridade cristã a injustiça e a crueldade! Poderão acaso dizer que não correm o perigo de que brademos contra o blasfemo? A cobiça, torna-nos zelosos, e eles são muito ricos para não serem culpados... Os mais sábios e os mais esclarecidos dentre eles são sempre os mais circunspectos. Converterás algum miserável, pago para caluniar a seita a que pertence; farás falar alguns pícaros vis, que cederam para te adular; vangloriar-te-ás da sua ignorância e da sua covardia, enquanto seus doutores sorrirão em silêncio daquilo que consideram a tua estupidez.

Julgas, porém, que nos países onde se sentem seguros será fácil contar com eles? Na Sorbonne, é claro como a luz do dia que as predições do Messias se referiam a Jesus Cristo, e não é menos claro, entre os rabinos de Amsterdão, que essas predições não tinham com ele a menor relação. Nunca me convencerei de entender bem as razõesdos judeus, enquanto eles não possuam um Estado livre, escolas, universidades, onde possam falar e discutir sem risco. Só então saberemos o que eles têm a dizer.

Em Constantinopla, os turcos proclamam as suas razões, e nós não ousamos dizer as nossas, ali nos toca humilhar-nos. Se os turcos nos exigem o mesmo respeito por Maomé, em quem não cremos, que nós exigimos por Jesus Cristo aos judeus, em quem eles também não crêem, procedem mal por isso? E nós procedemos bem? Por que princípio de equidade resolver esta questão? Dois terços do género humano não são nem judeus, nem cristãos, nem maometanos; e quantos milhões de homens não ouviram nunca falar de Moisés, de Jesus Cristo, de Maomé?

Nega-se isto, porque se diz que nossos missionários andam por toda parte. Isso é fácil de dizer. Mas irão eles ao coração da África, ainda desconhecida, onde jamais penetrou nenhum europeu? Irão à Tartária, seguindo a cavalo as hordas errantes, das quais nunca estrangeiro algum se aproximou e que nunca ouviram falar do Papa, mas apenas do Grão-Lama? Irão aos imensos continentes da América, onde nações inteiras ignoram ainda que povos de outros países puseram os pés no seu? Irão ao Japão, onde, para sempre expulsos por suas artimanhas, seus predecessores são conhecidos pelas gerações que nascem como meros intrigantes astutos, que ali chegaram com zelo hipócrita para se apossarem suavemente do império? Irão aos haréns dos príncipes da Ásia anunciar os Evangelhos a milhões de escravas? Que delito cometeram as mulheres dessa parte do mundo que nenhum missionário pode lá ir pregar-lhe a fé? Irão todas parar aos infernos por viver em reclusão?

Embora o Evangelho tivesse sido anunciado em toda a terra, que provaria isso? [Uma mentira pode muito bem ser amplamente divulgada...] Na véspera do dia em que chegou o primeiro missionário a determinado país, morreu decerto alguém que não o pôde ouvir. Dize-me, pois, e esse alguém? Houvesse um só homem em todo o universo a quem não fosse pregado Jesus Cristo [sendo a fé neste necessária para a salvação], e a objeção seria tão forte para esse homem como para a quarta parte do género humano.

Quando os ministros dos Evangelhos se fizeram ouvir pelos povos longínquos, que lhes teriam dito eles que logo foi admitido, à luz da razão, sobre a sua simples palavra, e sem necessidade da mais escrupulosa verificação? "Anuncias-me um Deus nascido e morto há dois mil anos na outra extremidade do mundo, em não sei que pequena cidade, dizendo-me que os que não creiam nesse mistério se condenarão. Eis aqui coisas bastante estranhas para eu nelas crer tão rapidamente baseado na simples palavra de um homem que desconheço. Por que quis vosso Deus que esses acontecimentos se produzissem tão longe de mim e agora me obriga a que por eles me esclareça? Será crime ignorar o que se passa nos antípodas? Como posso adivinhar que existiu no outro hemisfério o povo hebreu e a cidade de Jerusalém? Seria o mesmo que me obrigassem a saber o que acontece na lua. Dizes que vieste ensinar-mo; e como não vieste antes ensiná-lo a meu pai? Ou por que condenas esse bom velho, que nunca o soube? Deve sofrer castigo eterno por causa de um desleixo teu, ele que era tão bom, tão benemérito, e andou sempre em busca da verdade? Tem um penico de boa-fé, coloca-te em meu lugare dize-me se, fiando-me apenas de teu testemunho, devo eu crer em todas as coisas incríveis que me estás dizendo, conciliando tantas injustiças com o Deus justo que me anuncias? Deixa-me ir ver, por favor, esse país distante, onde se operam tantas maravilhas singulares; quero saber por que trataram lá Deus como um facínora. Alegas que não o reconheciam como Deus. E eu, que nunca ouvira falar dele antes de chegares? Argumentarás que foram castigados, dispersos, oprimidos, escravizados, que nenhum deles se acerca da cidade. Mereceram, decerto, tudo isso; mas que dizem os habitantes de hoje do deicídio de seus predecessores? Negam-no, e também não reconhecem a Deus como Deus. Pois, para isso, preferível fora lá ter deixado os filhos dos outros. Pois que? Nem os antigos, nem os novos habitantes da cidade em que esse pretenso Deus morreu o reconhecem como tal, e queres tu que o reconheça eu, eu que nasci dois mil anos depois, e a duas mil léguas de distância? Não vês que, antes de dar crédito a esse livro, que chamas de sagrado, e do qual nada entendo, devo saber dos outros, e não apenas por ti, quando e por quem foi ele feito, como foi conservado, como chegou até ti, que razões aduzem os que em seu país o rejeitam, embora saibam, tão bem como tu, tudo o que me estás ensinando? Já vês que devo ir à Europa, à Ásia, à Palestina examinar tudo por mim; seria um louco se até então te desse ouvidos."

Não só esse raciocínio me parece razoável, mas defendo que, em semelhante caso, todo homem sensato deve falar assim, despedindo logo o missionário que, antes de verificadas as provas, pretenda catequizá-lo e baptizá-lo. Sustento que não há revelação alguma contra a qual não tenham tanta ou mais força as objecções feitas contra o cristianismo. Donde se conclui que, se há uma só religião verdadeira, que todo homem é obrigado a seguir sob pena de condenação  eterna, devemos passar a vida a estudá-las todas, a aprofundá-las, a compará-las, a percorrer os países onde se acham estabelecidas. Ninguém está isento do primeiro dever do homem, ninguém tem o direito de se fiar apenas do juízo alheio. O artesão, que não vive senão do seu trabalho, o lavrador que não sabe ler, a donzela delicada e tímida, o enfermo que mal se pode levantar da cama, todos, sem excepção, deverão estudar, meditar, discutir, viajar, percorrer o mundo; não haverá povo estável e fixo: a terra inteira estará pejada de peregrinos que, à custa de grandes despesas e longas fadigas, irão verificar, comparar, examinar directamente todos os vários cultos que se estendem por esse mundo além. Então, adeus ofícios, artes, ciências humanas, e todas as ocupações civis; já não se poderá estudar nada mais senão a religião; e só o que desfrute de melhor saúde, e melhor empregue seu tempo, faça melhor uso da razão e mais anos viva, poderá saber na velhice, e a grande custo, o que fazer; e muito terá conseguido se, antes de morrer, souber em que culto devia ter vivido.

Queres suavizar esse método e conceder alguma importância à autoridade dos homens? Devolve-lhes tudo imediatamente; e, se o filho dum cristão faz bem em seguir a religião de seu pai, sem uma análise profunda e imparcial, por que há-de fazer mal ao filho de um turco, em seguir, da mesma forma, a religião do seu? Desafio todos os intolerantes a que me dêem uma resposta capaz de satisfazer qualquer homem sensato. Compelidos por estas razões, uns preferem tornar Deus injusto, obrigando os inocentes a purgar os pecados dos pais, antes de renunciar a seu bárbaro dogma. Outros resolvem a dificuldade, enviando oficiosamente um anjo a instruir aquele que, numa invencível ignorância, tenha vivido moralmente bem. Que magnífica invenção a deste anjo! Não contentes com escravizar-nos às suas invenções, obrigam Deus a servir-se delas.

Vê, meu filho, a que absurdo o orgulho e a intolerância nos conduzem, quando nos obstinamos em nossas idéias, e julgamos ter mais razão que o resto do género humano. Que todas as minhas pesquisas foram sinceras, apelo para o testemunho de Deus; mas, vendo que não davam fruto, nem jamais dariam, e que me ia afundando num oceano sem fim, voltei atrás e limitei minha fé às minhas noções primitivas. Nunca pude conceber que Deus me ordenasse ser sábio, sob pena de me mandar para o inferno. Fechei, pois, todos os livros pretensamente sagrados. Há apenas um que se abre a todos os olhos: o da natureza. É neste grande e sublime livro que eu aprendo a adorar e a servir seu divino autor. Ninguém pode alegar que não o lê, porque fala aos homens uma língua inteligível a todas as inteligências. Tivesse eu nascido em uma ilha deserta, e jamais visto outro homem nem aprendido o que aconteceu, em tempos remotos, em certo canto do mundo, bastar-me-ia o exercício e o cultivo da minha razão, fazer bom uso das faculdades imediatas que Deus me deu para, por mim mesmo, aprender a conhecê-lo, a amá-lo, a amar suas obras, a desejar o bem que ele deseja, e a cumprir, para o comprazer, todos os meus deveres na terra. Que mais me poderá ensinar todo o saber dos homens?

No que se refere à revelação, se eu discorresse melhor ou fosse mais instruído, talvez sentisse sua verdade e utilidade para os que têm a sorte de a reconhecer; mas, se acho provas a seu favor que não posso rebater, encontro também objecções que não posso resolver. São tantas e tão sólidas as razões em pró como em contra [da revelação], e, como não sei que determinação tomar, não a admito nem rejeito; rejeito apenas a obrigação de a reconhecer, porque essa suposta obrigação é incompatível com a justiça de Deus e, em vez de remover os obstáculos no caminho da salvação, tornou-os irremovíveis para a maior parte do género humano. Exceptuando isso, mantenho-me em uma respeitosa dúvida. Não tenho a presunção de me crer infalível; talvez outros tivessem já decidido o que mo parece indeciso, mas raciocino por mim e não por eles. Não os censuro nem os imito. Seu raciocínio pode ser melhor do que o meu, mas o certo é que não é o meu, nem minha a culpa.

Confesso-vos também que a santidade do Evangelho é um argumento que me fala ao coração, e que lamentaria mesmo ter alguma objecção a fazer-lhe. Olha para os livros dos filósofos com toda a sua pompa; como eles são pequenos ao lado deste! É possível que livro tão sublime e tão simples seja obra dos homens? E que aquele, cuja história nos conta, seja apenas um homem? É esse o tom de um entusiasta ou de um sectário ambicioso? Que brandura e pureza de costumes. Que profunda sabedoria a de seus raciocínios! Que comovedora graça a de suas instruções! Que elevação a de suas máximas! Que presença de espírito, que delicadeza, que precisão a de suas respostas!Que domínio sobre suas paixões! [Nota nossa: Rousseau se esquece aqui de certas passagens do evangelho bem ruins para o vagabundo da Galileia...]

Onde está o homem, onde o sábio que saiba agir, sofrer e morrer sem fraqueza nem ostentação! Quando Platão nos pinta o seu justo imaginário [20], defendido contra o opróbrio do crime, e digno de todos os prémios da virtude, vai-nos pintando, traço a traço, a figura de Jesus Cristo; a semelhança é tão patente que todos os Padres a viram, e não é possível enganar-se. Que preconceitos e que cegueira para comparar o filho de Sofronisco com o filho de Maria! Que distância entre um e outro! Sócrates, morrendo sem dor, sem ignomínia, manteve-se bem no seu papel até ao fim; mas, se essa morte fácil não lhe tivesse glorificado a vida, quem sabe se não pensaríamos agora que Sócrates, com todo o seu talento, não passara de um sofista!

Diz-se que [Sócrates] inventou a moral; outros a praticaram antes; limitou-se apenas a dizer-nos o que eles fizeram, reduzindo a lições seus exemplos. Aristides fora justo antes de Sócrates nos dizer o que era a justiça; Leônidas morrera por seu país, antes de Sócrates nos ditar como um dever o amor da pátria; Esparta era sóbria, antes de Sócrates louvar a sobriedade; antes dele definir a virtude, abundavam na Grécia homens virtuosos. Mas aprendeu Jesus com os seus aquela moral elevada e pura de que só ele foi lição o exemplo? [21] Foi no seio do mais furioso fanatismo que emergiu a mais alta sabedoria?! E foi a simplicidade das virtudes mais heróicas honrar o mais vil dos povos?!

A morte de Sócrates, filosofando serenamente com seus amigos, é a mais doce que se pode desejar; a de Jesus, expirando entre tormentos, injuriado, escarnecido, amaldiçoado por todo um povo, a mais horrível que se pode temer. Sócrates, tomando a taça envenenada, bendiz o que, banhado em lágrimas, lha apresenta; Jesus, em meio de um suplício horroroso, ora por seus encarniçados algozes. Sim, se a vida e a morte de Sócrates são as de um sábio, a vida e a morte de Jesus são as de um Deus. [Nota nossa: A propósito, ver nosso artigo "Objeções à pretensa divindade de Jesus"]

Dir-se-á que foi inventada a história do Evangelho? Meu amigo, isso não se inventa assim; e os feitos de Sócrates, de que ninguém duvida, estão menos comprovados que os de Jesus Cristo. No fundo é furtar-se à dificuldade, sem a destruir; seria mais inconcebível que esse livro fosse fabricado por vários homens, postos de acordo, do que um só lhe fornecesse o assunto. Nunca os autores judeus teriam encontrado esse tom e essa moral, e o Evangelho apresenta [em seu aspecto meramente humano] tão grandes caracteres de verdade, tão impressionantes, tão perfeitamente inimitáveis, que a existência de um inventor seria coisa mais para assombrar que o próprio herói.

Apesar de tudo, esse mesmo Evangelho está cheio de coisas incríveis, que repugnam à razão e que nenhum homem sensato pode conceber ou admitir. Que fazer, pois, no meio de tantas contradições? Sermos sempre modestos e circunspectos, meu filho; respeitarmos em silêncio o que não sabemos repelir nem compreender, e humilhar-nos perante o grande Ser que é  o único que sabe a verdade.

Eis o cepticismo involuntário a que cheguei; mas esse cepticismo não me é de forma alguma penoso, porque não afecta os pontos essenciais na prática, visto já estar bem compenetrado dos princípios de todos os meus deveres. Sirvo a Deus na simplicidade do meu coração. Só procuro saber o que interessa à minha conduta. Quanto aos dogmas, que não influem nas acções nem na moral, mas com os quais tanta gente se atormenta, não me preocupam muito nem pouco. Considero as religiões particulares como outras tantas instituições mais ou menos salutares que decretam para cada país uma maneira uniforme de honrar a Deus por meio de um culto público, e cujas razões assentam no clima, no governo, na índole do povo, ou em qualquer outra causa local que a façam prevalecer sobre as outras, segundo as épocas e os lugares. Para mim todas [embora de origem puramente humana e convencional] são boas, contanto que sirvam a Deus convenientemente.

O culto essencial é o do coração. Deus não repele nenhuma homenagem, quando sincera, seja qual for a forma em que lha ofereçam. Chamado, na que professo, ao serviço da igreja, cumpro com a possível exactidão as funções que me estão determinadas, e condenar-me-ia a consciência se faltasse voluntariamente a alguma das suas regras.

Sabes que, depois de prolongada suspensão, obtive, por influência de M. de Mellarède, licença para reassumir o meu cargo que me ajuda a ganhar a vida [o leitor lembre-se de que é um vigário falando]Outrora dizia a missa com a vulgaridade a que a gente acaba por se habituar quando as coisas se repetem muitas vezes, mesmo as mais graves. Depois de meus novos princípios, celebro-a com a maior veneração; penetro-me da majestade do Ser Supremo, da sua presença, da insuficiência do espírito humano, que tão pouco compreende o que se relaciona com o seu autor. Pensando que lhe levo as preces do povo numa forma prescrita, observo escrupulosamente todos os ritos [embora eles não passem de meras invenções sociais e folclóricas], recito com toda a atenção, cuido de não omitir a menor palavra nem a menor cerimônia; ao aproximar-se o momento da consagração, recolho-me para a fazer com todos os preceitos exigidos pela Igreja e a grandeza do sacramento; procuro humilhar a razão perante a suprema inteligência [muito embora se trate de um mero ritual folclórico]. Quem és tu — digo a mim mesmo — para medir o poder infinito? Pronuncio com respeito as palavras sacramentais, imprimindo-lhes toda a fé de que sou capaz. Seja qual for esse mistério inconcebível, não receio ser castigado no dia do juízo por tê-lo profanado em meu coração.

Honrado com o sagrado ministério sacerdotal, embora na mais modesta das suas categorias, nada farei nem direi que me faça indigno de observar os sublimes deveres. Pregarei sempre a virtude aos homens, exortando-os a praticar o bem; e, no que de mim dependa, dar-lhes-ei o exemplo. Por mim, tornar-lhes-ei a religião agradável incutindo-lhes a fé nos dogmas realmente úteis e em que todo o homem está obrigado a crer [e que se confundem com as verdades fundamentais do Deísmo ou religião natural]; mas praza a Deus que jamais lhes pregue o dogma da intolerância, levando-os a detestar o próximo, e a dizer aos outros homens: "Estais condenados, fora da Igreja não há salvação". (O dever de seguir e amar a religião de um país não se estende aos dogmas contrários a uma sã moral, tais como o da intolerância. É esse dogma horrível que arma os homens uns contra os outros, tornando-os todos inimigos do género humano. Os próprios anjos não poderiam viver em paz com os que eles considerassem inimigos de Deus. Logo, importa, ainda que paradoxalmente, que não se permita a pregação da intolerância.)
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Se ocupasse um posto mais elevado na Igreja, esta reserva podia acarretar-me consequências, mas sou tão insignificante que nada tenho a recear, e mal posso cair mais baixo do que estou. Em qualquer hipótese, não blasfemarei contra a justiça divina, nem mentirei contra o "Espírito Santo" [seja lá o que isso for].

Durante muito tempo, ambicionei a honra de ter um curato; ainda a ambiciono, mas já não a espero. Meu bom amigo, nada há mais belo que ser pároco! O bom pároco é um ministro da bondade, como o bom magistrado um ministro da justiça. Um pároco não tem nunca necessidade de fazer mal; se não pode fazer o bem por si mesmo, está sempre no seu papel o solicitá-lo, e obtem-no geralmente, quando se faz respeitar. Oh! se me dessem nas montanhas um pobre curato de gente humilde, seria feliz, porque me parece que faria a felicidade de meus paroquianos. Não os faria ricos, mas compartilharia de sua pobreza; afastá-los-ia da desonra e do desprezo, que são mais insuportáveis que a indigência. Fa-los-ia amar a concórdia e a igualdade, que afugentam às vezes a miséria, e sempre a tornam suportável. Quando verificassem que em nada era superior a eles, e, no entanto, vivia contente, aprenderiam a conformar-se com a sua sorte e a viver  satisfeitos como eu.

Nas minhas prédicas, cingir-me-ia menos ao espírito da Igreja que ao do Evangelho, onde o dogma é simples e a moral sublime, onde se vêem poucas práticas religiosas e muitas obras de caridade. Antes de lhes ensinar o que deviam fazer, esforçar-me-ia sempre em praticá-lo, para se convencerem de que pensava tudo quanto lhes dizia.

Se houvesse protestantes nas vizinhanças ou na minha paróquia, não os distinguiria de meus verdadeiros fregueses em tudo que respeita à caridade cristã; levá-los-ia a amarem-se uns aos outros igualmente, olhando-se como irmãos, a respeitar todas as religiões, e cada um a viver na sua. Creio que exigir de alguém que abandone a religião em que nasceu, é obrigá-lo a proceder mal, e, por consequência, também não procederia bem quem lho propusesse. À espera de luzes mais claras, mantenhamos a ordem pública, respeitemos as leis de todos os países, não perturbemos os cultos nelas prescritos, não incitemos os cidadãos à desobediência; porque não estaremos nunca certos se será um bem ou um mal o que lhes predicamos, levando-os a abandonar suas opiniões por outras, mas sabemos, sim, que é um mal a desobediência às leis.

Acabo, meu jovem amigo, de te expor a minha profissão de fé, tal como Deus a lê no meu coração; és o primeiro a quem a fiz, e talvez o único a quem a farei. Enquanto houver uma boa crença entre os homens, não devemos perturbar as almas pacíficas nem sobressaltar a fé dos simples com dificuldades que não podem resolver, que os inquietam e não os esclarecem. Mas, quando tudo está abalado, cumpre-nos conservar o tronco sacrificando os ramos. As consciências agitadas, incertas, quase extintas, no estado em que se encontra a tua, precisam de quem as fortifique e acorde; e para se restabelecerem sobre a base das verdades eternas, é mister arrancar os pilares combalidos em que ainda julgam apoiar-se.

Estás nessa idade crítica em que o espírito desperta para a certeza, em que o coração adquire forma e carácter, e em que tomamos determinações para toda a vida, seja para o bem ou para o mal. Mais tarde, a substância endurece, e as impressões novas já não se gravam. Recebe, meu rapaz, na tua alma, ainda flexível, o cunho da verdade. Se eu estivesse mais seguro de mim mesmo, teria adoptado contigo um tom dogmático e decisivo; mas sou homem, ignorante, sujeito a erros, e não podia proceder de outro modo. Abri-te meu coração sem reservas: o que tenho por seguro apresentei-te como tal; as dúvidas como dúvidas, as opiniões como opiniões; dei-te as razões que tinha para duvidar e para crer. Agora, compete a ti julgar.

Pediste-me que te deixasse algum tempo; esta precaução é prudente e leva-me a formar boa ideia de ti. Começa pondo a consciência em estado de querer que a iluminem. Sê sincero contigo mesmo. De meus sentimentos, apropria-te dos que te persuadiram; abandona os restantes. Ainda não estás tão depravado pelo vício que corras o risco de escolher mal. Gostaria que conferenciássemos entre nós, mas o que discute exalta-se, a vaidade e a obstinação misturaram-se nas discussões e a boa-fé desaparece. Não discutas nunca, meu amigo, as discussões não nos trazem luz, nem a nós, nem aos outros.

Só após longos anos de intenso meditar é que tomei uma determinação, e nela me conservo. Sinto a consciência tranquila e o coração satisfeito. Se tivesse que começar de novo o exame dos meus sentimentos, não o empreenderia com mais puro amor à verdade, e meu espírito, já mais cansado, não estaria tão apto a reconhecê-la. Fico onde estou, com receio de que o prazer da contemplação, tornando-se ociosa, insensivelmente me esmoreça no exercício dos meus deveres, e eu vá cair de novo no meu anterior pirronismo, sem forças para de lá sair.

Já decorreu mais de metade da minha vida; disponho do tempo preciso para aproveitar o resto a redimir meus erros pelas virtudes. Se me enganar, não será por minha vontade. O que lê no fundo meu coração sabe bem que não me obstino na minha cegueira. Não tenho luzes próprias que dela me tirem e o único meio que se me oferece é uma vida correcta. Se das próprias pedras pôde Deus inspirar filhos a Abrão, todo o homem tem o direito a esperar esclarecimento, quando disso se tornar merecedor.

Se, por minhas reflexões, teu  pensar for como o meu, como os meus teus sentimentos e tivermos a mesma profissão de fé, eis o conselho que te dou: Não voltes a expor a vida às tentações da miséria e do desespero, não a arrastes ignominiosamente à mercê dosestranhos, deixa de comer o vil pão da esmola. Regressa à tua pátria, volta à religião de teus pais, observa-a na sinceridade de teu coração e não mais a abandones; é muito simples e santa. Creio que, entre todas as religiões que existem na terra, é aquela cuja moral é mais pura e a que mais satisfaz à razão. Não te preocupes com as despesas de viagem; eu providenciarei. Não temas tão pouco o escrúpulo de um arrependimento humilhante; devemos corar quando cometemos uma falta, mas não quando a reparamos. Ainda estás na idade em que tudo se perdoa, mas em que já não se peca impunemente.

Quando quiseres dar ouvidos à consciência, verás como mil obstáculos desaparecerão perante a sua voz. Reconhecerás que, na incerteza em que vivemos, é imperdoável presunção professar religião diferente daquela em que nascemos, e uma falsidade não praticar sinceramente a que professamos. Se nos extraviamos, perdemos uma poderosa desculpa junto do tribunal do juiz soberano. Não nos perdoaria ele mais facilmente o erro em que fomos criados que o que escolhemos por nossa conta?

Meu filho, conserva tua alma em estado de desejar que Deus exista, e jamais duvidarás de sua existência. Pensa, de resto, que, qualquer partido que tomasses, os verdadeiros deveres da religião seriam sempre independentes das instituições humanas; que um coração justo é o verdadeiro templo da Divindade; que em todos os países e em todas as seitas o amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos é a suma da lei; que não há religião que nos dispense dos deveres da moral, que são os únicos verdadeiramente essenciais; que o culto íntimo é o primeiro desses deveres, e que sem fé [em Deus] não pode haver verdadeira virtude.

Foge daqueles que, sob o pretexto de explicarem a natureza, semeiam no coração dos homens doutrinas [ateias] de desolação; seu cepticismo aparente é cem vezes mais afirmativo e dogmático que o de seus adversários. Com o arrogante pretexto de que só eles são cultos, verazes e de boa-fé, submetem-nos imperiosamente a opiniões categóricas, pretendendo apresentar-nos, como os verdadeiros princípios das coisas, sistemas ininteligíveis arquitectados pela sua imaginação. Além disso, derribando, destruindo, pisando tudo quanto os homens respeitam, tiram aos aflitos o último consolo para as suas desventuras, e aos poderosos e aos ricos o único freio para as suas paixões, arrancam-lhes do fundo do coração o remorso do crime, a esperança da virtude, vangloriando-se ainda de serem os benfeitores do género humano. Dizem que a verdade nunca prejudica os homens; também assim o creio, e é, a meu ver, uma prova decisiva de que não é verdade o que nos predicam.

Sê sincero e verídico sem orgulho, meu rapaz; aprende a ser ignorante, não te enganes a ti nem aos outros. Se um dia teu talento, cultivado, te permitir falar aos demais homens, fala-lhes pelos ditames da tua consciência, e não te confundas, embora te aplaudam. O abuso do saber gera a incredulidade. Todo o sábio desdenha a opinião vulgar; cada um deles quer ter uma para seu uso. A filosofia orgulhosa leva ao fanatismo. Evita esses excessos; permanece sempre firme no caminho da verdade, ou do que, na simplicidadedo teu coração, julgues ser a verdade, sem nunca te desviares dela por vaidade ou fraqueza. Ousa afirmar Deus entre os filósofos ateus, tanto quanto pregar a humanidade aos religiosos intolerantes(1) nota de Rousseau mais abaixo]

És o único assim do teu grupo? Talvez. Mas levarás em ti mesmo um testemunho que te dispensará o dos homens. Não importa que te amem ou odeiem, que leiam ou desprezem teus escritos. Dize sempre a verdade e pratica o bem. O que importa ao homem é cumprir seus deveres na terra, esquecendo que trabalha para si. Meu filho, o interesse próprio engana-nos; só a esperança do justo não engana nunca.
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(1) Os dois partidos atacam-se reciprocamente com tantos sofismas que seria empresa imensa e temerária rebatê-los todos; basta notar alguns à medida que se apresentem. Um dos mais frequentes no bando filosofista é opor um suposto povo de bons filósofos a outro de maus cristãos; como se um povo de verdadeiros filósofos fosse mais fácil de formar que outro de verdadeiros cristãos! Não sei qual é mais fácil de encontrar entre os indivíduos; mas sei que, tratando-se de povos, é de crer que abusem da filosofia sem religião, como os nossos da religião sem filosofia; e isto me parece mudar muito os termos da questão.

Bayle provou muito bem que o fanatismo religioso é mais pernicioso que o ateísmo, o que é incontestável, mas não nos disse, o que não é menos verdade, que o fanatismo religioso, muito embora sanguinário e cruel, não deixa de ser uma grande e forte paixão, que exalta o coração do homem e o leva a desprezar a morte, dando-lhe um prodigioso poder de iniciativa, e só bastando dirigi-la bem para se lhe extrair as melhores virtudes; ao passo que a irreligião, o espírito raciocinador e filosófico em geral, prende-nos à vida, degenera e avilta as almas, concentra todas as paixões na baixela do interesso particular, na abjecção do eu humano, minando assim, surdamente, os alicerces reais de toda a sociedade; porque o que de comum existe nos interesses privados é tão pouco que não chega para contrabalançar o que neles se opõe.

Se o ateísmo não faz derramar o sangue dos homens, não é tanto por  amor  à paz como por indiferença ao bem. Que importa ao pretenso sábio o que quer que seja, contanto que o deixem sossegado no seu gabinete? Seus princípios não provocam a morte dos homens, mas evitam o seu nascimento, destruindo os costumes que os multiplicam, desmembrando-os da espécie, reduzindo todas as suas afeições a um secreto egoísmo, tão funesto para a população como para a virtude. A indiferença filosófica parece-se com a tranquilidade do Estado sob o despotismo; é a tranquilidade da morte, mais destruidora que a própria guerra.

Ora, o fanatismo, que é mais funesto em seus efeitos imediatos que o que se chama hoje 'espírito filosófico', não o é tanto em suas consequências. Por outra parte, não é difícil fazer alarde de boas máximas nos livros; a questão é saber se estão de acordo com a doutrina [em que se baseiam] e se desta emanam precisamente. Até hoje, isto ainda não está claro.

Resta saber ainda se a filosofia, imperando a seu bel-prazer, seria capaz de governar bem a vanglória, o interesse, a ambição, as pequeninas paixões humanas, e se exerceria essa doce humanidade que ela tanto nos louva por escrito. Por seus princípios, a filosofia não pode fazer bem algum que melhor não faça a religião, e esta faz muitas coisas que a filosofia não sabe fazer. Na prática, é diferente; mas também aqui se requer uma explicação. Certo é que não há homem que observe rigorosamente a sua religião, quando a tem; como não é menos verdade que a maior parte deles não possui nenhuma e em nada imitam os que a têm. Mais verdade é ainda, porém, que alguns a têm e observam pelo menos em parte. E está fora de dúvida que os motivos da religião os constrangem às vezes de fazer mal, obtendo deles virtudes e acções louváveis, que, sem esses motivos, não fariam. Nega um frade um depósito que lhe foi confiado? Que se infere daí? Isto apenas: que foi um idiota quem lho confiou. Se fosse Pascal que o negasse, provar-se-ia somente que Pascal era um hipócrita, e nada mais. Mas um frade!...

São acaso as pessoas que traficam com a religião as que a possuem? Todos os crimes cometidos pelo clero, como, aliás, por outros, não demonstram a inutilidade da religião, mas que são poucas as pessoas que a têm. Os governos modernos devem incontestavelmente ao cristianismo uma autoridade mais sólida e que as revoluções não sejam hoje tão frequentes como outrora; comparados com os antigos, são também menos sanguinários, devido à mesma causa. A religião, melhor compreendida, afastou o fanatismo e suavizou os costumes cristãos. Não se pode dizer que esta evolução seja obra das letras, pois que nem em toda a parte onde estas brilharam a humanidade tem sido mais respeitada. E a prova são as crueldades dos atenienses, dos egípcios, dos imperadores de Roma e dos chineses. Quantas obras de misericórdia não se devem ao Evangelho! Quantas restituições e reparações entre católicos não se devem à confissão! No período da comunhão, quantas reconciliações e esmolas não se fazem entre nós! O jubileu dos hebreus não tornava os usurpadores menos sôfregos? Não prevenia tantas misérias? A fraternidade legal unia a nação inteira. Não se via um mendigo. Como não se vê agora um entre os turcos, onde as fundações piedosas são numerosas. Os turcos são, por princípio religioso, hospitaleiros, até para os inimigos do seu culto.

"Dizem os maometanos — declara Chardin — que, depois do exame que há-de seguir-se à ressurreição universal, todos os corpos passarão por uma ponte chamada Pul-Serro, construída sobre o fogo eterno, ponte que bem poderia chamar-se terceiro e último exame, de verdadeiro juízo final, porque será nela onde se faria a separação dos bons e dos maus, etc… Os persas — continua Chardin — estão tão preocupados com essa ponte que, quando um deles sofre uma injúria, de que, em tempo algum, espera alcançar reparação, seu último consolo ó gritar: "Juro por Deus vivo que mas pagarás com juros no dia do juízo final. Não passarás a ponte de Pul-Serro, se antes não me deres satisfação; agarro-me às abas de teu casaco e lanço-me às tuas pernas". Tenho conhecido muita gente eminente, e em todas as profissões, que, com medo de que os acusem na passagem dessa ponte terrível, pedem perdão aos que deles se queixam. Deu-se cem vezes comigo isso. Pessoas de posição que, à força de importunas, me levavam a fazer coisas que me contrariavam, abordavam-me tempos depois, quando julgavam que o desgosto me tinha passado, e diziam: "Peço-vos halal be con antchísra, isto é, torna-me este negócio lícito ou justo". Durante meses seguidos faziam-me presentes e prestavam serviços, pedindo-me que lhes perdoasse de todo o meu coração. Estavam convencidos de não passar a ponte do inferno se não me pagassem até à última moeda as ofensas que me haviam infligido". (Tomo VII, in-12, pág. 50).

Creio que a ideia dessa ponte, que repara tantas iniquidades, não evita alguma? Que se tirassem aos persas tal ideia, convencendo-os de que não existia Pul-Serro ou coisa semelhante, onde os oprimidos, após a morte, se vingassem dos tiranos, não ficariam completamente à vontade de não se preocuparem com acalmar esses desventurados? É, pois, prejudicial essa doutrina? E, no entanto, é a verdadeira?… Filósofo, as leis morais são excelentes; mas mostra-me nelas, por favor, a sanção. Pára um momento de delirar, e responde-me simplesmente a isto: com que queres substituir a ponte de Pul-Serro?...

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