terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Por que continuar a usar o termo "Deus" (Martin Buber)

* Algumas pessoas perguntam aos deístas por que estes continuam usando o termo "Deus", tão comum às religiões, para designarem o Princípio Primeiro do ser - Princípio este entendido de modo metafísico e não em termos antropomórficos como fazem-no tantos religiosos. Para responder a essa questão, achamos uma citação de Martin Buber que, embora imperfeita - porque mais poética do que precisa -, vem a calhar. Martin Buber (1878-1965) foi um filósofo existencialista judeu, portador de um pensamento em alguns pontos pelo menos próximo do Deísmo. Rodrigo.



"Quando censurado por ter usado o termo 'Deus' para afirmar o tu eterno, pelo fato de a palavra ter sido tão abusada através dos séculos, a tal ponto de seu uso ser quase uma blasfêmia, Buber replica:

"Sim, é a mais sobrecarregada das palavras humanas. Nenhuma outra palavra tem se tornado tão suja, tão mutilada. É exatamente por esse motivo que não posso abandoná-la. Gerações de homens colocaram a carga das suas vidas atormentadas sobre essa palavra e a sobrecarregaram até o chão; encontra-se no pó e leva as cicatrizes do peso do homem. Todos os povos, com as suas facções religiosas, rasgaram essa palavra em pedaços; mataram-se por causa dela e morreram por ela; esta palavra leva as impressões digitais e o sangue do homem. Onde poderia encontrar uma palavra semelhante para descrever o Altíssimo! Se tomássemos o conceito mais puro, mais cintilante do tesouro dos filósofos, alcançaríamos, apenas, um produto transitório do pensamento. Não conseguiríamos captar a presença daquele que as gerações humanas honraram e degradaram com sua vida e sua morte. Deveras, falar daquele que as gerações atormentadas e angustiadas querem significar é o que pretendo. Certamente, uns designam caricaturas e lhes dão a etiqueta de 'Deus'. Mas, quando todas as loucuras e desilusões se tornam pó, quando os homens se colocam face a face com Ele no escuro e não dizem mais Ele, Ele, mas sim suspiram Tu, gritam Tu, todos eles a mesma palavra, e quando acrescentam Deus, não é o Deus real que todos imploram, o único Deus vivo, o Deus dos filhos do homem? Não é Ele que os escuta? E por este motivo não é a palavra 'Deus' a palavra de apelo, a palavra que se tornou nome, consagrado em todas as línguas, por todos os tempos?"

(Trecho de História do Existencialismo e da Fenomenologia, de Thomas Ransom Giles, E.P.U., São Paulo: 1989, páginas 192-3)  

Martin Buber (1878-1965)

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