quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A História do Diabo (Vilém Flusser)

"NON SERVIAM!" 

- A HISTÓRIA DO DIABO - 


VILÉM FLUSSER 


(Introdução ao livro "A História do Diabo", do mesmo autor)

Vilém Flusser foi um filósofo agnóstico do século XX

"Já há muito quebraste o teu jugo e rompeste as tuas ataduras, e disseste: 
'Não servirei!'..." (Jr 2, 20) 


A expressão “história do diabo” tem, etimologicamente vista, raízes profundas. O termo “história” tem a ver com camadas que se sucedem uma à outra, e a língua alemã liga o termo “história” (Geschichte), com o termo “camada” (Schichte). O termo “diabo” tem a ver com o conceito de confusão, e, de maneira inquietante, com o conceito “Deus”. Mas esses acordes etimológicos que a expressão “história do diabo” evoca serão apenas registrados pelo nosso ouvido ingênuo, e aceitos sem crítica, embora com emoção, ao tentar aproximarmo-nos do príncipe das camadas inferiores. A divindade se apresenta àquele que A procura em múltiplos aspectos, de modo que por “embarras de choix” se torna Ela inalcançável. O mesmo se dá na tentativa de agarrarmos o diabo. Mas a Divindade é intemporal. Ela simplesmente é, e a correnteza dos acontecimentos transcorre alhures.
O diabo é possivelmente imortal, mas certamente surgiu em dado momento. Ele nada na correnteza do tempo, quiçá a dirige, ele é histórico no sentido estrito do termo. É possível a afirmativa de que o tempo começou com o diabo, que o seu surgir ou a sua queda representam o início do drama do tempo, e que “diabo” e “história” são os dois aspectos do mesmo processo. Assim poderíamos afirmar que a nossa tentativa de fugir do diabo é um outro aspecto da nossa tentativa de emergir da temporalidade e ingressar no reino das coisas imutáveis. Mas uma afirmativa semelhante demonstraria uma atitude negativa para com o diabo e faria com que tomassem conta de nós os preconceitos que contra ele nutrimos. Se lhe queremos fazer justiça, devemos evitar a influência da propaganda antidiabólica que há tanto tempo deturpa a sua imagem. Um príncipe que a tantos encheu de entusiasmo no decorrer da história humana, e em louvor do qual tantos enfrentaram as chamas com dedicação ardente – tantos mártires, tantas bruxas, tantos feiticeiros – um príncipe tão 'glorioso' merece que a nossa mente esteja livre de preconceitos, quando dele nos aproximamos para conhecê-lo pelo menos em parte.
Nós, os ocidentais, somos produtos de uma tradição oficial que pinta o diabo com cores negativas, a saber, como opositor de Deus. Essa tradição parece querer esgotar-se. Ultimamente poucos ocidentais têm-se dedicado à pintura do diabo. As próprias religiões parecem não ter mais o diabo no corpo. O Ocidente cala-se com respeito ao diabo, e pretende tê-lo esquecido, de acordo com a regra: “não se pense nele”. É uma atitude suspeita. Havia épocas, por exemplo os séculos treze e dezesseis, em que o tema do diabo era discutido pública e apaixonadamente. Eram épocas incômodas para o domínio do diabo. Uma breve consideração da atualidade e da história recente parece demonstrar como esse domínio consolidou-se. Essa consideração é um dos motivos deste livro.
Disse que a nossa tradição oficial concebe o diabo negativamente, como espírito sedutor, enganador e aniquilador de almas. Esses atributos diabólicos não precisam ser necessariamente valorizados de maneira negativa, já que permitem a pergunta: “qual é a justificativa do diabo no seu procedimento?” Mas, inegavelmente, esses atributos predispõem a nossa mente contra o diabo. Eles não são o ponto de partida indicado para as investigações do caráter diabólico que este livro pretende. Para conhecer os seus motivos, os seus métodos e os seus feitos, é preciso procurar por outros aspectos, mais positivos, do seu caráter. Isto não deve ser difícil, pois são tantos os seus efeitos, e tantas as suas manifestações, no mundo externo e no nosso íntimo, que as indicações abundam. Toda a sinfonia da civilização, todo o avanço da humanidade contra os limites impostos pela Divindade, toda essa luta prometéica pelo fogo da liberdade, tudo isto não passa, de certo ponto de vista, de obra majestosa do diabo. Ou do ponto de vista oposto, tudo isto não passa de ilusão criada pelo diabo. Ciência, arte e filosofia são os exemplos mais nobres dessa obra. Se considerarmos como se desenvolveram essas atividades no curso da história, e como se distanciaram do pecado original ingênuo, teremos conseguido uma primeira visão dos múltiplos aspectos positivos do caráter do diabo. 
Teremos, porém, dificuldade em distinguir, no rio enorme dos fenômenos, a influência diabólica da divina. Essa dificuldade é bem conhecida nossa. Ela forma o tema da nossa consciência, portanto da nossa vida. Proponho simplificar o problema e obviar a dificuldade no curso deste livro. Chamarei de “influência divina” tudo que tende para a superação do tempo. Chamarei de “influência diabólica” tudo aquilo que tende para a preservação do mundo no tempo. É uma simplificação, mas tem por desculpa a tradição milenar do Ocidente. O “Divino” será portanto concebido (se concebido pode ser) como aquilo que age dentro do mundo fenomenal para dissolver e salvar esse mundo, e transformá-lo em puro Ser, portanto em intemporalidade. E o diabo será concebido como aquilo que age dentro do mundo fenomenal para mantê-lo, e evitar que seja dissolvido e salvo. Do ponto de vista do puro Ser, será o “Divino” o agente criador e o “diabo” será aniquilamento. Mas do ponto de vista do nosso mundo será o “diabo” o princípio conservador, e o “divino” será, eufemisticamente falando, o fogo purificador do ferreiro. Estas considerações, por si só, já confundem os nossos conceitos tradicionais do céu e do inferno. É dever do diabo manter o mundo no tempo. Uma derrota definitiva do diabo (por inconcebível que seja) seria uma catástrofe cósmica irremediável. O mundo se dissolveria. Mas a nossa tradição nos ensina que o mundo foi criado por Deus. Começamos a perceber os motivos positivos do diabo. E os motivos divinos continuam obscuros. Já agora intuímos o fato de que o diabo é-nos muito mais próximo que o Senhor, e que seguir o diabo é muito mais cômodo e simples do que perseguir os obscuros caminhos divinos. A primeira simpatia pelo diabo esboça-se no nosso íntimo, e reconhecemos nele um espírito semelhante e talvez tão infeliz quanto o nosso. Mas devemos tomar cuidado em não exagerar essa semelhança. O diabo (na nossa concepção desse termo) conhece o seu dever, e nós duvidamos do nosso. O seu projeto é claro, e ele o realiza, especialmente na época atual, com êxito admirável. Mas nós somos “livres”, isto é, podemos tanto seguir o diabo como a divindade, e erramos, portanto, em círculos mal traçados. O progresso retilíneo é coisa do diabo. A humanidade, se progrediu, o fez graças a ele. Como seres “livres” estamos no ponto do primeiro dia. O diabo segue o seu caminho, e a história canta a glória dos seus feitos. A humanidade está tão próxima ou afastada da sua meta como Adão e Eva. É verdade que uns poucos entre nós parecem ter alcançado Deus, e outros parecem ter encontrado o caminho do inferno. Mas a grande maioria continua errando no meio. A história do diabo é a história do progresso. O nosso livro deveria ter-se chamado “evolução”, mas esse termo teria causado mal-entendidos. Evolução como história do progresso é a história do diabo. Essa evolução se processa em múltiplas camadas. Em cada uma delas age o diabo de maneira diferente. Em cada uma delas o seu progresso provoca a nossa admiração e o nosso assombro. Se escolhermos a esmo exemplos das suas obras, e contemplarmos o progresso a partir do elixir do amor até a vitamina E, ou a partir da vassoura da bruxa até o “sputinik”, teremos uma primeira visão esboçada dos métodos geniais por ele empregados.
Uma tentativa de descrever o caminho do diabo em múltiplas camadas é certamente tarefa das mais empolgantes. Não será, entretanto, o método deste livro. De passagem, apontaremos diversas fases do progresso diabólico, mas isto não será nossa meta. A nossa intenção será uma visão total do diabo. O nosso problema será, portanto, o de escolher uma torre de vigia, subi-la o melhor que pudermos e descrever a paisagem que se desfralda. Duas torres se oferecem insistentemente. A primeira chama-se “história” e comanda a paisagem seguinte: uma metamorfose de aspectos diabólicos, um seguindo o outro. Vislumbraremos, dessa torre, a grande mãe serpente, Ahriman, Prometeu, e como eles se transformam, progressivamente, naquele filósofo científico e culto que representa o diabo hoje em dia. Mas a torre da história desvenda uma paisagem enganadora. Na realidade as formas aparentemente superadas continuam ativas, e a psicologia “da profundidade” demonstra a sua vitalidade. Nas regiões mornas e obscuras do subconsciente o diabo continua agindo arquetipicamente; com efeito, é nessas regiões que se sente à vontade. Na luz mais ou menos clara da consciência despertada é que ele se metamorfoseia. A evolução do diabo e a evolução da vida são pelo menos paralelas. O réptil é perfeitamente identificável no diabo sofisticado da nossa época elegante. Uma das teses deste livro será, com efeito, a afirmativa de que a evolução da vida não passa de encarnação da evolução do diabo. O leitor que refreie a sua indignação justa. Terá oportunidade, no curso do livro, de dar vazão livre a ela. O que pretendo neste instante é apenas semear o germe da dúvida seguinte: quem está mais possesso pelo diabo, o protoplasma quase inerte das épocas imemoriais, com sua paciência humilde, ou a formiga devoradora e a humanidade especulante? A torre da história desvenda portanto uma paisagem por demais superficial para poder servir de ponto de observação deste livro. 
A segunda torre que se oferece como observatório é chamada “introspectiva”. Dela o diabo se revelará como força motriz da maioria das nossas ações e dos nossos desejos. É uma torre altamente sedutora, mas receio que se fôssemos subi-la e descrever a paisagem que se oferece à nossa visão, o presente livro não seria publicável.Devemos, portanto, recusar essas duas possibilidades e procurar por uma terceira. Felizmente ela existe, e é a própria Igreja Católica que a oferece. Recorreremos a uma velha sabedoria da Igreja como método de desenvolvimento do nosso argumento.
Essa sabedoria ensina que o diabo recorre aos chamados “sete pecados capitais” para seduzir e aniquilar nossas almas. É evidente que a Igreja, em sua propaganda antidiabólica, recorre a nomenclaturas um tanto tendenciosas ao denominar esses pecados. Chama-os de “soberba”, “avareza”, “luxúria”, “inveja”, “gula”, “ira”, e “tristeza ou preguiça”. No fundo são, no entanto, inócuos esses termos arcaicos, e facilmente substituíveis por termos neutros e modernos. É o que proponho. Soberba é consciência de si mesmo. Avareza é economia. Luxúria é instinto (ou afirmação da vida). Gula é melhora do standard de vida. Inveja é luta pela justiça social e liberdade política. Ira é recusa a aceitar as limitações impostas à vontade humana; portanto, é dignidade. Tristeza ou preguiça é o estágio alcançado pela meditação calma da filosofia. São estes, portanto, os métodos, pelo que nos ensina a Igreja, aos quais o diabo recorre em sua tentativa de eliminar a influência divina. Este livro seguirá, obediente, a classificação dos pecados. Manterá até seus nomes tradicionais, movido pelo respeito por sua idade. Mas, dada a sua disposição inicial de evitar preconceitos, não considerará esses nomes como pejorativos. Tentará, portanto, este livro dar uma descrição da evolução das armas e dos instrumentos diabólicos nos sete campos dos sete pecados. Neste sentido será histórica a sua tarefa, embora esse seja um sentido raramente empregado do termo “história”. Destarte espera este livro poder esboçar uma visão da nossa situação atual, que não é tão óbvia como o são as visões às quais estamos acostumados pela leitura de livros e revistas presentemente em voga.
É claro que os sete pecados brotam de camadas ontológicas diferentes e abrangem planos distintos. Por exemplo: economia, política e tecnologia são pecados na camada social da realidade; consciência de si mesmo, dignidade e calma filosófica são pecados que têm a ver com a realidade psicológica; instinto e afirmação da vida pecam dentro da realidade da biologia. Mas essa questão de camadas é, a despeito de todas as ontologias da filosofia tradicional, uma questão complexa. As camadas se cruzam e não admitem serem organizadas ou separadas. No fundo são, portanto, todos os sete pecados um único – são sete aspectos da mesma atitude. Todo pecado inclui os demais, e tem razão a Igreja em evitar uma hierarquização dos sete pecados. Uma alma, possessa pelo diabo pelo método biológico da luxúria, tende para a soberba no campo da psicologia e para a inveja no campo da sociedade, e as combinações possíveis de pecados ultrapassam a imaginação do comentarista. Os pecados capitais formam uma única torrente que se desfralda por baixo e por cima da humanidade para arrastá-la rumo ao progresso. Mas o presente livro se vê forçado, por motivos de método, a criar uma hierarquia de pecados.
Assim ordenados, servirão os pecados como palcos da atividade diabólica a ser descrita. Mas os pecados referem-se, todos eles, ao homem. A Igreja está interessada exclusivamente em almas humanas. Sabemos, entretanto, que a obra diabólica, como foi definido mais acima, ultrapassa de longe o mero escopo do homem. É evidente que nós também estamos interessados, principalmente, no diabo “humano”, mas uma certa honestidade intelectual exige que consideremos igualmente a atividade diabólica em campos desumanos. Essa honestidade intelectual (que pode também ser chamada de “sentido estético”) fez com que o nosso primeiro capítulo apresente um diabo pré-humano, isto é, pré-histórico do nosso ponto de vista. E esse primeiro capítulo oferece a vantagem seguinte: nele o diabo aparecerá como agente eticamente neutro, já que desinteressado do homem, o que permitirá, de nossa parte, uma contemplação isenta de preconceitos. Todos os demais capítulos estarão dedicados aos pecados “sensu stricto”, e estes estarão ordenados em hierarquia que chamarei de “pseudo-histórica”, porque copiada da imagem da história, que as chamadas ciências naturais nos oferecem. Assim será considerada a luxúria como primeiro e mais antigo dos pecados, porque é graças a ela que o diabo se encarnou na matéria morta para eliminar a divindade. A distância filosófica, aquilo portanto que a Igreja chama de “tristeza ou preguiça”, ou “dégagement”, para falarmos mais modernamente, será considerado o último e o maior dos pecados, porque denota um estágio já quase super-humano da evolução, um estágio no qual o homem se supera a si mesmo para se fundir quase inteiramente com o diabo. Os demais pecados, que formarão os temas dos capítulos intermediários, terão as suas graduações hierárquicas designadas um tanto mais casualmente. Por exemplo: a ira será considerada como conseqüência da impotência da luxúria ininterrupta. A gula é outra forma de luxúria, uma luxúria sublimada mas, dada essa sublimação, transferida para outra camada de realidade. A inveja será concebida como antítese dialética da avareza, e ambos estes pecados como conseqüências da gula. A soberba, nova mudança de camada, será considerada como virada reflexiva dos pecados sociais, portanto como “ensimesmamento”. A tristeza ou preguiça é essa virada completada, é portanto luxúria negativa, negação da vida. Luxúria e preguiça, os dois pólos no campo magnético dos pecados, são portanto antitéticos num sentido mais fundamental que inveja e avareza. E nessa tensão dialética fecha-se o círculo mágico dos pecados que este livro pretende apresentar aos leitores. Como se trata de círculo, pode ser penetrado a partir de qualquer ponto, e conduzirá sempre, embora gire, infalivelmente ao inferno. A hierarquia proposta por este livro é puramente acidental, levemente apoiada sobre a “historicidade” da natureza, e informada por preconceitos freudianos. A luxúria é tomada como ponto de partida, porque esse pecado é considerado pelos freudianos como a própria fonte da realidade. Naturalmente poderíamos ter construído o nosso círculo a partir, por exemplo, da inveja, considerada, pelos marxistas, como mola mestra da história, portanto da realidade. Teria sido um pouco diferente o percurso do livro, mas o seu resultado seria, creio, muito semelhante. Outros pecados, menos em moda atualmente, são igualmente dignos. O leitor que se contente com a nossa hierarquia “ad hoc” inventada.
No capítulo da luxúria observaremos as atividades diabólicas produtoras de vida. Será um capítulo cheio de seiva. A ira, o campo da ciência, é um tanto mais seca, mas não menos diabólica, como tentaremos demonstrar no capítulo correspondente. Daremos, em seguida, um salto ontológico para aterrissar na gula, no campo da tecnologia e do paraíso terrestre. Depois de gozados os prazeres desse tipo de inferno, prosseguiremos em nosso caminho para adentrar os prados dos dióscuros inveja-avareza, os prados da luta política e social portanto. Sem participar em demasia dessa contenda diabólica, mas não sem admirar as belezas das artimanhas do diabo nessa contenda, avançaremos rumo à soberba. Ao mencionarmos esse capítulo, sentimos os nossos pulsos mais fortes: é o capítulo das artes. Nele começará a desenhar-se, assim o esperamos, a quinta-essência do diabo, que é a beleza. Com efeito: “soberba” e “tristeza”, os dois últimos capítulos deste livro, portanto arte e filosofia, soam como termos e como palavras, com melodia diferente dos nomes dos demais pecados. Ao mencionarmos essas palavras, sentimos o poder diabólico que elas exercem. Toda a nossa energia deverá ser mobilizada para não precipitarmos o curso deste livro em direção a esses dois últimos capítulos, que nos atraem poderosamente e formam a meta deste livro em mais de um sentido. Porque “soberba” e “tristeza” são pecados do espírito e, neste sentido, talvez a meta do próprio diabo e da história da humanidade.
Este é portanto o programa deste livro, que deve ser chamado de “diabólico” não somente por seu tema, mas também pela confusão ética da qual brota, e que é uma confusão característica do momento presente. Quem o escreve, está consciente do pecado que comete ao escrevê-lo. Está igualmente consciente do pecado que cometeria em não escrevê-lo. Isto quanto ao programa. Quanto ao seu motivo já foi parcialmente mencionado. É a tentativa de esboçar a cena atual na qual o diabo parece dominar de maneira nunca dantes alcançada. Essa dominação quase inconteste abrange tanto o mundo externo como o íntimo, aquilo que era outrora chamado de “alma”. Programa e motivo foram portanto mencionados. Resta falar da intenção deste livro. Ao confessá-la, suspendemos a respiração, porque a nossa confissão equivale a uma traição da nossa máscara, até agora interposta entre nós e os leitores. Essa máscara dizia respeito à objetividade face ao diabo. A intenção deste livro não é, digamo-lo logo, objetiva. É verdade que a objetividade será um ideal que perseguiremos nas diversas partes das considerações que exporemos. Mas como um todo, não poderá ser mantida. É impossível falar-se do diabo em termos abstratos e frios. A pose, esta sim, é possível, e quiçá produtiva, mas não deixa de ser pose. No fundo, é preciso temer o diabo, e temer significa render-se ou correr com todas as forças. A terceira possibilidade seria lutar, mas será somente no final deste livro que saberemos responder, subjetivamente, se essa luta se afigura existencialmente realizável. Mas pelo menos fugir devemos poder, e esta é a intenção subjetiva deste livro; subjetiva, bem entendido, num sentido individual tanto quanto coletivo. Por que temer o diabo? Por que fugir dele? Eis os tipos de perguntas existenciais que este livro proporá explícita e implicitamente. Quem pode prever as respostas? Quem sabe do final de um livro, quando se põe a escrevê-lo?
O leitor agora conhece as dúvidas e as tensões internas que provocaram este livro. Não obstante, pedimos que arrisque conosco a viagem ao inferno. Podemos prometer-lhe que não será uma viagem dantesca. Trará, pelo contrário, tantos prazeres, ou maiores, quanto os prazeres dos céus. Que esta promessa sirva de isca, não menos diabólica por ser isca confessada...


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