terça-feira, 14 de outubro de 2014

Versos Iluministas (Fernando Pessoa)

Encontramos alguns poemas do genial Fernando Pessoa (estes sob seu heterônimo de Alberto Caeiro) que nos pareceram (embora não necessariamente ao seu autor) representar de algum modo (por mera comparação/semelhança, e não por identidade), alguns tópicos do pensamento do Iluminismo em geral, e em particular o de alguns de seus representantes e correntes no que toca à questão religiosa (uma representação apenas parcial e bem fragmentária, é fato - e em alguns pontos até mesmo por pura oposição). Temos, pois, logo abaixo, o prazer de compartilhá-los com nossos leitores e propô-los, assim, à reflexão de todos os amantes (ou inimigos) das Luzes. (Fonte que utilizamos: "Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa", seleção e organização de Frederico Barbosa, complemento literário do jornal O Globo, 1997; títulos e grifos nossos.) Rodrigo Antônio.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Um dos maiores escritores de língua portuguesa já surgidos

INTRODUÇÃO ÀS LUZES

 Num dia excessivamente nítido, 
 Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito 
 Para nele não trabalhar nada, 
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores, 
 O que talvez seja o Grande Segredo
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam. 
 ......................... 
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
 Mudo, mas não mudo muito. 
 A cor das flores não é a mesma ao sol 
 Do que quando uma nuvem passa 
 Ou quando entra a noite 
 E as flores são cor da sombra. 
 Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.  
Por isso quando pareço não concordar comigo, 
 Reparem bem para mim: 
 Se estava virado para a direita, 
 Voltei-me agora para a esquerda, 
 Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés 
– O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
 E aos meus olhos e ouvidos atentos 
 E à minha clara simplicidade de alma... 
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Passa uma borboleta por diante de mim 
 E pela primeira vez no Universo eu reparo 
 Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
 Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
 A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
 No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
 O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
 A borboleta é apenas borboleta 
 E a flor é apenas flor. 
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VOLTAIRE 
(DEÍSMO)

Pensar em Deus é desobedecer a Deus, 
Porque Deus quis que o não conhecêssemos, 
Por isso se nos não mostrou... 

Sejamos simples e calmos, 
Como os regatos e as árvores, 
E Deus amar-nos-á fazendo de nós 
Belos como as árvores e os regatos, 
E dar-nos-á verdor na sua primavera, 
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
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ESPINOZA
(PANTEÍSMO)

 Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo? 
 Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso.

 Que ideia tenho eu das cousas? 
 Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? 
 Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo? 
 Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
 E não pensar. É correr as cortinas 
 Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
 Quem está ao sol e fecha os olhos, 
 Começa a não saber o que é o sol 
 E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
 Mas abre os olhos e vê o sol, 
 E já não pode pensar em nada, 
 Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
 De todos os filósofos e de todos os poetas. 
 A luz do sol não sabe o que faz 
 E por isso não erra e é comum e boa. 

 Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? 
 A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
 A nós, que não sabemos dar por elas. 
 Mas que melhor metafísica que a delas, 
 Que é a de não saber para que vivem 
 Nem saber que o não sabem? 

 «Constituição íntima das cousas»... 
 «Sentido íntimo do Universo»... 
 Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
 É incrível que se possa pensar em cousas dessas. 
 É como pensar em razões e fins 
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
 Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. 

Pensar no sentido íntimo das cousas 
 É acrescentado, como pensar na saúde 
 Ou levar um copo à água das fontes. 

 O único sentido íntimo das cousas 
 É elas não terem sentido íntimo nenhum. 

 Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
 Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
 Sem dúvida que viria falar comigo 
 E entraria pela minha porta dentro 
 Dizendo-me, Aqui estou! 

 (Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
 De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, 
 Não compreende quem fala delas 
 Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 

 Mas se Deus é as flores e as árvores 
 E os montes e sol e o luar, 
 Então acredito nele, 
 Então acredito nele a toda a hora, 
 E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
 E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 

 Mas se Deus é as árvores e as flores 
 E os montes e o luar e o sol, 
 Para que lhe chamo eu Deus
 Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
 Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
 Sol e luar e flores e árvores e montes, 
 Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
 E luar e sol e flores, 
 É que ele quer que eu o conheça 
 Como árvores e montes e flores e luar e sol. 

E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
 Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
 Como quem abre os olhos e vê, 
 E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
 E amo-o sem pensar nele, 
 E penso-o vendo e ouvindo, 
 E ando com ele a toda a hora. 
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JEAN-JACQUES ROUSSEAU
(CRISTIANISMO [naturalista/modernista/racionalista])

 Num meio-dia de fim de primavera 
 Tive um sonho como uma fotografia. 
 Vi Jesus Cristo descer à terra. 
 Veio pela encosta de um monte 
 Tornado outra vez menino, 
 A correr e a rolar-se pela erva 
 E a arrancar flores para as deitar fora 
 E a rir de modo a ouvir-se de longe. 

 Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir 
 De segunda pessoa da Trindade
 No céu era tudo falso, tudo em desacordo 
 Com flores e árvores e pedras. 
 No céu tinha que estar sempre sério 
 E de vez em quando de se tornar outra vez homem 
 E subir para a cruz, e estar sempre a morrer 
 Com uma coroa toda à roda de espinhos 
 E os pés espetados por um prego com cabeça, 
 E até com um trapo à roda da cintura 
 Como os pretos nas ilustrações. 
 Nem sequer o deixavam ter pai e mãe 
 Como as outras crianças. 
 O seu pai era duas pessoas... 
 Um velho chamado José, que era carpinteiro, 
 E que não era pai dele; 
 E o outro pai era uma pomba estúpida, 
 A única pomba feia do mundo 
 Porque não era do mundo nem era pomba. 
 E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. 
 Não era mulher: era uma mala 
 Em que ele tinha vindo do céu. 

 E queriam que ele, que só nascera da mãe, 
 E nunca tivera pai para amar com respeito, 
 Pregasse a bondade e a justiça! 
 Um dia que Deus estava a dormir 
 E o Espírito Santo andava a voar, 
 Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. 
 Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. 
 Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. 
 Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz 
 E deixou-o pregado na cruz que há no céu 
 E serve de modelo às outras. 
 Depois fugiu para o sol 
 E desceu pelo primeiro raio que apanhou. 

 Hoje vive na minha aldeia comigo. 
 É uma criança bonita de riso e natural.
 Limpa o nariz ao braço direito, 
 Chapinha nas poças de água, 
 Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. 
 Atira pedras aos burros, 
 Rouba a fruta dos pomares 
 E foge a chorar e a gritar dos cães. 
 E, porque sabe que elas não gostam 
 E que toda a gente acha graça, 
 Corre atrás das raparigas 
 Que vão em ranchos pelas estradas 
 Com as bilhas às cabeças 
 E levanta-lhes as saias. 

 A mim ensinou-me tudo. 
 Ensinou-me a olhar para as cousas. 
 Aponta-me todas as cousas que há nas flores. 
 Mostra-me como as pedras são engraçadas 
 Quando a gente as tem na mão 
 E olha devagar para elas. 
 Diz-me muito mal de Deus. 
 Diz que ele é um velho estúpido e doente, 
 Sempre a escarrar no chão 
 E a dizer indecências. 
 A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. 
 E o Espírito Santo coça-se com o bico 
 E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. 
 Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. 
 Diz-me que Deus não percebe nada 
 Das coisas que criou 
– «Se é que ele as criou, do que duvido» – 
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória 
 Mas os seres não cantam nada. 
 Se cantassem seriam cantores. 
 Os seres existem e mais nada, 
 E por isso se chamam seres.» 

 E depois, cansado de dizer mal de Deus, 
 O Menino Jesus adormece nos meus braços 
 E eu levo-o ao colo para casa. 
 Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. 
 Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. 
 Ele é o humano que é natural, 
 Ele é o divino que sorri e que brinca. 
 E por isso é que eu sei com toda a certeza 
 Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. 

E a criança tão humana que é divina 
 É esta minha quotidiana vida de poeta, 
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, 
 E que o meu mínimo olhar 
 Me enche de sensação, 
 E o mais pequeno som, seja do que for, 
 Parece falar comigo. 
 A Criança Nova que habita onde vivo 
 Dá-me uma mão a mim 
 E a outra a tudo que existe 
 E assim vamos os três pelo caminho que houver, 
 Saltando e cantando e rindo
 E gozando o nosso segredo comum 
 Que é o de saber por toda a parte
 Que não há mistério no mundo 
 E que tudo vale a pena. 
 A Criança Eterna acompanha-me sempre. 
 A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando. 
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons 
 São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. 

 Damo-nos tão bem um com o outro 
 Na companhia de tudo 
 Que nunca pensamos um no outro, 
 Mas vivemos juntos e dois 
 Com um acordo íntimo 
 Como a mão direita e a esquerda. 
 Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas 
 No degrau da porta de casa, 
 Graves como convém a um deus e a um poeta, 
 E como se cada pedra 
 Fosse todo um universo 
 E fosse por isso um grande perigo para ela 
 Deixá-la cair no chão. 
 Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens 
 E ele sorri, porque tudo é incrível. 
 Ri dos reis e dos que não são reis, 
 E tem pena de ouvir falar das guerras, 
 E dos comércios, e dos navios 
 Que ficam fumo no ar dos altos-mares. 
 Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade 
 Que uma flor tem ao florescer 
 E que anda com a luz do sol 
 A variar os montes e os vales 
 E a fazer doer aos olhos os muros caiados. 

 Depois ele adormece e eu deito-o. 
 Levo-o ao colo para dentro de casa 
 E deito-o, despindo-o lentamente 
 E como seguindo um ritual muito limpo 
 E todo materno até ele estar nu. 
 Ele dorme dentro da minha alma 
 E às vezes acorda de noite 
 E brinca com os meus sonhos. 
 Vira uns de pernas para o ar, 
 Põe uns em cima dos outros 
 E bate as palmas sozinho 
 Sorrindo para o meu sono. 

Quando eu morrer, filhinho, 
 Seja eu a criança, o mais pequeno. 
 Pega-me tu ao colo 
 E leva-me para dentro da tua casa. 
 Despe o meu ser cansado e humano 
 E deita-me na tua cama. 
 E conta-me histórias, caso eu acorde, 
 Para eu tornar a adormecer. 
 E dá-me sonhos teus para eu brincar 
 Até que nasça qualquer dia 
 Que tu sabes qual é. 

 Esta é a história do meu Menino Jesus. 
 Por que razão que se perceba 
 Não há-de ser ela mais verdadeira 
 Que tudo quanto os filósofos pensam 
 E tudo quanto as religiões ensinam? 
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DAVID HUME e DENIS DIDEROT
(ATEÍSMO/MATERIALISMO/CETICISMO)

 O mistério das cousas, onde está ele? 
 Onde está ele que não aparece 
 Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? 
 Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? 
 E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? 
 Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, 
 Rio como um regato que soa fresco numa pedra. 

Porque o único sentido oculto das cousas 
 É elas não terem sentido oculto nenhum
 É mais estranho do que todas as estranhezas 
 E do que os sonhos de todos os poetas 
 E os pensamentos de todos os filósofos, 
 Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
 E não haja nada que compreender. 

 Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: 
– As cousas não têm significação: têm existência. 
As cousas são o único sentido oculto das cousas. 

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