terça-feira, 7 de outubro de 2014

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O DEÍSMO


PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O DEÍSMO

(Texto de Rodrigo Antônio da Silva)

# Algumas notas prévias:

* Nossas respostas às questões abaixo estão longe de serem exaustivas e completas, podendo-se certamente ampliá-las em exposições muito mais longas do que aquela aqui feita. Valem, porém, como resumos introdutórios.

* Tiramos estas questões de indagações a nós feitas por visitantes de nosso blog e por outras pessoas, além das que nós mesmos concebemos em nossas reflexões. Poder-se-iam todavia, certamente, apresentar várias outras questões além das aqui constantes.

* Nosso método para responder a estas questões consistiu em primeiramente isolar, por abstração, as proposições essenciais do Deísmo, e depois analisar os fundamentos e as consequências dessas proposições, bem como algumas correlações destas com outras vertentes.

* Perguntar com que autoridade nós nos pomos a responder a essas questões carece de sentido, porque a real autoridade na busca da verdade chama-se "raciocínio" e "argumentação". A análise substancial do que foi dito deve ter precedência sobre a curiosidade acerca de quem o disse. Ou a coisa em si é verdadeira, independentemente de quem o disse, ou mesmo a maior autoridade do autor não poderá lhe tirar o status de falsa.

* Nosso método de exposição consiste, muitas vezes, em apresentar uma verdadeira cascata de raciocínios, onde o posterior apoia-se no anterior, em séries argumentativas encadeadas com precisão milimétrica, onde até uma vírgula pode fazer diferença. Cuidado para não deslizar em nossas cascatas e perder o fio da meada, o que poderia levá-lo às conclusões mais disparatadas, além de não entender a conclusão a que nós chegamos. [Acredite, as cascatas argumentativas que usamos aqui não são ainda nada perto do que poderiam ser se abríssemos realmente em plenitude as comportas da razão. Isso nós o faremos em verdadeiros e próprios tratados exaustivos daqui a alguns anos.]

* Alertamos para a necessidade de se usar a abstração no tratamento de questões intelectuais, e não meramente a imaginação. Sobretudo em matéria de metafísica, a capacidade de abstração é o que faz toda a diferença. Lidamos com conceitos, não com objetos físicos; e nessas operações intelectuais a sutileza é mais indispensável e deve ser mais refinada do que a leveza na mão de um cirurgião.

* Ainda sobre abstração: Na abstração isolamos e substantivamos num conceito um atributo comum a objetos singulares. Quando falamos em "Deísmo" estamos nos referindo, pois, a um substantivo abstrato que designa algo existente apenas em intelectos individuais, sem existência concreta fora destes. Todavia negar que exista "o Deísmo" e dizer que tudo o que existem são "os deístas" equivale a negar a existência do objeto intelectual que estes compartilham e só pelo qual podem ser designados por um adjetivo comum. Mas se não houver um traço comum como substrato de um adjetivo comum, este se desvanecerá no nada, como puro sem-sentido. Logo, só se pode falar em "os deístas" se se puder falar também, abstratamente, de "o Deísmo".

* Uma nota aparentemente irrisória, mas necessária: se você, infelizmente, não sabe ler muito bem, se você tem dificuldades de leitura, você certamente terá sérios problemas com o entendimento de nosso texto. Pedimos, pois, insistentemente, não só a quem tenha dificuldades de leitura, mas a todos, que procurem ler com bastante atenção o texto, caso queiram de fato compreendê-lo, porque uma palavrinha mal entendida aqui e outra acolá podem, no fim, representar uma diferença enorme (por exemplo, a diferença fundamental entre uma afirmação e o seu oposto pode estar toda em um "não" ou em um "sim" no canto de uma frase; então atenção, por favor!).

* Aos que discordarem de nossas colocações, pedimos muito encarecidamente que tentem averiguar se de fato entenderam o que dissemos - e, se o caso for o de um simples não entendimento, basta nos encaminhar a sua dúvida. E se quiserem refutar nossas colocações, pedimos também que, além de um entendimento real do que dissemos, manifestem suas críticas com precisão lógica, refletindo sobre se elas são de fato impugnações válidas e suficientes do que dissemos - porque meros arranhões sentimentaloides não podem nem em hipótese passar sequer perto de uma verdadeira demonstração probatória de que estamos errados. De baboseiras relativistas e subjetivistas, por favor, poupem-nos.
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SUMÁRIO DAS QUESTÕES
1- O que é o Deísmo?
2- O que significa dizer que esta é a "essência" do Deísmo?
3- Como se chega a essa definição do Deísmo?
4- O que significa dizer que o Deísmo é uma "posição de adesão intelectual a certas proposições"?
5- Qual o significado da proposição "Há um Deus"?
6- Qual a prova da existência dessa Causa Primeira a que chamais "Deus"?
7- Mas se Deus pode existir sem causa, por que o universo não pode?
8- Há alguma alternativa para a existência de Deus?
9- O que é Deus? Qual a sua essência?
10- Você pode demonstrar a existência de algum desses atributos divinos de que fala?
11- Sendo a materialidade uma qualidade, deve-se supor então que Deus seja infinitamente material?
12- Deus é um ser pessoal ou impessoal?
13- Todos os deístas entendem tudo isso?
14- Como conciliar a Infinita Perfeição Divina com a presença do mal no mundo?
15- Existe uma Providência Divina para com o mundo?
16- Qual a relação dos seres humanos com Deus?
17- Existe uma vida após a morte?
18 - O que significa a proposição "Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens"?
19- Mas os milagres não são provas da origem divina das revelações sobrenaturais alegadas pelas religiões?
20- E se Deus se revelasse a um deísta?
21- Qual deve ser, então, a atitude de um deísta para com as religiões?
22- Mas combater e apontar como errôneas as ideias dos outros não é desrespeitá-los? Não é querer ser "dono da verdade"?
23- O que responder àqueles que, diante das atividades apologéticas de alguns deístas mais ativos, dizem que "o deísmo está virando religião", e que esses deístas "estão agindo como religiosos"?
24- Qual a diferença fundamental, então, entre o Deísmo e as religiões?
25- Qual a diferença entre Deísmo e Teísmo?
26- Existe algum ponto de contato entre Deísmo e Ateísmo?
27- O Deísmo contém alguma doutrina?
28- Podem existir variedades diferentes de Deísmo?
29- É possível elaborarem-se tratados teológicos sistemáticos com base no Deísmo?
30- Em termos históricos e organizacionais, como se descreveria o Deísmo?
31- Qual a posição do Deísmo sobre o Feminismo, o Vegetarianismo, o Abortismo, o Socialismo, o Nudismo, as Drogas, etc.?
32- E se o Deísmo estiver errado?
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1- O que é o Deísmo?
R.: O Deísmo, em si mesmo considerado (isto é, em sua essência), consiste em uma posição de adesão intelectual às seguintes duas proposições: 1) Há um Deus; 2) Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens.

2- O que significa dizer que esta é a "essência" do Deísmo?
R.: Significa que isso é o que principalmente caracteriza o Deísmo, distinguindo-o de tudo o mais. Significa que isso é o mais básico e fundamental para a caracterização daquilo que é intitulado "Deísmo". É a sua definição enfim (e uma coisa é definida precisamente por aquilo que a delimita, separando-a dos demais objetos).

3- Como se chega a essa definição do Deísmo?
R.: Sobretudo de dois modos: 1) Pela análise dos conteúdos expostos e defendidos pelos propagadores do Deísmo ao longo dos tempos, possibilitando-se atingir um núcleo basilar do pensamento destes; 2) Pela comparação entre o Deísmo e os outros objetos da mesma natureza que ele (ou seja, outras correntes de pensamento), permitindo-se assim estabelecer o diferencial específico do Deísmo.

4- O que significa dizer que o Deísmo é uma "posição de adesão intelectual a certas proposições"?
R.: Significa que o núcleo essencial do Deísmo reside na convicção pessoal a respeito de determinadas ideias. A essência do Deísmo, portanto, não reside num objeto material, nem em um ritual, nem em uma prática, nem em um sentimento, mas sim em certas ideias. Qualquer pessoa que se convença de que essas determinadas ideias são verdadeiras é, por isso mesmo e sem mais, um deísta, essencialmente falando, independentemente de tudo o mais em sua vida. Sejam lá quais forem os sentimentos de uma pessoa e sejam lá quais forem as práticas desta pessoa, se ela adere intelectualmente (ou seja, se convence) às duas proposições fundamentais do Deísmo, ela se torna um deísta, mesmo que nunca tenha nem mesmo ouvido pronunciar esta palavra. Estas duas proposições definidoras essencialmente da identidade deísta são, como dizíamos: 1) Há um Deus; 2) Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens.

5- Qual o significado da proposição "Há um Deus"?
R.: Ao dizer que "há um Deus", o Deísmo afirma a existência de uma Causa Primeira Incausada para o conjunto dos seres, uma Causa diferente destes mesmos seres (ou seja, que não se confunde com nenhum deles e nem com seu conjunto) e que constitui-se, assim, o fundamento metafísico de todo o existente, a razão suficiente (a causa explicadora) do ser em si mesmo considerado. A essa Causa Primeira damos, por mera convenção, o nome de "Deus".

6- Qual a prova da existência dessa Causa Primeira a que chamais "Deus"?
R.: A prova essencial da existência de Deus consiste numa exigência lógica apreendida da observação dos laços causais de que tudo se compõe. Ou seja: a observação da realidade manifesta-nos evidentemente uma causalidade perpassando todos os seres existentes, pelo que nenhum dos seres que conhecemos pode existir sem causa - mas para que esta série causal envolvendo todos os seres se sustente, é preciso, em termos lógicos e necessários, sob pena de absurdo, que exista uma Causa Primeira não-causada por nenhuma outra causa, e que explique assim o desencadeamento da série causal. Logo, é pelos efeitos que evidentemente observamos na realidade, que chegamos, guiados pela lógica, à conclusão, em termos de certeza absoluta, de que uma Causa Primeira Incausada existe. Como, porém, tudo o que conhecemos no universo está submetido à causalidade, segue-se que a Causa-Sem-Causa, seja lá qual for, precisa ser diferente de tudo o que conhecemos no universo (descartando-se, pois, o Panteísmo, que confunde Deus e as coisas).

7- Mas se Deus pode existir sem causa, por que o universo não pode?
R.: Porque o universo é composto de seres submetidos ao princípio de causalidade, e logo ele mesmo também precisa sê-lo, visto que um todo não pode ser substancialmente diferente das partes de que se compõe (e um ser-sem-causa embora todo composto de partes inteiramente submetidas à causalidade seria algo tão impossível, pois, por contradição essencial, como fazer um círculo desenhando realmente um quadrado). Requer-se, pois, uma Causa Primeira Incausada distinta do universo, a fim de explicar a existência deste.

8- Há alguma alternativa para a existência de Deus?
R.: Sim, o absurdo absoluto. Se não existisse um Deus, tudo o que existe seria o mais profundo e inexplicável absurdo. Nesse caso a própria lógica não passaria de ilusão. (Porque a lógica autoriza e reclama a existência de uma Causa Primeira Incausada, de natureza diferente do universo, para explicar a existência deste, já que este, sendo composto de seres causados, não pode ser de natureza incausada.) Todavia, as evidências da presença da lógica na própria constituição da realidade apontam claramente na direção de seu valor real também. (Por exemplo: num universo de existência absurda [isto é, sem lógica] coisas absurdas também deveriam acontecer com alguma frequência pelo menos; todavia em vão se procuraria um único fenômeno ontologicamente absurdo em quaisquer das coisas de que se compõem o cosmos - tudo aparece perfeitamente submetido aos princípios da lógica [bem entendidos, claro]. Logo, seria de todo gratuita uma afirmação da qual resultasse a primazia do absurdo no universo, sendo necessário, portanto, aos olhos da razão, admitir a existência de Deus.)

9- O que é Deus? Qual a sua essência?
R.: Não sabemos o Deus é em si mesmo, permanecendo a sua essência (sua deidade) um mistério natural para a nossa razão. Todavia, embora sem penetrar no âmago desse mistério, podemos, através da análise lógico-filosófica dos termos envolvidos na demonstração da existência de Deus, descobrir algumas das qualidades que ele deve necessariamente ter. E assim chegamos racionalmente à descoberta de alguns atributos de Deus - como, porém, são descobertas feitas, por assim dizer, à distância, e não um conhecimento direto, deve-se reconhecer que o mistério da deidade em si mesma considerada subsiste, tal como, numa comparação, ouvir falar sobre uma cidade é bem diferente de ir até ela e conhecê-la em si mesma.

10- Você pode demonstrar a existência de algum desses atributos divinos de que fala?
R.: Sim, posso mesmo demonstrar a existência e sublimidade perfeita de todos eles de uma só vez. Assim: todos os seres existentes são uma composição de ato potência (remeto-o a Aristóteles e seus comentadores para a explicação dessa preliminar), e todos eles estão submetidos ao princípio de causalidade precisamente por serem compostos de ato e potência. Logo Deus, tendo necessariamente de ser diferente dos seres causados, não pode ser composto de ato e potência, mas só de ato - porque se fosse composto de ato e potência estaria submetido à causalidade e a série causal não poderia ter nele seu termo primeiro, e se fosse composto só de potência seria apenas o própria nada, a própria não-existência. Portanto, Deus é Ato Puro, sem mescla alguma de potência. Mas a única forma de não se possuir potência alguma é já possuindo em ato todas as perfeições possíveis, e no mais sumo grau (porque se se restasse alguma perfeição/qualidade por adquirir, ainda se estaria em potência para alguma coisa). Em consequência, Deus, sendo Ato Puro, possui, no mais alto grau, todas as perfeições possíveis - o que significa ser infinitamente perfeito em todas as qualidades absolutas possíveis. Daí ele ser, com toda e a mais racional certeza, onipotenteoniscienteonipresenteinfinitamente bom e justoeterno, etc. E, com tudo isso, note-se que não desvendamos ainda o mistério do que a divindade é em si mesma - apenas conseguimos caracterizá-la à distância (e muito à distância mesmo, porque não conseguimos sequer imaginar o que seja, em sua íntima realidade, um Ser Incausado e Infinitamente Perfeito - e aqui surge, pois, mais um atributo de Deus: ele é sumamente Inefável, isto é, infinitamente misterioso).

11- Sendo a materialidade uma qualidade, deve-se supor então que Deus seja infinitamente material?
R.: Quando dizemos que Deus necessariamente possui todas as qualidades em sumo grau, isto se refere às qualidades boas, às perfeições, não àquilo que seja antes um defeito. Ora, a materialidade não é só é uma limitação, como é feita toda de limitações e fonte de inúmeras limitações. Ela não é má (em termos morais), mas é essencialmente limitação. Ora, um ser que fosse infinitamente limitado não seria mais do que o próprio nada. Logo Deus não pode ter entre seus atributos a materialidade, sendo antes, pelo contrário, infinitamente não-material, espiritual pois.

12- Deus é um ser pessoal ou impessoal?
R.: Sendo Deus ato-puro (como mais acima demonstramos), ele difere completamente de tudo o que conhecemos em termos antropomórficos, não devendo nem mesmo remotamente ser imaginado como "um velhinho sentado no céu". Logo, "pessoa", em termos antropomórficos, tais como os que a simploriedade de muitas pessoas imagina, é algo que não tem o menor cabimento em relação a Deus. Todavia, se por "pessoa" entendemos o conceito filosófico clássico de "sujeito primeiro de atribuição de responsabilidade intelectiva e livre por seus atos", então sim, Deus é um ser pessoal, e sumamente pessoal até, visto possuir em sumo grau tanto a inteligência quanto a liberdade (bem como qualquer outra perfeição em estado puro) - ressaltando-se mais uma vez que a pessoalidade divina (isto é, a inteligência e liberdade de Deus) não deve ser imaginada antropomorficamente, visto sua realidade ultrapassar tudo quanto conhecemos (só conhecemos perfeições finitas, e aqui trata-se de algo infinito), envolvendo-se na eminência misteriosa da própria deidade (essência divina).

13- Todos os deístas entendem tudo isso?
R.: Não, infelizmente nem todos os nossos entendem essas verdades acerca de Deus, visto não estudarem mais e melhor a Filosofia clássica. Sucede com muitos deístas algo que é também, por desgraça, um fenômeno comum nos outros sistemas de pensamento: contentam-se com um conhecimento meramente superficial da posição adotada, resultando disso graves consequências para sua própria vida intelectual e para o bom nome da própria posição, a qual pode passar a ser vista, por culpa deles, como coisa de ignorantes.

14- Como conciliar a Infinita Perfeição Divina com a presença do mal no mundo?
R.: Aquilo que é chamado de "mal" não é mais do que um fenômeno natural, decorrente da limitação das criaturas e do choque das limitações destas entre si. Para impedir que o "mal" ocorresse seria preciso que as criaturas fossem criadas em estado de perfeição, ou que fossem impedidas de se relacionarem entre si, ou que ocorressem intervenções divinas constantes para impedir que as limitações das criaturas se manifestassem e se chocassem. A nossa ordem das coisas, portanto, a ordem na qual nós existimos, só é possível se se permite que as limitações, que lhe dão o contorno definitório, subsistam. Noutros termos: se fosse para não existir mal no mundo, outras criaturas, mais perfeitas, é que deveriam existir em nosso lugar, e nós não existiríamos. Foi, pois, um gesto de bondade divina o chamar à existência essas criaturas imperfeitas que somos - no lugar de outras mais perfeitas que poderiam existir em nosso lugar e cuja existência daria muito menos margem ao mal do que a nossa. Nada obsta, porém, que antes dessa "rodada da criação" que é o nosso universo, tenham existido outros universos com outras criaturas muitos mais perfeitas e menos defectíveis/corruptíveis que nós, ou que tais universos menos expostos ao mal venham a existir após o fim do nosso. Dentre os infinitos gêneros de criaturas que Deus pode originar, em quantidades infinitas de tempo, em dimensões infinitas de espaço, nós somos apenas uma ínfima porção de criaturas menos perfeitas e por isso mais expostas ao mal, porque este é o preço essencial e necessário da existência dessas particulares essências caracterizadas por tais e tais limitações. Neste mesmo instante em que aqui falamos, porém, pode ser que outros universos, outras dimensões, totalmente diferentes da nossa e inacessíveis a nós, estejam concorrendo para a beleza do universo com um quantum de perfeição criada inimaginável para nós. Estas últimas considerações são apenas hipóteses, mas já servem para chamar-nos a atenção para o fato de que não temos nem de longe um conhecimento exaustivo e completo da criação em toda a sua extensão, que pode ser infinitamente maior e mais perfeita do que tudo o que possamos vislumbrar, e onde o "mal" que ora presenciamos seja irrisório. Não sabemos, por exemplo, se o mal que um animal sofre ao ser predado por outro aqui nesta terra, não é satisfatoriamente compensado, de algum modo, por existências menos sofridas deste mesmo ser ocorridas simultânea ou sucessivamente em ordens/dimensões criadas totalmente diferentes e estranhas umas às outras, ou de alguma outra forma. É novamente apenas mais uma hipótese, e realmente podemos levantar numerosas delas acerca do "mal" constante neste mundo, umas mais outras menos possíveis, mas todas ainda muito longe do que a Infinita Criatividade Divina pode conceber. Sem dúvida a Santidade Divina não pode ordenar ou querer positivamente nenhum mal moral, mas pode permitir passivamente que as criaturas por si mesmas o façam, dentro do limite das leis e ordenamentos estabelecidos para este universo (e para os outros, caso existam, tenham existido ou venham a existir), mas sempre visando um bem final sumamente superior às peripécias do caminho.

15- Existe uma Providência Divina para com o mundo?
R.: Novamente chamamos a atenção para a necessidade de evitarem-se antropomorfismos indevidos e de se ater à concepção estritamente metafísica de Deus. Vamos resumir as conclusões a que essa concepção permite chegar (embora 'pulando', com essa brevidade, um tratado inteiro que sobre o tema se pode escrever - e que escreveremos no futuro). Todo e qualquer ser existente possui intrinsecamente, em sua própria essência, uma relação de dependência absoluta para com Deus, o que significa que toda e qualquer criatura só existe fora do nada porque Deus é permanentemente o fundamento metafísico de sua existência, sem o que a criatura não existiria. Qualquer passagem de potência a ato está revestida, em termos absolutos e imprescindíveis, na ordem metafísica, de uma integral dependência para com Deus, Ato Puro. Mas impõe-se distinguir entre a ordem física e a ordem metafísica: se na ordem metafísica (isto é, na ordem do ser enquanto ser; favor não confundir com a ordem espiritual, que é a ordem dos seres imateriais) tudo depende imediata e completamente de Deus, na ordem física (isto é, na ordem dos seres com sua natureza já recebida e determinada) tudo ocorre mediante causas segundas, mediante as leis naturais estabelecidas para aquele conjunto de seres. Noutros termos: o ser/existência/essência das criaturas depende metafisicamente de Deus, que nessa área exerce diretamente seu 'papel' de Causa Primeira; já no ordenamento das relações das criaturas entre si dentro do universo criado, Deus age indiretamente, mediante leis naturais e causas segundas. Um exemplo: Ontem choveu. A ocorrência da chuva foi produto pura e simplesmente das leis naturais, ao mesmo tempo em que o ser da chuva (bem como de todas as criaturas) só existiu fora do nada porque recebeu a existência da origem metafísica de toda a existência: Deus. (Advertência: Este "receber", este "existir", esta "essência", referem-se a realidades sumamente abstratas; o leitor não familiarizado com a metafísica pode aqui facilmente se confundir, sobretudo se usar a imaginação no lugar da estrita abstração intelectual, e mais ainda até se supor que aqui esteja sendo dito algo de "místico" ou "sobrenatural". Daí a necessidade rigorosa e absoluta de estudar intensamente a metafísica, principalmente para os que se interessam pelo tema "Deus" e correlatos.) Em conclusão: há uma Perfeitíssima Providência Divina para com as criaturas: na ordem metafísica, provendo imediata e diretamente as essências-existenciais que constituem os seres criados (o que não significa nem implica nenhuma 'intervenção' divina, mas apenas uma sustentação divina incessante, de índole metafísica, e não sobrenatural); e na ordem física, regendo o universo através do próprio universo, ou seja, mediante as leis naturais e causas segundas (agindo estas de modo positivamente querido por Deus, autor da natureza, ou apenas passivamente permitido por ele).

16- Qual a relação dos seres humanos com Deus?
R.: Pelo atributo da Justiça Infinita, Deus precisa necessariamente, em primeiro lugar, tratar a si mesmo como sabe que é essencialmente digno de ser tratado, concedendo à Sua mesma natureza divina a glória que esta merece (não é vaidade: é auto-justiça), e por isso Deus não pode ter outro fim último e supremo em suas ações a não ser a Sua própria glória. Logo, se Ele cria o universo, é para Sua glória que o cria. Os homens, portanto, também não foram criados por Deus senão para aumentar a glória deste - a glória extrínseca subtenda-se, porque a glória intrínseca é aquela que Ele encontra em si mesmo, sendo absolutamente feliz em si mesmo e independentemente de tudo o mais. A glória extrínseca nada aumenta à glória intrínseca, mas constitui-se um outro gênero de glória, infinitamente menos precioso, mas que não podia faltar como manifestação externa e criada (simbólica, digamos assim) daquilo que Deus em si mesmo desfruta. A principal maneira pela qual as criaturas concorrem assim para a maior glória (extrínseca) de Deus, é pela pura e simples participação analógica em Seus atributos, ou seja, pelo simples fato de refletirem alguma semelhança com algum atributo divino, as criaturas já estão glorificando a Deus, visto constituírem-se, assim, como que espelhos onde a Divindade contempla deliciosamente o reflexo ontológico de suas perfeições. No caso de criaturas dotadas de inteligência e liberdade, como é o caso do ser humano, Deus tem também o direito a esperar que essas criaturas concorram para a sua glória não apenas do modo automático e instantâneo pelo qual as criaturas irracionais o fazem simplesmente existindo, mas de modo livre e refletido, buscando deliberadamente refletir as perfeições divinas em seus atos livres, o que significa o exercício natural das virtudes. Essa é a glória essencial que Deus tem direito a receber dos homens: que estes sejam bons, que estes evitem cometer o mal, que estes busquem aperfeiçoar-se a si mesmos em sua conduta, em sua inteligência, em seu caráter, em sua vida física, etc. Perfeição Humana Natural - esse é o fim próximo, o objetivo direto da vida humana metafisicamente considerada, e a Glória Divina é o objetivo indireto e fim último desta mesma vida, objetivo e fim a ser alcançado mediante a referida perfeição natural. É certamente muito bom que o homem agradeça a Deus pelos benefícios deste recebido, bem como O louve/elogie pela Sua perfeição infinita e mesmo Lhe faça preces (a serem atendidas mediante causas segundas, e não por meio de intervenções extraordinárias), mas nada disso passa sequer perto do valor substancial e fundamental do exercício das virtudes naturais, como busca da perfeição natural. (Bem se vê, pois, que a glória de Deus, tal como apontada pela Filosofia, difere bastante do que as religiões parecem imaginar...)

17- Existe uma vida após a morte?
R.: É perfeitamente possível demonstrar, filosoficamente, que o ser humano é uma criatura material e espiritual - podendo, pois, esse elemento espiritual do homem subsistir naturalmente após a dissolução do elemento material (morte). Fora isso, é necessário reconhecer que não sabemos em termos de certeza o que realmente ocorre após a morte (mas sabendo como Deus é criativo podemos esperar de tudo e nada nos deve surpreender...). Parece provável, porém, que, sendo a perfeição natural o sentido da vida humana, também um estado de felicidade natural perpétua seja a consumação/coroação dos esforços em prol desta, ao passo que purificações e novos exercícios no caminho da perfeição seriam convenientes para os que morreram sem ter atingido o ideal natural para que foram criados. Uma consequência prática que dessa reflexão podemos tirar é a de darmos muito valor à busca da perfeição natural durante estes dias de nossa vida terrestre, de modo a que possamos, ao morrer, ter progredido o máximo possível, reduzindo assim nossa necessidade de novos aperfeiçoamentos. (Vislumbra-se aqui, portanto, também a alta conveniência de estudos de ascética natural, para se compreender melhor o bem a ser feito e o mal a ser evitado em ordem à perfeição natural do homem. Nós já estamos preparando escritos nesse sentido.)

18 - O que significa a proposição "Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens"?
R.: Por "revelação divina sobrenatural" se entende uma comunicação de ensinamentos feita diretamente pelo próprio Deus aos homens para serem cridos e seguidos por estes. Via de regra são as diferentes religiões que alegam terem sido agraciadas com alguma "revelação divina sobrenatural" e serem, por conseguinte, portadoras de ordens/ensinamentos oriundos do próprio Deus para os seres humanos - os judeus, por exemplo, crêem que Deus falou com Abraão, com Moisés e os Profetas, revelando-lhes coisas para eles e seu povo seguirem; os cristãos crêem nessa revelação judaica, acrescentando-lhe o que Jesus, visto por eles como "deus encarnado", ensinou; os maometanos, por sua vez, crêem que Deus falou com Maomé através de um anjo; os espíritas crêem que Deus fala com eles através de manifestações de espíritos desencarnados; e etc. Aqui é que o Deísmo se separa essencialmente das religiões, ao não acreditar na veracidade de nenhuma dessas pretensas revelações. (E esse é, juntamente com a defesa da existência de Deus, o traço mais característico e fundamental para a identidade deísta: com efeito, um verdadeiro deísta que negasse a existência de Deus ou acreditasse em alguma pretensa revelação divina sobrenatural seria algo impossível, por contradição intrínseca - tal como é impossível um "círculo quadrado".) Todavia, se o Deísmo é essencialmente uma defesa da existência de Deus acompanhada de uma descrença para com as pretensas revelações divinas sobrenaturais alegadas pelas religiões, isso não ocorre gratuitamente: a existência da Causa Primeira Incausada é afirmada porque pode ser provada e demonstrada (demonstração lógico-filosófica, não empírica), ao passo que as pretensas revelações divinas sobrenaturais carecem de provas que demonstrem satisfatoriamente a sua veracidade, além de conterem frequentemente vários pontos doutrinais dificilmente conciliáveis com a absoluta perfeição dos atributos divinos - por exemplo, as maldades que o Antigo Testamento diz que Deus ordenou ou aprovou àquele povo não parecem nenhum pouco em consonância com a Bondade e Santidade Divina, que pode até permitir o mal, mas não pode ordená-lo nem aprová-lo sem manchar-se. Mas admitir a pretensa revelação divina alegada nesse caso pelos judeus incluiria crer que Deus fez isso, o que é metafisicamente impossível. E também na doutrina proposta pelas outras pretensas revelações divinas encontramos facilmente problemas sérios - mas mesmo sem estes problemas doutrinários (e veja bem: a questão não é possuir uma doutrina, mas sim possuir uma doutrina errônea, uma doutrina que argumentativamente podemos mostrar como errônea), as tais revelações não deveriam ser cridas porque carecem de provas válidas e suficientes de sua autenticidade (ou seja, provas de que são realmente comunicações de origem divina). Não é que Deus, em princípio, não possa, se quiser, comunicar alguma coisa aos homens; em tese isso é possível; mas, na prática, provas indubitáveis precisariam confirmar a origem divina dessa revelação antes dela ser aceita como tal, e isso além do pré-requisito de a tal comunicação não conter nada que seja contraditório à Perfeição Divina, porque se o contiver, só por isso já pode ser descartada como falsa, visto que Deus não pode ser autor de um ensino ou ordem que contradiga a perfeição de algum de seus atributos divinos. Concretamente, porém, nenhuma das pretensas revelações divinas sobrenaturais alegadas preenche essas condições (como a análise dos pretensos casos de revelação o demonstra), e nenhuma delas, portanto, pode ou deve ser aceita como verdadeira.

19- Mas os milagres não são provas da origem divina das revelações sobrenaturais alegadas pelas religiões?
R.: Para que um milagre (isto é, um fenômeno extraordinário, que supera pelo menos aparentemente as forças conhecidas da natureza) pudesse ser considerado como um selo divino de aprovação dado à doutrina pretensamente revelada que uma religião prega, seria preciso demonstrar a origem divina do próprio milagre, visto que, como é logicamente óbvio, um selo de autenticidade duvidosa não pode ser usado como garantia confiável da veracidade de algo (o que é duvidoso não pode conferir positivamente o status de certo). Ora, como confirmaríamos, em termos de certeza, a origem realmente divina de um milagre? Mesmo descontando fraudes humanas e tendo a ocorrência do fenômeno sido inteiramente comprovada, o fato é que não conhecemos exaustivamente a criação, e pode ser, pois, que existam criaturas sumamente diferentes daquelas que estamos acostumados a conhecer, e que sejam elas (ou alguma delas ao menos) que, porventura estejam agindo no fenômeno em questão. Nesse caso, é claro que uma criatura de natureza diferente das criaturas por nós conhecidas poderia muito bem produzir fenômenos não explicáveis com os conhecimentos naturais de que dispomos. Logo, não podemos garantir a origem realmente divina de nenhum milagre, visto que o fenômeno em discussão sempre pode ser efeito da ação de alguma criatura - e se Deus não pode pôr selos de aprovação sobre o erro, uma criatura o pode. Nada, absolutamente nada, obsta que a Criatividade Divina tenha criado seres não-feitos de matéria, seres puramente espirituais - e ousamos até mesmo chamar a atenção para o fato de que, se vemos fenômenos extraordinários ('milagres') ocorrendo em favor de erros doutrinários (um erro filosoficamente identificável, como por exemplo uma pretensa ordem divina incompatível com a Perfeição Divina, o que é metafisicamente impossível), podemos ver nisso um indício claro de que tais criaturas singulares não apenas existem como estão em ação no caso... (Dizemos tudo isso com base puramente em raciocínios, sem nenhum apelo a qualquer espécie de "fé".) Os milagres são pois essencialmente dúbios, de origem questionável, e não podem, em consequência, de modo algum nos dar a certeza da autenticidade divina das doutrinas pretensamente reveladas que as religiões "milagreiras" apresentam. E se os próprios milagres não podem nos dar essa confirmação certeira de uma pretensa revelação divina, o que o poderá então? Eventuais bons frutos da pretensa revelação? Mas estes são facilmente explicáveis de modo psicológico e mesmo social, não requerendo uma intervenção divina para ocorrerem e não podendo pois ser sinal algum de que uma "revelação divina" com certeza ocorreu. Urge, pois, admitir que, embora em princípio uma revelação de origem diretamente divina possa ocorrer, na prática nós não teríamos como distingui-la e reconhecê-la em termos de certeza. Como consequência, parece válido pensar que Deus, sabendo dessa impossibilidade radical de ter suas comunicações certificadas no mundo presente, por certo não há de querer fazê-las da forma extraordinária (sobrenatural) que as religiões alegam, mas restringir-se-á a falar indiretamente com os homens através da natureza e da razão, que são as únicas formas seguras de conhecimento de que dispomos nesta vida. Quem quiser conhecer a "palavra de Deus", portanto, esqueça o misticismo religioso e volte-se para as Ciências e para a Filosofia...

20- E se Deus se revelasse a um deísta?
R.: E como esse deísta confirmaria a origem realmente divina dessa sua pretensa revelação particular? Valem as mesmas objeções acima apontadas. É melhor que ele procure um psiquiatra...

21- Qual deve ser, então, a atitude de um deísta para com as religiões?
R.: Considerando-se que as diferentes religiões ensinam erros aos seres humanos, e considerando-se que a caridade que devemos ter para com os outros nos deve levar a não gostar nenhum pouco de vê-los sendo enganados (ainda mais quando o engano pode prejudicá-los concretamente em várias áreas), fica evidente que, em termos práticos, o deísta possui a obrigação ética de combater os erros das religiões, pois do contrário estaria omitindo-se no socorro intelectual de seus semelhantes enganados. Como ele fará isso é algo que pode variar muito de deísta para deísta, dado que os meios legítimos para se combater esses erros são vários, indo desde o enfrentamento teórico direto na polêmica apologética, até o simples gesto de dar exemplos concretos, nas ações do dia a dia, que contradigam os erros religiosos. (Nós do blog Luz e Calor optamos, como é claro, amplamente, pelo uso da polêmica...) Isso não quer dizer que se deva tratar mal as pessoas religiosas - importa muito distinguir entre pessoas e ideias. Combatemos as ideias que, mediante a análise racional-argumentativa, descobrimos errôneas; mas não as pessoas que eventualmente sejam portadoras dessas ideias. É por isso que, embora certas ideias dos religiosos estejam erradas, as suas religiões não devem ser proibidas - porque assim se violaria o direito à liberdade de pensamento e expressão que os seres humanos merecem ter, mesmo quando fazem um mal uso de seu pensamento e da expressão deste, defendendo erros. As pessoas possuem o direito a pensar o que quiserem, mesmo o erro, sem serem proibidas disso; mas isso não dispensa os que enxergam o erro de tentarem esclarecer os outros para que livremente mudem de ideia e, deixando voluntariamente o erro, abracem a verdade. E vale lembrar também que nem tudo é erro nas religiões: há várias coisas aceitáveis nestas; estes pontos positivos, é claro, merecem apoio e podem, inclusive, conforme o caso, ser aproveitados pelos deístas. (A Filosofia de São Tomás de Aquino e de seus comentadores/continuadores, por exemplo, parece, desde que a purguemos dos elementos propriamente religiosos [isto é, dependentes de uma 'revelação divina'], sumamente apropriada para os estudos deístas acerca de Deus e dos demais temas metafísicos.)

22- Mas combater e apontar como errôneas as ideias dos outros não é desrespeitá-los? Não é querer ser "dono da verdade"?
R.: Certamente o respeito pelo próximo e a humildade intelectual são ótimas atitudes, e o zelo pelo exercício delas é louvável. Todavia, há também um falso respeito pelo próximo e uma falsa humildade intelectual que urge desmascararmos. Com efeito, o respeito pelo próximo não deve ser confundido com a omissão em ajudá-lo, e nem a humildade intelectual deve ser confundida com hipocrisia e desamor à verdade. Se vemos alguém sendo enganado e sendo prejudicado por esse engano, como haveríamos de considerar um desrespeito esclarecer e alertar essa pessoa? E se temos algum conhecimento que podemos transmitir ao próximo, porque haveríamos de nos calar, omissamente? Ora, conhecer a veracidade de "X é Y" equivale a conhecer que "X não é Y" é um erro; bem se vê, pois, que todo conhecimento efetivo da veracidade de uma proposição qualquer traz consigo, intrinsecamente, o conhecimento da falsidade da proposição oposta; logo uma transmissão do conhecimento sem a reprovação dos erros opostos à verdade conhecida, seria uma contradição. E do fato de não conhecermos todas as verdades sobre tudo, não se segue que não conheçamos algumas verdades acerca de algo: logo, mesmo sem sermos de modo algum oniscientes (porque "dono da verdade" só poderia significar onisciência), podemos e devemos reconhecer que sabemos aquilo que argumentativamente se prova que sabemos, e isso que sabemos, transmitamos, ensinando o que é verdade, e reprovando/refutando o que é errôneo. Não se deve confundir Deísmo com relativismo...

23- O que responder àqueles que, diante das atividades apologistas de alguns deístas mais ativos, dizem que "o deísmo está virando religião", e que esses deístas "estão agindo como religiosos"?
R.: Às pessoas confusas que dizem isso, podemos responder que a oposição do Deísmo às religiões é sobretudo por causa do conteúdo doutrinário destas, e não tanto por suas formas, donde podermos, às vezes, coincidir aparentemente em forma mesmo divergindo profundamente em conteúdo. (Há, sim, formas/procedimentos religiosos viciados por ideias também errôneas, como, por exemplo, a exploração financeira de dizimistas com base em falsas promessas divinas; mas as formas/procedimentos religiosos que forem aceitáveis não temos porque as rechaçar.)

24- Qual a diferença fundamental, então, entre o Deísmo e as religiões?
R.: As religiões se baseiam em pretensas revelações divinas sobrenaturais, em pretensos saberes místicos, ao passo que o Deísmo se baseia unicamente na luz natural da razão, apelando apenas para raciocínios e argumentos e para o que estes possibilitarem conhecer. (As religiões também se baseiam, em parte, em raciocínios e argumentos, mas apenas em parte, visto que, por causa de sua fé numa revelação sobrenatural, aceitam e pregam muitas coisas além do que a simples razão poderia demonstrar. E se não aceitamos essas coisas não é por mero capricho, mas porque, como mais acima explicamos, por um lado não vemos provas suficientes da veracidade delas, e por outro vemos indícios positivos de que são de origem não-divina.)

25- Qual a diferença entre Deísmo e Teísmo?
R.: "Teísmo" é um termo de maior abrangência do que Deísmo, referindo-se à aceitação da existência de uma divindade, quaisquer que sejam as características dessa aceitação. Assim, por exemplo, cristãos são teístas, panteístas são teístas, judeus são teístas, satanistas são teístas, maometanos são teístas, umbandistas são teístas, hindus são teístas, deístas são teístas, etc. Em termos lógicos, Teísmo é o gênero, dentro do qual o Deísmo é uma espécie, tendo por diferença específica a não-crença em nenhuma revelação sobrenatural. (Lembre-se da Biologia: o gênero X com as espécies Y, M, J, etc, cada qual com suas peculiaridades.) A única forma de não ser "teísta" é dizendo que não existe nenhuma divindade. Em comum com os outros teístas, portanto, o Deísmo possui a defesa da existência de um Deus; e a diferença entre o Deísmo e as outras espécies de teísmos, está em que o Deísmo não crê em nenhuma revelação sobrenatural. Então, pode-se dizer que a identidade lógica do Deísmo expressa-se assim: "Gênero: Teísmo; Espécie: Deísmo; Diferença Específica: Não-Crença em Revelações Sobrenaturais".

26- Existe algum ponto de contato entre Deísmo e Ateísmo?
R.: Se entre as Religiões e o Ateísmo não existe nenhuma semelhança fundamental, entre o Deísmo e o Ateísmo existe, sim, um ponto de contato que tem permitido tradicionalmente, ao longo de séculos, a mútua colaboração entre deístas e ateus, a saber: a não-crença em revelações sobrenaturais e a valorização do conhecimento puramente racional. Tanto deístas quanto ateus rejeitam os pretensos saberes místicos alegados pelas religiões, e valorizam imensamente os saberes racionais da Filosofia e da Ciência. Tanto deístas quanto ateus defendem também tradicionalmente a laicidade do Estado, postulam a razão no lugar de qualquer "fé" e defendem os valores humanos contra pretensas "exigências divinas" duvidosas. Por isso é comum ver deístas e ateus interagindo cordialmente, quase esquecidos da diferença essencial entre as suas duas posições teóricas (Há um Deus versus Não Há Nenhum Deus), que sempre subsiste, apesar das semelhanças em outros pontos. Já com os religiosos não é possível, ou pelo menos não é fácil, que os deístas mantenham essa parceria, visto que, a discordância entre o Deísmo e as Religiões é muito maior do que entre ele e o Ateísmo. Considere-se isso: De 100 afirmações atéias, os deístas rejeitarão uma (a de que "Não há um Deus") e possivelmente aceitarão todas as outras 99, por serem puramente racionais; já de 100 afirmações religiosas, os deístas aceitarão uma (a de que "Há um Deus") e possivelmente rejeitarão todas as outras 99, por serem estas dependentes de pretensas revelações sobrenaturais em que os deístas não acreditam. A balança deísta pende pois, por assim dizer, inevitavelmente, para uma amizade com os ateus e para um confronto (intelectual) com os religiosos.

27- O Deísmo contém alguma doutrina?
R.: "Doutrina" é apenas outra nome para "teoria" ou "exposição teórica", podendo, pois, falar-se na "doutrina de Euclides sobre geometria", na "doutrina de Platão sobre o mundo das ideias", na "doutrina de Aristóteles sobre ato e potência", na "doutrina de Newton sobre a gravidade", na "doutrina de Darwin sobre a evolução", etc. Assim sendo, vê-se claramente que o Deísmo não apenas 'contém' uma doutrina, como de fato é, essencialmente, em si mesmo considerado, uma doutrina, ou seja, uma teoria, uma ideia, uma exposição teórica acerca de Deus. Em seu núcleo fundamental a doutrina deísta, isto é, a teoria deísta, é constituída de dois postulados que resumem em si muita coisa (1- Há um Deus; 2- Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens), e que por isso mesmo podem, legitimamente, ser desenvolvidos em exposições mais amplas, as quais: A) demonstrem as razões para se postular tais afirmações; B) precisem e expliquem o conteúdo das mesmas; C) extraiam as consequências latentes nesses princípios; e D) respondam às objeções que se lhes possam levantar. Logo, mesmo de um núcleo doutrinário (teórico) bastante simples e resumido, é possível e mesmo necessário chegar-se a exposições teóricas bastante desenvolvidas. Como é óbvio, a doutrina deísta (a teoria deísta) difere muitíssimo em conteúdo das doutrinas (teorias) religiosas, visto que estas apelam para crenças místicas, ao passo que o Deísmo se contenta com raciocínios.

28- Podem existir variedades diferentes de Deísmo?
R.: A necessidade de se identificar um núcleo básico e fundamental da identidade teórica deísta (que é o que fizemos aqui desde o começo, ao apontar as duas proposições centrais do Deísmo) fica mais evidente especialmente quando se percebe que diferentes correntes de pensamento podem aparecer como variantes dessa identidade. Uma vez tendo bem claro o que é o núcleo teórico essencial do Deísmo, já não se poderá recusar o reconhecimento como deístas àqueles que, embora concordando com esse núcleo teórico essencial, desenvolvem-no de maneira diferente, seja apoiando as proposições fundamentais em outras razões, seja extraindo outras consequências dessas proposições e princípios. É perfeitamente possível, pois, uma concordância no essencial, acompanhada de discordâncias no acidental e acessório. Assim, por exemplo, no Catolicismo, as diferentes escolas teológicas do tomismo e do escotismo concordam na mesma fé, mas desenvolvem de modo bastante diferente os princípios dessa fé comum (não poderiam, porém, se reconhecerem nessa fé comum, se os princípios básicos desta não fossem aceitos pelas duas escolas). Ninguém pode ser um deísta sem reconhecer a existência de Deus - como ele chegará a essa afirmação e que consequências lhe dará, isso pode variar. Ninguém pode ser um deísta se crê em alguma pretensa revelação divina sobrenatural - como ele chegará a essa conclusão e que consequências extrairá dela, isso pode variar. (E quando falamos aqui em "pode" ou "não pode", não estamos nos referindo a qualquer "burocracia", mas sim às exigências essenciais da identidade deísta em si mesma considerada. Um círculo não pode ser um quadrado não porque alguém o proíba, mas porque a definição essencial da coisa intrinsecamente não comporta isso - embora comporte outras variações menores, tais como o círculo ser verde ou ser amarelo, ser pequeno ou grande, ser móvel ou fixo, etc.)

29- É possível elaborarem-se tratados teológicos sistemáticos com base no Deísmo?
R.: Sim, isso é perfeitamente possível. Partindo-se dos dois postulados fundamentais do Deísmo (1- Há um Deus; 2- Não há nenhuma revelação divina sobrenatural feita aos homens), pode-se elaborar verdadeiros e próprios tratados teológicos sistemáticos, constituindo-se desenvolvimentos metódicos dos princípios e proposições deístas básicas. Seria preciso, para tanto, que esses desenvolvimentos: A) demonstrassem as razões para se postular as proposições essenciais ao Deísmo; B) precisassem e explicassem o conteúdo das mesmas; C) extraíssem as consequências latentes nesses princípios; e D) respondessem às objeções que se lhes possam levantar. Seria, sem dúvida, uma teologia natural bastante diferente, em conteúdo, da teologia sobrenaturalista dos religiosos, mas não por isso menos sistemática e precisa. (Nós, do blog Luz e Calor, estamos desenvolvendo pesquisas para a composição de tratados teológicos nesse sentido, que esperamos publicar daqui a alguns anos.)

François-Marie Arouet (Voltaire)

30- Em termos históricos e organizacionais, como se descreveria o Deísmo?
R.: Em termos históricos, o Deísmo surgiu na Europa, no século XVII, no momento em que alguns pensadores e filósofos chegaram à conclusão de que, embora a existência de Deus seja uma verdade racional demonstrável, as pretensas revelações divinas sobrenaturais alegadas pelas religiões carecem do apoio real da razão, visto não serem demonstradas com provas válidas por um lado, e por outro conterem pontos altamente questionáveis em seus ensinamentos, dificilmente conciliáveis com uma imagem racional de Deus (que é a única capaz de se sustentar racionalmente). Ninguém sabe com certeza quem foi de fato o primeiro a expor ideias nesse sentido, mesmo porque, naquela época, a coisa parece ter surgido simultaneamente em várias mentes independentes, como uma espécie de "insight" coletivo. Em seguida, o Deísmo foi amplamente divulgado no apogeu do Iluminismo europeu, especialmente pelo pensador francês François-Marie Arouet (Voltaire). Duas desgraças históricas, contudo, vieram a prejudicar imensamente a propagação do Deísmo de fins do século XVIII em diante: 1) A Revolução Francesa, na qual alguns deístas insanos (Robespierre e Marat) tentaram impor o Deísmo à força na França, praticando violências horrendas, que contrariavam em tudo o que Voltaire havia defendido em seus escritos, e que mancharam enormemente a reputação dos deístas, tornando o Deísmo particularmente odioso aos olhos dos sobreviventes da Revolução. 2) O movimento filosófico-literário do Romantismo, por sua vez, dissolvendo a racionalidade em sentimentalismo e substituindo a valorização objetiva da verdade por meros subjetivismos, criou um ambiente profundamente hostil à próprio essência do Deísmo, que é a de uma posição racional de adesão intelectual a certas proposições que estabelecem, em termos de certeza, a existência de Deus e a não-credibilidade (falsidade) das religiões. A consequência da soma histórica de Revolução Francesa com Romantismo foi uma onda generalizada, do século XIX para cá, de ateísmo materialismo por um lado, e misticismo religioso por outro, como praticamente nunca se havia visto antes. A situação, hoje, é diferente, mais ainda pesam sobre nós as consequências desse passado. Em meio a tudo isso, o Deísmo, após o apogeu do Iluminismo, se manteve e se mantém como uma posição minoritária - embora sua validade teórica, vale dizer, independa do número de seus adeptos. A amizade clássica entre ateus e deístas se mantém; a rivalidade clássica entre ateus e religiosos também; e as variações entre os próprios deístas em torno a questões acessórias, embora aderindo a um núcleo teórico básico, igualmente permanece.
Em termos organizacionais, os deístas tradicionalmente têm preferido antes a atividade individual do que coletiva, razão pela qual dificilmente se encontram grupos de deístas se reunindo com frequência. É provável que essa opção individualista dos deístas seja motivada por um desejo de acentuar e evidenciar a diferença entre o Deísmo e as religiões: com efeito, se houvessem sedes deístas com reuniões periódicas, aos olhos das pessoas, sobretudo as pouco instruídas, o Deísmo passaria apenas por mais uma religião entre as já milhares de religiões existentes. A opção organizacional individualista torna-se conveniente ao Deísmo, pois, em virtude das circunstâncias - e não por princípio, visto que teoricamente nada impede os deístas de se reunirem se o quiserem.

31- Qual a posição do Deísmo sobre o Feminismo, o Vegetarianismo, o Abortismo, o Socialismo, o Nudismo, as Drogas, etc.?
R.: Em si mesmo o Deísmo é uma posição teórica a respeito de Deus, expressa, essencialmente, nas duas proposições básicas que vimos comentando. Teorias nas quais não esteja implicada a existência de Deus ou uma alegação de revelação sobrenatural, são extrínsecas ao território do Deísmo em si mesmo considerado e não são abordadas pelo seu repertório intelectual. Os deístas podem, como indivíduos, adotar ou não essas outras posições, mas em si mesmas elas são indiferentes ao Deísmo propriamente dito (embora nos desenvolvimentos do núcleo teórico deste possam ser encontradas referências a elas, dada a abrangência potencial do desdobramento dos princípios em suas consequências e correlações).

32- E se o Deísmo estiver errado?
R.: Para se refutar o Deísmo seria preciso: 1) Provar que Deus não existe; ou 2) Provar a veracidade e origem propriamente divina de alguma revelação sobrenatural. Nenhuma dessas duas coisas é muito fácil... Todavia, se a posição deísta estiver errada quanto à questão "Deus", isto é, se Deus não existir, segue-se disso que os deístas, como todos os homens, cairão puramente no nada ao morrerem, não tendo consequência alguma a recear verdadeiramente. E se a posição deísta estiver errada quanto à questão "revelação divina", então os deístas certamente poderão esperar que Deus compreenda o seu mal-entendido e os perdoe por terem se enganado não por maldade, mas por mero equívoco. Nos dois casos, portanto, ainda que o Deísmo estivesse errado, os deístas não teriam nada de demasiado grave a recear - embora, é claro, estar em erro seja sempre uma situação não-amável. Até agora, porém, o mundo ainda não conheceu nenhuma refutação efetiva e suficiente das duas proposições fundamentais do Deísmo. Caso você queira tentar, boa sorte. Estamos sempre disponíveis a receber qualquer tentativa de refutação - afinal, tudo o que menos queremos é estar em erro sem o saber. Avante pois. E viva a verdade!

3 comentários em “PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O DEÍSMO”

  • 29 de outubro de 2014 21:44
    Allison Disse:

    Eu sempre tive um pensamento diferente sobre Deus. Lendo alguns artigos sobre Deísmo, estou surpreso como pode haver coincidências. Eu queria saber, algumas leituras recomendadas para me aprofundar no assunto e até mesmo para conhecer mais.

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  • 5 de novembro de 2014 09:17

    Oi Allison! Aqui você encontrará algumas indicações/sugestões de leituras:
    http://luzecalor.blogspot.com.br/2014/05/espiritualidade-deista-e-indicacao-de.html

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  • 8 de dezembro de 2016 23:42
    Arthur Disse:

    O que o deísmo diria a respeito daquela frase:"sobrevivi a 3 tiros,isso foi graças a Deus"?

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