quarta-feira, 4 de junho de 2014

O jardim dos caminhos que se bifurcam (Jorge Luís Borges)


Na página 22 da História da Guerra da Europa, de Liddell Hart, lê-se que uma ofensiva de treze divisões britânicas (apoiadas por mil e quatrocentas peças de artilharia) contra a linha Serre-Montauban tinha sido planeada para o dia vinte e quatro de Julho de 1916 e teve de se adiar para a manhã do dia vinte e nove. Foram as chuvas torrenciais (anota o capitão Liddell Hart) que provocaram esse atraso - nada significativo, certamente.

A declaração seguinte, ditada, revista e assinada pelo doutor Yu Tsun, antigo catedrático de inglês na Hochschule de Tsingtao, lança uma insuspeitada luz sobre o caso. Faltam as duas páginas iniciais: «... e apanhei o tubo. Imediatamente a seguir, reconheci a voz que respondera em alemão. Era a do capitão Richard Madden. Madden, no apartamento de Viktor Runeberg, significava o fim das nossas ansiedades e - mas isto parecia muito secundário, ou devia parecer-mo - também das nossas vidas. Queria dizer que Runeberg fora preso, ou assassinado.

Antes que se pusesse o sol desse dia, eu incorreria na mesma sorte. Madden era implacável. Melhor dizendo, era obrigado a ser implacável. Irlandês às ordens da Inglaterra, homem acusado de moleza e talvez até de traição, como não iria abraçar e agradecer este milagroso favor: a descoberta, a captura e quiçá a morte, de dois agentes do Império Alemão?

Subi ao meu quarto; absurdamente fechei a porta à chave e deitei-me de costas na estreita cama de ferro. Na janela viam-se os telhados de sempre e o sol nublado das seis. Pareceu-me incrível que este dia sem premonições nem símbolos fosse o da minha morte implacável. Apesar de ter morrido o meu pai, apesar de eu ter passado a infância num simétrico jardim de Hai Feng, ia morrer agora?

Depois reflecti que todas as coisas sucedem a uma pessoa precisamente agora. Passam séculos e séculos e só no presente acontecem os factos; há inúmeros homens no ar, na terra e no mar, e tudo o que realmente sucede, sucede-me a mim...

A quase intolerável lembrança do rosto cavalar de Madden aboliu estas divagações. A meio do meu ódio e do meu terror (agora não me interessa falar de terror: agora que enganei Richard Madden, agora que a minha garganta anseia pela corda) pensei que esse guerreiro tumultuoso e sem dúvida feliz não suspeitava que eu possuía o Segredo. O nome do lugar preciso do novo parque de artilharia britânico sobre o Ancre.

Uma ave rasgou o céu pardo e cegamente traduzi-o por um aeroplano e esse aeroplano por muitos (no céu francês) aniquilando o parque de artilharia com bombas verticais. Se a minha boca, antes que a desfizesse uma bala, pudesse gritar o nome de modo que o ouvissem na Alemanha... A minha voz humana era muito fraca. Como fazê-la chegar ao ouvido do Chefe? Ao ouvido daquele homem doente e odioso, que de Runeberg e de mim só sabia que estávamos em Staffordshire e que em vão esperava notícias nossas no seu árido gabinete de Berlim, a examinar infinitamente os jornais...

Disse em voz alta: «Tenho de fugir». Levantei-me sem ruído, numa inútil perfeição de silêncio, como se já estivesse sob a mira de Madden. Uma coisa - talvez a simples ostentação de provar que os meus recursos eram nulos - fez-me revistar os bolsos. Encontrei o que sabia que iria encontrar. O relógio norte-americano, a corrente de níquel e a moeda quadrangular, o porta-chaves com as comprometedoras chaves inúteis do apartamento de Runeberg, a caderneta, uma carta que resolvi destruir imediatamente (e que não destruí), o passaporte falso, uma coroa, dois xelins e uns pence, o lápis azul-vermelho, o lenço, o revólver com uma bala. Absurdamente empunhei-o e sopesei-o para me dar coragem. Pensei vagamente que um tiro se pode ouvir muito longe.

Em dez minutos o meu plano amadureceu. A lista telefónica deu-me o nome da única pessoa capaz de transmitir a notícia: vivia num subúrbio de Fenton, a menos de meia hora de comboio.

Sou um covarde. Digo-o agora, agora que levei a bom termo um plano que ninguém qualificará de arriscado. Eu sei que foi terrível a sua execução. Não o fiz pela Alemanha, não. Nada me importa um país bárbaro que me obrigou à abjecção de me tornar espião. Além disso, conheço um homem de Inglaterra - um homem modesto - que para mim não é menos que Goethe. Não falei com ele mais de uma hora, mas durante uma hora foi Goethe... Fi-lo porque sentia que o Chefe tinha pouca consideração pela gente da minha raça - pelos inúmeros antepassados que em mim confluem. Queria provar-lhe que um amarelo podia salvar os seus exércitos. Além disso, tinha de fugir do capitão. As suas mãos e a sua voz podiam bater à minha porta a qualquer momento.

Vesti-me sem ruído, disse-me adeus ao espelho, desci, espiolhei a rua tranquila e saí. A estação não ficava muito longe de casa, mas achei preferível apanhar um carro. Argumentei que assim corria menos perigo de ser reconhecido; o facto é que na rua deserta me sentia visível e vulnerável, infinitamente. Lembro-me de ter dito ao motorista que parasse um pouco antes da entrada central.

Saí do carro com lentidão voluntária e quase penosa; ia à aldeia de Ashgrove, mas tirei bilhete para uma estação mais longe. O comboio saía daí a pouquíssimos minutos, às oito e cinquenta. Apressei-me; o seguinte partiria às nove e meia. Não havia quase ninguém na gare.

Percorri as carruagens: lembro-me de uns lavradores, uma mulher de luto, um jovem que lia com fervor os Anais de Tácito, um soldado ferido e feliz. O comboio partiu finalmente.

Um homem que reconheci correu em vão até ao limite da plataforma. Era o capitão Richard Madden. Aniquilado, trémulo, encolhi-me na outra ponta do banco, longe do temido vidro da janela. Desta aniquilação passei a uma felicidade quase abjecta. Disse para comigo que já estava metido no duelo e que ganhara o primeiro assalto, ao enganar, nem que fosse por quarenta minutos, nem que fosse por um favor do acaso, o ataque do meu adversário. Argumentei que esta vitória mínima anunciava a vitória total.

Concluí que não era mínima, dado que sem essa diferença preciosa que o horário dos comboios me oferecia, eu estaria na prisão, ou morto. Argumentei (de modo não menos sofístico) que a minha covarde felicidade provava que eu era homem capaz de levar a aventura a bom termo. Desta fraqueza tirei forças que não me abandonaram.

Prevejo que o homem se há-de resignar dia a dia a empresas cada vez mais atrozes; em breve não haverá senão guerreiros e bandidos; dou-Lhes este conselho: O executor de uma empresa atroz tem de imaginar que já a cumpriu, tem de se impor um futuro que seja irrevogável como o passado.

Assim procedi eu, enquanto os meus olhos de homem já morto registravam o fluir daquele dia que era talvez o último, e a noite a espalhar-se.

O comboio corria com doçura, por entre freixos. Parou, quase no meio do campo. Ninguém gritou o nome da estação. Ashgrove? perguntei, a uns rapazitos na gare. Ashgrove, responderam. Saí. Uma lâmpada iluminava a gare, mas as caras dos miúdos ficavam na zona de sombra. Um interrogou-me: «Vai a casa do doutor Stephen Albert?» Sem esperar por resposta, outro disse: «A casa fica longe daqui, mas não se perde se for por esse caminho à esquerda e em cada encruzilhada do caminho virar à esquerda.» Atirei-lhes uma moeda (a última), desci uns degraus de pedra e entrei no solitário caminho.

Este, lentamente, era a descer. Era de terra elementar, por cima dele juntavam-se os ramos, e a lua baixa e circular parecia acompanhar-me. Por um instante, pensei que Richard Madden tinha de qualquer modo penetrado no meu desesperado desígnio. Em breve compreendi que era impossível. O conselho de virar sempre à esquerda fez-me lembrar que tal era o procedimento comum para descobrir o pátio central de certos labirintos. 

Alguma coisa percebo de labirintos: não é em vão que sou bisneto daquele Tsui Pên que foi governador de Yunan e que renunciou ao poder temporal para escrever um romance que fosse ainda mais populoso que o Hung Lu Meng e para edificar um labirinto em que se perdessem todos os homens. Treze anos dedicou a estes heterogéneos esforços, mas a mão de um forasteiro assassinou-o e o seu romance não fazia sentido e ninguém encontrou o labirinto.

Foi debaixo de árvores inglesas que meditei nesse labirinto perdido: imaginei-o infinito, não já de quiosques oitavados e de caminhos em voltas, mas de rios e províncias e reinos... Pensei num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abrangesse o passado e o porvir e que implicasse de algum modo os astros. 

Absorto nestas ilusórias imagens, esqueci-me do meu destino de perseguido. Senti-me, por um tempo indeterminado, conhecedor abstracto do mundo. O campo vago e vivo, a Lua, os restos da tarde,agiram sobre mim; igualmente o declive que eliminava qualquer possibilidade de cansaço. A tarde estava íntima, infinita. O caminho descia e bifurcava-se, por entre os prados já confusos. Uma música aguda e como que silábica aproximava-se e afastava-se no vaivém do vento, enfraquecida pelas folhas e pela distância. Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país: não de pirilampos, palavras, jardins, cursos de água, poentes.

Cheguei assim a um alto portão enferrujado. Por entre as grades decifrei uma alameda e uma espécie de pavilhão. Compreendi logo duas coisas, a primeira trivial, a segunda quase incrível: a música vinha do pavilhão, e a música era chinesa. Por isso, eu aceitara-a plenamente, sem lhe prestar atenção.

Não me lembro se havia uma sineta ou uma campainha ou se chamei batendo as palmas. O chispar da música prosseguiu. Mas do fundo da casa íntima aproximava-se uma lanterna: uma lanterna que os troncos riscavam e às vezes anulavam, uma lanterna de papel, que tinha a forma dos tambores e a cor da Lua. Trazia-a um homem alto. Não lhe vi o rosto, porque me cegava a luz. Abriu o portão e disse lentamente na minha língua:

- Vejo que o piedoso Hsi Pêng se empenha em atenuar a minha solidão. Sem dúvida quererá ver o jardim?

Reconheci o nome de um dos nossos cônsules e repeti desconcertado:

- O jardim?

O jardim dos caminhos que se bifurcam.

Algo se agitou na minha memória e pronunciei com incompreensível segurança:

- O jardim do meu antepassado Tsui Pên.

- Seu antepassado? Seu ilustre antepassado? Avante.

O úmido caminho ziguezagueava como os da minha infância. Chegámos a uma biblioteca de livros orientais e ocidentais. Reconheci, encadernados a seda amarela, alguns tomos manuscritos da Enciclopédia Perdida que dirigiu o Terceiro Imperador da Dinastia Luminosa e que nunca foi dada ao prelo. O disco do gramofone rodava junto de uma fénix de bronze. Lembro-me também de um jarrão da família cor-de-rosa e de outro, anterior de muitos séculos, dessa cor azul que os nossos artífices copiaram dos tapeceiros da Pérsia...

Stephen Albert observava-me, sorridente. Era (já o disse) muito alto, de feições afiladas, de olhos pardos e barba grisalha. Havia nele algo de sacerdote e também de marinheiro; depois contou-me que fora missionário em Tientsin "antes de aspirar a sinólogo".

Sentámo-nos; eu num baixo e comprido divã; ele de costas para a janela e para um alto relógio circular. Calculei que não menos de uma hora demoraria a chegar o meu perseguidor, Richard Madden. A minha determinação irrevogável podia esperar.

- Espantoso destino o de Tsui Pên - disse Stephen Albert. – Governador da sua província natal, douto em astronomia, em astrologia e na interpretação infatigável dos livros canónicos, xadrezista, famoso poeta e calígrafo: tudo abandonou para compor um livro e um labirinto. Renunciou aos prazeres da opressão, da justiça, do numeroso leito, dos banquetes e até da erudição e enclausurou-se durante treze anos no Pavilhão da Límpida Solidão. À sua morte, os herdeiros não encontraram senão manuscritos caóticos. A família, como porventura não ignora, quis entregá-los ao fogo; mas o seu executor testamentário - um monge taoísta ou budista - insistiu na publicação.

- Nós do sangue de Tsui Pên - repliquei - continuamos a execrar esse monge. A publicação foi insensata. O livro é um acervo indeciso de rascunhos contraditórios. Examinei-o umas vezes: no terceiro capítulo morre o herói, no quarto está vivo. Quanto à outra empresa de Tsui Pên, ao seu Labirinto...

- O Labirinto está aqui - disse apontando-me uma alta escrivaninha lacada.

- Um labirinto de marfim! - exclamei. - Um labirinto mínimo...

Um labirinto de símbolos - corrigiu. - Um invisível labirinto de tempo. A mim, bárbaro inglês, foi dado revelar esse mistério diáfano. Ao fim de mais de cem anos, os pormenores são irrecuperáveis, mas não é difícil conjecturar o que sucedeu. Tsui Pên teria dito uma vez: «Retiro-me para escrever um livro». E outra: «Retiro-me para construir um labirinto». Todos imaginaram duas obras; ninguém pensou que o livro e o labirinto eram um único objecto. O Pavilhão da Límpida Solidão erguia-se no centro de um jardim talvez intrincado; o facto pode ter sugerido aos homens um labirinto físico. Tsui Pên morreu; ninguém, nas amplas terras que foram suas, deu com o labirinto; a confusão do romance sugeriu-me que era esse o labirinto. Houve duas circunstâncias que me deram a correcta solução do problema. Uma: a curiosa lenda de que Tsui Pên se propusera um labirinto que fosse rigorosamente infinito. Outra: um fragmento de uma carta que descobri.

Albert levantou-se. Por uns instantes, virou-me as costas: abriu uma gaveta da áurea e enegrecida escrivaninha. Voltou com um papel que fora carmesim; agora um rosado e ténue quadriculado. Era justa a fama caligráfica de Tsui Pên. Li com incompreensão e fervor estas palavras que com minucioso pincel redigiu um homem do meu sangue: «Deixo aos vários porvires (não a todos) o meu jardim dos caminhos que se bifurcam».

Devolvi a folha em silêncio. Albert prosseguiu:

- Antes de exumar esta carta, eu perguntara-me de que maneira pode um livro ser infinito. Não conjecturei outro procedimento senão o de um volume cíclico, circular. Um volume cuja última página fosse idêntica à primeira, com a possibilidade de continuar indefinidamente. Lembrei-me também da noite que está no centro das Mil e Uma Noites, quando a rainha Xerezade (por uma mágica distracção do copista) se põe a reflectir textualmente a história das "Mil e Uma Noites", com o risco de chegar outra vez à noite em que a refere, e assim por diante até ao infinito. Imaginei também uma obra platónica, hereditária, transmitida de pais para filhos, em que cada novo indivíduo acrescentasse um capítulo ou corrigisse com piedoso cuidado a página dos antepassados. Estas conjecturas distraíram-me; mas nenhuma parecia corresponder, nem sequer de um modo longínquo, aos contraditórios capítulos de Tsui Pên. No meio desta perplexidade, enviaram-me de Oxford o manuscrito que você acabou de examinar. Detive-me, como é natural, na frase: «Deixo aos vários porvires (não a todos) o meu jardim dos caminhos que se bifurcam». Quase de imediato compreendi; o jardim dos caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários porvires (não a todos) sugeriu-me a imagem da bifurcação no tempo, e não no espaço. A releitura geral da obra confirmou esta teoria. Em todas as ficções, sempre que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Tsui Pên, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos porvires, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Daí as contradições do romance. Fang, digamos, tem um segredo, um desconhecido bate à sua porta, Fang resolve matá-lo. Naturalmente, há vários desenlaces possíveis. Fang pode matar o intruso, o intruso pode matar Fang, ambos podem salvar-se, ambos podem morrer, etc. Na obra de Tsui Pên, acontecem todos os desenlaces; cada um é o ponto de partida de outras bifurcações. Alguma vez os caminhos desse labirinto hão-de convergir: por exemplo, você chega a esta casa, mas num dos passados possíveis você é meu inimigo, noutro meu amigo. Se se resignar à minha pronúncia incurável, leremos umas páginas.

O seu rosto, no vivo círculo da lâmpada, era sem dúvida o de um velho, mas com algo de inabalável e até de imortal. Leu com lenta precisão duas redacções de um mesmo capítulo épico. Na primeira, um exército marcha para uma batalha através de uma montanha deserta; o horror das pedras e da sombra fá-lo desprezar a vida e consegue com facilidade a vitória; na segunda, o mesmo exército atravessa um palácio em que há uma festa; a resplandecente batalha parece-lhes uma continuação da festa e conseguem a vitória. Eu ouvia com decente veneração estas velhas ficções, porventura menos admiráveis que o facto de as ter ideado o meu sangue e de um homem de um império longínquo mas restituir, no decorrer de uma desesperada aventura, numa ilha ocidental. Lembro-me das palavras finais, repetidas em cada redacção como um mandamento secreto: «Assim combateram os heróis, tranquilo o admirável coração, violenta a espada, resignados a matar e a morrer».

A partir desse instante, senti à minha volta e no meu obscuro corpo uma invisível e intangível palpitação. Não a palpitação dos divergentes, paralelos e finalmente coalescentes exércitos, mas uma agitação mais inacessível, mais íntima e que eles de certo modo prefiguravam.

Stephen Albert prosseguiu:

- Não creio que o seu ilustre antepassado jogasse ociosamente com as variações. Não acho verosímil que tenha sacrificado treze anos à infinita execução de uma experiência retórica. No seu país, o romance é um género subalterno; naquele tempo era um género desprezível. Tsui Pên foi um romancista genial, mas também foi um homem de letras que sem dúvida não se considerou apenas um simples romancista. O testemunho dos seus contemporâneos proclama - e sobejamente o confirma a sua vida - os seus gostos metafísicos e místicos. A controvérsia filosófica usurpa boa parte do romance. Sei que de todos os problemas, nenhum outro o inquietou e o trabalhou tanto como o abismal problema do tempo. Ora bem, é esse o único problema que não figura nas páginas do "Jardim". Nem sequer usa a palavra que significa tempo. Como explica você esta voluntária omissão?

Propus várias soluções; todas insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:

- Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida? 

Reflecti um momento e respondi:

- A palavra xadrez.

- Precisamente - disse Albert. - O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme adivinha, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que preferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável romance, o oblíquo Tsui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros que a negligência dos copistas introduziu, conjecturei o plano desse caos, julguei estabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira: resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Tsui Pên. Ao contrário de Newton e de Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe você e eu não; noutros, eu, e não você; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; noutro, você, ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.

- Em todos - articulei não sem um tremor - eu agradeço e venero a sua recriação do jardim de Tsui Pên.

- Não em todos - murmurou com um sorriso. - O tempo bifurca-se perpetuamente na direcção de inúmeros futuros. Num deles sou seu inimigo.

Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o úmido jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e multiformes noutras dimensões do tempo.

Levantei os olhos e o ténue pesadelo dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão Richard Madden.

- O futuro já existe - respondi -, mas eu sou seu amigo.

- Posso examinar outra vez a carta?

Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com extremo cuidado: Albert tombou sem um ai, imediatamente. Juro que a sua morte foi instantânea: uma fulminação. O resto é irreal, insignificante.

Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui condenado à forca.

Abominavelmente ganhei: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li-o nos mesmos jornais que propuseram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun.

O Chefe decifrou este enigma. Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha inenarrável contrição e cansaço.

0 comentários em “O jardim dos caminhos que se bifurcam (Jorge Luís Borges)”

Postar um comentário

 

[U.B.D] União Brasileira dos Deístas Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger