sexta-feira, 30 de maio de 2014

Vida de Voltaire

# Reproduzo abaixo um texto escrito por mim há dois anos; desde então venho pesquisando várias outras fontes biográficas acerca de Voltaire e com o tempo isso nos permitirá reescrever este artigo, ampliando bastante as informações nele contidas. Por ora, porém, apenas propomos aos nossos leitores o texto abaixo como uma pequena introdução biográfica - muito limitada e muito resumida, mas ainda assim possivelmente melhor do que nada.
Rodrigo.


VIDA DE VOLTAIRE 

- POR OCASIÃO DO 246° ANIVERSÁRIO DE SUA MORTE - 
(30 de Maio de 2014)

(Rodrigo Antônio da Silva)


“Morro adorando a Deus,
Amando meus amigos,
Não odiando meus inimigos,
E detestando a superstição”
(Voltaire - Testamento)

“Poeta, filósofo, historiador,
ele trouxe um grande progresso ao espírito humano,
e nos preparou para sermos livres
(Revolução Francesa, inscrição sobre a tumba de Voltaire,
no Panteão Nacional)

“Ele foi nada menos do que uma revolução
encarnada em um ser humano,
e, mais do que um século,
foi a expressão dos três séculos anteriores,
seu resultado, sua consequência mais radical...
Presta bem atenção...
Não percebes, no fundo do século XV,
essa torrente que avança rápida em nossa direção?
Como cresce! Como se adensa!...
Uma torrente? Engano meu,
é um turbilhão de luz e calor;
e, de repente, a coisa se faz homem: é Voltaire!
Todo o movimento da multidão em um só homem!
É um momento único na história;
não há nada igual nem antes nem depois!”
(Jules Michelet, Journal, 28/8/1844)



França, 30 de maio de 1431: uma garota de 19 anos de idade é queimada viva por um Tribunal da “Santa” Inquisição. Seu nome: Joana d’Arc.

França, 30 de maio de 1778: um homem morre, aos 84 anos de idade, após haver lutado durante toda a sua vida para que nunca mais uma Inquisição pudesse acender suas fogueiras. Seu nome: Voltaire.

Joana d’Arc e Voltaire: dois dos mais célebres franceses de todos os tempos, ambos compartilhando o mesmo aniversário de falecimento. Teria a Providência Divina querido, com essa coincidência, colocar, em certo sentido, os espetáculos da Intolerância e da Tolerância, face a face, ante os olhos do nosso pensamento?...

Ah, Joana! Pobre menina! O fogo não te teria devorado, se Voltaire tivesse vivido antes de ti! Ou então serieis queimados os dois juntos, tu, acusada de bruxaria, e ele, de heresia, por defender o fundamental direito de cada homem à liberdade de pensamento...

A vida e a obra de Voltaire constituem-se, com efeito, um marco incontestável na história do pensamento ocidental moderno. Não que Voltaire tenha criado alguma nova teoria ou sistema de ideias; não, ele não inventou nada de novo. O que ele fez de notável foi conseguir popularizar conhecimentos que até então estavam como que restritos a uma elite. Nenhum personagem do Iluminismo conseguir transmitir tanta luz e calor às multidões, como Voltaire. Ele seduziu, ele convenceu, ele inflamou a França e a Europa, no que diz respeito ao amor à Razão e à Liberdade. Se, depois, a Revolução Francesa teve o alcance que teve, isso se deveu, em grande parte, a Voltaire, seja pelo que ele fez diretamente, seja pela inspiração que sua vida e suas ideias transmitiram aos demais. Sobre sua tumba, um dia, no Panteão Nacional, a Revolução escreverá solenemente: “Poeta, filósofo, historiador, ele trouxe um grande progresso ao espírito humano, e nos preparou para sermos livres”.

Lembro-me de ter lido, a respeito de Santo Inácio de Loyola, que poucos homens tiveram tão poucas ideias originais quanto ele, mas que também, mais raros ainda foram os homens que souberam aplicar tão bem suas ideias concebidas como ele. O mesmo se pode dizer de Voltaire. Seu papel foi, essencialmente, o de um homem de ação, não o de um teórico. Ele propagou, divulgou, popularizou, tanto quanto foi possível, a “Filosofia das Luzes”. E aí está a sua importância.

François-Marie (Francisco-Maria) Arouet nasceu em 21 de novembro de 1694, em Paris, filho duma família relativamente rica – e muito católica. Perdendo sua mãe aos 7 anos de idade, aos 10 o pequeno François é transformado em interno do principal colégio dos Jesuítas em Paris, onde permanece durante 7 anos. Aluno brilhante, tem seu primeiro escrito publicado pelos seus próprios professores jesuítas: “Ode à Santa Genoveva”, uma poesia. Deixando o colégio jesuítico aos 17 anos de idade, anuncia a seu pai que deseja dedicar-se às Letras, como escritor, mas seu pai o força a fazer a faculdade de Direito. É durante esta que ele conhece a “Sociedade do Templo”, uma associação filosófico-literária, que cultivava o ceticismo, a poesia e o livre-pensamento - e que muito o influencia. Seu pai lhe obtém, todavia, uma colocação como secretário do embaixador francês em Haia, na Holanda, e para lá, então, ele se muda – mas, por pouco tempo. É demitido e expulso de lá por causa de seu envolvimento amoroso com certa moça de família... Furioso, seu pai quer então enviá-lo para a América, como castigo, mas um marquês, antigo conhecido dos Arouet, intervém, e pede para que o jovem rebelde lhe seja confiado, a fim de que ele pudesse testar seus alegados talentos literários. Seguem-se, pois, umas “férias forçadas” do nosso jovem, no castelo de Saint-Ange, perto de Fontainebleu, todo ocupado em ler, escrever e ouvir as récitas de seu hospedeiro.

Em 1716, o jovem François consegue, porém, se meter em confusões tais que chama a si a atenção pública: escreve alguns versos zombando do Rei... É exilado de Paris por seis meses, até que o governo o perdoasse, devido às instâncias de seu pai. No ano seguinte, porém, torna a escrever mais versos ofensivos ao Rei, e é, então, sem apelação, preso e mandado para a Bastilha – a famosa masmorra dos reis franceses. Ele tem, nessa ocasião, 23 anos de idade, e permanecerá 11 meses preso. As ironias de nosso jovem custaram-lhe caro, num primeiro momento, mas, depois, é justamente esse seu espírito irônico o que mais êxitos lhe trará. Nele consistia “aquilo que a posteridade iria reter como o melhor de seu gênio: a abordagem curta e densa, a verve, o riso desintoxicante, a arte de dizer com humor as coisas mais sérias, em uma linguagem que era ao mesmo tempo a mais leve e a mais exata” (LAPAPE, Pierre: “Voltaire: o nascimento dos intelectuais no Século das Luzes”, tradução de Mario Pontes, Jorge Zahar Editor, Rio:1995).

Foi durante esse tempo de prisão (em 1717) que François-Marie Arouet decide mudar de nome, assumindo o pseudônimo de “Voltaire”. As razões para a escolha desse novo nome, em específico, ele nunca as revelou.

Em 1718 ocorre o primeiro boom literário da carreira de Voltaire: “Édipo”, sua primeira peça de teatro, obtém um êxito enorme em Paris. Novo sucesso em 1723, com seu poema épico “La Henriade”, uma espécie da adaptação da Ilíada, de Homero, à história francesa – em consequência do que, durante longo tempo, Voltaire será conhecido como basicamente como “o autor da Henriade”, a primeira epopeia nacional da França.

Um fato desastroso, porém, ocorre em 1726: acaba brigando com um jovem nobre, filho de uma das mais ilustres famílias de Paris, e acaba, por isso, sendo novamente preso na Bastilha, durante duas semanas, findas as quais é liberto, mas sob a condição de que se exile. Voltaire tem, então, 32 anos de idade. E é para a Inglaterra que ele parte.

Serão 2 anos na Inglaterra. Uma experiência suficiente para marcar Voltaire pelo resto de seus dias. O contato com os filósofos ingleses, bem como a simples comparação entre a liberdade e tolerância religiosa que haviam na Inglaterra, e a repressão e intolerância de que se padecia na França, falaram-lhe bem alto ao espírito. Na Inglaterra, liberal, o progresso. Na França, arcaica, o atraso. Poderia ele fazer algo que ajudasse sua nação a evoluir? Uma reflexão que renderá, a seu tempo, muitos frutos...

Presente, em 1727, aos funerais solenes de Isaac Newton na Abadia de Westminster, pôde observar a honra que a Inglaterra tributava aos seus sábios cientistas – coisa muito diferente do que ocorria na obscurantista França de então, ainda cheia de fanatismo religioso por toda parte.

Retornando, pois, à sua nação, em 1728, Voltaire lutará até à sua morte pela causa da “Filosofia das Luzes”. Para fazê-lo mais tranquilamente, porém, Voltaire, primeiramente, trata de firmar bem a sua independência financeira: aproveita-se de uma loteria do Estado mal planejada e, com a ajuda de um matemático, consegue fazer a aposta certeira: ganhou uma boa quantia... Entra no negócio da corretagem, emprestando dinheiro, a juros, para pessoas importantes; investe em alguns comércios; recebe, em 1730, a herança de seu pai; e, é claro, seus livros não deixavam de lhe render uns bons trocados.

Em 1730 Voltaire assiste a um incidente do qual ele se lembrará mesmo muitos anos depois: Adrienne Lecouvreur, famosa atriz, que havia representado, inclusive, peças do próprio Voltaire, morre. O padre da paróquia, então, nega-lhe o direito a ser sepultada no cemitério, só lhe restando ser enterrada num canto qualquer, fora dos limites da cidade, sem qualquer distintivo para a cova... Isso tudo só porque ela era atriz: a França era o único país católico onde os atores e atrizes eram excomungados...  Alguns meses depois, entretanto, morre um ator de muito prestígio na Inglaterra e... é sepultado na Abadia de Westminster! Novo choque comparativo na mente de Voltaire... Talvez por isso mesmo ele escolhe, então, fazer sua reentrada em Paris através do teatro, investindo em diversas peças simultaneamente, das quais “Zaïre” é a que obtém, nessa ocasião, maior sucesso.

Émilie du Châtelet
Um singular relacionamento amoroso, iniciado em 1733, vai acabar de mergulhar Voltaire no mundo dos assuntos filosóficos: Émilie du Châtelet, grande estudiosa da Filosofia e da Física, torna-se sua amante, permanecendo com ele até à morte dela, em 1749. Émilie era esposa de um militar que quase nunca aparecia em casa, ocupado com viagens militares, e que, por estranho que isso possa parecer, não exigia dela nenhuma fidelidade, tanto assim que Voltaire passou até mesmo a morar no castelo de Émilie, num triângulo amoroso muito adiantado para a época, sem dúvida, onde dois homens dividiam a mesma mulher...

Émilie tornou-se muito mais do que a amante de Voltaire: tornou-se a grande auxiliar de seus estudos também. Tradutora de Newton para o francês, Émilie mantinha um laboratório de Física em seu castelo – e, verdadeiramente, tanto dominava este tema quanto discorria como ninguém sobre Filosofia. É sob a influência dela que Voltaire vai passar a ser não mais apenas o homem das Letras e do Teatro, mas também um ardente defensor de ideias filosóficas. Digamos que ela, com seu ceticismo, o “ensinou a pensar”...

Assim é que, em 1734, Voltaire publica as suas famosas “Cartas Filosóficas”, também chamadas de “Cartas Inglesas”, nas quais ele compara, bem sarcasticamente, a Inglaterra e a França. Foi um escândalo para a época. O livro foi condenado pelo Parlamento francês, e queimado publicamente diante do Palácio da Justiça. Um mandato de prisão foi expedito contra Voltaire, mas este, com a ajuda de Émilie, escapa, se escondendo num dos castelos dela, em Cirey. Apenas um ano depois, após algumas medidas diplomáticas, ele é novamente autorizado a voltar a Paris. Sabia, porém, que Paris já não lhe era um lugar seguro, e decide então permanecer em Cirey mesmo, vivendo junto com Émilie.

Durante 10 anos Voltaire permanecerá no Château (castelo) de Cirey, ocupado com um duplo trabalho: por um lado, tinha de evitar habilmente novas acusações de seus inimigos que pudessem levá-lo para a Bastilha; e por outro, devia continuar o combate contra o obscurantismo e a intolerância. Recorre, então, à arma dos escritos anônimos, bem como à conversação particular com seus visitantes. Começa, por essa época, bem aos poucos, aquilo que mais tarde se tornará uma febre: a visita a Voltaire. Chegará o momento, como depois veremos, em que Voltaire já nem será mais capaz de atender a tantos visitantes que o procuram em sua casa.

Querendo e devendo criticar ardidamente o Catolicismo, mas não podendo fazê-lo sem correr grave risco de vida, Voltaire lança mão de algumas estratégias psicológicas refinadas: atacará o Islamismo, o Judaísmo, o Protestantismo, fazendo contra estes comentários que podiam servir também, com as devidas adaptações, à Igreja Católica, bastando se refletir com um pouco mais de sagacidade sobre eles. Na hora de falar dos dogmas católicos, Voltaire toma cuidado para não negá-los diretamente, mas apenas deixar pairar no ar um “quê” de ironia... Com isso as autoridades tinham dificuldade em pegá-lo, mas o povo, e as elites culturais, que é para quem ele se dirigia, bebiam um espírito frontalmente contrário à irracionalidade de certas crenças e práticas religiosas...

Mesmo assim, é fato que, por várias vezes, seu estratagema acabava sendo tão bem percebido que novas medidas eram tomadas contra ele, tais como interdição de certas peças, censura de certos escritos, etc. Ao publicar o poema Le Mondain (O Mundano), foi tal a reação nos meios mais conservadores que ele teve de se esconder, por um tempo, na Holanda.

Voltaire não é um ateu; é, sim, um deísta: o Deísmo é a postura filosófica daqueles que não acreditam em nenhuma das supostas ‘revelações’ divinas, que são alegadas por todas as religiões como o seu fundamento. Para o deísta, o universo é a única revelação de Deus aos homens, e é à Filosofia e à Ciência que se devem pedir explicações e orientações, porque elas se guiam pela razão devidamente atenta ao universo, e não por superstições e crendices que Deus, o Supremo Criador, jamais revelou. Nada de Bíblia, nada de Torá, nada de Alcorão, nada de dogma algum, para o Deísmo. E se, num primeiro momento, todas as religiões devem ser igualmente toleradas, é só porque todas elas são igualmente um lixo: importa, porém, ir paulatinamente esclarecendo as pessoas para que as abandonem. Nisso se resumiu toda a tarefa da vida de Voltaire. 

Como diz Pierre Lepape em sua obra que acima citamos: “a religião era a argamassa central dessa construção [a sociedade antiga] que começava a desabar, era a sua sagrada legitimação; mas, na irritada decadência que atravessava, era também a sua parte mais perigosa: aquela que tendia a levar os governantes e seus povos de volta ao obscurantismo, à irracionalidade, à aceitação da infelicidade e do sofrimento, à retomada das ilusões da infância. Portanto, se a Filosofia tinha mesmo a intenção de ganhar corações e mentes, e de fazer a história pender para o ‘lado bom’, teria de disputar palmo a palmo todas as áreas ocupadas pela religião: o saber, a educação, a moral, a política e a sensibilidade. Para realizar tal missão, os filósofos deviam, tal como os padres faziam, considerar-se portadores de um dever sagrado, aquele reclamado pela felicidade de uma espécie humana racionalmente reconciliada consigo mesma e com a verdade das coisas. O filósofo era o novo sacerdote de uma religião da humanidade livre do pecado original e que procurava nela própria os segredos de sua grandeza e dignidade” (p. 183-184).   

Frederico II da Prússia 
Entre as amizades mais importantes de Voltaire, sem sombra de dúvida destaca-se, em primeiro plano, a figura do Rei da Prússia, Frederico II. Profundo admirador e estudioso das Letras, das Ciências e da Filosofia, Frederico via em Voltaire – com toda a razão – a própria personificação do Iluminismo. Os dois trocaram uma abundante correspondência até à morte de Voltaire. Frederico fez de tudo para conseguir que Voltaire fosse morar em sua corte, mas só pôde obter isso depois do falecimento de Émilie, visto que essa tinha um pé atrás com o tal “déspota-esclarecido”...

Com efeito, Émilie morre em 1749, durante um parto muito complicado. O filho esperado, por sinal, não era nem de Voltaire nem do marido dela, mas de um terceiro elemento já, visto que, nos últimos anos, ela e Voltaire haviam se desentendido um pouco, por razões intelectuais: ela passara a defender as teorias de Leibniz. Todavia, continuaram vivendo juntos até o fim, nem que fosse apenas como amigos. E sobre a morte dela, Voltaire confessou haver sido o momento mais doloroso da vida dele. Nunca mais ele encontrou uma mulher tão bem dotada intelectualmente como Émilie.

Antes, porém, de sua morte, Émilie consegue reaproximar Voltaire da Corte Francesa. Embora ele nunca chegue a ser um cortesão, porque, em todo caso, as ideias dele sempre permaneciam marcadas pela polêmica, o título de “Historiógrafo da França” lhe é concedido por Luis XV. Certamente, sua amizade, muito bem conhecida, com o Rei da Prússia contou bastante nessa hora... Em 1747, Voltaire é eleito também como membro da Academia Francesa.

Chega o momento em que Frederico consegue levar seu amigo para a sua corte, em Berlim, Prússia. Voltaire permanece lá de 1750 até 1753, quando, certos atritos entre eles dois, por causa das sempre pontiagudas ironias voltairianas, interrompem essa promissora amizade, e Voltaire tem de regressar a Paris. A partir de 1757, porém, a amizade entre os dois, por correspondência, foi retomada e nunca mais interrompida.

Em 1754, Voltaire compra uma casa em Délices, perto de Genebra. Recebe, a essa altura, um ‘delicado’ aviso dos pastores calvinistas genebrinos de que ele nada devia publicar contra a religião enquanto estivesse morando por ali... (Reparem como é sempre a mesma história: quer entre os católicos, quer entre os protestantes, quer entre qualquer estúpida religião – e todas elas, de alguma forma, o são – a intolerância é que a regra, e nunca a liberdade de pensamento... A religião, via de regra, precisa da cegueira, do fanatismo, do obscurantismo, para poder sobreviver; ela não suporta o contato com a razão...)

No entanto, Voltaire não dá a mínima para os sempre imbecis religiosos que tentam intimidá-lo: continua a escrever, e intensamente. Publica “Cândido, o Ingênuo”, “Ensaio sobre os Costumes”, “Poema sobre o Desastre de Lisboa”, etc. É, como não podia deixar de ser, convidado para integrar a equipe redatora da Enciclopédia, aquele vasto monumento do saber que os filósofos iluministas nos deixaram. Voltaire escreveu 30 artigos para a Enciclopédia. Mas ele deixou bem claro que discordava dessa ideia de compilar uma coleção gigantesca, de difícil acesso à população: seria muito melhor, segundo ele, investir em livros menores, de bolso até, mas que se pudesse difundir mais facilmente. Com efeito, só no ano de 1759, o seu pequeno “Cândido” vendeu 20 mil exemplares, ao passo que a Enciclopédia vendeu apenas 4 mil. Era de Voltaire, pois, muito mais do que de qualquer outro, que a França e a Europa bebiam as ideias da “Filosofia das Luzes”.

Por fim, eis-nos chegados ao período máximo da vida e atividade de Voltaire: Ferney.

Para garantir melhor a sua própria segurança, Voltaire compra um castelo na cidadezinha de Ferney, e se muda de Délices para lá, em outubro de 1758. Ferney ficava ainda em território francês, mas suficientemente longe de Versalhes e suficientemente perto das fronteiras, que estas podiam ser facilmente transpostas no caso de ser preciso fugir.

Durante os próximos 20 anos Ferney será o centro supremo do Iluminismo europeu.

Castelo de Ferney:
uma parte muito importante da gestação do mundo moderno ocorreu aí...

Primeiramente, Voltaire reforma o castelo, tornando-o capaz de abrigar numerosos hóspedes e visitantes. Depois, trata de cuidar dos campos ao redor do castelo, introduzindo métodos modernos de plantação e cultivo das lavouras – por exemplo, a rotatividade de culturas, até então desconhecida na região. Ele mesmo gosta de trabalhar, um pouco, com suas próprias mãos, no campo. Introduz, também, algumas pequenas indústrias na propriedade do castelo: faziam lã e relógios, por exemplo. Plantou árvores pela região, drenou alguns pântanos, construiu casas para novos habitantes. Ao lado de seu castelo, construiu um teatro, onde ele mesmo, às vezes, costumava representar – e que fazia a diversão de todos. Fez, enfim, vários investimentos na cidadezinha, levando esta a prosperar maravilhosamente, aumentando 3 vezes de tamanho, no espaço de duas décadas. Desnecessário dizer, pois, o quanto ele era nada menos do que adorado pela população local, que via nele um pai.

Voltaire abre generosamente as portas e mesas de seu castelo para receber hóspedes e visitantes e, em pouco tempo, Ferney torna-se um verdadeiro fenômeno de ‘peregrinações’ filosóficas, por assim dizer. Visitar Voltaire torna-se uma moda entre os europeus. E isso mesmo considerando-se que era difícil vê-lo, visto que ele trabalhava, em seus escritos, por 12 horas a cada dia, auxiliado por 3 secretários – uma garra exemplar, por sinal! Só o fato de estar na casa do Filósofo, que já era considerado um mito, só o fato de poder falar com aqueles que tinham a honra de conviver mais de perto com ele, já compensava. E a imprensa, claro, não podia ficar de fora desse boom: os jornalistas seguiam com viva ânsia o movimento das visitas a Ferney, recolhendo e publicando, periodicamente, novos e novos relatos feitos pelos ‘peregrinos’ da Filosofia. Livros inteiros foram escritos pelos ‘peregrinos’ que eram também literatos: pode-se dizer, até, que a “visita a Ferney” tornara-se, por um tempo, como que um novo gênero literário, tanto abundam as publicações sobre o assunto. Da Alemanha, da Inglaterra, da Itália, de toda parte chegavam visitantes. Aos mais destacados dentre estes, isto é, àqueles que podiam, por sua vez, influenciar mais na sociedade (políticos, escritores, nobres, etc.), Voltaire convidava para um passeio pelos jardins de seu castelo. Era como se Ferney houvesse sido transformada na Roma do Iluminismo...

Santo Afonso de Ligório, Bispo e Doutor
da Igreja: um dos que tentaram converter
Voltaire...
De Ferney saem e a Ferney chegam, igualmente, inúmeras cartas. Só das cartas escritas por Voltaire – e que foram reencontradas – contam-se hoje 26 mil. E entre as cartas recebidas por Voltaire, uma chama bastante a atenção: tratava-se da missiva de um bispo muito idoso e doente lá do reino de Nápolis, suplicando a Voltaire que se retratasse de suas ideias. O nome desse bispo: Afonso Maria de Ligório...

“Em abril de 1765, Voltaire já era muito mais do que uma glória. Na linguagem de hoje, seria um astro internacional. O primeiro a alcançar essa posição no domínio das letras. É um tanto difícil, nos dias atuais, imaginar o que era chegar a tal celebridade, naquele meio de comunicação restrita” (op. cit., p. 241).

É a partir de Ferney que Voltaire lança a primeira campanha até então realizada por um intelectual em favor de uma família pobre do povo: o famosíssimo “Caso Calas”. Um velho pai de família protestante havia sido injustamente acusado de ter morto seu próprio filho por este haver decidido se fazer católico: as provas, porém, estavam totalmente contra essa acusação, a qual só foi, de fato, aceita e acabou conduzindo o pobre Calas à pena de morte, devido aos preconceitos profundos da população católica do local contra os protestantes. Um típico caso de fanatismo levado ao extremo. Voltaire, pois, tendo em vista, por um lado, a promoção da liberdade de pensamento e, por outro, o fim da intolerância religiosa, promove uma campanha que abala toda a Europa, através de livros, panfletos, cartas, etc. É, então, que ele escreve o seu “Tratado sobre a Tolerância”, que temos publicado por completo aqui neste blog. Resultado: a própria Corte revê o processo, reabilita postumamente Calas, e pune os juízes que o haviam condenado injustamente.

Algum tempo depois, surge o “caso Sirven”: quase idêntico ao episódio dos Calas, aqui Voltaire consegue, de fato, impedir que qualquer execução ocorra.

Vem depois o “caso La Barre”: um jovem de 19 anos é preso e condenado a ter a língua cortada e depois ser decapitado e queimado, sob a ridícula acusação de haver profanado um crucifixo – como se todos os crucifixos do mundo não valessem menos do que fezes diante de uma única vida humana! Voltaire, infelizmente, só ficou sabendo dessa palhaçada sádica da Inquisição depois do assassinato do pobre moço já ter ocorrido. Mas, o barulho que a campanha de Voltaire contra esses assassino provocou por toda a Europa levou a uma revisão completa do caso – e levou também, graças a Deus, a generalizar, por toda a parte, o nojo contra a, para sempre maldita, Inquisição.

Voltaire escreve, escreve, escreve... Recebe visitas, faz contatos, lança campanhas... Quanta atividade para um homem só! Como ele aguentava? Bem, o segredo talvez seja um só: a paixão pela humanidade o devorava. Era muito grande a montanha de males que as superstições e obscurantismos vinham causando, há séculos, à pobre humanidade, e ele sabia que só dispunha do breve espaço de tempo da sua vida para fazer algo a respeito disso. Esgotava-se, pois, com gosto, na luta pelos ideais que abraçara!

O esgotamento vai se consumando e, a hora de deixar este mundo e partir para o reino do Deus dos Filósofos, se aproximava. Antes, porém, que isso ocorresse, era devido a este herói um reconhecimento público e solene – e assim se fez.

Em fevereiro de 1778, após 28 anos de ausência, Voltaire, finalmente, volta a Paris.

Foi uma apoteose.

Por toda a parte onde a sua carruagem passava, as multidões saíam às ruas para ver e aplaudir entusiasticamente o Patriarca de Ferney.

Voltaire já idoso, em seus últimos dias
Faz-se-lhe uma recepção solene na Academia Francesa e, no principal teatro de Paris, a multidão se comprime para ver a representação de uma das peças de Voltaire, estando ele mesmo presente. No fim da peça, seu busto é entronizado no centro do palco e ele mesmo é coroado com ramos de louro, enquanto todo o povo delirava em gritos de aclamação ao inesquecível defensor dos direitos humanos, que, qual uma vela, já muito velhinho e desgastado, ia visivelmente se despedindo de todos e espalhando seus derradeiros clarões, banhado em lágrimas...

A Corte, porém, ciumenta de ver Voltaire ganhar o coração de todos, ao passo que o Rei mesmo não era o ídolo nem da sua própria mulher, preferiu se fechar e não participar dos festejos. Estava notório demais que “era um escritor que Paris escolhia como rei. Versalhes calou-se, fingindo que nada estava acontecendo. (...) Desfazia-se em definitivo o antigo e tenaz sonho de aliança dos intelectuais com a monarquia francesa. (...) Luis XVI abandonava Voltaire a Paris, sem compreender que, desse modo, Paris o abandonava...” (op. cit., p. 283).

Seguem-se dias de intenso sofrimento físico para Voltaire: um câncer atroz o devora, e ele é obrigado a recorrer ao ópio para poder suportar as dores. Apesar disso, novos visitantes continuam a chegar todos os dias. Entre os membros do clero de Paris, por sinal, se disputava sobre quem é que teria de honra de conseguir converter Voltaire no último momento... Enquanto isso, porém, “Voltaire divertia-se com a disputa em torno de sua cabeceira” (op. cit., p. 282).

(Teria isso – a conversão de Voltaire no último momento – de fato acontecido? Bem, em seus últimos dias Voltaire estava dopado pelo ópio, o grande anestésico de que então se dispunha, e sem o perfeito controle, portanto, do que dizia e fazia. O que não impediu, porém, de que se criassem verdadeiras lendas a respeito da morte de Voltaire: dizem que ele teria, no último momento, gritado seu arrependimento e pedido um padre para se confessar, mas o primeiro a não acreditar nessa estória foi o Arcebispo de Paris daquela época, como daqui há pouco veremos. Seja como for, é certo porém que, em meados do século seguinte, São João Bosco, famoso entre os católicos por suas supostas ‘visões’ do outro mundo, afirmou, numa conversa com alguns jovens, que Voltaire havia se ‘salvado’ sim, graças a um ato de contrição no derradeiro segundo... Contradizendo-o, seu colega santo, o Cura d’Ars, São João Maria Vianney, igualmente famoso por suas ‘visões’, afirmou, certa vez, num de seus catecismos, exatamente o oposto: que Voltaire havia, na verdade, se perdido... Curiosidades místicas à parte, o fato é que Voltaire tornou-se um ícone da maldade para a apologia católica tradicional, a qual nunca cessou de recordar que ele assinava cada uma de suas cartas com a seguinte frase: “Écrasez l’infâme” – “Esmagai a infame”, um lema que, segundo alguns, se referia à própria Igreja Católica, e, segundo outros, à intolerância em geral.)

Em 30 de maio de 1778, aos 84 anos de idade, Voltaire morre.

Relicário contendo o Coração de Voltaire
Seu corpo é, então, autopsiado e retiram-lhe o coração e o cérebro, para serem conservados como uma derradeira lembrança (uso estranho de outras épocas...). Coração e cérebro são, por sinal, tudo o que permanece ainda hoje dos restos mortais de Voltaire, depois que, no século XIX, seu túmulo foi profanado por católicos fanáticos... Seu coração se encontra guardado na Biblioteca Nacional da França, e seu cérebro, dentro de uma importante estátua que o representa.

Naquela ocasião, porém, da morte de nosso herói, o Arcebispo de Paris baixa uma ordem proibindo que Voltaire seja enterrado em cemitério cristão, mas seu recado chega um pouco tarde: em 31 de maio o Filósofo já está sepultado, e não só num cemitério cristão, senão dentro mesmo de uma igreja...

O Castelo de Ferney é, então, vendido a um marquês amigo de Voltaire, e a biblioteca, em particular, é comprada por Catarina II, Imperatriz da Rússia. (Posteriormente, na década de 1990, o Governo Francês adquiriu o Castelo de Ferney e o transformou num centro de estudos sobre o século XVIII.)

Afinal, estourando a Revolução Francesa em 1789, esta decide, apesar de muitas oposições, construir um Panteão Nacional, que pudesse abrigar os restos mortais dos grandes heróis da França. Assim, em 11 de julho de 1792, Voltaire tem seus ossos transferidos, com honras de Estado, para o Panteão, sendo o 12º a ser inserido neste. Meio milhão de pessoas acompanharam o cortejo! E sobre seu túmulo, como já dissemos, a Revolução grava o seguinte epitáfio:

Tumba de Voltaire, no Panteão
“Poeta, filósofo e historiador,
Ele trouxe um grande progresso ao espírito humano,
E nos preparou para sermos livres”.

Ficam-nos, pois, os exemplos e os ensinamentos desse gigante da Razão e da Liberdade, desse verdadeiro Apóstolo dos Direitos humanos. Assim como ele, que também nós saibamos amar ao único Deus, o Supremo Arquiteto do Universo, e trabalhar como Seus bons pedreiros na construção de um mundo melhor.  

Como diria Sérgio Paulo Rouanet, certo dia, no Jornal do Brasil:
“... precisamos de Voltaire. Precisamos do homem que dedicou sua vida à defesa do direito à tolerância e à razão, do direito à liberdade individual e coletiva, do direito à justiça e à eqüidade, do direito ao desenvolvimento e ao bem-estar. Precisamos de sua pena, de seu talento, de seu riso, para castigar, mais uma vez, o fanatismo, a tirania, a injustiça, a miséria e a violência. Precisamos do homem que declarou um dia: ‘Atrevo-me a tomar o partido da humanidade’”...
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