quinta-feira, 22 de maio de 2014

Católicos, budistas e psicólogos advertem: o Silêncio faz bem à saúde




(Texto da Revista Galileu - janeiro/2008)

Se cada um de nós tivesse que pagar R$ 1 por cada palavra pronunciada ao longo do dia, iríamos para a cama R$ 16 mil mais pobres. A conclusão vem de um estudo feito por um time de pesquisadores da Universidade da Califórnia, que analisou 400 indivíduos durante 10 anos. Isso porque não entraram na conta as palavras que apenas pensamos - qualquer um que já passou uma noite insone ruminando um problema sabe que o diálogo interior pode ser tão volumoso quanto o verbal. E ainda tem quem fale dormindo.

Nossa relação com as palavras é vital. Usando-as nos relacionamos, expressamos nossas emoções, organizamos nosso mundo interno, representamos a realidade de forma simbólica e nos distinguimos de todos os outros animais do planeta. É uma capacidade inata e ao mesmo tempo uma necessidade criada.

Uma vez, após um jantar com um colega tedioso, o escritor Oscar Wilde comentou: "Como é cansativo não conversar!". Pois há quem ache que esse esforço vale a pena. Ninguém sabe a origem dos chamados votos de silêncio, mas eles são adotados em boa parte das grandes religiões. Em países do Oriente, pessoas comuns se submetem a períodos de reclusão e mudez que podem durar dias. E a moda já chegou por aqui. Será possível conviver em silêncio total, ou quase? E que benefícios isso pode trazer?

Essas perguntas estavam na mente do cineasta alemão Philip Gröning. Em 1984, ele escreveu para os monges cartuxos, uma das mais célebres ordens da Igreja Católica, pedindo para filmar seu cotidiano. Recebeu o OK 16 anos depois. O resultado foi o filme "O Grande Silêncio", uma poética incursão pelo cotidiano dos monges que vivem em um mosteiro na França. São menos de dez minutos de fala em duas horas de filme. "Durante a semana só falamos o que é indispensável, salvo em caso de urgência", diz um monge cartuxo que reside no mosteiro de Nossa Senhora Medianeira, em Iraí, no Rio Grande do Sul. (Por determinação da ordem, seu nome não é identificado.)

O monge explica a opção por menos decibéis. "Procuramos o silêncio para ordenar nossa vida conforme essa voz interior que o católico chama de consciência. Quem escolhe se calar pode examinar sua conduta. Se uma pessoa age com retidão, isso gera paz. E a paz é o outro nome do silêncio." Nessa visão, abster-se da fala é contatar uma instância moral inata. "O silêncio não é um fim em si, mas um meio para encontrar algo já plantado dentro de nós, a retidão. Por isso é encorajado por todas as religiões."

Mas outras religiões interpretam os momentos silenciosos de maneira diferente. O reverendo Ricardo Gonçalves, da tradição budista Terra Pura, afirma que silêncio no budismo quer dizer, necessariamente, silêncio mental. "Por meio das práticas de silêncio, podemos pacificar a mente, como se acalmássemos um lago de águas revoltas." Relatos sobre Buda dizem que, quando confrontado com indagações metafísicas, ele respondia com um profundo silêncio. Isso sinalizaria para a incapacidade da mente em apreender a realidade, sendo necessário experimentar essa realidade por meio do silêncio desta mesma mente. O Buda também é chamado de "Sakyamuni", o que pode ser traduzido como "o sábio silencioso do clã dos Sakyas".

Mas as possibilidades do silêncio já eram exploradas na Índia muito antes do século 6 a.C., quando se acredita que tenha vivido o místico indiano. Já faziam parte das disciplinas seguidas por ascetas e eremitas, que viviam isolados ou em monastérios. E continuam fazendo. Nos 16 meses em que morou na Índia durante a década de 1990, o professor de ioga Cristóvão de Oliveira, dono do Centro Vidya, pôde conhecer gente que não falava havia duas décadas. "Não dá para tentar entender com os olhos da nossa cultura. Para eles, isso é uma forma de demonstrar a si mesmos o amor que têm por Deus. É um ato de alegria, não [apenas] de sacrifício." Ele também constatou que a busca por períodos de silêncio não é privilégio de religiosos. "Participei de retiros para ficar dez dias em silêncio que eram freqüentados por pessoas comuns, como empresários e pais de família."

Cristóvão voltou ao Brasil em 1997 e desde então coordena retiros para grupos de leigos, nos quais se passa quatro dias sem dizer uma palavra. "A nossa mente é barulhenta. Todo o barulho externo que produzimos é para camuflar o ruído mental", diz. Ele conta que o silêncio verbal permite ao indivíduo escutar os próprios pensamentos e, assim, enxergar sua mente em ação. "Conhecendo os próprios pensamentos, ela pára de agir por impulso e passa a escolher melhor as suas atitudes."
O corpo cala

O terapeuta Toni Luís pôde avaliar pessoalmente os impactos psicológicos de viver em silêncio. Em 1988 ele abandonou o trabalho como engenheiro em Salvador e se mudou para um mosteiro na pequena cidade de Campo do Tenente, no interior do Paraná. O mosteiro pertence à ordem trapista e atraiu Toni pela proposta "radical" de vida. O dia começava às 2h45 e terminava por volta das 20h. O tempo era preenchido com liturgias, leituras, trabalho manual ("eu cuidava das maçãs", lembra) e, claro, muito silêncio.
Toni conta que a orientação era falar apenas quando fosse algo essencial às atividades. A conversação livre é permitida apenas no dia 26 de dezembro, na parte da tarde, e o monge só pode deixar o mosteiro em caso de morte do pai ou da mãe. "Não é que haja nada contra a comunicação humana. Mas a pessoa que se abstém de conversar consegue se manter num estado interior de oração, de meditação. Até os sentidos ficam mais aguçados. Era comum as pessoas se identificarem a muitos metros de distância", diz. Ele concorda com a idéia de que o silêncio permite à pessoa travar contato com aspectos de sua mente que estavam inconscientes. "Mas aqui fora [do mosteiro] a pessoa também pode estar com o inconsciente aflorado, como alguém que sofre de síndrome do pânico. Se alguém com esse mal se interioriza, o inconsciente pode se curar e ficar no seu devido lugar. Nesse caso, desfruta-se de paz mental", afirma.

Ele conta que o silêncio não é o único fator que pode promover esse encontro com as próprias feridas emocionais. "A convivência em grupo no mosteiro faz com que essas questões apareçam também. E como cada um têm as suas fraquezas e neuroses, isso aparece na vida comunitária, que é muito exigente." Cristóvão confirma: "Já vi gente brigar durante o retiro pelas menores coisas. Outros ficam deprimidos. Mas há quem descubra que é uma boa companhia para si mesmo". No caso de Toni, após um ano ele descobriu que sua vocação na vida era outra. Curiosamente, foi falar muito, trabalhando como radialista, atividade que exerce até hoje.

O fato é que nossa sociedade não valoriza o silêncio. O normal, inclusive, é buscar equilíbrio soltando o verbo. "Quando uma pessoa perde essa ordem interior, procura um psiquiatra, um confidente, alguém que nos ajude a arrumar a nossa vida e a reencontrar a paz", diz o monge cartuxo. "Por outro lado, basta caminhar pela natureza para sentirmos paz. Lá tudo está em ordem: as árvores, os animais, o ar limpo." E sem ninguém falando. Coincidência?

15 dias de Silêncio

A convite da Galileu, o escritor e músico Ciro Pessoa passou 15 dias calado no meio do caos paulistano e relatou sua experiência na internet. Conheça os bastidores dessa viagem pessoal do ex-Titã:
"Existe uma expressão que é muito usada no mundo árabe: "maktub", ou "assim estava escrito". É a que mais bem explica a série de acontecimentos que antecederam e sucederam a experiência que realizei de 1 a 15 de novembro do ano passado.

"Na verdade, tudo começou no dia 5 de setembro. Depois de vários ensaios e tentativas frustradas, essa foi a data que estabeleci de maneira definitiva para começar o que chamei de 'meu ano sabático'. A partir desse dia, dei início a uma mudança radical na minha vida, algo que estava planejando havia muito tempo. Uma mudança que inclui não consumir nenhum tipo de substância que altere o meu estado mental (o cigarro ainda permanece, mas até o fim do ciclo meus pulmões estarão livres de sua fumaça), práticas diárias de meditação (com uma programação que vai aumentando mês a mês em número de horas), dormir cedo para acordar cedo e aproveitar ao máximo a luz do dia (o horário que estabeleci para despertar foi entre cinco e seis da manhã) e, finalmente, concentrar toda a minha energia nos meus projetos pessoais, que incluem, entre outras coisas, a publicação de dois livros e a gravação de um CD.

"Quando estive na redação da Galileu, no inesquecível 30 de outubro, e comecei a trocar idéias com seus editores sobre uma possível colaboração na revista, em menos de dez minutos a pauta "relatar um voto de silêncio de 15 dias" surgiu, ganhou corpo, força e nasceu. Maktub. No encadeamento dos últimos acontecimentos de minha vida, um voto de silêncio cairia como uma luva. Explico: quando fazemos grandes mudanças, temos uma necessidade infernal de verbalizá-las para os outros. E essa verbalização acaba sempre confrontrando o que éramos no passado com o que somos no presente. Esse confronto, na minha opinião, acaba esvaziando as forças responsáveis pela mudança. O voto de silêncio de 15 dias apareceu como um bálsamo na minha vida para que eu pudesse, secretamente, silenciosamente, dar continuidade às transformações internas que espero alcançar ao fim deste meu ano sabático.

"A princípio, os ecos do meu silêncio só seriam revelados para o leitor nesta edição de janeiro. Ou seja, ficaria em minha casa durante 15 dias silenciosos, anotando impressões em um diário, e depois escreveria a reportagem propriamente dita. Mas eis que no nosso caminho surgiu a idéia de o diário tomar a forma de um blog. Ainda no ar, ele conta em detalhes as impressões, delírios e reflexões daquele período.

"Hoje faz exatamente 11 dias que voltei a falar. Gostaria de refletir aqui com os leitores de Galileu sobre as conseqüências dessa quinzenal mudez voluntária na minha vida e relembrar algumas passagens dessa viagem de navio sobre o Oceano do Silêncio cujo destino, no blog, foi chamado de "Patagônia Secreta". Usei a palavra "viagem" para definir minha experiência, e não poderia haver vocábulo mais apropriado para designar o que se passou comigo durante esses 15 dias. Afora essa metáfora criada um dia antes do embarque, "navegando rumo a uma Patagônia Secreta", que, convenhamos, não quer dizer muita coisa, não tinha a mais vaga idéia do que me esperava no decorrer do trajeto e tampouco do que me aguardava no último dia. Fui descobrindo, na minha intensa vida de marinheiro, dia após dia, para onde estava indo (com algumas ricas e inevitáveis perdas de rumo) e só consegui entender aonde havia chegado no 13º dia da expedição. Diria que esse foi o dia crucial da minha jornada silenciosa.

"Curiosamente, naquele dia, o navio me levou para dentro do meu mais profundo oceano. E ali encontrei, dentro de um casulo submerso nas areias brilhantes do Oceano das Borboletas Impermeáveis, dezenas de pequenos ciros que eram imagens claras daqueles ciros que eu não queria mais na minha nova ou outra vida que tivera seu início no primeiro dia do meu ano sabático. Maktub. Curiosamente, esse fundamental encontro comigo(s) mesmo(s) no fundo do mar parece ter um cunho absolutamente psicanalítico. Gostaria, inclusive, de saber a opinião de um profissional dessa área. Digo "curiosamente" porque o voto de silêncio é uma prática budista (e de outras religiões) que, por sua vez, nada ou quase nada têm a ver com o "mundo de Freud".

"Para finalizar minhas impressões pós-viagem, gostaria de citar algumas reações de pessoas que ficaram sabendo que eu tinha ficado 15 dias em silêncio. Existe um primeiro grupo, que chamaria de incrédulos, que limitaram-se a comentar "pra quê? Isso não serve para nada". Um segundo grupo, o dos trapaceiros, felizmente minoritário, fez comentários do tipo "que silêncio que nada, você estava numa boa na sua casa, falando com todo mundo etc.". A uma dessas pessoas eu respondi que esse método de trabalho era o dele, e não o meu. (Falo sobre esse assunto no último dia do blog.) E, finalmente, o grupo dos encantados-curiosos, formado por pessoas interessadas e abertas a novas experiências, que me "bombardearam" com perguntas pertinentes e interessantes.

"Mas, de uma forma ou de outra, ninguém ficou alheio ao fato de uma pessoa permanecer calada dentro de sua casa durante 15 dias no meio de uma megalópole. E, maktub, era exatamente isso que eu queria provocar: uma sacudida no alheamento e na pasmaceira geral..."

1 comentários:

  • 7 de outubro de 2014 11:22
    Anônimo Disse:

    Tenho pensado seriamente em ficar em silêncio durante alguns dias, acho que falamos em excesso e isso atrapalha as nossas vidas. Mas, nessa busca tenho que aquietar a mente, o burburinho de uma mente inquieta, quero olhar dentro de mim e conseguir apaziguar os meus sentimentos, que ultimamente andam confusos, já fiz alguns relaxamentos e exercícios de meditação e agora quero literalmente "fechar a boca" e tentar encontrar equilibrio.

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