quinta-feira, 8 de maio de 2014

Antigo historiador católico fala sobre o Deísmo

Reproduzimos abaixo uma interessante página do "Manual de História Eclesiástica", do pe. Bernardino Llorca, SJ, Editorial Labor, Madrid: 1942, que trata de maneira superficial e, como era de se esperar de um autor católico, em tom negativo, da história do Deísmo, focando sua elaboração e difusão na Idade Moderna, sobretudo no Iluminismo. É evidente, pelas nossas publicações, que não concordamos com o tom negativo da descrição que este apologista cristão faz do Deísmo, mas mesmo assim julgamos oportuno reproduzi-la aqui, porque conhecer o que outros dizem de nós é, dentro das devidas proporções, uma ocasião para aumentarmos nosso próprio auto-conhecimento - a imagem que passamos, mesmo quando captada de modo distorcido, ainda diz algo sobre nós.
O original do presente texto está em espanhol: a tradução abaixo corre, pois, por nossa conta. Rodrigo.
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A falsa ilustração: filosofismo e enciclopedismo

(páginas 690-693 do Manual de História Eclesiástica, de Bernardino Llorca, SJ, Editorial Labor, Madrid: 1942)

Ao mesmo tempo em que a Igreja era agitada pela falsa religiosidade jansenista, e enquanto se intensificava a campanha contra os direitos pontifícios, apresentou-se outro inimigo contra a verdadeira religião: o chamado filosofismo, a falsa ilustração, a Maçonaria ou enciclopedismo, que significavam a negação de todo o sobrenatural e a guerra aberta contra todo o religioso.

Procedente da Inglaterra, esse movimento se foi estendendo em toda a França, e logo depois por toda a Europa, chegando a ser o espírito da moda. Era o fruto espontâneo do naturalismo de muitos humanistas, da negação da autoridade [eclesiástica] por parte dos protestantes, e ao mesmo tempo das tendências do jansenismo e do galicanismo. Por tudo isso, era o pior de todos os inimigos, visto ser a consequência de todos estes, e aquele que envenenou finalmente a sociedade preparando a catástrofe da Revolução Francesa. 

1. Primeiro desenvolvimento na Inglaterra

O início deste movimento do racionalismo moderno teve lugar na Inglaterra. Sua base foi o empirismo de Bacon de Verulam, segundo o qual o ideal de ciência, em oposição à Escolástica, seria o estudo da natureza sem preconceito algum, sujeitando-se ao exame da razão e da experiência. Contudo, Bacon ainda distinguia o terreno da fé, ao qual não poderia chegar a experiência humana. Outros, porém, sobretudo Herbert, quiseram transladar o método empírico ao campo religioso, com o que se acreditou descobrir uma religião natural. São célebres, em particular, os cinco dogmas naturais de que eles falavam: 1) A existência de Deus; 2) O dever de adorá-lo; 3) Por meio da piedade; 4) Dor dos pecados; 5) Recompensa na outra vida. Ao resultado de todo esse movimento se designou com o nome de DEÍSMO,  o qual desde logo virou uma moda na Inglaterra. Em torno a ele surgiram logo inúmeros sistemas ou variantes do mesmo sistema da religião natural. Foi particularmente célebre aquele defendido por Hobbes

Essa tendência e seu desenvolvimento posterior receberam também o nome de livre-pensamento, e seus partidários o de livre-pensadores, em contraposição à religião oficial e como que forçosa do Estado. 

Assim, pois, em fins do século XVII e princípios do XVIII, o Deísmo ou livre-pensamento estava em seu apogeu na Inglaterra. Por um caminho distinto, porém, seguiram John Locke e David Hume, os quais chegaram no fim a um verdadeiro ceticismo filosófico-religioso. 

Tal era o estado de fermentação filosófico-racionalista, que iniciou a guerra mais tenaz a todo o sobrenatural. Mas faltava ainda uma organização sólida, que desse consistência a todos esses elementos. Esta organização se formou em princípios do século XVIII: a Maçonaria


Com efeito, a Maçonaria, que é a organização dos deístas e livres-pensadores e inimigos declarados de todo o sobrenatural, se fundou em 1717, em Londres. Seus iniciadores foram os membros de certas casas construtoras da igreja de S. Paulo, sob a direção do presbítero anglicano James Anderson. Por isso ela tomou os emblemas da construção. Desde o princípio assumiu um caráter de sociedade secreta, com o objetivo de poder defender melhor os interesses de seus associados. Com o pretexto de defender os interesses da humanidade, seu verdadeiro objetivo era uma guerra sem tréguas contra a Igreja e tudo o que esta representa. A organização se extendeu rapidamente, primeiro na Inglaterra, depois na França e em todo o mundo. No entanto, desde o começo se notou uma diferença entre a Maçonaria saxona [Grande Oriente da Inglaterra], que guardava certo respeito aos crentes, e a latina [Grande Oriente da França], sempre sectária e fanática. Os Papas proibiram diversas vezes, sob pena de excomunhão, pertencer à Maçonaria. 

2. A falsa ilustração na França

Mais radical e de mais funestos resultados foi o espírito deísta e antirreligioso na França. Diversas causas contribuiram para fomentá-lo. Já René Descartes (+1650), com sua dúvida metódica, desferiu um golpe terrível contra a [divina] Revelação. Sobre esta dúvida metódica avançou o princípio do criticismo e do racionalismo, que não crê senão naquilo que se prova. A essa causa é preciso acrescentar outras duas. Em primeiro lugar, o efeito desastroso do jansenismo e galicanismo, que rompiam todo o freio da sujeição às autoridades [eclesiásticas] e proclamavam um subjetivismo desenfreado. Em segundo lugar, o influxo das ideias deístas, procedentes da Inglaterra, com sua pretensa religião natural, sua liberdade de pensamento e de imprensa, e, sobretudo, sua Maçonaria

Por tudo isso se explica a atividade demolidora da ordem religiosa levada a cabo pelo huguenote Pedro Bayle (+1706), pai do filosofismo francês, quem, com seu "Dicionário Histórico-Crítico" fez uma crítica duríssima contra fé e contra a Igreja. O dano que causou este dicionário foi imenso. Foram muitíssimos os que ele ganhou para a causa dos livre-pensadores. Pelo mesmo caminho seguiu o barão Carlos de Montesquieu (+1755), com suas sátiras e burlas contra tudo o que é santo e venerável. O espírito dos novos filósofos, como eles se chamavam, foi apoderando-se da alta sociedade francesa. Chamavam-se também "espíritos fortes", por não se deixarem dominar pelos mitos religiosos. 

Nessa nova corrente, cada vez mais avassaladora, começaram a distinguir-se escritores notáveis. Tais foram, sobretudo, Diderot e D'Alembert, os quais publicaram a célebre Enciclopédia das Ciências (Paris, 1751-1780), empapada de espírito incrédulo e livre-pensador, e cheia de uma crítica destruidora. Por tudo isso, passou-se a denominar os representantes desse movimento de enciclopedistas.

Um dos que mais se distinguiram foi, sem dúvida, Voltaire: espírito fino, de grandes dotes naturais, mas sem caráter, cínico e corrompido. Conquistado pelo Deísmo durante sua estadia na Inglaterra, com seus numerosos escritos e incansável atividade dirigiu uma guerra contra a Igreja, chegando a constituir-se no oráculo dos enciclopedistas. Sua palavra de ordem no combate era "Écrasez l'infâme" [Esmagai a infame], entendendo com isso a Igreja. Ele e seus satélites dirigiram suas iras de um modo particular contra a Companhia de Jesus.

Com tudo isso se formou uma geração e um ambiente geral de incredulidade e irreligião, que se estendeu rapidamente pela Espanha, Itália, Alemanha e outros países. Jean-Jacques Rousseau colaborou também particularmente com essa obra destruidora, sobretudo com seu "Emílio" e outras obras de caráter educativo, que iam inoculando a impiedade nas novas gerações. Em geral, porém, ele não foi tão cínico nem tão violento quanto Voltaire e os sequazes deste. 

O resultado mais palpável do espírito enciclopedista foi a catástrofe da Revolução Francesa
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