quarta-feira, 23 de abril de 2014

E se eu estiver errado?... (Michael Shermer)

(Conclusão do Capítulo 3 [A Jornada de um Cético] da obra "Cérebro e Crença", de Michael Shermer, edição de 2011)
 
Michael Shermer 

Já tenho idade suficiente para ter aprendido, a duras penas, que sempre existe a possibilidade de que eu esteja errado. Já me enganei sobre muitas coisas e, portanto, é possível que esteja enganado a respeito de Deus. 

Talvez a experiência por que Chick D'Arpino (cf. Cap. 1) passou naquela madrugada de 1966 seja real: um agente intencional fora do nosso mundo - seja ele chamado de Deus, designer inteligente, extraterrestre ou 'a fonte' - falou com Chick e lhe transmitiu uma mensagem que para a maioria das pessoas seria bem-vinda: existe uma entidade lá fora que se preocupa conosco. É nisso que Chick acredita até hoje, apesar de saver de tudo sobre a neurociência de tais experiências. Talvez Francis Collins (cf. Cap. 2) esteja certo em seu raciocínio de que existiu uma causa primeira e um criador original do cosmo, um verdadeiro (não imaginário) agente intencional, que organizou as leis da natureza para dar origem a estrelas, planetas, vida, inteligência, e a nós. 

Talvez todos os místicos, sábios ou pessoas comuns que ao longo da história 'tiveram contato' com o mundo espiritual ou paranormal, sejam simplesmente seres mais sintonizados com outra dimensão, cujo ceticismo reduzido permita que sua mente se conecte com 'a fonte'. É nisso que acredita o físico Freeman Dyson. Em um ensaio de 2004 sobre a paranormalidade, Dyson conclui com uma hipótese 'defensável' de que 'o fenômeno paranormal pode existir realmente', porque, ele diz, 'não sou um reducionista' e 'os fenômenos paranormais são reais, mas estão fora dos limites da ciência, fato que é apoiado por um grande número de evidências'. Essas evidências são provenientes de relatos de experiências, ele admite, mas, porque sua avó conseguia curar pela fé e seu primo edita um jornal sobre pesquisas mediúnicas, porque os relatos recolhidos pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas e outras organizações sugerem que, sob certas condições (estresse, por exemplo), algumas pessoas às vezes revelam poderes paranormais, prossegue ele, 'descobri que é plausível a existência de um mundo de fenômenos mentais, fluídos e evanescentes demais para ser captados com os inconvenientes instrumentos da ciência'. 

Talvez exista uma mente fora do cérebro, talvez Deus seja 'a mente' ou alguma manifestação dela, e, se isso for verdade, talvez a mente transcenda o corpo e sobreviva à morte, e é assim que podemos nos conectar com o divino. E se foi a própria 'mente' que deu vida ao universo? Segundo esse roteiro, talvez Deus seja a mente universal e a vida após a morte seja a lugar para onde vão as mentes sem o cérebro. 

Talvez. Mas eu duvido. Acredito ter oferecido uma explicação racional para a experiência de Chick D'Arpino: uma alucinação auditiva induzida por estresse, não muito diferente da sensação da presença divina vivenciada por alpinistas, exploradores e atletas de extrema resistência, que descrevo detalhadamente no capítulo 5. Quanto a Dyson e seu aval à existência de fenômenos paranormais, devo dizer que ele é uma das maiores mentes de nossa época e, portanto, tudo o que ele diz deve ser objeto de séria consideração. Mas mesmo a mente de um gênio não é capaz de anular os desvios cognitivos que favorecem o pensamento não científico. A única maneira de descobrir se os relatos representam fenômenos reais é o experimento controlado. Ou as pessoas são capazes de ler a mente de outras pessoas ou não são. A ciência demonstrou inequivocamente que não são. E ser um 'holista' em vez de um 'reducionista', ou ser parente de um médium, ou ler sobre coisas estranhas que sucederam às pessoas não muda esse fato. 

Quanto à existência de Deus, ou Deus existe ou não existe, independentemente do que eu penso sobre o assunto. Por isso, não estou particularmente preocupado com isso, mesmo que a vida após a morte se confirme ser aquilo que os cristãos pensam que ela é, com um céu e um inferno, e com a crença em Deus e em seu Filho como requisito de ingresso no céu. Por quê?

Primeiramente, por que um Deus onisciente, onipotente e todo amor se importaria se eu acreditei nele? Por que a crença importa? A menos que Deus seja como os deuses greco-romanos, que competiam entre si pela afeição e adoração dos humanos e eram dotados de emoções humanas, como o ciúme... O Deus do Velho Testamento com certeza se parece com esse tipo de divindade nos três primeiros dos dez mandamentos (Êxodo 20, 2-17): 'Eu sou o Senhor teu Deus... Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas abaixo da terra. Não te encurvarás diante delas nem as servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais no filhos até a terceira e a quarta geração daqueles que me odeiam'. 

É isso mesmo? Os pecados dos pais serão carregados pelos filhos e pelos filhos dos filhos? Que justiça é essa? Que tipo de Deus é esse? Isso parece tão... profano aos meus ouvidos. Muitas pessoas aprenderam a superar o ciúme, eu mesmo tenho conseguido mantê-lo sob controle a maior parte do tempo, e com certeza não sou um deus. Uma divindade onisciente e onipotente não estaria mais preocupada com a maneira como me comportei neste mundo, em vez de se interessar em saber se acredito nela e/ou em seu Filho na esperança de alcançar o lugar correto no outro mundo? Acho que sim. O comportamento se alimenta na alta mesa da moralidade e da ética. O ciúme se banqueteia das calorias vazias das mais baixas emoções humanas. 

De qualquer modo, se existe uma vida após a morte e um Deus que nela reside, aqui está minha defesa:

'Senhor, fiz o melhor que pude com as ferramentas que me deste. Deste-me um cérebro para pensar com ceticismo, e eu o usei. Deste-me a capacidade de raciocínio, e eu a apliquei a todas as alegações, incluindo a de tua existência. Deste-me um senso moral, e senti as dores da culpa e as alegrias do orgulho pelas coisas más e boas que escolhi fazer. Tentei fazer aos outros o que gostaria que eles me fizessem, e, embora tenha sentido falta desse ideal muitas e muitas vezes, tentei praticar teu princípio fundamental sempre que pude. Seja qual for a natureza de tua imortal, infinita e espiritual essência, sendo eu um ser mortal, finito e corpóreo, não sou capaz de compreendê-la, apesar de todo o meu esforço e, portanto, seja feita a tua vontade'. 

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