quinta-feira, 27 de março de 2014

A existência de Deus



"Nenhuma fé,
apenas raciocínio.
Não cremos,
mas sim sabemos."
(Um Deísta)

O Deísmo sustenta que há um Deus. O raciocínio que o leva a essa conclusão pode exprimir-se assim: Existem seres fora do nada (qualquer coisa que exista é um "ser fora do nada"), e os seres todos que conhecemos estão submetidos ao princípio de causalidade, pelo que recebem sua existência de outros já existentes, numa ordem causal que interliga todos eles (efeito-causa-efeito-causa-efeito-etc). Para que essa ordem causal que a realidade manifesta faça sentido é preciso, porém, que ela possua um primeiro termo, uma primeira causa, que lhe origine. E essa primeira causa, para ser efetivamente primeira, tem de ser - apenas ela - incausada, existindo pois de um modo singular e diferente dos outros termos da cadeia causal. Para estes outros termos não podemos postular que existam sem causa, porque nossa observação deles os mostra claramente como submetidos ao princípio de causalidade.

Para que esta ordem de seres que sabemos causados se sustente na existência é necessário (lógica e ontologicamente), porém, que haja um ser, pelo menos um, não-causado, e que desencadeie o processo efeito-causa-efeito-causa-etc. A essa causa primeira incausada, qualquer que seja ela (nós não a conhecemos em si), damos-lhe, por mera convenção, o nome de "Deus".

Chamamos de "Deus" ao termo primeiro da série causal manifestada a nós pela realidade, qualquer que seja a natureza (de fato desconhecida) desse termo primeiro. Podemos fazer especulações sobre esse termo primeiro, mas de fato não possuímos nenhum conhecimento direto do mesmo. É como se víssemos uma ponte muito longa suspensa sobre um abismo: sabemos que ela necessariamente tem pelo menos um suporte (o qual, por sua vez, não pode estar também sobre o abismo sob pena de não ser O suporte), mesmo que não conheçamos esse suporte. Assim a série dos seres causados requer uma primeira causa que não seja ela mesma causada por nada mais. Desconhecemos o que é, em si mesma, essa primeira causa absoluta, mas damos-lhe o título (meramente convencional) de "Deus".

O leitor note como não saímos nenhum pouco do âmbito do que o raciocínio com base na mera observação da realidade permite concluir: vemos uma ordem/série/corrente causal permeando todos os seres, e concluímos que essa ordem/série/corrente deve necessariamente ter um primeiro termo, que, justamente por ser primeiro, exista sem outra causa - num modo de existência diferente daquele observado nos demais elos da ordem/série/corrente. Ora, se da observação de X se conclui que algum Y se segue necessariamente, então a existência de algum Y pode ser afirmada sem infração de qualquer regra lógica e sem que se viole a necessidade de apoio empírico para a afirmação, visto que a observação empírica da realidade foi a base do raciocínio. Estamos aqui no âmbito estrito da razão, sem apelar para nenhum tipo de "fé".

E não podemos postular que a ordem/série/corrente causal observada no universo exista ela mesma sem causa, porque todos os elos dela que empiricamente observamos mostram-se submetidos ao princípio de causalidade: logo, se o universo é feito de coisas causadas, ele mesmo não pode ser senão causado, visto que um todo substancialmente diferente de suas partes constituiria um absurdo. E se o conjunto universal dos seres é causado, a sua causa precisa ser algo que, diferentemente de tudo o mais, não seja causado. Ora, se a causa primeira absoluta tem de ser essencialmente diferente de tudo o que é causado, então essa causa primeira não pode confundir-se com o conjunto de coisas causadas - pelo que também o panteísmo propriamente dito fica impossibilitado. O universo não pode ser "Deus" (isto é, ser um existente-sem-causa), porque o universo é, como as evidências empíricas o demonstram, feito de coisas que não-são-"Deus" (isto é, coisas causadas).

Também não faz sentido perguntar "o que causou a existência de Deus", porque a definição de Deus é, precisamente, a de um algo que existe sem causa e que causa os outros seresNada pode sair do nada, e, por isso mesmo, como observamos toda uma ordem/série/corrente de seres fora do nada, concluímos que a existência dela só pode ser logicamente explicada por um suporte primeiro que seja o contra-ponto do nada, isto é, que sempre tenha sido e nunca tenha necessitado "surgir do nada". A essa coisa/princípio/ser essencialmente diferente de tudo o que conhecemos, mas cuja existência é reclamada pela observação do conjunto dos seres como a única explicação lógica da realidade, damos o nome de "Deus". (E não adianta tentar dispensar a Lógica na explicação da realidade, porque a observação empírica mostra que esta - a realidade - é toda regida por princípios lógicos e nunca por absurdos propriamente ditos.)

O leitor note que apelamos sempre e unicamente para a lógica, a observação, o raciocínio, e nunca, absolutamente nunca, para nenhum tipo de "fé". O Deísmo é sumamente avesso a toda "crença", admitindo apenas o que a pura razão possa dizer. Não aceitamos nada, pelo menos em termos de certeza, sem provas que assegurem a veracidade da afirmação. E a prova da existência de uma Causa Primeira Incausada consiste numa necessidade lógica intrínseca à realidade observada. É a razão, pois, que nos força a concluir, a partir da experiência sensível, que "há um Deus". Não é crença, não é fé, não é religiosidade, não é misticismo: é apenas raciocínio. Frio e lógico raciocínio. 

3 comentários em “A existência de Deus”

  • 27 de março de 2014 12:22

    Ultimamente tem surgidos testos magníficos neste blog e esse não foge à regra.

    Porém na minha humilde opinião e principalmente entendimento deísta; particularmente falando, não admito apenas uma única fonte. O empirismo é irrefutável e dentro deste, evidentemente à observância e sensibilidade.

    Entretanto não creio necessariamente na casualidade natural das coisas, prefiro compreender essa casualidade como espontaneidade natural dos fatos; origens. Bom, estamos numa busca incansável e talvez interminável do botão iniciar, da ignição, de uma alavanca ou chave que possa nos mostrar a digital de Deus, mas como disse, não creio que isso tenha necessariamente de existir, Deus seria empiricamente espontâneo. Não creio também que não houvesse nada antes do nada, a energia escura nos prova esse fato, penso que as coisas sempre estiveram ali, não da forma que conhecemos; fisicamente, quimicamente e organicamente falando, estavam elas muito mais “espalhadas”; desorganizadas do que a própria estrutura universal nos mostra hoje.

    A casualidade das coisas é racionalmente plausível e dentro do conceito do texto o princípio do nada; também. É certo que no conceito Deus é incondicional.

    Bom, na minha teoria particular, única e exclusiva, essa casualidade é e sempre fora espontânea, as coisas sempre aconteceram, sempre houve movimento, construção e atividade, talvez não necessariamente da forma que consigamos compreender. É mais ou menos assim, pergunto-me; será que houve mesmo um “big bang”? Ou será que o “big bang” não faria parte da espontaneidade de Deus?

    Enfim, não creio que ali, no “big bang” tenha realmente justificado todo à existência, como disse não creio no nada. Talvez estejamos compreendendo a partir de um ponto que não haja necessariamente necessidade de existir. Penso que tudo sempre existiu e o próprio “big bang” faça parte da espontaneidade de Deus e não fora único.

    Penso que Deus sempre existiu e toda sua espontaneidade.

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  • 27 de março de 2014 13:21

    Olá Aurélio! Obrigado por seus comentários, sempre presentes. Neste seu comentário acima devo, todavia, apontar que você demonstra bastante confusão filosófica em algumas questões - o que é compreensível, sem dúvida, pois, como diz o provérbio, "ninguém nasce sabendo". Recomendo-lhe pois insistir em maiores estudos pessoais de Filosofia clássica (Lógica; Metafísica; etc.). Aristóteles e seus comentadores/continuadores poderão ajudar-lhe de modo muito especial. Experimente ler e meditar também um pouquinho sobre este outro texto meu: http://luzecalor.blogspot.com.br/2014/03/perguntas-e-respostas-sobre-o-deismo.html E, enfim, abraços! Seus comentários sempre são muito bem-vindos. Fique com Deus.

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  • 27 de março de 2014 13:32

    Rodrigo! Realmente a busca é uma constante, obrigado pelas sugestões.

    Porém não me acho confuso, embora reconheço minha dificuldade de expressar. Quanto ao texto; ratifico e com a espontaneidade acrescentar; fora uma visão pessoal.

    Claro, vou visitar seu blog, com certeza.

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