quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Sexo à luz da Razão

(Texto de Rodrigo Antônio da Silva)


Em síntese: no presente artigo contesto filosoficamente os preconceitos e tabus tradicionais relativos à sexualidade em suas diversas manifestações, ao mesmo tempo que procuro responder a esses preconceitos a partir dos próprios conceitos tradicionais da Filosofia clássica, mostrando como a oposição "sexualidade X espiritualidade" não se sustenta de jeito nenhum. (Para aprofundar-se mais nesta e em outras questões, visite também meu blog pessoal: 
http://luzecalor.blogspot.com.br/ 
e, se preciso, sinta-se livre para me encaminhar diretamente suas dúvidas através de meu e-mail: rodrigoantonio70@yahoo.com.br) 
A todos um abraço, Rodrigo.
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O SEXO À LUZ DA RAZÃO


1ª Proposição - O Verdadeiro Fim Último da Sexualidade 
não pode ser outro 
senão o mesmo Fim Último de todas as criaturas: 
a Maior Glória de Deus.

2ª Proposição - O Fim Próximo Essencial da Sexualidade 
é a Reprodução e Perpetuação da Espécie, 
mas esse Fim comporta diversas modalidades de execução.

3ª Proposição - Além do Fim Próximo Essencial, 
a Sexualidade pode ter outros Fins Próximos Acidentais. 
E se o Fim Próximo Essencial da Sexualidade já está coletivamente assegurado, 
pode individualmente ser substituído 
por um Fim Próximo Acidental, desde que legítimo.

4ª Proposição - O Prazer Sensual não é de modo algum 
o Fim Último do homem. 
Há, inclusive, muitos Fins Próximos superiores e preferíveis 
ao mero Prazer Sensual, o qual, porém, também pode ser sabiamente 
harmonizado com aqueloutros (Temperança).

5ª Proposição -  A doutrina tradicional da Castidade é errônea, 
sua prática é má 
e sua difusão é nociva às almas.

Os seres humanos não temos nenhum meio de conhecer algo que não seja através das operações de nossa Razão. Mesmo no caso de existir alguma Revelação Divina (o que nós, os deístas, negamos totalmente) feita aos homens, estes ainda dependeriam da Razão para discernir a veracidade dessa Revelação e para compreender-lhe sua doutrina. Qualquer conhecimento humano válido, portanto, sempre depende da Razão, e mesmo uma Revelação do próprio Deus estaria, em vários sentidos,  sob a dependência da luz da Razão. (Se algum religioso ignorante ousar questionar aqui o altíssimo valor da Razão, nós desde já o remetemos a São Tomás de Aquino e a praticamente todos os apologistas clássicos da religião para se instruir minimamente na própria doutrina teológica antes de vir latir para o nosso lado.) 

Aplicar a luz da Razão sobre algo significa submeter esse algo a uma apreciação estritamente intelectual, uma avaliação baseada em critérios intelectuais e objetivos, e não meramente sentimentais ou subjetivistas, com a finalidade de descobrir verdades sobre essa coisa. Dizer uma "verdade sobre algo" significa emitir um juízo sobre este algo que lhe atribua alguma coisa que lhe é realmente atribuível. Se o objeto X possui realmente a característica Y, "verdade" será atribuir-lhe Y, e falsidade/erro/mentira será negar que ele tenha esse tal Y. A verdade é a adequação entre o intelecto  (Razão) e seu objeto: quando nosso juízo intelectual sobre algo está de acordo com a realidade (a real realidade) desse algo, então emitimos e enunciamos uma verdade sobre esse algo.

Em se tratando de se avaliar as ações humanas, diga-se logo que uma análise básica destas por parte da Razão facilmente as distingue em ações boas, ações más e ações indiferentes. Basta, para tanto, analisarem-se os efeitos/consequências dessas mesmas ações - noutras palavras, os fins a que essas ações se dirigem. Os fins a serem considerados, por sua vez, podem ser os fins próximos ou o fim último. Os fins próximos podem também ser divididos em fins próximos essenciais e fins próximos acidentais. E quanto ao fim último, este consiste naquilo que em que se põe o sentido supremo (realmente supremo) de algo.

Sabido qual é o verdadeiro fim último que as ações humanas se podem propor, pode-se avaliar estas de acordo com sua relação com esse soberano fim: se ajudam a alcançá-lo, são boas; se atrapalham, são más; se nem ajudam nem atrapalham, são indiferentes. 

Essa relação com o fim último pode se dar de modo direto ou indireto. Isso se deve ao fato de que na rota para o fim último podem se encontrar também fins próximos: finalidades/efeitos/consequências que, sem serem o verdadeiro e próprio sentido supremo da coisa, todavia com este soberano fim guardam alguma relação (positiva, negativa ou neutra). Se um fim próximo qualquer harmoniza-se com o nosso verdadeiro fim último, uma ação que a esse fim próximo conduza também estará por isso mesmo em harmonia pelo menos indireta com o fim último - e será boa pois. Já se a ação conduzir a um fim próximo prejudicial à consecução do verdadeiro fim último, ela será má. E se o fim próximo não ajudar nem prejudicar o fim último, indiferente será a ação que a esse fim próximo visa.

Uma ação se analisa pelos seus fins. Isso não quer dizer que pura e simplesmente "os fins justificam os meios", porque os próprios fins precisam antes ser justificados: sabido o verdadeiro fim último do homem, será preciso julgar os outros fins (os fins próximos) pela sua adequação ao fim último e pela sua harmonia entre si mesmos, não permitindo que fins próximos de menos importância tomem o lugar dos mais importantes, nem que os fins próximos mais importantes esmaguem os menores. Justificado assim um fim próximo, serão justificados por isso mesmo os meios que a esse fim conduzam, desde que a interferência desses meios no tocante a outros fins próximos seja nula ou pelo menos aceitável.

Veracidade do Fim Último --- Harmonia do Fim Próximo com o Fim Último --- Harmonia dos Fins Próximos entre si --- Eficiência da ação na obtenção de seu Fim Próximo --- Relação da ação com os outros Fins Próximos: tais são os elementos do aplicação da luz da Razão sobre uma determinada ação, grupos de ações ou mesmo sobre todo o conjunto das humanas ações. O leitor advirta, por sinal, que estamos aqui no reino do mais puro raciocínio, sem apelar em nada, absolutamente em nada, para qualquer pretensa "revelação sobrenatural". Desde que, no que diz respeito a alguma ação qualquer, possamos preencher a contento esses elementos citados, podemos também avaliá-la eticamente com todo o rigor de uma demonstração estritamente racional, objetiva, certeira e veraz.

Buscaremos nestas presentes linhas abaixo aplicar esses princípios à questão da sexualidade humana, visando demonstrar a falsidade dos dois extremos que laboram em erro sobre a mesma: por um lado, o Hedonismo, que faz do mero prazer sensual o Fim Último da vida (ou quase isso), e por outro a Castidade, entendida em seu sentido religioso tradicional, que condena qualquer uso das faculdades sexuais humanas que não sirva, matrimonialmente, à procriação. Hedonismo e Castidade são os dois extremos errôneos que em torno à sexualidade humana armam seus laços para iludir os homens e impedi-los de ajustarem-se ao Fim Último na questão sexual.

Em síntese, 5 proposições podem resumir nossa posição sobre a sexualidade humana:

1ª Proposição - O Verdadeiro Fim Último da Sexualidade não pode ser outro senão o mesmo Fim Último de todas as criaturas: a Maior Glória de Deus.

2ª Proposição - O Fim Próximo Essencial da Sexualidade é a Reprodução e Perpetuação da Espécie, mas esse Fim comporta diversas modalidades de execução.

3ª Proposição - Além do Fim Próximo Essencial, a Sexualidade pode ter outros Fins Próximos Acidentais. E se o Fim Próximo Essencial da Sexualidade já está coletivamente assegurado, pode individualmente ser substituído por um Fim Próximo Acidental, desde que legítimo.

4ª Proposição - O Prazer Sensual não é de modo algum o Fim Último do homem. Há, inclusive, muitos Fins Próximos superiores e preferíveis ao mero Prazer Sensual, o qual, porém, também pode ser sabiamente harmonizado com aqueloutros (Temperança).

5ª Proposição -  A doutrina tradicional da Castidade é errônea, sua prática é má e sua difusão é nociva às almas.

Uma vez assim enunciadas e formuladas nossas 5 proposições fundamentais sobre a sexualidade humana, podemos agora proceder à demonstração probatória de cada uma delas. Tentaremos exprimir-nos de modo bem claro e até mesmo didático, embora bastante sintético. 

Demonstração da 1ª Proposição:
"O Verdadeiro Fim Último da Sexualidade não pode ser outro 
senão o mesmo Fim Último de todas as criaturas: 
a Maior Glória de Deus."

Por que há seres ao invés de nada? Por que existe algo fora do nada? Ora, por detrás das múltiplas causas segundas que determinam as múltiplas transformações/movimento dos seres todos do universos, deve necessariamente existir uma Causa Primeira, absolutamente primeira, como marco inicial da longa série de seres, uma causa do ser em si mesmo considerado. Chamamos "Deus" a essa Causa Primeira, qualquer que seja ela. Todavia, como para ser realmente 'primeira' essa causa precisa ser Imóvel (no sentido de não-movida, não-produzida por outrem, não-dependente de outrem para nada), e como para ser imóvel ela precisa ser Ato Puro (no sentido de ser em plenitude, com ausência de qualquer potência de melhorar visto já possuir em grau pleno todas as qualidades/perfeições possíveis), segue-se que essa Causa é, necessariamente, algo vivoconscienteinteligentelivre (pois tudo isso são perfeições/atualizações do ser, as quais não podem faltar, em grau ótimo, a quem, por ser Ato Puro e Imóvel, possui em plenitude tudo o que no ser é ato/perfeição/qualidade) e também justo. Ora, sendo o Ser Supremo essencialmente justo, não pode deixar de ser justo, em primeiríssimo lugar, para consigo mesmo: logo, ciente de sua supremacia absoluta, não pode ter deixar de ter a si mesmo como seu próprio fim último. Deus, portanto, em tudo quanto faz tem a si mesmo como fim, e isso não por qualquer espécie de vaidade (como seria no caso de uma criatura que a si mesma quisesse ter por fim último), mas pela mais pura e perfeita justiça. Isso, porém, não precisa impedi-lo de, por assim dizer, adotar alguns fins próximos como meios a serviço de seu fim último - e aí é que entram em cena as criaturas, como produções de Deus para a glória do mesmo Deus. Essa "glória" de que se trata aqui, note-se bem, não consiste em ficar cantando "aleluias" e batendo palmas em igrejolas por aí, mas sim em manifestarem as criaturas em seu próprio ser as perfeições/qualidades de Deus, através de semelhanças (analogias) que, embora limitadas, não deixam de ter algo em comum com o Soberano Ser. O Universo dos Seres fica sendo, assim, um espelho onde Deus se reflete e regozija-se com Sua própria imagem, contribuindo assim as criaturas para a Glória Divina. Logo, o fim último essencial de todos os seres não pode ser outro senão aquele mesmo fim último que Seu Autor tem ao produzi-los: a glória desse mesmo Autor - que por auto-justiça, e não por vaidade, assim procede

O que contribui para o bem das criaturas contribui pois, por isso mesmo, para a maior glória de Deus. Os seres não-dotados de Razão (minerais, plantas e animais) buscam inconscientemente o bem da ordem universal simplesmente sendo como naturalmente são e existindo como lhes tocou existir na hierarquia das produções divinas. Já as criaturas racionais, sendo a parte mais especial do espelho de Deus que é o universo, devem elas mesmas buscar o bem de si próprias e das demais criaturas e, assim, contribuir para a maior glória de Deus - e esse é, pois, o fim último verdadeiro das ações humanas e o critério por onde estas podem ser avaliadas. Note-se bem isto: do simples raciocinar sobre Deus e o universo conclui-se que a Ética não cai do céu sobre os homens, mas que estes mesmos é que devem descobri-la, pura e simplesmente analisando racionalmente o que contribui ou não para o bem de si mesmos e das demais criaturas. O referencial do bem e do mal moral não é, em termos diretos, a Vontade de Deus, mas sim o Bem das Criaturas, tal como o descubra a Razão. Claro, porém, que atender ao Bem das Criaturas é também atender à Vontade Divina indireta, mas realmente (Fim Próximo harmônico com o Fim Último). Não existe, pois, nenhuma "lei" imposta por Deus aos homens; o que existe é a necessidade de racionalmente discernir o que ajuda positivamente a humanidade e o que é negativo para esta. A única "imposição" de Deus aos homens é a de terem de enfrentar a realidade como ela é e com os recursos que dela e de si mesmos conseguirem extrair e utilizar. Não precisamos, por conseguinte de nenhuma "intervenção" ou "revelação" divina: bastam-nos a Filosofia e a Ciência, e se Deus quiser falar com os homens será por meio destas que o fará, e não através de mistificações religiosas. 

O "status ético" das atividades sexuais humanas não pode, por sua vez, ser diferente daquele que se dá com as demais ações humanas: assim como nestas o verdadeiro fim último deve ser a glória de Deus e o fim próximo deve consistir no bem das criaturas, igualmente o critério último para julgar o sexo é a glória de Deus, e o critério próximo para esse juízo é apenas o bem das criaturas. Acerca dos fins próximos do sexo trataremos logo abaixo; concentremo-nos aqui nas relações do sexo com o fim último. 

O sexo (o uso das faculdades sexuais) contribui para a maior glória divina por contribuir para o bem das criaturas, desde que estas não o utilizem mal - seja para mais (Hedonismo) ou para menos (Castidade) ou por usos que prejudicam outrem (estupro por exemplo). O bem essencial que o sexo pode proporcionar é a reprodução e perpetuação da espécie; os bens acidentais que o sexo pode proporcionar consistem basicamente em prazer, afeto, saúde, recreação, arte e dinheiro. Tanto em seu aspecto essencial quanto em seus aspectos acidentais o sexo contribui, pois, desde que usado com acerto, para o bem dos seres humanos. Logo por isso mesmo contribui efetivamente para a maior glória de Deus. 

A variada gama de usos possíveis (e racionalmente aceitáveis) das faculdades sexuais contribui ainda para a maior glória de Deus de um modo mais direto ainda do que o acima referido: as diversas aplicações da sexualidade espelham/assemelham/refletem diferentes faces da perfeição divina (em si mesma una, mas múltipla na consideração de nosso intelecto). Quando a sexualidade é usada pra procriar, Deus ali vê a imagem de sua divina fecundidade, que gera o universo; quando a sexualidade é usada para o simples prazer, Deus ali vê a imagem de sua alegria e prazer eterno, sempre sumamente satisfeito consigo mesmo e com suas obras; quando a sexualidade é usada para o fomento dos afetos entre os amantes, Deus ali vê a imagem de seu amor infinito; quando a sexualidade é usada para simples recreação, Deus ali vê a imagem de seu descanso e paz eternal; quando a sexualidade é usada para fins artísticos, Deus ali vê a imagem de sua criatividade e inventividade na produção das criaturas; e quando a sexualidade é usada para fins pragmáticos, tais como a saúde ou o ganho de dinheiro, Deus ali vê a imagem de sua divina sabedoria e prudência, que sabe aproveitar os mais diversos meios para obter o que quer. O sexo, pois, em suas variadas práticas, possibilita manifestações também mais variadas das perfeições divinas, de modo mais rico e abundante, portanto, do que se sua prática fosse restrita ao papel que a errônea doutrina tradicional da castidade lhe atribui. 

Seja, pois, pelo bem direto que propicia às criaturas, seja pelas suas analogias com as perfeições divinas, os diferentes usos das faculdades sexuais contribuem para a obtenção do verdadeiro fim último do homem e do universo: a maior glória de Deus. Sem dúvida persiste sempre o papel pedagógico da Razão, a qual deve orientar os homens no bom uso do sexo, mostrando-lhes que deste devem evitar o excesso (Hedonismo), a falta (Castidade) e os abusos (aquilo que efetivamente prejudica outrem). O abuso, porém, como diz o antigo provérbio, não tolhe o uso: do fato de uns desobedecerem à Razão no uso das faculdades sexuais não se deduz que outros devam ser impedidos do uso racional destas. A joia continua a sê-lo, mesmo que alguns a idolatrem, outros a rejeitem, e aqueloutros dela façam uma arma.

Demonstração da 2ª Proposição
O Fim Próximo Essencial da Sexualidade 
é a Reprodução e Perpetuação da Espécie, 
mas esse Fim comporta 
diversas modalidades de execução.

Chamamos a reprodução e perpetuação da espécie de "fim próximo essencial" da sexualidade porque nisso consiste sua principal utilidade e seu principal serviço ao bem das criaturas. Com efeito, a primeira condição para se desfrutar do prazer, do afeto, da saúde, etc, é existir, é viver. Logo, a função da sexualidade de originar (fisicamente) a existência e vida dos seres humanos é a sua função mais importante, visto prover à mais fundamental das necessidades humanas - a de passar da inexistência à existência, constituindo-se, assim, a base primeira de todos os demais bens com que se possa enriquecer a vida.

Todavia, sendo o fim próximo essencial da sexualidade a reprodução e perpetuação da espécie, uma vez que esta função esteja sendo cumprida nada se poderá alegar contra os métodos utilizados nesse processo - a menos, claro, que estes sejam efetivamente nocivos e prejudiciais a outrem, e apenas na medida em que necessariamente o sejam. Do fato real de o método original facultado pela Providência Divina aos humanos para reproduzirem-se consistir na cópula entre homem e mulher não se pode deduzir que a sabedoria humana, obra ela também da mesma Providência, não possa descobrir outros métodos para atingir o mesmo objetivo. Nos últimos tempos, por exemplo, a fecundação artificial, sob várias modalidades, tornou-se a realidade de um triunfo cada vez mais abrangente da Ciência. Com os progressos da clonagem e similares, pode ser que um dia a Ciência torne a função reprodutiva do sexo obsoleta - o que em nada seria "ofensivo" a Deus, porque Sua Divina Sabedoria não poderia se dar à tontice de se indignar com algo inofensivo e que mantivesse eficazmente a mesma finalidade do processo que se está a substituir. Se alguém está incumbido de fazer algo e, partindo do método de seus antecessores, chega a descobrir um outro método que funciona tão bem quanto aquele, nada precisa obrigá-lo a insistir em chegar ao resultado almejado apenas pelo método antigo. Se X pode ser feito tão bem por B quanto por F, tanto faz usar B quanto F, contanto que X seja obtido

Também os arranjos familiares que acompanham a sexualidade podem variar imensamente sem que a reprodução e perpetuação da espécie sejam afetados. Por exemplo, mesmo que deixassem totalmente de existir casais heterossexuais, e só existissem "casais" homossexuais, a humanidade poderia continuar a se reproduzir e perpetuar tranquilamente: bastaria os gays doarem seu esperma às lésbicas que, mesmo sem nenhuma cópula entre os dois sexos, a função reprodutora da sexualidade estaria a salvo. (Porém isso é uma mera situação hipotética: com certeza nunca deixarão de existir casais heterossexuais, e inclusive em maior número que as uniões homo-afetivas.)

Monogamia, poligamia, poliandria, uniões casuais e esporádicas, eugenia (o Estado escolhendo os reprodutores mais saudáveis), amizades que incluam sexo, etc. Há várias formas perfeitamente válidas e legítimas de se prover à reprodução e perpetuação da espécie - perfeitamente válidas e legítimas porque perfeitamente eficazes por um lado e por outro inofensivas (em si mesmas pelo menos). Vê-se, pois, como a luz da Razão nos mostra um leque de opções muito mais amplo do que o tradicional casamento heterossexual, monogâmico, indissolúvel e utilizador do sexo apenas para a procriação. E note-se bem que não confundimos "luz da Razão" com Materialismo ou Ateísmo: muito pelo contrário, é sobre a própria Metafísica antiga, e com os olhos fixos na Maior Glória de Deus como nosso fim último, que levantamos os alicerces de uma visão totalmente renovada da sexualidade humana. 

Demonstração da 3ª Proposição
Além de seu Fim Próximo Essencial, 
a Sexualidade pode ter outros Fins Próximos Acidentais. 
E se o Fim Próximo Essencial da Sexualidade 
já está coletivamente assegurado, 
pode individualmente ser substituído 
por um Fim Próximo Acidental, desde que legítimo.

O fim último da sexualidade (bem como de todas a criação) é a maior glória de Deus. O fim próximo essencial da sexualidade é a reprodução e perpetuação da espécie. E os fins próximos acidentais da sexualidade podem, por sua vez, ser vários. Todo uso de uma coisa de modo independente de seu destino principal e original pode-se dizer um fim acidental da coisa. Na matéria de que por ora tratamos, encontraremos usos das faculdades sexuais visando o prazer, o afeto, a saúde, a recreação, a arte e o dinheiro - todos usos inteiramente legítimos, desde que não impliquem, por si mesmos, em real prejuízo para seus envolvidos.

A errônea e falsa doutrina tradicional da Castidade ensina que não se pode fazer nenhum uso das faculdades sexuais que não vise a reprodução, ou pelo menos esteja "aberto" a esta - o que, na prática, significaria que apenas o sexo matrimonial, sem uso de contracepção, seria lícito, e tudo o que passasse disso (até mesmo entre marido e mulher) seria pecado mortal, punido com o inferno eterno no caso de se morrer antes de "se confessar" ou pelo menos se arrepender sinceramente... Absurdo! Irracional! Indigno da Sabedoria Divina! Um "deus" que concordasse com essa falsa doutrina seria um asno, e não a própria Sabedoria Infinita!

Do fato de uma determinada coisa possuir um destino principal, não se pode deduzir que ela não possa receber também outros destinos, desde que o primeiro, se indispensável, fique salvaguardado: uma cadeira, por exemplo, é destinada essencialmente, por natureza, a servir para nos sentarmos nela. Mas você não estará indo "contra a natureza" dela se você a usar também para apoiar pilhas de livros, ou para nela subir a fim de trocar uma lâmpada, ou mesmo se resolver desmontá-la e aproveitar a sua madeira de alguma outra forma. Se todas as cadeiras do mundo recebessem esse destino, isso seria péssimo, porque realmente precisamos de cadeiras para nos assentarmos. Mas disso não resulta que todas as cadeiras do mundo devam ser usadas única e exclusivamente para servir de assento. O uso principal do conjunto X não significa que todos os membros de X devam, sem exceção, ter aquele mesmo uso principal. E isso vale sobretudo para o caso de o conjunto X ser muito mais abundante em recursos do que os requeridos para o bendito uso principal

Seria extremamente mal se a humanidade deixasse de se reproduzir e se condenasse a si mesma à extinção por ausência de procriação. Mas desde que esse risco esteja afastado, nada impede que a sexualidade seja também empregada em usos adicionais, de menor importância, sem dúvida, que a reprodução, mas também úteis, benéficos e inofensivos. Se uma árvore produz sementes em tal abundância que basta para semear todo o campo e ainda sobra o suficiente para se fazerem brinquedos, colares, enfeites ou ensopados das sementes sobradas, o que impediria de tal se fazer? O medo de ir "contra a natureza" das sementes? Ora, escolha outra piada para nos fazer rir...

Ademais, se uma determinada necessidade coletiva já está sendo suficientemente atendida por outros membros do coletivo, porque o indivíduo fulano de tal também seria obrigado a se comportar como se a tal necessidade coletiva ainda estivesse necessitada de solução? Noutras palavras: desde que a humanidade como um todo já está se reproduzindo o suficiente, porque seríamos obrigados pessoalmente a nos reproduzir também? Ora, em condições normais, a reprodução é um dever coletivo, e não individual, é uma necessidade da espécie, e não do indivíduo, a qual ele pode, portanto, de consciência tranquila, deixar nas mãos daqueles que já estão se encarregando muito bem do negócio por aí. E, por conseguinte, ele não traí, nenhum pouco, a causa da perpetuação da espécie, ao empregar suas faculdades sexuais em "atividades não-reprodutivas". 

É um dever socorrer alguém que passou mal perto de mim - mas se já há outros socorrendo-o, posso relaxar e ir dar um passeio sem problema algum. Caso, porém, meu socorro fosse necessário àquele doente, por exemplo por só eu estar ali para socorrê-lo ou porque sou um médico ao passo que os outros não, nesse caso eu seria obrigado, moralmente falando, a socorrer esse mal-passante. Assim também na questão sexual: suposto que, por absurdo, quase ninguém mais esteja querendo se reproduzir neste mundo, ou que uma infertilidade geral está se propagando altamente pela Terra e eu sou um dos poucos férteis que sobraram, nesse caso eu teria a estrita e indispensável obrigação moral de me reproduzir, e se, numa situação dessas, eu preferisse usar minhas faculdades sexuais para outra coisa no lugar da reprodução, então sim eu estaria traindo a natureza humana e atentando gravemente contra a glória de Deus. "A glória de Deus é o homem vivo" (Santo Irineu de Lyon). 

Em situações, porém, de níveis normais de reprodução da espécie humana, o indivíduo pode empregar suas faculdades sexuais em atividades desvinculadas da procriação. Basicamente:
Para o puro prazer: caso, por exemplo, da masturbação, do sexo oral e anal, etc;
Para fomento/expressão do afeto mútuo: caso, por exemplo, das relações um casal homossexual apaixonado ou de um casal de amantes héteros usando camisinha;  
Pelo bem da saúde: caso, por exemplo, do homem que se masturba para coletar esperma para um espermograma ou outro exame de esperma, ou de quem faz do sexo uma atividade física para 'queimar calorias';
Por recreação: caso, por exemplo, de quem usa o sexo ou a masturbação como forma de relaxante psíquico em momentos de stress ou cansaço;
Para fins artísticos: caso, por exemplo, dos que se exibem nus para pintores ou em peças de teatro, ou que aproveitam experiências eróticas na escrita de romances, ou participam da exibição de danças nas quais têm de ter um contato relativamente íntimo com o parceiro de salão, etc; 
Para ganhar dinheiro: caso, por exemplo, das garotas e garotos de programa, dos atores e atrizes pornôs, dos que posam nus para revistas eróticas, etc. 

Prazer, afeto, saúde, recreação, arte, dinheiro - todos esses são fins próximos acidentais que podem ser adotados para a sexualidade, desde que a reprodução e perpetuação da espécie esteja, por outro lado, assegurada, e, por outro, os meios para a obtenção desses fins próximos não incluam em si mesmos a prática do mal contra outrem (isto é, sejam em si mesmos inofensivos). Nunca seria legítimo, por exemplo, buscar o prazer sensual ao preço de se estuprar alguém - a esfera da legitimidade coincide com os limites da inofensibilidade: a partir do momento em que algo é em si mesmo uma agressão, uma violência contra os direitos de outrem, deixa de ser legítimo porque, como já demonstramos acima, o Bem das Criaturas é o critério próximo seguro para se julgar eticamente uma ação, e onde há uma injusta violação de direitos esse Bem deixou de ser buscado.

Demonstração da 4ª Proposição
O Prazer Sensual não é de modo algum o Fim Último do homem. 
Há, inclusive, muitos Fins Próximos 
superiores e preferíveis ao mero Prazer Sensual, 
o qual, porém, também pode ser sabiamente harmonizado 
com aqueloutros (Temperança).

Hedonismo - aquela doutrina e prática que vê no prazer sensual o sentido da vida - é profundamente errôneo. Em verdade, o simples prazer não pode, com justiça, ser a coisa mais importante para nós:
- Porque, em primeiro lugar, nosso Verdadeiro Fim Último, como já acima ficou demonstrado, é a glória de Deus, e esta mereceria ser por nós buscada mesmo que não nos proporcionasse nenhum prazer. Logo o prazer não é a coisa mais importante;
- Porque há muitos Fins Próximos que merecem ser por nós visados independentemente do prazer que nos proporcionem e, inclusive, se sua obtenção nos exigir algum sacrifício dos prazeres ou algum desprazer propriamente dito: assim, por exemplo, o Conhecimento, que por sua utilidade e dignidade merece ser por nós almejado e buscado mesmo que o estudo nos pareça enfadonho. Logo o prazer não é tudo o que unicamente importa;
- Porque a supervalorização do prazer pode conduzir a grandes desequilíbrios e reais excessos, chegando a produzir, afinal, sofrimentos e males, aquilo que, em princípio, deveria ser fonte apenas de vida e doçuras. Logo o prazer não deve ser visto nem tratado com um valor exagerado, sob pena de sofrer os danos dessa percepção equivocada da realidade. 

Isso também não quer dizer que o prazer sensual deva ser visto negativamente. Desde que sua busca seja mantida dentro de limites prudentes e responsáveis, não se há que lhe atirar pedras. A esse equilíbrio entre o mais e o menos, entre o excesso e a falta em matéria de busca dos prazeres, dá-se o nome clássico de Temperança - que modernamente poderíamos talvez traduzir como Equilíbrio. Vale isso não apenas em matéria sexual, mas também no tocante aos outros prazeres: entre o comer de menos e o comer de mais, entre o dormir de menos e o dormir de mais, entre o recrear-se de menos e o recrear-se de mais, entre o bom humor de menos e o bom humor de mais, etc - equilíbrio: nada como um bom meio-termo.

E dos abusos e excessos de alguns não é válido concluir que o objeto em si seja condenável: do fato de seu vizinho se embebedar, por exemplo, você não deve concluir que precisa jogar fora as latinhas de cerveja que você porventura tenha na geladeira - porque bem se poderia beber moderadamente, sem embriagar-se (e sem dirigir após beber). O abuso por parte de uns não tolhe o simples uso por parte de outros, mais uma vez relembramos.

 É de certo perfeitamente viável uma convivência harmônica entre os prazeres e os deveres, uma convivência onde nenhum dos dois lados esmague o outro. Basta que a pessoa, por exemplo, organize direito a sua vida, distribuindo bem o seu tempo entre suas atividades, interesses, necessidades e prioridades. Essa é uma boa dica para o cultivo da harmonia entre as coisas mais sérias/importantes e as coisas mais doces/efêmeras da vida.

Demonstração da 5ª Proposição
A doutrina tradicional da Castidade é errônea, 
sua prática é má 
e sua difusão é nociva às almas.

Por doutrina tradicional da Castidade nos referimos aqui aos ensinamentos clássicos dos teólogos cristãos sobre a sexualidade; certamente outras tradições religiosas apresentarão doutrinas diferentes sobre a questão sexual, mas, necessitando centrarmo-nos em um referencial intensamente significativo para nossa cultura ocidental, escolhemos então analisar a tradição cristã.

Ora, qualquer estudioso das religiões sabe muito bem o quanto a doutrina cristã veio a desenvolver, ao longo dos séculos, toda uma série de preconceitos e ideias negativas acerca das diferentes manifestações da sexualidade humana, pregando que esta deveria, necessariamente  (por necessidade intrínseca) e obrigatoriamente (por preceito divino) restringir-se ao sexo dentro do casamento e visando a reprodução, ficando condenadas, como pecados mortais, absolutamente todas as manifestações da sexualidade humana que saíssem desse quadro. Bastaria até um simples pensamento "impuro" consentido ou mesmo um simples olhar concupiscente voluntário para outra pessoa, ou então uma palavra mais "maliciosa", e já se teria com isso perdido a amizade com Deus e se estaria na iminência de ser lançado, para todo o sempre, nas chamas atrozes do inferno - salvo se a pessoa se redimisse de seu monstruoso crime confessando-se ou, pelo menos, arrependendo-se sinceramente e prometendo confessar-se quando possível... 

Que quadro mais negativo e escabroso da sexualidade humana! Que distorção mais deprimente de algo em si tão inofensivo, simples e benéfico! E, sobretudo, que visão mais repugnante do Bom Deus!

Por tudo o que já dissemos neste artigo e apelando também, pura e simplesmente, para o bom senso de nosso leitor, nós o convidamos a meditar por si mesmo na tremenda e assombrosa insensatez que a doutrina tradicional da Castidade encerra. Se Deus se prestasse ao papel tirânico e irracional que essa falsa doutrina lhe assinala, Ele não seria infinitamente perfeito, mas flagrantemente injusto e tolo. Ora, Deus não pode ser injusto, nem tolo ou imperfeito. Logo é metafisicamente impossível que a doutrina tradicional da Castidade seja verdadeira. E, se não é verdadeira, é errônea

Que se dirá também dos estragos que essa falsa doutrina causa na vida das pobres pessoas que, por ela iludidas, se põem sinceramente a praticá-la! Tornam-se doentiamente preocupadas com se resguardar dos "perigos" morais do "mundo"; afastam-se dos amigos que, por não serem também "castos", passam a ser vistos como "más companhias"; passam a gastar um bom tempo por dia rezando, visto temerem que sem essa "dose extra" de oração não "aguentem" as "tentações"; passam a se martirizar através de penitências para "domarem a carne"; não lerão livros que recearem ser "ocasiões de pecado", e o mesmo se diga de filmes, programas de TV, sites e blogs, músicas, festas, praias e piscinas, locais de passeio ou de esporte, etc.; usarão apenas roupas "modestas" e implicarão com os que não se vestirem assim também; a vida delas passa a ser vivida em função de protegerem a sua "castidade"; nem mesmo um simples pensamento de conteúdo minimamente erótico se permitirão; se, andando pela rua, virem uma pessoa bonita e atraente em seu caminho, desviarão rapidamente os olhos; após algum tempo de abstinência sexual, sentir-se-ão fervendo de desejo sexual (tesão), mas, que pena, não poderão aliviar-se minimamente se forem solteiras, mesmo que seu corpo esteja clamando desesperadamente por um mísero alívio que, em menos de um minuto de masturbação poder-se-iam com extrema facilidade se conceder, e mesmo que seu cérebro esteja tão perturbado pelo desejo insatisfeito que nem consigam estudar ou rezar direito; e caso acabem cedendo minimamente à "tentação", ainda que só "em pensamento", sentir-se-ão profundamente culpadas, indignas, vergonhosas, sujas, merecedoras do inferno eterno... Quem sabe até desanimem de qualquer esforço por serem pessoas boas, visto que já estão mesmo sendo "escravas do pecado". Quem sabe até blasfemem contra Deus por este ter permitido que elas, apesar de todos os seus heroicos esforços, ainda caíssem! Quem sabe se tornem doentiamente escrupulosas e fiquem loucas. Quem sabe acabem até por se matar... 

Por tudo isso bem se vê que, se um demônio quisesse fazer muitíssimo mal a alguém, bastaria a ele induzir essa pessoa a abraçar a doutrina tradicional da Castidade. Esse demônio poderia estar certo de que, mesmo que essa pessoa não chegasse aos extremos no parágrafo atrás citados, ela no mínimo estaria tendo a sua vida privada de muitas alegrias e prazeres tão benéficos por um lado quanto inofensivos por outro, e estaria se auto-condenando a sofrimentos e dificuldades totalmente inúteis e carentes de qualquer sentido. E caso ela, após ter abraçado essa doutrina resolva ser-lhe infiel, será atormentada por culpas e remorsos que amargurarão tolamente a sua vida - e a sua morte um dia. Logo a doutrina tradicional da Castidade prejudica os filhos de Deus; é, portanto, rigorosamente falando, 

E se essa é uma doutrina falsa e errônea, cuja prática é má e prejudicial, logo sua difusão não poderá ser senão altamente nociva às almas. Quem divulga a Castidade tradicional, saiba que está espalhando uma peste entre as almas dos filhos de Deus, pelo que um dia terá de responder perante a Justiça - branda, mas firme - deste. 

E nós, que enxergamos a verdade a respeito da sexualidade, e que, por isso, condenamos tanto o Hedonismo quanto a Castidade tradicional, temos também o dever de combater esses dois extremos igualmente errôneos, incentivando as pessoas a apreciarem - na teoria e na prática - as diversas expressões da sexualidade humana, mas sem exagerarem - seja na teoria ou na prática - o valor e a importância do prazer sexual. 

Terminamos, pois, essas nossas presentes reflexões, com um trecho de um conto escrito por Voltaire no século XVIII, imaginando uma civilização tão sábia e racional em matéria de sexualidade, que lá o sexo chega a ser utilizado como forma de culto público a Deus. Quem dera que nossas religiões tivessem essa visão tão clara e positiva das coisas sexuais! Mas já que ainda não é assim cabe-nos lutar então: para a maior glória de Deus.  

"A Princesa Obeira, dizia eu, depois de nos haver cumulado de presentes, com uma polidez digna de uma rainha, mostrou curiosidade em assistir ao nosso serviço [religioso] anglicano. Nós o celebramos o mais pomposamente possível. Ela convidou-nos então para assistir ao seu, na tarde do mesmo dia; era a 14 de maio de 1769. Encontramo-la rodeada de cerca de mil pessoas de ambos os sexos, dispostas em semicírculo, e num silêncio respeitoso. Uma jovem, muito linda, simplesmente vestida de um roupão galante, achava-se deitada sobre um estrado que servia de altar. A Rainha Obeira ordenou então a um belo jovem de cerca de vinte anos que fosse 'sacrificar'. Este pronunciou uma espécie de oração e subiu ao altar. Os dois sacrificadores estavam semi-nus. A Rainha, com um ar majestoso, indicava à jovem vítima a maneira mais conveniente de consumar o sacrifício. Todos os otaitianos se mostravam tão atentos e respeitosos que nenhum dos nossos marinheiros ousou perturbar a cerimônia com algum riso indecente. Eis, pois, o que eu vi, eis o que toda a nossa equipagem viu. A vós cumpre tirar as consequências. 
- A mim não me espanta essa festa sagrada, disse o Dr. Goudman. Estou persuadido de que foi a primeira festa que os homens celebraram; e não vejo por que motivo não se rezaria a Deus quando se vai fazer uma criatura à sua imagem, da mesma forma que lhe rezamos antes das refeições que nos servem para sustentar o nosso corpo." (Voltaire, inOs Ouvidos do Conde de Chesterfield.  Contos de Voltaire, Editora Globo, Porto Alegre: 1972, p. 593, trad. de Mário Quintana)
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(Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2013, RJ - Brasil)

1 comentários:

  • 27 de fevereiro de 2014 17:43

    Primeiramente parabéns Rodrigo pelo texto; excelente. É realmente difícil a compreensão dos meios, fins e consequências e principalmente a relação e a harmonia entre estes.

    Ratifico seu texto e ainda, com minhas desculpas, acrescento minha concepção sobre o tema.

    Sexo é uma exata; biologia, então independentemente; racional, até mesmo instintivamente racional. Para falarmos de sexo devemos transpor a barreira da humanização. O sexo necessariamente não faz jus à cópula, evidentemente a reprodução assexuada. Gosto muito do exemplo da reprodução dos corais, que além de reprodução, perpetuação e genética; alimento. Mas os corais têm uma particularidade singular; exoesqueleto, que pode ser constituído de matéria orgânica ou carbonato de cálcio; calcário. (Como pode uma rocha se reproduzir?...hehehe; brincadeiras.).

    Bom, seria também o sexo transcendente? Não! Mas a sexualidade sim. Sexo e sexualidade são coisas diferentes, como religião e religiosidade. Sexualidade pode ser transcendente ao sexo e ainda fora dos aspectos humanizados, citarei dois exemplos clássicos, chimpanzés e golfinhos, mas o que mais me chama à atenção é o galo da serra, originário de nossas florestas equatoriais, 40% da população de machos desta espécie é exclusivamente homossexual, (palavra esquisita fora dos aspectos humanizados, mas não achei outra melhor; desculpe), chegando nunca; jamais copular com uma fêmea.

    Vou ficar por aqui, na fronteira da não humanização do assunto, até porque seu texto no sentido do repúdio ao preconceito, desinformação, homofobia e outros ascos, foi muito claro, evidente e como você mesmo disse; didático. Gostaria ainda assim de avisar a todos, que aqui de fora, no âmbito não humanizado do sexo e sexualidade, não vi em momento algum a influência pejorativa e preconceituosa da religião. Corais, chimpanzés, golfinhos e galos da serra são todos reflexos da perfeição da divindade, eles sequer sabem disto, mas na minha sensibilidade, acredito irrefutavelmente que eles percebam.

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