quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A humildade científica (Umberto Eco)

(ECO, Umberto. Como se faz uma Tese. Editora Perspectiva, São Paulo:1998, p. 111-112)

Umberto Eco é um famosíssimo filósofo e escritor italiano, conhecido
sobretudo por sua obra transformada em filme:
O Nome da Rosa

Não se deixe impressionar pelo título deste parágrafo. Não se trata de uma discussão ética, mas de métodos de leitura e fichamento. 

Viu-se, nos exemplos de fichas que forneci, um no qual, pesquisador jovem, embirrei com um autor e dei cabo dele em poucas linhas. Ainda hoje estou convencido de que tinha razão e, em todo caso, minha atitude se justificava porque ele próprio, em dezoito linhas, liquidara um assunto muito importante. Mas era um caso-limite. Como quer que seja, fichei-o e levei em conta sua opinião, não só porque é preciso registrar todas as opiniões sobre o nosso tema, mas porque nem sempre as melhores ideias nos vêm dos autores maiores. E agora vou contar a história do Abade Vallet

Para entendê-la bem, cumpre dizer-lhes qual era o problema da minha tese [de licenciatura] e o escolho interpretativo com que me via às voltas há cerca de um ano. Como o problema não interessa a todos, digamos sucintamente que para a estética contemporânea o momento da percepção do belo é em geral intuitivo, mas em São Tomás de Aquino [cuja doutrina era o objeto de minha tese] não existe a categoria da intuição

Vários intérpretes modernos se esforçaram por demonstrar que ele de algum modo falara de intuição, mas isso é deturpá-lo. Por outro lado, o momento da percepção do objetos era, em São Tomás, tão rápido e instantâneo que não explicava a fruição das complexas qualidades estéticas, jogos de proporções, relações entre a essência da coisa e o modo pelo qual ela organiza a matéria, etc. 

A solução estava (e cheguei a ela apenas um mês antes de terminar a tese) em descobrir que a contemplação estética se inseria no ato, bem mais complexo, do juízo

Mas São Tomás não dizia isso claramente. No entanto, pela maneira como falava da contemplação estética não se podia tirar outra conclusão. Ora, o objetivo de uma pesquisa interpretativa é frequentemente este: levar um autor a dizer explicitamente aquilo que não dissera, mas que não deixaria de dizer se alguém lhe perguntasse. Em outras palavras: mostrar como, confrontando várias afirmações deve emanar aquela resposta nos termos do pensamento estudado. O autor talvez não o tenha dito por parecer-lhe demasiado óbvio ou porque - como no caso de São Tomás - jamais tratara organicamente o problema, falando dele como incidente e dando o ponto por pacífico. 

Tinha, pois, um problema. E nenhum dos autores que lia vinha em meu socorro (e, no entanto, se havia algo de original em minha tese, era precisamente aquela pergunta, cuja resposta devia vir de fora). 

Enquanto me azafamava, desconsolado, a procurar textos que me ajudassem, sucedeu-me encontrar num sebo de Paris um pequeno livro que de início me atraiu pela bela encadernação. Abro-o e vejo que se trata de um certo Abade Vallet, L'idée du Beau dans la philosophie de Saint Thomas d'Aquin (Louvain, 1887).

Não o encontrara em nenhuma bibliografia. Era obra de um autor menor do século XIX. Naturalmente o comprei (não custava caro) e pus-me a lê-lo. Verifico então que o Abade Vallet era um pobre diabo que se limitava a repetir ideias recebidas, não descobrindo nada de novo. Se continuei a ler não foi por "humildade científica" (não a conhecia ainda, só a aprendi ao ler aquele livro, o Abade Vallet foi o meu grande mestre), mas por pura obstinação e para justificar o dinheiro gasto.  

A certa altura, porém, quase entre parênteses e como que por desatenção, sem que o bom abade se desse conta do que dizia, deparo com uma alusão à teoria do juízo em conexão com a da beleza! EurecaEncontrara a solução! E quem a dera fôra o pobre Abade Vallet, morto havia já cem anos, ignorado de todos, mas que ainda assim tinha algo a ensinar a quem se dispusesse a ouvi-lo. 

É isso a humildade científica. Todos podem ensinar-nos alguma coisa. Ou talvez sejamos nós os esforçados quando aprendemos algo de alguém não tão esforçado como nós. Ou então, quem parece não valer grande coisa tem qualidades ocultas. Ou ainda, quem não é bom para este o é para aquele. As razões são muitas. O fato é que precisamos ouvir com respeito a todos, sem por isso deixar de exprimir juízos de valor ou saber que aquele autor pensa de modo diferente do nosso e está ideologicamente distante de nós. Até nosso mais feroz adversário pode sugerir-nos ideias. Isso pode depender até do tempo, da estação ou da hora. Talvez, se eu tivesse lido o Abade Vallet um ano antes, não aproveitaria sua sugestão. E quem sabe quantos, mas hábeis que eu, já o tinham lido sem nada encontrar de interessante? Mas com este episódio aprendi que, quando queremos fazer uma pesquisa, não podemos desprezar nenhuma fonte, e isto por princípio. Aí está o que chamo humildade científica.

1 comentários:

  • 24 de fevereiro de 2014 10:20

    Não podemos discutir Umberto Eco, tanto quantos suas obras e inspirações. Filósofo; então é perfeitamente compreensível à influência.

    Quando Eco cita o silêncio dos autores diante das obviedades, também o faz. Eu penso que consigo compreender sua singela intenção, afinal não devemos nos expor quando é preferível fazer pensar; refletir sobre a discussão, os fatos e evidências já foram esplanadas na essência da tese, teoria ou reflexão. Acho que a sutileza de Eco não é necessariamente em relação à “humildade científica” e sim; humildade filosófica. Percebam; “Todos podem ensinar-nos alguma coisa. Ou talvez sejamos nós os esforçados quando aprendemos algo de alguém não tão esforçado como nós. Ou então, quem parece não valer grande coisa tem qualidades ocultas. Ou ainda, quem não é bom para este o é para aquele.”, “O fato é que precisamos ouvir com respeito a todos, sem por isso deixar de exprimir juízos de valor ou saber que aquele autor pensa de modo diferente do nosso e está ideologicamente distante de nós. Até nosso mais feroz adversário pode sugerir-nos idéias.”.

    Resumindo, podemos não concordar, porém irrefutavelmente devemos, até por obrigação; compreender, afinal como poderíamos renegar, abdicar, ratificar sem ao menos compreendermos a essência das coisas. Seria no mínimo irracional, não!

    Estas afirmativas de Eco são partes da essência deísta, não que Eco o seja, mas inconscientemente faz referência.

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