sábado, 4 de fevereiro de 2012

Porque a laicidade do Estado interessa a um religioso


Texto: Luis Fernando de Almeida

Quando se diz que alguém é livre, geralmente torna-se necessário acrescentar especificações a propósito do conteúdo dessa liberdade, como “livre para quê” ou “do quê”. Dessa forma, fica entendida a liberdade como ausência de constrangimentos, que obstruiriam a ação, ou compulsões, que forçariam à ação. Nesse sentido, a existência de constrangimentos e compulsões é, por conseguinte, pensada como causadora de frustração, porquanto se nega satisfação aos desejos de alguém.

Não obstante, há casos em que parece haver constrangimentos ou compulsões sem frustração. Se não vejamos: um homem pode viver a melhor época de sua vida trancado num aposento, seja por não saber que a porta está trancada, seja por não se importar; um guarda com uma arma apontada para a cabeça de alguém pode forçar esse alguém a votar no candidato em que esse alguém tinha a intenção de votar, de há muito, por suas próprias razões.
Tais exemplos demonstram constrangimentos e compulsões que não afetam os desejos reais de uma pessoa, embora reduzam-lhe a oportunidades.

A grande questão é saber o valor dos desejos que alguém pode vir a ter no futuro, mesmo que haja uma possibilidade muito remota de tal ocorrer. É como se condenássemos um tirano que privasse pessoas de direitos básicos sem que estar efetivamente se importassem a isso, em razão de sua devoção a seu líder; como se procedêssemos a uma crítica de um ditador que subtraísse a liberdade a sujeitos que de bom grado abriram mão dela em nome do amor a seu governante.

Para equacionar esse problema, há que se considerar que desejos possíveis podem se tornar reais. Não se podem prever as transformações que ocorrem em nossos desejos e nas circunstâncias em que estamos imersos. Assim, a melhor saída é salvaguardar os nossos interesses possíveis com oportunidades e caminhos, ainda que não nos sejam convenientes no momento.

Utilizando-nos desse pensamento, podemos considerar a laicidade do Estado como algo do interesse dos próprios religiosos. Supondo-se que um religioso esteja satisfeito, num Estado teocrático, com as leis a que se submete, dada a sua adesão pessoal à religião oficial, deve se levar em conta que sua identificação com a religião pode em algum momento degradar-se ou mesmo desaparecer. Num Estado laico, a liberdade dos próprios religiosos é garantida, seu interesse está sendo resguardado, ainda que tal liberdade não lhes seja oportuna no momento. É reconfortante pensar que nossa liberdade está garantida pelo Estado, ainda que não façamos uso dela.
 

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